Antes que o Verão Acabe
5 Promessa é dívida
Notas iniciais
Todo dia antes de dormir fico pensando nela. Em como todos nós íamos estar na fazenda com minha mãe aqui. Estar aqui já é uma merda, sem ela então, com certeza é a coisa mais estranha que já senti. Minha avó é maravilhosa, se esforça e faz o melhor pra não me deixar sozinha e conversa comigo o tempo todo tentando construir uma relação de amizade e cumplicidade igual à que eu tinha com a minha doce mãe, e por mais que eu adore isso, não é a mesma coisa, e nunca vai ser. Exatamente às cinco da manhã o galo começou a cantar, fechei os olhos com força e bati com o travesseiro nos ouvidos na tentativa falha de me imaginar em um prédio bem alto de Nova Iorque e voltar a dormir, mas os três dias que pedi para meu pai antes de me matricular na escola haviam acabado, e a minha esperança de que nesses três dias ele voltasse a sã consciência, arrumasse nossas coisas e colocasse dentro de algum caminhão de mudança estava oficialmente enterrada, meu pai vai me matricular em alguma escola desse fim de mundo, e a unica coisa relativamente boa é que Kile declarou ódio eterno por mim e decidiu me ajudar a escapar dessa fazenda antes que esse maldito verão acabe. Depois que tomei banho, vesti um macacão jeans de calça, uma camiseta preta e as botas que vovó me deu.
— O dia está lindo hoje não é mesmo? — falei forçando simpatia e todos me olharam espantados.
— Bom dia Flor do dia! — vovó falou enquanto colocava um prato de panquecas na mesa de café da manhã. Dei um sorriso amarelo e me sentei junto a eles.
— Vejo que gostou mesmo das botas e do estilo country. — papai falou claramente tirando sarro.
— Não é você que queria que eu voltasse as origens? Voilà! — retruquei.
— Já separei os documentos que você vai precisar pra fazer a matricula da Rosie, Daniel. — vovó mudou de assunto antes que o clima ficasse pesado.
— Ótimo, assim que terminarmos aqui cuidarei disso. — papai disse enquanto acariciava uma das mãos de Katie. — A escola fica só a meia hora daqui Rosie, e você pode até rever seus antigos amigos, não vai ser a pior coisa que você vai fazer na vida.
— Se você diz. — falei dando de ombros.
Dez minutos depois estávamos no carro de vovó, eu no banco de trás e Katie no banco carona, como sempre. Meia hora, árvores, mato, galinhas, vacas e músicas country depois, chegamos no que eles acham que seja uma cidade, havia uma pequena livraria, um brechó, um supermercado maior do que eu esperava, e até um cinema, mas como era bom demais pra ser verdade, só passavam filmes antigos, haviam várias lojinhas espalhadas por todos os cantos e as pessoas pareciam estar sempre aéreas com seus chapéus e botas. Depois de virarmos duas esquinas a direita, lá estava uma placa enorme com Central High School — Lar dos falcões escrito de vermelho. Assim que meu pai estacionou o carro, respirei fundo antes de sair, não querendo acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo, agora é oficial, tenho três meses e dois dias para salvar o resto da minha vida.
Quarenta minutos depois de vários lenga-lengas e instruções, finalmente estávamos no caminho de volta pra casa, e o plano maluco do Kile de me ajudar a convencer meu pai que a florzinha dele ainda existe estava prestes a começar. Ao chegar em casa, papai se sentou na varanda com Katie, e antes de ser mandada, fui para a cozinha ajudar vovó a finalizar o almoço. Coloquei os pratos, talheres e copos sob a grande mesa de madeira e decidi fazer um suco de laranja.
— Já volto. — avisei para vovó, e antes de sair pelos fundos peguei uma sacola que estava em cima do balcão. Coloquei a escada de madeira encostada no pé de laranja. Kile cavalgava a uns cem metros daqui, olhei para ele e o mesmo colocou o dedo indicador no chapéu e acenou. Subi na escada e fui jogando as laranjas na sacola. O sol estava queimando e minha vista estava começando a doer, segurei a sacola firme e comecei a descer a escada devagar, mas a maldita bota escorregou justo no ultimo degrau e por sorte senti duas mãos firmes segurando na minha cintura e me impedindo de cair.
— Você tem que parar de ser desastrada! — Kile disse espantado.
— E você tem que parar de aparecer como um fantasma! Quer me matar?
— Eu só estava passando por aqui bem na hora que você caiu. — ele disse em meio a risos contidos. — Me agradeça, uma hora dessas você estaria no chão, pra variar.
— Só não me mate de susto. — falei em tom de brincadeira.
