Antes do nascer do sol.
20 Desfechos
Não seria fácil depois de tanto tempo se reencontrar, reviver as lembranças e, porque não dizer, a culpa, que cada uma levava dentro de si, aquelas seis vidas que foram atingidas em um piscar de olhos, em uma mudança de luzes, verde-vermelho.
João continuou a viver a sua vida, querendo não pensar no passado, nada de Renato, Teresa e até Sofie, nada que desviasse seu foco do trabalho, porque era mais fácil lidar com números e mesmo com as incertezas do mercado financeiro, era melhor imaginar que a vida seguia normal. A primavera partia chuvosa, anunciando o inverno e os dias frios. Ele saiu à rua, castigada pela chuva insistente e fina, ergueu a gola do casaco para se proteger, colocou as mãos nos bolsos, andando encolhido e apressado, querendo chegar a proteção da estação do metrô, alguns passos depois seu telefone tocou, o nome de Sofie estava na tela, por instantes, hesitou, mas atendeu
— Alô.
— Johnny? — Para sua surpresa, era uma voz masculina conhecida, áspera e rouca.
— Paul? — indagou, incrédulo. Do outro lado o homem começou a chorar alto. — Paul, o que houve? Aconteceu algo com Sofie? — perguntou, exasperado, parando no meio da calçada, atrapalhando o trânsito das pessoas apressadas, desejando encontrar um lugar seco.
— Ela se foi — disse com a voz embargada, entre soluços.
— Ela deixou você — Imaginou que, finalmente, Sofie fez a coisa certa.
— Não, ela morreu! Ontem, cheguei em casa e a encontrei na cama, havia tomado um monte de comprimidos! Sofie morreu! — Paul balbuciou. João não conseguiu compreender.
— Você está mentindo! — Quase gritou.
— Não, ela está morta! — O braço de João deslizou para baixo, dependendo ao lado do corpo. — Johnny! Johnny, você está aí? — Paul gritava do outro lado, sem resposta.
Mais uma festa de formatura, Teresa tinha aquela sensação de dever cumprido, entretanto, no outro ano tudo recomeçava em um ciclo sem fim. No entanto, estava animada, suas férias se aproximavam, quando podia ser ela mesma, se aventurar, esquecer do passado, de uma festa parecida com essa, há 10 anos atrás, de um por de sol nunca assistido, de um futuro perdido. Mas, lá estavam eles, seus jovens alunos, felizes, cheios de fantasias e expectativas de futuro. Parada em um canto, por um breve instante, relembrou de um grupo de jovens que se divertiam, dos pés cansados e torturados pelos sapatos altos do seu vestido lilás decotado, deveria ter indo até Renato, o convidado para dançar, talvez, até mesmo beijá-lo, contudo não teve coragem.
— Oi, professora — Ela foi tirada das suas divagações.
— Oi, Lucas. Parabéns pela formatura.
— Valeu! Agora, eu não sou mais seu aluno e já tenho 18 anos.
Ela riu do comentário, havia nele uma audácia, uma coragem que a fez lembrar Renato, mas ele não era. Renato estava morto, há muito tempo.
— Ainda sou uma professora.
— Mas, não mais minha. A senhora está muito gata, hoje.
— Não, faça isso, Lucas! — Ela não podia cair na tentação, não podia deixar se envolver.
— Eu não estou fazendo nada, só estou dizendo que você está muito gata.
Ela respirou fundo, precisava se acalmar.
— Obrigada, Lucas — Teresa sorriu e saiu, o deixando para trás.
Mariana não conseguia parar de pensar em Joaquim, mesmo depois de todo aquele tempo após reencontrá-lo naquele estado deplorável, desistindo da própria vida, imaginou que poderia salvá-lo, porque ela era assim, talvez, por isso quis fazer medicina, para ter o controle, resolver os problemas, salvar pessoas, como não pode fazer com Renato. Ainda tinha uma tênue lembrança daquele beijo no corredor na festa de formatura, as bocas se aproximando, os olhos se fechando, as línguas se tocando, queria que fosse Joaquim, mas era Renato. Quando se separam, ele lhe deu um olhar intenso, cheio de esperança, mas ela o rechaçou, disse que não deviam, que eram amigos, viu a decepção estampada no rosto dele, essa era a última memória que guardou. Pois quase nada restou do que se passou no interior daquele carro. Só vozes e músicas. Não queria Renato sentado, ao seu lado, por isso o mandou para frente, por saber que era Lídia que Joaquim desejava junto a ele. Aí, ele morreu, porque aquele estúpido velho bêbado avançou o sinal, lhe deixando o eterno sentimento de culpa.
