Antes das Seis
1 Capítulo I
Notas iniciais
Nick sempre soubera que seria difícil conviver com a colega de trabalho, desde a primeira vez que eles foram apresentados. Ela era linda, com os cabelos loiros sobre os ombros, os perfeitos olhos azuis que brilhavam como duas safiras, seu rebolado e seu corpo escultural que levariam qualquer homem à insanidade. Sua risada, seu sorriso, seus comentários irônicos, seu jeito de ajudar os amigos e de cuidar da filha. Tudo nela o fascinava. Mas Nick sabia que nunca daria certo, ela nunca se interessaria por um rapaz como ele e provavelmente o achava imaturo demais para ela. Catherine era areia demais para o seu caminhãozinho. Esses pensamentos o fizeram reprimir qualquer coisa que sentisse por ela. Não poderia negar a atração que sentia pela amiga, afinal, todo os dias trabalhando juntos, praticamente sete dias por semana, era impossível não reparar na sua beleza ou ficar bobo toda vez que conseguia faze-la rir. Mas o sentimento, o que ele se negava a chamar de amor, ficou guardado em segredo no seu coração. E os anos, fizeram até mesmo ele esquecer que tal sentimento já havia existido.
Todavia, depois daquele caso, tudo mudou. A forma como aquele cirurgião plástico a secava, seus sorrisos pretenciosos e olhares desejosos. Sem desviar sua atenção por nenhum momento, mesmo quando era ele que fazia as perguntas, o médico respondia fitando a loira. Seu sangue ferveu ainda mais quando percebeu que a amiga parecia ter entrado no flerte do doutor. O ciúmes o consumiu por completo.
– Tem algum problema comigo, doutor? – perguntou quando Catherine ajeitou a franja e sorriu constrangida para o médico, que fingiu não entender sua pergunta. – Somos dois – disse apoiando os cotovelos sobre os joelhos –, mas você só se dirige à minha colega.
– Ela é uma mulher muito bonita – voltou a fita-la com o mesmo sorriso. – Tem a estética de Vênus de Milo.
O sorriso voltou a se desenhar no rosto do rapaz, quando a loira cortou as cantadas do médico dizendo que pediria um mandato para os registros médicos de sua paciente. Catherine havia saído da sala, deixando Nick no encargo de dispensar o médico. Eles seguiram com o caso sem nenhum comentário sobre a atitude do homem. O caso envolvia a morte de uma mulher que tentava lutar contra a idade, fazendo o possível e o impossível para ter a aparência mais jovem, chegando até mesmo ao ponto de beber a própria urina. Nick não entendia todo aquele exagero e desespero para aparentar alguns anos à menos. “Todo o tempo, a dor e o esforço para ter a pele mais macia?”, ele perguntou ironicamente para a loira que olhava para a tela do computador em cima da bancada. Catherine também não acreditava em todas as ideias loucas para rejuvenescer que o caso estava apresentando, mas ela se sentiu visivelmente desconfortável com a indiferença do amigo.
– Faça músculo, Nick – ordenou sem fitar o rapaz assim que ele deu sua opinião sobre o caso.
– O quê? – ele perguntou confuso.
– Levanta a manga, faça músculo – ela ordenou mais uma vez, dessa vez se virando para o rapaz. A loira se apoiou de costas para a bancada, cruzou os braços e lhe lançou um olhar inexorável. Ele soltou um suspiro e sorriu para a amiga. Logo após, desabotoou a manga longa da camisa que usava e a puxou para cima. Nick se posicionou à frente de Catherine, um pouco mais próximo do que o necessário e contraiu os músculos do braço, deixando à mostra seu bíceps bem delineado. Um calor instantâneo logo o invadiu quando sentiu as mãos macias da loira pousarem sobre seu braço, sentindo os músculos expostos. A loira sorriu. Uma óbvia demonstração do seu esforço na academia. Como a loira mesmo disse: “Cinco dias por semana na academia, baixo consumo de carboidratos e gordura, no mínimo.” – Pra quê, Nicky? Pra que? – perguntou enquanto continuava a passar a mão sobre seu braço forte.
– É uma boa pergunta, mas não é a mesma coisa – respondeu sorrindo, numa tentativa bem sucedida de esconder a excitação ao imaginar como seria ela tocando o resto do seu corpo.
– Não, mas é bom – sorriu sem mudar de posição.
– Obrigado – sorriu. – Nem estou contraindo o músculo – se gabou sorrindo para a loira.