— Rosie! Venha logo o almoço está pronto! — minha vó gritou pela janela da cozinha.
— Melhor você ir. Te vejo no celeiro depois do almoço? — ele disse.
— Claro! Vamos salvar a minha vida! — falei rindo.
— Tem certeza que é a sua? — ele ironizou. Cerrei os olhos e dei passos para trás me afastando daqueles olhos azuis turquesa que me olhavam profundamente.
Depois de almoçar, lavar as louças e levar a sobremesa para todos, subi as escadas para meu quarto, fui para baixo do chuveiro e deixei a água relaxar cada músculo do meu corpo. Vesti uma calça jeans desbotada, coloquei uma blusa cinza, e claro, as botas que vovó me deu, com certeza usá-las me davam pontos a mais com meu pai. Desci as escadas e me deparei com todos sentados na varanda.
— Aonde vai a essa hora? — vovó perguntou e papai me olhou curioso.
— A operação salvar a Flor do dia começa agora vovó. — falei e dei um risinho para meu pai.
— Só tome cuidado para não cair do cavalo de novo. — papai desdenhou, fiz cara feia pra ele e sai, caminhando em passos largos para o celeiro onde Kile já me esperava com o seu cavalo selado.
— Ei, porque Buddy não está aqui? — perguntei
— Ué, você não quer mostrar que ainda é uma garotinha do interior? Sele o cavalo você mesma! — Kile disse, e antes que eu protestasse ele continuou — Sabe que estou certo.
— Você é um chato! — retruquei.
— Viu? Obrigada por não discordar — ele disse tirando sarro da minha cara. Revirei os olhos e fui até Buddy, coloquei o cabresto em seu focinho, e o puxei para onde Kile me esperava com uma sela na mão, provavelmente a sela certa que eu não tinha achado no dia anterior. Foi fichinha, acertei selar o cavalo de primeira. Mais um ponto pra mim.
— Pra onde vamos? — perguntei enquanto Kile procurava alguma coisa nas prateleiras.
— Eu vou te mostrar o que você não sabe! — ele disse enquanto colocava um chapéu de couro na minha cabeça. Segui Kile para fora do celeiro e fomos puxando os cavalos pelas rédeas seguindo para o galinheiro. Notei que meu pai me olhava de longe, provavelmente tentando entender o que eu estava aprontando. Kile amarrara uma sacola com o milho das galinhas na sela de seu cavalo, quando chegamos, ele desamarrou a sacola e deu na minha mão.
— Vou fingir que não sou pago pra isso. — ele disse se encostando no pneu enorme do trator vermelho que meu pai usava para fazer o arado das terras. — Vá lá e alimente as galinhas. — fiz uma cara de desentendida — E sem medo mocinha.
Fiz uma careta para Kile e entrei cautelosamente no galinheiro.
— Pó pó pó — comecei chamando as galinhas e joguei uma mão cheia de milho no chão bem longe de mim. — Pó pó pó...
— Rosie! — Kile disse quase rolando no chão de tanto rir — Não precisa chamar, basta jogar o milho no chão que elas vem. — olhei para trás e Kile ria descaradamente, joguei uma mão cheia de milho nele.
— Anda logo com isso! — Kile disse com um sorriso no rosto. — Não temos o dia todo popó.
Tentei segurar mas caí na gargalhada junto com ele.
— Tenho que admitir, essa tirada foi boa. — falei rindo.
— Nunca são ruins.
Revirei os olhos enquanto jogava o saco de milho no pequeno bolso da sela do cavalo de Kile, e ao passar por ele dei um tapinha em seu ombro.
— Você tem que parar de ser insuportável. — falei.
— Eu me esforço. — ele disse enquanto subia no cavalo, fiz o mesmo e o segui. — Vou te mostrar cada pedacinho da propriedade, assim todos os dias você pode achar várias coisas pra fazer por aí e impressionar seu pai.
Cavalgamos por uns vinte minutos em silêncio, Kile me olhava de vez em quando e logo depois desviava o olhar, foram apenas vinte minutos de cavalgada, mas foi o tempo necessário para que eu me lembrasse de como a sensação de andar a cavalo é maravilhosa, e o quanto a fazenda de vovó é grande. Kile puxou as rédeas assim que avistou alguma coisa na lama nojenta onde antigamente costumava ter um lago. Ele desceu do cavalo e fui logo atrás dele.
— O que foi? — perguntei.
