Antes do nascer do sol.
18 Aline - um milagre
Junho 2018— Respirei fundo, sentindo o ar fresco encher plenamente os meus pulmões, quem não me conheceu antes, sequer imagina como esse ato tão simples e corriqueiro para os outros era tão maravilhoso e intenso para mim. Já que, durante anos e anos, minha vida foi muito restrita, em um corpo frágil e doente, nem me recordo quando fui uma criança feliz e normal como meus pais dizem, nem quando a minha doença começou. Minhas primeiras lembranças são de quartos de hospitais de cores pálidas, agulhas, remédios e remédios, exames, médicos e enfermeiras, ficar presa em uma cama, com tubos no nariz, quando o simples ato de respirar exigia um tamanho esforço e uma imensa angústia.
Sentia inveja das outras crianças, pois não podia brincar ou mesmo ir à escola, não crescer, era uma prisioneira de mim mesma, por longos anos, mal saía de casa, os remédios fortes me faziam mal, estava sempre com dor de estômago ou enjoada, no entanto, não tinha escolha, se quisesse sobreviver um pouco mais, na angustiante esperança conseguir um doador compatível. Mas, eu sobrevivi, mais tempo que o estimado. Um milagre.
O coração de Renato me libertou da prisão da minha enfermidade, sou uma nova pessoa, mesmo que ainda precise tomar vários remédios e ter uma restrita dieta alimentar, mas só estar aqui, sentada sob esse tépido sol tocando o meu rosto e aquecendo minha pele já é uma dádiva.
Por causa da minha doença fiquei atrasada nos estudos, assim estou terminando a faculdade, graças à ajuda da minha amiga e anjo da guarda Lia. Antes, nunca tive uma amiga de verdade, convivia a maior parte do tempo com pessoas mais velhas, parentes, médicos e enfermeiras, tratada com muito cuidado e receio, como se pudesse me despedaçar a qualquer momento. O medo da morte sempre rondando a minha existência.
— Então, já teve respostas dos amigos do seu doador? — A voz de Lia me traz de volta ao banco do jardim, onde estamos sentadas, enquanto ela vasculha suas redes sociais.
— Não, só falei com Mariana, que prometeu falar com os outros, mas parece que tem uma certa resistência?
— Por quê?
— Talvez, porque eu sou a lembrança viva da morte do amigo deles. Imagine ter um pedaço de alguém que você gostava dentro de outra pessoa?
— Você leva essa história numa boa, não é?
— Nem sempre foi assim, mas é bom estar viva, mesmo sem saber por quanto tempo. Minha vida não é igual a de uma pessoa normal, pois sou cheia de restrições, porém é bem melhor, agora. Você não sabe como é bom respirar — Lia me olha de um jeito divertido, enquanto tomo mais um gole da minha água mineral, sei que ela não tem noção do que estou falando.
— Por que não tenta falar com Mariana de novo?
— Eu não sei, não quero parecer insistente ou chata. Também, não tenho pressa, posso esperar até eles estarem prontos para me ver.
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