Antes das Chamas - Suécia, 1872
5 Fugindo e Voltando
Notas iniciais
– Espera, um dos convidados do baile pediu que você fosse ao quarto dele ontem para conversar? — Karin questionou.
As duas estavam na cozinha, em lugar afastado dos outros criados, para que Luci pudesse contar para a amiga tudo o que havia acontecido no dia anterior.
– Mas ele a viu na biblioteca roubando os livros...
– Eu não roubo — Luci a interrompeu — apenas... Pego emprestado.
– Você entendeu o que eu quis dizer, além disso, você quase derramou bebidas em alguém outra vez — Por que ninguém consegue esquecer isso?, Luci pensou.
– Mas não é só isso, ele também perguntou se eu gostaria de aprender a ler.
– Aprender a ler? — Karin se assustou — Por que ele iria querer lhe ensinar a ler?
– Ele não disse.
– O que você disse a ele?
– Eu disse que ele não deveria perder tempo com isso.
– E depois?
– Eu falei que precisava ir embora.
Karin pareceu pensar um pouco.
– Acho melhor mesmo — ela disse — Luci, ele é muito estranho, anda por ai perguntando à Müller sobre e você e chamando-a para sair, o que ele realmente quer?
– Eu não sei, ele pode apenas estar querendo ter alguém para conversar sobre livros, alguém que não seja obrigado à isso.
– Alguém para conversar? — ela debochou — Se ele quisesse alguém para conversar teria procurado qualquer pessoa, menos alguém como nós.
– Mas ele foi tão gentil comigo.
– Desculpe Luci, acho que não é o que você esperava ouvir, mas acho que você deveria se afastar dele.
O conselho que a amiga lhe dera rendeu à Luci diversos questionamentos. Por que ele pediu para vê-la? Por que aparentemente não havia contado nada sobre os livros para ninguém? Por que queria ensiná-la a ler? Mas a pergunta que mais a perturbava era: Por que não conseguia tirá-lo da cabeça?
Luci seguiu o conselho de Karin todas as vezes que Cam procurava por ela, quando ela limpava alguns dos corredores do castelo e ele tentou fazer uma piada ou quando ele a encontrou voltando para a cozinha depois de sair do quarto de Greta, todas as vezes Luci fingiu não estar lhe vendo ou ouvindo. Não era o correto a se fazer, Müller não gostaria disso, mas tudo que remetia ao misterioso Cameron deixava a garota assustada ao mesmo tempo em que ficava tentada a saber mais sobre ele.
Ela conseguiu se manter sã durante quatro longos dias até que ele a encurralou quando estava na biblioteca devolvendo e pegando mais alguns livros emprestados.
– Eu sabia que a encontraria aqui uma hora ou outra — Cam disse, assustando-a.
Luci buscava em sua mente um modo de sair daquela situação, mas ela sabia que cedo ou tarde teria de enfrentá-lo e fazer algumas perguntar que insistiam em passar pela sua cabeça.
– A senhorita está fugindo de mim? — ele perguntou.
– Claro que não — ela mentiu.
– É o que parece, em todos os momentos que tentei me aproximar, a senhorita fingia que eu não estava ali em sua frente — ele disse enquanto começava a andar devagar até ela
– Eu estava apenas um pouco ocupada com todo o serviço que tive esses últimos dias.
– Tudo bem — ele disse pausando a uns três passos de distância dela — eu acho que a assustei um pouco com toda aquela rápida aproximação — ele esperou que ela dissesse algo, mas ela apenas continuou paralisada o encarando — bem, gostaria que a senhorita me perdoasse.
– O senhor não precisa pedir o meu perdão.
– Sinto que preciso e que preciso lhe relembrar para não me chamar de senhor.
– Eu fiz o mesmo pedido há alguns dias, pedido esse que o senhor me negou.
– Você tem razão minha cara — ele sorriu — então como devo chamá-la?
– Luci — ela pensou por um momento antes de continuar — Cameron?
– Sim.
– Por que... Você... — ela tentou se acostumar em chamá-lo assim — Procura por mim?
– Porque eu sinto que deveria fazer isso e eu gostaria de lhe ensinar pelo menos algumas palavras.
Ele se aproximou de uma mesinha ali próximo e pegou um lápis e um pedaço de papel e começou a escrever alguma coisa, depois de alguns segundos ele ficou novamente de frente para Luci e estendeu o papel para que ela pegasse.
Luci pegou o papel que dizia "Você é um anjo", mas não conseguiu entender nada que havia escrito. Ela continuaria sem entender por mais algum tempo.
– Perdoe-me por não entender.
– Tudo bem – mas Luci percebeu que ele parecia um pouco decepcionado.
– Espero que o sen... Você possa me ajudar a entendê-las depois.
– Sim, é claro – ele pareceu mais radiante depois da proposta.
– Mas você terá que lidar com a senhorita Müller e eu acho que ela não lidará muito bem com isso.
– Acho que Müller não será um problema.
– Então, acho que o verei em breve, senhor Cameron.
Depois de uma reverência, Luci saiu da sala.
– Pode apostar que verá – Cam sorriu sozinho.
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