Antes do nascer do sol.
13 Joaquim - Éramos tão jovens
Maio 2018
Depois de várias tentativas, eu me enchi de coragem, respirei fundo, antes de prosseguir.
— Joaquim! — Pude pressenti o seu espanto.
— Mariana, eu...Desculpe ter demorado tanto para retornar, mas passei por um momento bem difícil.
— Eu imaginei e fiquei preocupada.
— Precisava agradecer a você pelo que fez por mim — Parei junto a janela para ver o mundo seguindo em frente lá fora, através das grades, que foram me impostas.
— Só fiz o meu dever — disse com humildade.
— Você fez mais do que o seu dever, não precisava ficar horas sentada ao meu lado, em vigília.
— Você é um amigo, e é isso que os amigos fazem nas piores horas, tão apoio uns aos outros. E como você está?
— Agora, melhor, estou usando medicamentos e tudo não aparece tão ruim assim.
— Que bom, que está melhorando, fico muito feliz.
— Pode parecer estranho, mas, eu queria convidá-la para jantar.
— Está me convidando para jantar?! — Sua voz é um misto de surpresa e alegria.
— Sim, se quiser...
— Claro que eu quero, seria ótimo revê-lo. Quando?
— Quando você quiser, só não podemos ir a nenhum lugar muito movimentado.
— Certo, na quinta, está bem?
— Na quinta seria ótimo.
Devo confessar que não foi muito fácil sair de casa, principalmente, à noite, para me encontrar com Mariana. Algum tempo depois da internação, eu só saía durante o dia para trabalhar, tentando manter a minha vida aparentemente normal. No mundo corporativo, usava a minha máscara impessoal, como se nada me atingisse. Uma grande mentira, já que travava uma batalha contra mim mesmo, dia e noite, uma batalha onde não havia vencedor. Cada dia vivido era uma conquista, que me despendia muita energia. Contudo, estar diante de uma outra pessoa, uma amiga, em um encontro social, era bem diferente, no entanto, precisava quebrar essas barreiras para retomar a minha existência dita normal. Os pesados medicamentos diminuíram àquela imensa tristeza que me afligia, àquela vontade de morrer enorme que preenchia a minha alma e mal me deixava respirar, entretanto, sabia que não estava curado, que essa calmaria era fugaz.
Na hora combinada, encontrei Mariana no restaurante, um lugar pequeno com poucas mesas. Notei como ela estava bonita, mais parecida com a garota das minhas memórias do que com a médica da emergência.
— Eu nunca imaginei, estar aqui com você, depois de tanto tempo. — Ela sorriu, quando tomávamos os nossos lugares à mesa.
— Nem eu me imaginei aqui com você, Mariana — respondi, considerando que há algumas semanas atrás, só queria terminar com a minha vida.
— O mundo dá muitas voltas.
— Mas, sempre levam ao mesmo lugar.
— Talvez, nós mudamos durante essas voltas — ela me respondeu, de modo sério.
Pedimos somente água, não posso beber devido os medicamentos e, solidária, Mariana me acompanha.
— Você me acha um fraco, que não tem coragem de enfrentar os percalços da vida — falei, repentinamente.
— Não, eu entendo a sua dor, mas você se perdeu nela, por isso precisa de ajuda para achar o caminho de volta.
— Não há caminho de volta. Não podemos mudar o passado.
— Por isso mesmo, não podemos lutar contra alo que está fora do nosso controle.
— E você? Acha que encontrou o seu caminho?
— Eu não sei, talvez. Mas gosto do que faço, em ajudar as pessoas, acabar com seu sofrimento.
— Você sempre foi assim. E as outras meninas?
— Meninas? — Ela riu, compreendendo do que eu gostaria de saber. — Teresa é professora de história e Lídia casou e tem dois filhos.
— Vocês têm se falando?
— Falei com elas, há algum tempo. E não, não contei para elas sobre você — respondeu à pergunta não feita.
— Obrigado, não queria que soubesse do fundo do poço que eu cheguei.
Abaixei os olhos para o cardápio, com medo dos olhos dela. Aqueles olhos castanhos calorosos e amigáveis.
