Antes do nascer do sol.
14 Mariana – Reencontros
Sentados na sala do apartamento, eu e Joaquim viajamos ao passado, ao tempo da inocência, era tão estranho reviver todos aqueles sentimentos latentes, as dores do amor não correspondido, minha primeira grande desilusão. Durante os anos passados, vieram outras desilusões, alguns desamores, mas nenhum como o primeiro. E, nesse momento, diante desse amor, enxergo um homem bonito, apesar de precocemente envelhecido, com o olhar triste. Afinal, o que aquilo significava para mim? Por que estava ali, seria só por pena? Eu não sabia.
O irmão de Joaquim chegou, não me lembrava muito dele, não costumava prestar atenção nos irmãos caçulas dos nossos amigos. Ele se espanta ao me ver ali, por fim, me cumprimenta e desaparece pelo corredor, ficamos sozinhos outra vez, já posso ir embora, mas não vou, porque não quero.
— Por que resolveu ser médica? — Joaquim pergunta, fixando os olhos em mim.
— Eu não sei. Para ajudar, para tentar manter o controle — Dou de ombros.
— Você sabe que não podemos ter o controle sempre.
— Raramente, temos o controle do que acontece à nossa volta, mas pensar que posso me deixa mais segura. — Ele mais que ninguém sabe do que estou falando, pois mesmo que desejássemos muito, nunca chegamos aquela praia, nunca assistimos o nascer do sol daquele dia.
Ficamos em silêncio, mas, estranhamente, não foi constrangedor, era reconfortante.
— Gostaria de poder beber alguma coisa — Joaquim afirma, depois de um certo tempo.
— Mas, você não pode por causa dos remédios.
— Eu sei. Muitas vezes, eu me acho um fraco por não conseguir enfrentar os meus demônios, sozinho, por quase sucumbir no meu desespero.
— Não, você não é um fraco, só precisava de ajuda e não entendia isso.
— Se você não estivesse naquele hospital, naquela noite... — Ele se levantou e olhou pela janela, mesmo de costa, podia ver seu sério rosto refletido no vidro. — Parecia quase um aviso, uma esperança, o sinal que a vida seguiu em frente e não podia ficar ali, estagnado na minha dor, afundando e afundando, quase sem conseguir respirar.
— Talvez, se você encontrasse com as outras garotas e com João, poderia compreender melhor o que passamos, juntos.
— Eu não sei se poderia revê-los, não sei se estou pronto.
— Do que você tem medo, Joaquim? Eles não vão culpar você de nada. Não precisa levar essa cruz, sozinho, porque ela não é sua, ela não pertence a nenhum de nós, apenas aconteceu, não tínhamos controle sobre isso — mantenho a voz calma, repeti para ele o que sempre digo para mim mesma. Ele não fala nada, só olha o vazio. — Acho que já está na hora de eu ir embora. Vou pedir um carro.
Ele não contestou e quinze minutos depois, estava saindo da casa dele, com a cabeça cheia de ideia, tanto que demorei muito a pegar no sono.
Assim que acordo, ligo para Teresa, um velho hábito da juventude, há muito tempo esquecido, quando contávamos nossos segredos e sonhos uma para outra, logo cedo.
— O que foi Mari? Se é para falar sobre a tal garota, ainda não me decidi.
— Não é sobre a garota. É sobre nós, todos nós. Ontem, estive com Joaquim.
— Joaquim? E como ele está?
— Mal, ele sofre de depressão.
— Que droga!
— Eu sei, mas eu queria me encontrar com você, talvez, com Lídia, para conversamos.
— Por quê?
— Sei lá, só para falar.
Posso pressenti a sua dúvida, se valia a pena, como eu, ela tinha medo de revolver a lama, duramente assentada há anos.
— Sim, vamos nos encontrar e convide Lídia também, se quiser.
Assim combinamos um melhor horário para todas nós, um almoço à luz do dia, onde podíamos enxergar melhor os nossos fantasmas.
Lídia foi mais fácil, movida pela curiosidade e para exibir sua vida, aparentemente, perfeita para as antigas colegas.
Marcamos em um restaurante, não tão intimista quanto Lídia propôs, mas suficientemente espaçoso para não chamarmos a atenção.
Como de hábito, fui a primeira a chegar, escolhi uma mesa mais reservada e esperei, Teresa surgiu logo depois, tinha uma aparência mais severa e compenetrada, uma bonita professora de colégio de freiras, com suas roupas austeras e tradicionais. Ela se sentou bem na minha frente e sorriu.
— Você não mudou nada, Mari.
— Nem você, Tetê.
— Somos duas mentirosas.
Rimos juntas, mas paramos ao deparar com Lídia, entrando pela porta.
— Essa aí, mudou muito — Teresa completou com tom ácido.
Nós nos cumprimentamos, com beijos no rosto.
— Você ficou bem loura — digo a verdade, de forma amigável.
Então, durante o almoço se seguiu uma conversa banal a respeito do que fizemos da nossa vida, um breve resumo desses dez anos.
— E a garota? — Teresa tocou no assunto.
— Ela surgiu no meu plantão e disse que recebeu o coração de Renato.
Senti que Lídia se arrepiou, mas o olhar de Teresa era impassível, mesmo eu sabendo como ela gostava dele.
— Eu não sei se quero conhecê-la — Lídia confessou.
— Pois, eu quero — Teresa declarou, com firmeza.
— Podemos combinar.
— Alguém tem notícias do João? — Lídia perguntou de modo casual.
— Ele está nos Estados Unidos, em Nova York, trabalha no mercado financeiro por lá — Teresa responde.
— Que bom! E Joaquim? — Lídia indaga, aquela pergunta me incomoda.
— Bem — minto, percebo, Teresa me espreitar pelos cantos dos olhos.
— Acho que vou ligar para ele, qualquer dia desses.
— É melhor não — Teresa fala sem rodeios, Lídia ergue as perfeitas sobrancelhas em interrogação.
— Por que não? — Os olhos de Lídia dança de Teresa para mim.
— Porque Joaquim está saindo de uma crise de depressão, ele tentou se matar — Sou direta, as duas se espantam com o fato revelado.
— Como? Quando? — Lídia fica agitada.
— Há alguns meses — respondo.
— Gostaria de vê-lo — Lídia parece condoída
— Para quê? Para esfregar sua vida perfeita na cara dele? — Teresa rebate de uma forma um tanto rude, assustando a outra mulher, que piscou duas vezes.
— Vida perfeita? — Lídia retruca de com uma certa ironia. — Quem disse isso para você, que eu tenho uma vida perfeita?
— Não é preciso dizer, é só olhar para você para ver, suas roupas, seus cabelos, as joias — Teresa responde.
— Por que está com raiva de mim, Teresa? — Lídia quer saber, com a voz contida, olhando diretamente para a outra.
— Meninas, Calma! Vamos mudar de assunto! — Tento apaziguar.
— Você sabe muito bem! — Teresa responde, entredentes, o clima não está nada bom, como uma bomba preste a arrebentar, espalhando um monte de ressentimentos e discórdias por aí.
Olho em volta, o restaurante está cheio, não é um bom lugar para esse tipo de conversa.
— Por que não pedimos a conta e vamos para outro lugar mais reservado para conversamos? Claro, se vocês quiserem — pondero.
Teresa e Lídia se entreolham, percebo que não vão desistir.
— Podemos ir para a minha casa, apesar das crianças — Lídia convida.
— Vamos para a minha, eu moro perto daqui — decido.
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