Antes do nascer do sol.

8 Aline - Um pequeno milagre


Março de 2018. Olhei meu telefone e leio a mensagem.

— Minha mãe está lembrando que não posso me atrasar hoje, para a festa de aniversário — aviso a Ana, quando estávamos na cafeteria, aproveitando o wi-fi grátis do local para terminar a revisão da tese dela. — Você quer ir?

— E de quem é o aniversário?

— É o meu — digo de forma natural e espero a reação dela.

— O seu aniversário? Pensei que fizesse aniversário em junho?

— Também — Eu rio. — Estamos comemorando o aniversário do meu transplante. — Abro um pouco a minha blusa e lhe mostro a cicatriz no meu peito, debaixo do pequeno crucifixo, que sempre uso.

Ela se espanta com a visão e, em ato de audácia, leva a mão até lá e passa levemente os dedos sobre a marca, para ela é como se tocasse um milagre. Era exatamente isso que eu achava, um milagre que me devolveu a minha vida.

— Eu já tinha a visto sua cicatriz, mas nunca imaginei que fosse por um transplante.

— Quando eu era criança tive uma doença infecciosa, um vírus, e desenvolvi uma miocardite. Meu coração ficou muito fraco, e iria morrer se não fosse transplantada. Fiquei na fila um tempão, uns 5 anos, até conseguir um doador, nesse tempo, quase não podia fazer nada, o simples ato de respirar era demais para mim.

— Você sabe quem foi seu doador?

— Não, é contra a política do hospital.

— Nunca quis saber?

— Teve um tempo que eu quis, fiquei bastante curiosa, imaginei muitas coisas, mas é bem estranho, saber que uma pessoa precisou morrer para que você sobreviva.

— Mas, você não tem culpa do que aconteceu, não interferiu na morte dessa pessoa, pense que esse coração que bate no seu peito, seria somente pó, se não fosse doado.

— Eu sei, mas nunca penso em uma história, em uma pessoa, acho que é mais fácil para mim.

— É você quem sabe — Ana dá de ombros.

— Então, você vai lá em casa, hoje?

— Claro que eu vou.

— Muitas felicidades, muitos anos de vida! — Diante do bolo com 9 velas, eu ouvia os meus parentes cantarem.

— Faça um pedido e apague a velas, Aline — minha mãe ordena e eu obedeço, sem pestanejar.

— Parabéns! Viva! — Todos gritam, estou emocionada, penso no coração batendo forte no meu peito, imagino o seu dono real, quem teria sido, o que aconteceu para sua vida terminar. Sei que pode ser só a emoção do momento, que amanhã esquecerei. Mesmo sou atingida por uma imensa curiosidade.

Corto o bolo e distribuo os pedaços, brincando de quem merece receber o maior pedaço. Em seguida, sento-me ao lado da minha amiga Ana, na varanda, cada uma com um prato na mão, se deliciando com a minha torta de chocolate favorita.

— Deve ser bom ter duas festas de aniversário por ano — Ana fala, distraída, lambendo o seu garfo coberto pelo creme marrom espesso.

— Depois de tudo, é realmente bom. Sabe, Ana, estive pensando na ideia de saber mais sobre o meu doador, quem ele era, apesar de não ser proibido, os médicos desestimulam, principalmente, o contato com a família dele, para não haver mais sofrimento.

— E como pretende descobrir?

— Amanhã, vou conversar com a minha mãe, falando a verdade, que não quero conhecer a família do doador, nada de encontros sentimentais e choradeira, ouvidos encostados no meu peito para escutar o meu coração bater. Só quero saber quem era essa pessoa e pronto.

— Você acha que não vai se sentir mal com isso? Algum sentimento de culpa ou algo parecido? — Ana leva mais um pedaço de bolo a boca, sem desviar os olhos de mim.

Eu olho para o meu pedaço de bolo, feliz por poder está ali, naquele momento, usufruindo daquilo.

— Acho que não.

— Por que isso agora, depois de tanto tempo, Aline? — minha mãe me questiona, assim, que lhe pergunto a respeito do meu doador durante o café da manhã do dia, seguinte.

— Por nada, só curiosidade, queria saber como essa pessoa era — dou de ombros, com falsa indiferença.

Ela olha impaciente para o relógio.

— Aline já passou muito tempo e somos muito gratos a essa família, mas precisamos seguir em frente. Não posso conversar agora, tenho que ir para o trabalho — ela disse colocando a bolsa no ombro.

