Antes do nascer do sol.
17 João - O quanto me custam
Junho de 2018— Acordo assustado, com o toque do meu telefone, tateio no escuro até encontrá-lo, mesmo com a visão embaralhada pelo sono, me assusto com a hora, 4:20.
— Alô.
— Johnny — Eu me espanto com a voz sussurrante do outro lado, que se confunde com a música triste ao fundo.
— Sofie? É você?
— Sim, Johnny, eu precisava ouvir sua voz, mais uma vez.
— Sofie, o que aconteceu? Você desapareceu tão de repente, eu a procurei por todos os lugares, pelos seus lugares favoritos.
— Johnny, eu precisei partir, não podia envolver mais você, não podia destruir sua vida como destruí a minha. Você é uma pessoa boa, não merece isso. Eu não mereço você — Ela chora e me deixa mais desesperado, por um segundo considero desligar e esquecer, pois sabia onde tudo aquilo nos levaria. A nada. Em um ciclo sem fim, que me deixaria mal, por algum tempo. Precisava me convencer que não tinha nenhuma responsabilidade sobre aquela mulher, que ela escolheu o seu próprio destino.
— Diga-me onde está que eu vou até aí.
— Não, você não pode, ele bebeu demais, brigou comigo, está muito zangado.
— Paul bateu em você de novo? — perguntei, exaltado.
— Ele não tem culpa, é a bebida que o deixa assim, eu também não ajudo, faço tudo errado, então ele fica muito bravo — ela sussurra no telefone.
— Você precisa deixar esse cara, ele vai acabar matando você, Sofie.
— Não posso, ele precisa de mim. Ele me ama. Sem mim, ele não tem nada.
— Isso não é amor, é uma loucura, uma doença que corroí, que está destruindo você — Eu estou zangado, não consigo ficar mais deitado, me sento na cama. — Por favor, diga onde está. Eu irei até aí.
— Não, Johnny. Essa é minha vida, a minha escolha.
— Você é quem sabe, sendo assim, não temos nada mais para falar. É melhor você me esquecer de uma vez por todas. Por favor, não me ligue mais.
— Johnny... — Meu nome falou de modo doloroso.
— Adeus, Sofie — Desliguei, por mais que isso me doesse não poderíamos continuar desse modo, não poderia ajudá-la se ela não quisesse.
Apesar da minha resposta tão decidida, não consegui dormir mais, fiquei rolando na cama, lutando contra mim mesmo para não telefonar para ela, sabendo como poderia estar carente.
Alguns dias depois, estava no seu trabalho, estressado, quando um outro telefonema me surpreendeu, ao atender o número desconhecido, que desconfiava ser da minha terra natal.
— João? — Era estranho ouvir alguém me chamar desse jeito, depois de tanto tempo.
— Sim, quem é? — Eu reconheci aquela voz, uma lembrança do meu passado.
— Sou eu, Mariana. Estudamos juntos no São Leôncio, lembra?
Fiquei sem palavras, era difícil raciocinar na língua mãe, principalmente, em uma situação como aquela.
— Claro que eu me lembro de você, Mariana, só estou surpreso, depois de tanto tempo.
— Sim, faz muito tempo. Eu estou contatando as pessoas da nossa turma – pressinto um sorriso do outro lado.
— As pessoas da nossa turma? Por quê? — Eu não entendo porque relembrar algo, que levei tanto tempo para esquecer.
— Não, na verdade, só as pessoas que estavam no acidente — Ela confessa, algo que imaginei.
— Eu não entendo, porque você estaria fazendo isso.
— Porque uma garota me procurou, dizendo que recebeu o coração de Renato e ela quer nos conhecer, então pensei em juntar o resto da turma.
— Eu não entendo, porque você faria isso. Por que reviver algo que nos fez sofrer tanto?
— Para saber como estamos, como sobrevivemos.
— Eu estou bem, moro em Nova York, trabalho no mercado financeiro.
— Bom para você. Não há nenhuma possibilidade de você passar alguns dias aqui?
— Infelizmente, não poderei tirar férias tão cedo, Mariana — eu menti.
— Que pena! Foi bom falar com você, João — Percebo a decepção e a sinceridade na sua voz.
— Sim, foi bom falar com você também, Mariana. — Estou pronto para desligar, quando a pergunta fugiu da minha boca. — Tem notícias de Teresa?
Sei que Mariana sorriu com essa pergunta.
— Sim, estive com ela há poucos dias. Ela é professora de história.
— Era matéria preferida dela. Mande lembranças minhas quando a ver outra vez.
— Pode deixar. Um beijo.
Foi estranho como essa conversa mexeu comigo, com um incômodo sentimento de nostalgia, lembranças de meus amigos e um baile de formatura e de toda tristeza que se sucedeu antes do nascer do sol, que marcou o resto das nossas vidas.
Ao sair do trabalho, ainda está desconfortavelmente quente e úmido, aproveitando o dia claro, afrouxo a gravata, tiro o paletó, ando um bom pedaço, vou até o Central Park, eu e Sofie costumávamos vir aqui, para passear nas tardes quentes de um verão no passado, no tempo da inocência, quando estávamos cheios de esperança no futuro. Andávamos sem destino de mãos dadas, tomávamos sorvete, ela falava e falava, assistíamos a alguns shows de artistas em busca de trocados, enquanto eu observava seu cabelo preso em um rabo de cavalo, as bochechas rosadas pelo calor. Sinto falta dessa garota solar com quem eu convivi na faculdade, quando morávamos no mesmo alojamento na NYU.
Recordo quando nós nos conhecemos durante uma festa, ela havia bebido um pouco demais, estava passando um pouco mal, foi para escada de incêndio, onde eu estava tentando fugir da confusão.
— O que você está fazendo aí, calouro?
— Eu não sou calouro, só estou me escondendo do tumulto aí de dentro.
Sem ser convidada, ela se sentou do meu lado e puxou um cigarro do bolso e acendeu, tanto uma longa tragada.
— Quer? Só tenho esse.
— Eu não fumo.
— De onde você é?
— Por quê?
— Seu sotaque.
— Brasil, mas meu pai é da Carolina do Norte.
— Meu nome é Sofie.
— O meu é Johnny.
Assim nos tornamos conhecidos, logo amigos e depois namorados, ficamos juntos até o último ano, quando Sofie conheceu Paul, empolgante, irreverente, audacioso, assim, ela se apaixonou perdidamente e me trocou por ele, seguindo o nas suas loucuras e instabilidade. Paul era um sonhador. Queria ser ator, como muitos, mas não conseguia trabalho, Sofia se esforçava para sustentar os dois. Deprimida, começou a acompanhar o namorado nas noites de porres, perdendo os empregos que conseguia, então, ele começou a bater nela. Tornando-se mais um drama urbano comum, que se encontra em qualquer lugar.
Eu sofri muito, porque ela me deixou, estava apaixonado, sonhando com um futuro ao lado daquela mulher. Por fim, consegui me recuperar aos poucos, porém, sem outros envolvimentos amorosos mais profundos, saía vez ou outro com uma garota, mas nada sério. De vez em quando, Sofie me ligava, não sabia se por saudade ou para ter alguém escutá-la, parecia solitária, pelas entrelinhas, dava entender que Paul era brutal com ela, física e moralmente.
— Não compreendo por que ouve as minhas lamúrias, eu não mereço um amigo igual a você, depois do que fiz — ela confessava.
— Você não fez nada, só me deu boas lembranças, ninguém tem culpa de se apaixonar – finjo ser magnânimo, só eu sei o quanto aquelas palavras me custam.
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