— Um bezerro se atolou nessa maldita lama. — Kile respondeu preocupado — Temos que tirá-lo antes que a lama o cubra e ele morra. — ele nem terminou de dizer as palavras direito e já foi entrando na lama com botas e tudo, e eu como uma boa aprendiz, fiz o mesmo. — Tente puxa-lo pelas patas da frente, só tome cuidado para não machucá-lo com essas unhas enormes de quem não lava louça. Vou puxa-lo pela parte de trás. — fiz que sim com a cabeça — No três. Um, dois, três. — puxamos o bezerro e automaticamente os dois pares de botas deslizaram na lama, me fazendo cair por cima de Kile.
— Ah meu Deus! — exclamei — Isso não pode ter acontecido. — falei me levantando assim que vi aquele par de olhos azuis me encarando e depois rindo.
— Você ficou linda com essa cor de... Lama! — Kile disse rindo. — Eu sabia que ia viver para ver Rosie Crawford imunda e cheia de lama no cabelo.
— Tô vendo que você nem se incomoda né? — falei enquanto jogava uma mão cheia de lama na cara dele.
— É assim? — Kile disse rindo enquanto tirava a lama do rosto. — Ainda bem que eu não sou um cavalheiro né? — ele disse ao jogar lama em meu rosto. E então a guerra estava declarada, era lama pra todo lado, meu cabelo com certeza iria precisar de um litro de shampoo para ficar limpo novamente, joguei mais lama em Kile e fiquei esperando ele jogar em mim, mas tudo que ouvi foi um "droga". — Você não amarrou seu cavalo? — ele perguntou e dei um tapa fraco na minha própria testa ao me lembrar que não tinha amarrado o cabresto de Buddy na cerca. — Vamos, ele foi em direção ao lago. Corremos até onde o cavalo de Kile estava amarrado e ele montou na sela enquanto eu o olhava sem entender o que eu deveria fazer. — Ande logo, não vai me dizer que nunca andou na garupa de um cavalo? — dei um tapa em seu ombro e subi na garupa do cavalo. Kile seguiu rapidamente em direção ao lago, onde Buddy estava tranquilão bebendo água. O lugar era lindo, havia uma pequena cachoeira, muitas flores, árvores e uma corda que usávamos para imitar o tarzan e tentar passar de um lado para o outro sem cair na água. Não sei como esse cavalo conseguiu, mas o lago ficava a uns dez metros abaixo de onde estávamos, para chegar lá em baixo era preciso atravessar para o outro lado e descer as pedras.
— Ele está bem! — exclamei para um Kile marrom.
— Não graças a dona dele né? — ele disse com desdém. — Venha, vamos dar a volta para pegá-lo.
— Ah mas não vou mesmo! — retruquei. — Já estamos aqui, onde está aquela corda? É só atravessar. Como nos tempos antigos, lembra? — e como se eu tivesse acabado de contar uma piada, Kile ria da minha cara.
— Você? Rosie Crawford pulando de um lado para o outro nessa corda novamente? Acho que bateu a cabeça com força quando caiu de cara no chão ontem. — ele zoou.
— Engraçadinho, não é uma coisa de outro mundo. — falei.
— Ah, com certeza, você fazia isso direto na sua cidade grande.
— Nova Iorque o nome. — falei. — E não, não fazia esse tipo de coisa lá, mas me lembro como era isso aqui, prefiro arriscar que ter que andar mais dois quilômetros na garupa do seu cavalo.
— Você não é desse mundo Rosie Crawford. Então vai lá primeiro, sabidona.
Dei de ombros e dei uma risadinha antes de pegar a corda. Sem olhar pra baixo, peguei impulso e pulei. Praga de Kile ou não, quando percebi estava afundando no lago de água gelada e Kile dava risada lá de cima.
— Não diga as palavras que você quer dizer. — gritei injuriada. — Foi você quem colocou praga. Seu imprestável.
— Só tentei te avisar, cabeçuda. — ele disse em meio a gargalhadas. Não acredito que seu pai não está vendo isso. — Kile colocou as mãos na barriga, que com certeza já doíam de tanto que ele ria.
— Então vai lá sabidão, mostre que você sabe de tudo. — falei em tom de desafio.
— Aprenda com o melhor. — ele disse convencido ao tirar as botas, o chapéu e segurar na corda. Contei até três e lá estava Kile se desequilibrando e em seguida caindo com tudo na água gelada. Bati palmas e caí na gargalhada.
— Realmente Campbell, você é o melhor no salto de corda. — Falei tentando conter o riso e falhando drasticamente. Ele revirou os olhos e jogou água em mim.
— Você é o demônio Rosie Crawford. — ele disse e eu ri ainda mais, joguei água na cara dele e notei o quão azuis eram seu olhos, olhos de um azul turquesa me olhavam cada vez mais de perto e profundamente.
— E você tem que me prometer que não vai se apaixonar por mim. — falei e ele riu alto balançando a cabeça para os lados.
— Pode ter certeza que não vou.
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