Antes do nascer do sol.
9 Aline - uma pequena esperança
Abril 2018. Levei alguns dias para me decidir se deveria vir ou não, ainda estava em dúvida, quando parei diante da entrada da emergência do hospital Sant’Ângelo, sem saber o que fazer. Respirei fundo e fui até a recepção. Era bem cedo, passei muito tempo internada e indo a emergências, por isso, conheço bem as rotinas de um hospital, para saber qual é a hora da troca de plantão.
— Gostaria de saber se a doutora Mariana está de plantão, hoje?
A recepcionista me interroga com o olhar, a espera por mais alguma explicação, mas me calo. Com uma certa má vontade, ela verifica a escala da noite e me comunica:
— Sim, a doutora Mariana está terminando o plantão.
— Posso falar com ela?
A mulher ergue a sobrancelha, incrédula.
— Vou verificar se ela pode atendê-la, nesse momento — avisa e pega o telefone, espero pelo fim da conserva. — Ela pediu para que esperasse um pouco que já vem.
Sento-me em uma das cadeiras vazias e aguardo intermináveis minutos, conjecturando como ela irá me receber, ainda não estou certa se devo falar a verdade diretamente ou não.
Uma mulher jovem e morena, cabelos presos em um rabo de cavalo e usando a indefectível roupa de hospital saiu pela porta, olhando para os lados, procurando algum rosto conhecido, vai até a recepcionista, que olha para mim, a médica se vira acompanhando o olhar e vem na minha direção, prontamente, eu me levanto, quando se aproxima, com as mãos nos bolsos do jaleco, parando na minha frente.
— Sou a doutora Mariana, deseja falar comigo? É sobre algum paciente?
— Não, meu nome é Aline. Gostaria de falar com você sobre algo que aconteceu há quase dez anos — respondo e ela me interroga com o olhar confuso, percebo sua face cansada pela noite não dormida, os círculos escuros sobre os olhos, a pele sem brilho.
— Há dez anos? — repete, incrédula.
— O acidente que você e seus amigos sofreram.
— Mas, por quê? O que você tem a ver com essa história, já faz muito tempo?
— Um dos seus colegas morreu em consequência disso, não foi?
— Sim, mas vamos direto ao assunto, estou cansada e ainda tenho trabalho a fazer.
— O nome dele era Renato, teve morte cerebral, a família doou seus órgãos para transplante e eu recebi o coração dele — falo direto, sem parar para respirar, ela dá um passo para trás como se recebesse um tapa, olha direto para o meu peito, como se quisesse confirmar a história, procurando algum sinal da verdade.
— E o que quer de mim?
— Só conversar, queria conhecer melhor quem era o meu doador.
Mariana se observa por alguns segundos, claramente, refletindo.
— Meu plantão termina em alguns minutos, você pode me esperar?
Sacudo a cabeça confirmando, ela me se volta e entra de novo pela porta e desaparece, sento-me na cadeira da sala de espera e passo uma mensagem para Ana.
“Ela vai conversar comigo”
Vinte minutos depois, Mariana reaparece, agora, com roupas comum, tênis, calça jeans e camisa azul, os ondulados e compridos cabelos castanhos estão soltos e tem uma mochila nas costas.
— Vamos tomar café — convida e sai andando com passos largos, não tocamos no assunto.
Caminhamos até uma cafeteria ainda vazia àquela hora do dia, percebo que há alguns plantonistas começando ou terminando seu turno. Nós nos sentamos em uma mesa mais reservada, ela pede café com leite e pão torrado, como não tomo café, peço apenas um chá de camomila.
— Por que que veio me procurar? — ela me pergunta, olhando direto para mim.
— Porque você foi a mais fácil de encontrar — Dei de ombros.
— Meu nome não saiu nos jornais da época, porque eu era menor de idade.
A atendente coloca o pedido na nossa frente, Mariana põe uma boa quantidade de açúcar na sua xícara e mexe, vigorosamente, com a colher.
— Eu sei. Mas, soube do nome de Renato, depois, o de Joaquim, assim descobrimos, no site da escola, os nomes dos formandos daquele ano e comparamos as iniciais, daí foi mais fácil, e chegamos até você.
— Muito esperta. Então, eu sou a primeira quem procurou?
— Sim, achei que por ser médica, seria mais fácil de entender.
— Entender? O que tem para entender? — Ela pareceu confusa.
— Que o coração do seu amigo bate dentro do meu peito, que por isso gostaria de saber como ele era.
— Por que não procurou a família dele?
— Porque fui aconselhada a não fazer isso, parece que eles não querem me conhecer, assim tive medo de ser rejeitada, pois eu represento a perda deles.
— Entendo, e o que saber?
— Como ele era?
Mariana sorri, enternecida pela lembrança.
— Renato? Bem, Renato era um garoto muito amável, alegre e brincalhão, às vezes, chato, mas quem não é? Foi ele que nos uniu. Sabe, o nosso grupo?
— Seu grupo?
— Sim, João, Teresa, Joaquim, Lídia e eu. Ele tinha uma quedinha por mim, mas eu gostava do Joaquim – relembra de um modo sonhador.
— Vocês nunca ficaram juntos?
— Quem? Eu e Renato? Não, só um beijo, naquela noite, quando tudo aconteceu.
— Você quer falar daquela noite?
— Por que não? — Mariana dá de ombros, como não se importasse, mas tenho certeza que é mentira. — Renato gostava de se divertir, ainda, me lembro dele, na naquela noite, havia bebido demais, acho que por isso esqueceu de colocar o cinto de segurança — terminou de modo lúgubre, meu coração bateu mais forte em resposta. — Ele não queria sentar na frente, mas nós o obrigamos por ele ser muito grande e ficaria apertado lá trás.
Fico sem palavras, pressinto a um certo tom de culpa, talvez, tenha sido um errado eu ter vindo.
— Você tem contato com seus outros amigos da época?
— Não, quando saímos do hospital cada um foi para o seu lado, mas, ainda tenho o telefone de Teresa. E encontrei Joaquim há alguns meses. Mas, por que isso agora, depois, de tanto tempo? Por que não fica em paz com seu novo coração?
— Sempre me fazem a mesma pergunta e não sei o que responder, quem sabe, meu coração anda meio inquieto, com saudade? Você pode me ajudar a encontrar os outros.
— Olha, Aline, acho que reviver essa história pode trazer muita dor, levamos muito tempo para superar, não sei se quero mexer em velhas feridas.
Ela parece determinada, mesmo que nos seus olhos, percebo um quê de hesitação.
— Você sabe onde posso encontrar Joaquim? – Não sei porque perguntei logo por aquele nome, talvez, seja o ponto fraco dela.
Noto um certo espanto, um mal-estar, ela abaixa os olhos em direção a sua xícara quase intacta com o seu café frio.
— Sim, eu tenho o endereço e o telefone dele.
— Não gostaria de revê-lo? — Sei que ela está que cedendo, então, sacode a cabeça afirmativamente.
— Deixe seu telefone. Posso entrar em contato com ele, não sei como vai agir, mas se concordar, vou com você encontrá-lo.
Alguns dias depois, eu já estava sem esperança, quando Mariana me telefonou.
— Aline, não consegui falar com Joaquim, mas Teresa concordou em conversar com você.
Fale com o autor