Naquela tarde quente e úmida de primavera, o telefone de Aline tocou e ao ver o nome que surgia na tela, mal pode acreditar, depois de tanto tempo

— Mariana — Solta o ar.

— Aline, desculpe na demora, mas tenho boas notícias. Depois de tanto tempo, iremos nos reunir.

— Todos vocês?

— Sim, todos nós. Até João está vindo dos Estados Unidos, ele me ligou dizendo que queria rever os outros.

— Muito bom! Quando será? — Aline disse meia verdade, pois no fundo da sua alma tinha um certo receio de ser rejeitada, como a usurpadora do coração do amigo.

— Ainda não combinamos, desejamos fazer uma espécie de homenagem a Renato, algo especial depois de 10 anos. Ainda não decidimos qual seria, mas Teresa teve uma ideia. Sendo assim, queríamos nos encontrar primeiro, antes que eles a conheçam, você entende, não é?

— Sim, claro que eu entendo. Estarei aguardando.

— Doutora Mariana, temos uma vítima de acidente de carro chegando — uma voz se ouviu no fundo.

— Preciso desligar, nos falamos depois. Até mais, Aline.

— Estarei aguardando. Até mais, Mariana.

O carro deixou João bem diante do restaurante combinado, não podia negar que estava um tanto ansioso em encontrar os amigos. Mesmo a noite, o calor ainda era forte, ele havia esquecido disso, depois, de tanto tempo morando fora. Alguém indicou a mesa reservada, já havia alguém lá aguardando. Apesar da distância reconheceu de primeira, Teresa.

Como sempre, Teresa chegou no horário marcado, ficando sozinha na mesa, imaginado como seria reencontrar os antigos colegas da juventude, depois de tanto tempo, sentia-se melancólica pelo lugar que ficaria vazio, pelas suas emoções desperdiçadas, pelo primeiro amor não correspondido, morto em tão tenra idade, sem nenhuma chance. Seu olhar vasculhou o salão a procura de algum rosto conhecido e lá estava ele, João.

E lá estava um em frente do outro, João parecia bem mais velho, pálido, compenetrado, um ar um tanto triste, possivelmente, transformado pelas angústias do seu ramo de trabalho, para falar a verdade, ele sempre pareceu mais velho, mais sério, mesmo quando jovem.

Trocaram singelos beijos no rosto, um abraço frouxo, ele já não estava mais habituado com esses tipos de demonstração de afeto. Seus olhos se fixaram na mulher à sua frente, traçando um paralelo com a garota de outrora. Ela parecia mais jovem e estranhamente sensual, os quadris continuavam largos, gostava disso, na adolescência, em muitas madrugadas insones, fantasiava, com aqueles quadris, na busca da autossatisfação.

— João, nunca imaginei que você viria a esse encontro — ela declarou, quando tomavam seus lugares.

— Eu quis vir, queria rever vocês, depois de 10 anos.

— O tempo passou bem depressa.

Mariana se aproximou, esbaforida, cumprimentou João e Teresa, com beijos no rosto.

— Desculpe o atraso, tive uma emergência. Estou tão feliz porque você veio, João — Mariana declarou, abrindo um grande sorriso.

— Depois de pensar um pouco sobre a minha vida decidi vir, encontrar vocês, saber como ficaram. O tempo passa muito rápido.

— Ficamos bem — Mariana declarou, Teresa ergueu as sobrancelhas discordando, mas não retrucou.

— E como você está, João? — Teresa quis saber, de um jeito displicente.

— Quero ficar bem, pois recentemente tive uma grande perda. Uma pessoa que me foi muito chegada.

— Lamento muito, João — Mariana respondeu, quando Joaquim chegou, e ela imediatamente mudou de tom.

Joaquim avistou a mesa já ocupada de longe, vacilou, respirou fundo, colocou um sorriso na cara, e foi em frente, fazia parte do seu papel. A dor e a angústia no seu peito diminuíram, mas não cessou, bastava um passo em falso para que ela o possuísse outra vez, entendia que sua vida estaria sempre por um fio, porém, por enquanto, conseguia dar alguns passos em frente e se aproximar do seu passado. Seguiram se apertos de mão e beijos no rosto, conversas superficiais, passando a limpo as suas vidas. Ele se sentou ao lado de Mariana, que o deixava mais calmo.

— Onde está Lídia? — Teresa indagou, impaciente.

— Você sabe como ela é, nunca chega no horário — respondeu Mariana.

Como se ouvisse seu nome, Lídia surgiu andando confiante em direção à mesa, Mariana sentiu uma ferroada no peito ao perceber o brilho no olhar de Joaquim ao ver seu amor da adolescência chegar, mas não podia negar que ela estava realmente linda.

Outros beijos, abraços e cumprimentos, os sobreviventes estavam todos lá, juntos, depois de uma década.

E alguns copos vazios depois.

— Então, estamos todos aqui, agora, por quê? — João indaga de um jeito frio e objetivo.

— Para nos revermos — Lídia dá de ombros.

— Para saber como sobrevivemos — Teresa respondeu de modo irônico.

João pensou como ela havia mudado nesses últimos tempos, continuava bonita, mas tinha algo no seu olhar, no seu jeito de ser, uma certa raiva. Será que ela nunca se recuperou da perda?

Afinal, nenhum deles se recuperou, de alguma forma todos se sentiam culpados por estarem vivos.

Joaquim se contraiu ao ouvir aquelas palavras, já que para ele, viver era mais uma imposição do que uma opção.