Joaquim entrou no escritório, sentindo todos os olhares atentos sobre ele. Não gostava de ser uma atração, não queria chamar a atenção. Ninguém no escritório sabia o que tinha feito a si mesmo, para o mundo foi um acidente. Mais um terrível acidente na sua vida. Contra a sua vida. Foi direto para sua sala, sentou-se atrás da sua mesa, sem saber o que fazer. Como continuar a rotina suspensa há quase um ano? O mundo continuou girando, o dinheiro se movimentando, negócios foram abertos e fechados. E lá estava ele sem saber o que fazer da sua existência.
A secretária entrou na sala, com um sorriso benevolente.
— Que bom tê-lo de volta — disse, querendo ser simpática.
— Obrigado. Marcelo me pôs a par da situação da empresa. Queria marcar uma reunião com o restante da diretoria — falou em tom profissional, estava indo bem, disfarçando seus medos, seu pânico, queria ir embora, voltar para o apartamento, se trancar no seu quarto e se esquecer do mundo.
— Alguma data especial.
— O mais rápido possível. Terça-feira à tarde.
Quando ficou sozinho, pegou seu telefone.
— Joaquim? — A voz do outro lado demonstrou espanto.
— Mariana, você quer jantar comigo, qualquer dia desses?
— Claro, Joaquim, pois tem algo que preciso contar a você.
Mais uma noite, as crianças dormindo inocentes e alheias a angustia da mãe, enquanto Lídia, sozinha, sentada na escuridão, dessa vez sem nenhum copo na mão, sem querer entorpecer toda a furiosa determinação dentro de si, havia chegado ao fundo do poço lamacento, mesmo que sua superfície fosse um plácido e belo espelho d’água cintilando ao sol. Ela tinha tudo e não tinha nada, havia perdido a si mesma, na angústia de reconquistar um marido que não a queria, que não a amava da maneira que ansiava ser amada. Cansada dessa luta inglória, pronta para dar um ponto final naquela história, esperava, enquanto o relógio se movia lentamente, por pouco minando sua resolução. Contudo, precisava ser forte, precisava salvar-se, lutar para chegara a superfície e ver a luz. Quando a porta se abriu e os passos ecoaram, sua voz saiu firme e seca.
— Jonathas.
O homem que esperava o silêncio, se voltou na direção dela, com cara de espanto, fora mais uma vez pego, mesmo tentando fugir escondido na penumbra, considerando o sono alheio, querendo escapar do enfrentamento, da verdade, da falta de amor por aquela mulher tão linda, o desapego por aquela família tão encantadora, daquela casa perfeita, não havia nada para ele ali.
Ela se ergue, anda em direção a ele e para bem na sua frente, queixo erguido, peito estufado, ele a fita condescendente.
— Ainda acordada, Lídia.
— Eu esperava por você. Estou já esperando por você há muito tempo.
— Você sabe que eu chego tarde, não precisava me esperar.
— Você não entende, Jonathas. Não é só hoje, estou esperando por você há semanas, meses, anos, mas você não chega nunca, está sempre de partida.
Ele franziu a testa e abriu a boca, mas se calou. O que poderia dizer?
— Essa é a minha vida.
— É a sua vida, mas essa família, essa casa, eu, não fazem parte da sua vida. Você tem outra vida lá fora.
— Nunca deixei faltar nada para vocês — rebateu.
— Você nos dá tudo, no entanto, também não nos dá nada.
— E, afinal, o que você quer de mim, Lídia?
— Antes, eu queria você. Eu tentei de tudo para que me notasse, contudo, não adiantou. E, agora, não quero nada, a não ser a sua ausência definitiva.
Como se levasse um soco, Jonathas dá um passo para trás, cambaleante.
— Você quer se separar de mim? — perguntou, ainda incrédulo.
— Já estamos separados há bastante tempo, Jonathas. Será só a confirmação de uma realidade.
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