— Você não pode perder um minuto comigo?

Minha mãe se voltou para mim, olhando nos meus olhos de um jeito duro.

— O que quer saber?

— Quem foi o doador?

Ela soltou um longo suspiro.

— Eu não soube muita coisa, os médicos não quiseram informar, nem nós queríamos saber muito, naquela situação em que nos encontrávamos, sua vida por um fio. Só soubemos que era um rapaz, devia ter mais ou menos sua idade, sofreu um acidente de carro, com traumatismo craneano, ficou em coma por algum tempo, mas teve morte cerebral, os pais resolveram doar os órgãos e ficamos muito agradecidos por isso. Mesmo sem saber quem são, eles estarão sempre nas minhas preces.

— Só isso?

— Sim, é tudo que eu sei. Talvez, possa conversar com o doutor Lopez durante sua próxima consulta. Preciso ir, já estou atrasada.

Minha mãe saiu deixando um monte de perguntas para trás, sabia que conversar com o meu médico não daria em nada, era certo que ele desconversaria, pois era contra a política dele e do hospital, dar esse tipo de informação. No meu peito, aquele coração que pertenceu a outra pessoa bateu mais forte, talvez, pelo desejo, que eu descubra o seu verdadeiro dono.

— Por que essa pergunta, agora, Aline, depois de tanto tempo? — Doutor Lopez questiona, me olhando por cima dos seus óculos de leitura e franzindo a testa, cotovelos apoiado sobre sua mesa, rodando uma caneta entre os dedos.

— Só curiosidade, quero saber quem foi o dono do meu coração — respondo em tom casual.

— Você sabe que somos contra a isso, pois poderá trazer sofrimento para ambas as partes envolvidas, você e a família do doador.

— Por quê?

— Porque você pode ser o símbolo real da perda deles, poderão a rejeitar ou esperar demais. Quanto a você, poderá se sentir em uma situação delicada, em ambos os casos. Já passamos por isso antes, algumas vezes e não foi nada bom.

— E se eu prometer não procurar a família dele? Só queria saber quem ele é.

— Você sabe que não posso impedir esse encontro, legalmente? Só posso desestimulá-lo, não quero que tenha nenhum sentimento contraditório por estar viva, Aline.

— Doutor Lopez, sei que me conhece desde criança, mas já estou bem grandinha para saber me defender e fazer minhas escolhas. Sei que a minha sobrevivência não mudaria o ocorrido com o meu doador — digo, decidida.

— Sim, eu sei. Também, sei que sua sobrevivência foi um milagre, sendo assim, não posso negar o seu pedido.

Ao sair do consultório, eu me sentia muito animada, mesmo sem saber o que faria com aquele nome que descobri, da pessoa que me deu a vida, outra vez. Peguei meu telefone, enquanto andava pela rua.

— Ana, eu tenho um nome dele.

— E o que você vai fazer?

— Eu não sei. Talvez, conhecê-lo melhor.

— E qual era o nome dele?

— Renato Tevez, tinha 18 anos e sofreu um acidente de carro, ficou em coma por uns dois meses, quando foi declarada a morte cerebral.

Sentada diante do computador, na minha cama, meus dedos vacilam sobre o teclado, antes de digitarem o nome dele, Renato Laurent Tevez. Na tela, surgiram notícias antigas, escolhi a primeira: Acidente de carro fere grupo de estudantes.

— Você quer dizer que ele sofreu o acidente no dia da formatura do ensino médio? Coitado! — Minha amiga Ana se comove quando eu relatava o ocorrido, o acidente que matou Renato e salvou a minha vida.

Estamos na mesma cafeteria de sempre, em frente do computador dela, enquanto eu a ajudo com seu trabalho.

— Ele estava com os amigos que sobreviveram.

— E agora, o que vai fazer?

— Eu prometi ao doutor Lopez que não procuraria a família do Renato, mas posso tentar encontrar esses amigos dele.

— E como você faria isso?

— Eu não sei, na reportagem só há o nome do motorista, Joaquim, e do Renato, já que eram os únicos maiores de idade na época, dos outros só estão as iniciais, mas sei que estudaram no colégio São Leôncio.

— Podemos entrar no site do colégio e descobri o nome dos alunos que se formaram em 2008 e comparar com as iniciais que temos.

— Acho que não será tão fácil — digo, desanimada.

— Mas, podemos tentar — Ana me dá um olhar incentivador.