— Não seja estraga-prazeres, Teresa! É rever os amigos! — Lídia protestou, com veemência.

— Sim, é muito bom estar com vocês, reviver um pouco daquela felicidade do passado — Mariana colaborou apressada, olhando Joaquim de soslaio, tinha medo do que ele estaria sentindo, medo de como ele reagiria àquele encontro.

— Joaquim, como você está? — Lídia perguntou de um jeito doce. Outra vez, o coração de Mariana se apertou, um sentimento estranhamente conhecido, adormecido há tanto tempo. Ciúmes.

— Agora, eu estou bem — ele respondeu sem dar detalhes.

— E a garota? Ela vem? — Teresa perguntou.

— Que garota? — Joaquim parou com seu copo de água no ar e indagou, olhando para Mariana.

— Você anda não contou a ele, Mariana? — Teresa quis saber.

— Não, eu quis contar, mas... — ela respondeu, abaixando os olhos um tanto culpada.

— Já está na hora! – a amiga retrucou, encarando a outra com os olhos duro, enquanto Joaquim esperava uma resposta, ansioso.

— Joaquim, há uma razão para essa reunião... algum tempo atrás, uma garota de nome Aline me procurou e ela disse que recebeu o coração de Renato.

Finalmente, o nome que estava pairando no ar, por todo aquele tempo, foi pronunciado.

— E por que não me contou antes? – Joaquim parecia confuso.

— Porque não sabia qual seria sua reação, depois de... — Mariana não conseguiu continuar.

Os outros olharam sem entender.

Joaquim a encarou surpreso e explicou:

— Eu tentei me matar, foi assim que eu reencontrei com Mariana, no hospital. Depressão, mas estou melhor agora.

O que falar nessa hora? Assim, seguiu-se um incomodo silêncio.

— Você não teve culpa — Teresa se manifestou. — Pelo menos, não sozinho. De certa forma, todos nós fomos culpados pelo que aconteceu.

Todos deveriam ficar espantados, mas nenhuma voz de protesto se elevou.

— Culpados?

— Eu não queria que Renato ficasse junto da Teresa, porque eu era apaixonado por ela na época, e sabia que ela gostava dele. — João se manifestou.

— Eu, também, pelo mesmo motivo, porque sabia que Renato gostava da Mariana — Teresa confessou.

— Eu não queria Lídia junto de você, no banco da frente, Joaquim — Mariana revelou.

— E Lídia... — Teresa continuou.

— Eu? Eu não fiz nada, não gostava de ninguém.

— Você ficou cantando, provocando para o espelho retrovisor, tirou a atenção de Joaquim, porque sabia que ele gostava de você. E não diga que não foi verdade!

Lídia piscou duas vezes, surpresa com o tom ríspido de Teresa.

— Eu, na verdade, gostava do modo que Joaquim olhava para mim — segredou, olhando para o seu copo.

— Mas, no fim, não tivemos culpa de verdade, foi tudo sem querer, éramos só jovens apaixonados— Mariana dá de ombros.

— Amores não correspondidos, eu sei bem o que é isso — João dá um sorriso maroto para Teresa.

— O engraçado que só Lídia, que não gostava de ninguém, casou —Teresa comenta de um certo modo ácido. — E a garota, nós vamos falar com ela ou não?

— Eu não sei, depende de vocês — Mariana respondeu.

No fim da madrugada, os dois carros pararam junto a calçada, um grupo saiu de lá de dentro, logo depois, outro carro chegou e só uma pessoa saiu dele.

— Vocês esperaram muito tempo? — Aline perguntou a Mariana.

— Não, acabamos de chegar — ela respondeu, depois vieram as apresentações. Não dava para negar que era uma situação estranha para todos eles. — Aline, quer saber mais sobre Renato?

— Por quê? — Teresa perguntou direta.

— Eu não sei, curiosidade — Aline deu de ombros.

— Vamos nos sentar ali, na areia, já está quase na hora. Esperamos muito tempo, por isso. — Lídia apontou mais adiante, para a praia pouco iluminada, onde se podia ouvi o murmúrio constante das ondas.

— Dez anos — completou João.

— Você deve estar estranhando o lugar, mas queríamos assisti ao nascer do sol, juntos — Mariana explicou.

— Era o que íamos fazer naquele dia, quando houve o acidente — Joaquim continuou.

— Estamos todos no mesmo carro, depois da nossa festa de formatura, no colégio. O carro de Joaquim. Um motorista bêbado avançou o sinal em alta velocidade e pegou o nosso carro. Foi assim que aconteceu — João prosseguiu, enquanto andavam em direção ao mar.

— Isso faz 10 anos. Dezembro de 2008. Estávamos cheio de sonhos e esperança no futuro — Lídia concluiu.

Aline os olhou, incrédula.

— Mas você todos são tão jovens, ainda. Eu passei uma boa parte da minha vida presa em uma cama, lutando para respirar, muitas vezes, desejei que todo aquele sofrimento terminasse logo. Eu sei que, para vocês, posso representar a morte do seu amigo, mas... — Aline parou.

— Não, foi uma coisa boa, pelo menos, um pedaço de Renato ficou, para ajudar alguém — Lídia disse, com sinceridade.

O céu se pintou em tons dourados e rosados.

— O sol já está nascendo — Teresa falou.

Eles olharam para o infinito, sem falar mais nada, lado a lado, João deu a mão à Teresa, que segurou a mão de Aline que deu a mão à Mariana que segurou a mão de Joaquim, que deu a mão à Lídia. Assim de mãos dadas, assistiram o sol surgir glorioso no horizonte.

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