Por não ser apaixonado por Mariana, ela não me dava medo, diferente como era com Lídia, um pavor quase paralisante, ou a indiferença que tinha por Teresa. No entanto, Mariana era diferente, por ela gostar de mim, sentia um imenso carinho, quase gratidão, sendo assim, eu a tratava com muito cuidado e delicadeza. Talvez, se não houvesse Lídia, haveria Mariana.
Nossos pedidos chegaram, não posso dizer que já encontro o prazer nos sabores e temperos, pelo menos, tento, ouço Mariana falar sem ouvir, olhando para o seu rosto, querendo manter uma face tranquila, no entanto, só quero ir embora dali, voltar para o meu quarto, ficar sozinho, travo uma batalha dentro de mim. De repente, ela para de falar, seus olhos cravam no meu rosto, com se desvendasse minha alma. Será que ela percebeu o inferno que me consome?
— Você quer ir embora? — ela me pergunta de modo firme.
Respirou fundo, quero mentir.
— Sim — balbucio.
— Não force a barra, vamos pedir a conta e sair daqui.
Alguns minutos depois, estamos dentro de um carro, indo para a minha casa, o silêncio pesa sobre nós.
— Desculpe — digo, vencido.
— Não se preocupe.
O carro para diante do meu prédio, ensaio uma despedida.
— Eu vou com você — Mariana anuncia.
— Não precisa, estou bem.
— Sem discussão — Seu jeito firme demonstra que não irá cede. O motorista nos observa, impaciente, necessita continuar a trabalhar, seguir a vida. Enfim, assinto com a cabeça, derrotado.
— Você mora sozinho? — pergunta, quando estamos no elevador.
— Com o meu irmão. Você se lembra dele?
— Um pouco, com certeza, não iria reconhecê-lo, depois de tanto tempo.
É estranho, mas gosto da presença dela, ali comigo, ajuda a afastar os fantasmas, preenche o vazio. O elevador para com um solavanco.
Abro a porta do apartamento, pela escuridão, percebo que Marcelo não está em casa, acendo as luzes, odeio o escuro.
Mariana entra com certa cerimônia, olhando em volta, sutilmente.
— Sente-se, porque sei que você não vai me deixar sozinho — prenuncio com um sorriso triste.
— Vou esperar até seu irmão chegar. Acho que você não deveria ficar sozinho agora. E não discuta comigo, pois eu sou médica e teimosa. — Ela escolhe uma das pontas do sofá para se acomodar, sento me na poltrona do outro lado.
— Eu não vou discutir, ainda me lembro muito bem como você era teimosa.
— Não era, não — Ela acha graça, jogando a cabeça para trás quase uma menina, nesse momento somos dois adolescentes, outra vez.
— Sim, você era a garota mais divertida.
— Divertida? Nunca me achei uma pessoa divertida.
Eu tive que sorrir.
— Sim, você era — reafirmo.
— Eu só queria agradar você — Eu me espantei com a sinceridade dela. — Naquela época, eu era apaixonada por você — Eu sabia disso, mas não cometei.
— Eu gostava da Lídia.
— Sim, eu sei. Todo mundo sabia.
— Sabe como era João gostava da Teresa que gostava do Renato.
— Que gostava de você — confessei, ri da cara de espanto dela.
— De mim? — assinto com a cabeça. — Eu gostava de você.
— Eu gostava da Lídia.
— Éramos uma verdadeira quadrilha.
— E de quem Lídia gostava afinal? — Fiquei curioso, talvez, você um tanto desatento.
— Lídia não gostava de ninguém. O engraçado que ela foi a única de nós que se casou. Ela era a mais bonita.
— Sim, ela era muito bonita.
— Você gostaria de revê-la? — Mariana me pergunta.
Jogo a cabeça para trás e me apoio no encosto da poltrona, encarando o teto, penso por alguns segundos, procurando algum resquício daquele amor pueril, não entendi o que sentia, mas não era amor, talvez, só nostalgia de um tempo onde os sentimentos eram mais simples.
— Não, deixe eu ficar apenas com as lembranças daquela menina linda.
Ouço a porta da frente se abrir, meu irmão entra e se espanta ao encontrar Mariana comigo, na sala.
— Eu não esperava que você voltasse tão cedo, eu me atrasei — ele se desculpa.
— Não se preocupe, Marcelo. Lembra da minha amiga Mariana, ele ficou me fazendo companhia.
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