– Não? Mas está duro como uma pedra – disse com a voz mais rouca, aumentando o ego do rapaz. Nick sorriu e a fitou intensamente, enquanto suas mãos continuaram pousadas sobre seu braço, delineando seus músculos. Um pigarrear fez os dois voltarem os olhares para a porta, porém, sem mudar de posição. Ao ver o assistente do legista, Catherine solta Nick e vira-se completamente para a porta. O rapaz faz o mesmo, fitando David com clara decepção em seus olhos por ele ter interrompido aquele momento.
– Desculpem – diz constrangido quando vê o olhar de Nick. – Não quis interromper... Entrar de repente – dizia claramente perturbado com a situação.
– Não há problema, Super Dave – Nick disfarça enquanto puxa a manga da camisa para baixo novamente.
Ele não sabia bem porque, mas ele não conseguia mais controlar seus sentimentos pela loira. Tê-la tão próxima, fizera todos os sentimentos que ele tentara esconder de si mesmo, despertarem novamente. Ele também não gostava nada de como aquele caso estava atingindo a amiga. Nick sabia, que apesar de não aparentar, ela era alguns anos mais velha do que ele, e toda a conversa sobre cirurgia plástica, botox e outros produtos para combater os sinais da idade a deixavam desconfortável, afinal, como a maioria das mulheres ela também estava tentando lutar contra os efeitos do tempo.
– Não acha que precisa disso, não é? – perguntou se referindo aos tratamentos caros de beleza, quando estavam no consultório do médico, para investigar a receita de um produto em que um dos ingredientes era o veneno que possivelmente matara a vítima.
– Estamos em Vegas, Nick. Todos precisamos – respondeu desviando o olhar.
– Você não – disse sinceramente, fazendo a loira fita-lo e sorrir constrangida.
Tudo que ele queria era fazê-la se sentir bem consigo mesmo. Ele não estava mentindo. Ela era linda, não precisava de toda aquela “baboseira”, todos os sacrifícios em pró da beleza e da eterna juventude. Nick se pegou observando cada detalhe do seu rosto, seu olhos azuis, seu nariz delicado, sua boca bem delineada, os traços suaves de seu rosto. Tudo nela era perfeito. Ele a amava, não conseguia mais negar esse fato. Catherine era a mulher mais linda, enigmática e fascinante que ele já conhecera na vida. A loira também não conseguia desviar o olhar do amigo, ela não sabia se ele estava falando a verdade ou só sendo gentil. Ela sabia que estava envelhecendo e não gostava muito de pensar nos efeitos que isso causava, ainda mais quando começou a sentir algo diferente pelo amigo, que era uns bons anos mais jovem do que ela. Catherine não sabia realmente quando esse sentimento começou, mas ela o escondia, até mesmo de si própria. Ela era muito boa em esconder os sentimentos, não que se gabasse por isso, ela não saberia dizer se era uma boa coisa ou não. Porém, ela tinha medo de ser rejeitada, tinha medo de estragar uma amizade tão bonita como a deles.
Sem perceber os dois já estavam próximos demais por estarem em um lugar “público”. E apenas se deram conta disso, quando o médico se aproximou os cumprimentando e pedindo para que o seguissem até sua sala. Os dois amigos sorriram constrangidos com a situação e seguiram o médico.
No seu consultório, os dois peritos o confrontaram. Mas ele negou firmemente que seu produto poderia causar a morte de uma paciente, mesmo se ingerido em grande quantidade. Durante seu discurso, o médico insinuou algumas vezes, na tentativa de convencer Catherine, que todos precisam de algum tipo de tratamento. Aquilo fez Nick se irritar ainda mais com o homem, o cortando na hora. Todavia, a dúvida permaneceu na cabeça da loira, que, após o caso já ter encerrado, ficou um bom tempo se observando no espelho, se torturando ao pensar em como o tempo pode ser cruel com as mulheres.
– Você não precisa disso – sua mão forte sobre seu ombro, a voz rouca próxima ao seu ouvido e o reflexo do amigo no espelho fazem a loira desviar o olhar de si mesma para fitar seus olhos castanhos, que pareciam arder em desejo.
Nick apenas sorri e se afasta, antes que seus instintos o levassem a fazer algo do qual poderia se arrepender mais tarde. Era difícil e ao mesmo tempo sexy e tentador, ver a loira tão vulnerável. Ele queria toma-la em seus braços e protege-la de toda a dor do mundo – mesmo que no momento fosse algo um tanto quanto fútil para ele, mas que o rapaz sabia que era importante para a amiga. Ele queria beija-la, sentir os lábios dela contra os seus e fazer amor com ela.
– Nick – sua voz suave e quase inaudível fez o rapaz interromper seu trajeto para fita-la. A loira estava de costas para o espelho e o observava com um sorriso no rosto. – Obrigada.
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