Antes das Chamas - Suécia, 1872
7 Fazendo Planos
Notas iniciais
Já passava da meia noite e Luci saia do seu quarto o mais silenciosamente possível para tentar não acordar Milene ou outro criado que estivesse próximo. Ela havia deitado antes de Milene chegar ao quarto e não tinha colocado sua roupa de dormir, só havia tirado os sapatos.
Quando Greta e Oliver iam se encontrar, Luci precisava ajuda-los, ela ficava de vigia para que os dois pudessem se ver. A criada achava incrivelmente romântico o fato de os dois se encontrarem as escondidas no meio da noite, perigoso, mas romântico.
Luci precisava vigiar os arredores do local onde os dois passavam alguns minutos juntos e ela inventava uma desculpa para caso alguém tentasse chegar muito perto. Ela não era ninguém muito importante ali, mas a garota sabia como driblar alguém, principalmente a senhorita Müller.
– Você falou com ele? – Greta perguntou quando Luci foi chama-la no quarto.
– Sim, senhorita.
Greta olhou com carinho para Luci. A relação das duas tinha se intensificado depois que Luci tornou-se uma criada após a morte da mãe, a garota ficou responsável por fazer companhia a Greta, mesmo sendo três anos mais nova, a criada ocupou o lugar da mãe se transformando em algo como uma dama de companhia para a criança. A relação das duas se estreitou a partir de então e viraram o que seria mais próximo de amigas.
– Estarei indo logo, ok?
– Sim, eu o avisarei.
– Obrigada – Greta sorriu e fechou a porta do quarto.
A garota então desceu as escadas e foi até a cozinha, onde ela iria se encontrar com Oliver. Não demorou muito para que ele também chegassem e os dois se encontrassem. Quando o olhar dos dois se cruzaram, eles apenas assentiram com a cabeça o mais discretamente possível para que nenhum dos outros criados que estivessem na cozinha percebessem e Oliver continuou seu caminho, enquanto Luci foi até a despensa para não levantar suspeitas.
Logo voltou para a cozinha e seguiu caminho até onde os dois iriam se encontrar, uma sala em que era pouco usada e servia perfeitamente para os encontros. Ela abriu rapidamente a porta e viu que Oliver já estava lá e eles trocaram um pequeno sorriso ao se verem.
A garota fechou a porta atrás de si e ficou parada ao lado dela esperando Greta, que não tardou a chegar e Luci logo pôde vê-la virando o corredor e andando sorridente até encontrar a amiga.
– Olá, Luci – ela disse tentando impedir um sorriso maior.
Mas Greta logo deu um sorriso maior quando segurou a maçaneta com uma das mãos e a puxou para baixo. Luci não viu mais o rosto da amiga, mas podia jurar que mesmo parecendo impossível alguns segundos atrás, o sorriso dela estaria ainda maior depois de fechar aquela porta.
Luci estava imaginando o que exatamente os dois estavam conversando dentro da sala, pois apesar de ainda ser um encontro romântico, Greta estava prometida em casamento e a criada estava bastante curiosa para descobrir quais planos os dois estavam criando para burlar essa situação.
Foi quando Luci o viu virando o corredor. Garoto alto, cabelos loiros, ar misterioso, olhos acinzentados. Ele era lindo. E em todos os anos em que a garota esteve no palácio, ela nunca o vira, mas agora, ela não conseguia tirar os olhos dele.
Assim que também a viu, ele parou de andar, como se estivesse assustado por encontra-la, mas logo voltou a caminhar e se recompôs como se nada tivesse acontecido. Ele foi se aproximando dela e da porta da sala onde Oliver e Greta estavam. Ela não tinha certeza se ele tentaria entrar ali ou apenas passaria direto, então esperou para ver que rumo ele tomaria, mas ele não parava de andar até ela e a porta.
– Com licença – ele disse parando em frente a porta, há um metro Luci, e ela pôde perceber que os olhos dele não eram simplesmente acinzentados, eram também violetas.
– Desculpe? – ela fingiu não ter escutado.
– Eu preciso entrar na sala.
– Não acho que o senhor deva entrar agora.
– Não estou perguntando o que a senhorita acha – a boa e má educação dele incomodou a criada.
– O senhor não pode entrar aqui – a garota disse praticamente se jogando na porta, ela precisava chamar a atenção do casal de amigos para o fato de haver alguém na ali.
– Por quê? Está maluca?
– Não – ela ficou um pouco ofendida – só estou limpando – ela bateu com os punhos na porta.
– Não está, está aqui fora.
– Mas a poeira ainda está muito presente.
– Eu não me importo.
– O senhor deveria parar de ser inconveniente.
– Eu? Inconveniente? – ele riu sem achar realmente aquilo engraçado – Você que está esmurrando a porta.
– A sala está ocupada.
– Eu estive dentro dela minutos atrás.
– Então por que o senhor está querendo voltar?
– Esqueci meu caderno de desenhos dentro dela.
– Pegarei para o senhor, não se preocupe.
– Posso pegar eu mesmo – ele se aproximou da porta.
– Não – ela quase gritou – eu insisto – ela baixou o tom de sua voz – posso pegá-lo para o senhor, permaneça aqui que eu já volto.
Luci abriu as portas do aposento, entrou o mais rápido que pode e fechou com a mesma rapidez.
– Greta? – ela chamou baixinho, mas não conseguia ver a garota ali.
A criada ouviu as portas se fechando atrás dela, ela se virou e viu o rapaz loiro dentro da sala.
– O que o senhor faz aqui dentro? Eu disse que pegaria seu caderno.
– A senhorita não faz ideia de onde ele está.
– Eu o procuraria.
Ele bufou. O garoto caminhou até uma pequena mesa onde um caderno estava aberto, o qual ele tratou logo de fechar. Luci o viu tão rapidamente que poderia jurar que a página aberta tinha um desenho dela, porém um pouco diferente.
Ela balançou a cabeça tentando tirar a ideia da mente. Ela riu internamente de si mesma por pensar em algo tão ridículo. Eles nem sequer tinham se visto antes.
– Eu não vejo ninguém ou qualquer poeira aqui dentro – ele falou enquanto usava uma pequena corda para amarrar o caderno.
Ela continuou exatamente onde estava e procurou os amigos dentro da sala, mas não conseguia ver nenhum dos dois. Espero que ele também não, ela pensou.
– Algum problema, senhorita? – o garoto perguntou.
Somente nesse momento Luci percebeu que ele estava próximo a ela. Com aquele par de olhos a encarando, as pernas dela tremeram por um instante.
– Nenhum, senhor – ela falou baixinho — eu o acompanho até a porta – completou para tentar parecer menos desnorteada.
– Eu não preciso de sua ajuda para abrir uma porta – ele disse já fazendo o trajeto até a porta sozinha.
A garota o acompanhou com os olhos até o momento em que ele saiu e antes de fechar completamente as portas o olhar dele cruzava com o dela, ele tentava fazer uma cara de quem estava irritado, mas ela podia jurar que não havia nenhuma irritação por trás daquele par de olhos.
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