Luci já havia entrado naquele quarto antes, quando não havia ninguém, todos os móveis estavam no mesmo local que ela lembrava, exceto por uma mesa e um par de cadeiras que haviam sido colocadas no meio do quarto. Ela ouviu enquanto ele fechava a porta e se aproximava dela.

– Eu sei que é só sopa, mas já é tarde e eu queria poder oferecer algo — ele explicou — você não quer sentar?

Ela se aproximou da mesa e sentou em uma das cadeiras, ele continuou olhando para ela, Luci virou o rosto enrubescido tentando olhar para qualquer ponto do quarto que não fosse para ele.

– Sinto muito, acho que estou te deixando envergonhada — ele disse rindo um pouco.

– Não, senhor.

– Não precisa me chamar de senhor, apenas de Cameron ou Cam se preferir.

Ele foi até o outro lado do quarto onde havia outra mesa com algumas garrafas de diferentes bebidas, pegou uma e trouxe até a mesa, onde sentou na outra cadeira.

– Prometi hoje cedo que guardaria uma taça para você e sempre cumpro com o que prometo.

– Eu não poderia beber, trabalho amanhã...

– E não pode aceitar o convite de um amigo para um drinque? — ele a interrompeu — Não estou querendo forçar a senhorita a tomar, mas só queria ser agradável enquanto nós temos uma conversa.

– Uma conversa?

– Sim, faz tempo que não tenho uma boa conversa com alguém — ele pareceu um pouco pensativo enquanto falava -, mas admito que adoraria beber com você, mas a senhorita decide.

– Não precisa ser tão educado, não sou ninguém importante.

– Muito pelo contrário minha querida, você é um anjo mais importante do que imagina.

Ela permaneceu em silêncio e ele serviu as duas taças com a bebida.

– O que vamos beber? — Luci perguntou.

– Um vinho que não sei de onde veio, mas Christer me confirmou ser excelente, não sei se a senhorita gosta de vinho.

– Eu nunca bebi nada antes — ela admitiu.

– Como não?

– Eu apenas trabalho e não tenho tempo para ir à festa ou mesmo convites para participar delas.

– Nenhum tempo vago? Férias?

– Não muito.

– Achei que fosse amiga de Greta.

– Sim, sou, mas antes de amiga sou empregada do pai dela.

Luci provou o vinho, ela achou o gosto um pouco estranho, mas gostou.

– Se me permite ser curioso, há quanto tempo trabalha aqui?

– Eu os conheço desde criança, quando minha mãe trabalhava aqui e comecei a trabalhar depois que ela morreu, quando tinha doze anos.

– Desde tão jovem... — ele comentou — Quantos anos a senhorita tem agora? Não parece ter mais de dezessete.

– Completei dezessete há poucos dias.

– Que encantador!

Luci bebeu mais um pouco do vinho e ficou brincando com a bainha da saia do vestido que havia usado durante o baile, tentava entender o que estava acontecendo aquela noite.

– Desculpe por perguntar, mas porque está sendo tão educado comigo e conversando, o senhor me chamou para o seu quarto e eu não estou entendendo, tudo que eu fiz foi cair em cima do senhor e quase lhe sujar.

– Você pode não ter percebido, mas não existem muitos criados que entrem na biblioteca para fazer algo além de limpar, muito menos que lessem os livros ou os roubasse.

Ela estava mais assustado do que nunca, ele estava a confrontando com o seu maior segredo. Luci não sabia o que faria.

– Eu prometo não fazer de novo, devolvo todos os que ainda estão comigo, mas por favor, não conte a ninguém.

– Não se preocupe, como disse antes, não tenho a intenção de contar para ninguém o seu segredo, mas confesso que fiquei bastante curioso com você.

– Curioso?

– Sim, claro, queria conversar sobre os livros que a senhorita gosta, posso indicar alguns, seria interessante conversar sobre eles com alguém que parece ter um ponto de vista tão diferente do meu.

– Eu sinto muito, mas não tenho nada a dizer sobre os livros.

– Nada? — ele perguntou — desculpe se estou parecendo confuso, mas é porque realmente estou, achei que a senhorita passava o tempo lendo na biblioteca.

– Bem, eu passo muito tempo na biblioteca e com os livros, mas... — Cam a olhava incentivando que ela continuasse — mas eu não aprendi a ler — ela corou.

– Então quem sabe eu poderia lhe ensinar — ele propôs.

– O senhor não deveria perder seu tempo comigo.

– Com certeza não seria.

Ele olhou para ela e parecia enxergar além da garota que estava em sua frente, como se estivesse lembrando de algo em um passado distante.

– Eu sinto muito, mas eu creio que devo ir.

– Se é assim que a senhorita deseja, eu a acompanho até a porta.

Os dois se levantaram e ele andou até a porta com Luci o seguindo.

– Boa noite senhor — ela disse enquanto atravessava a porta.

– Boa noite Luci, pense sobre isso — ele sorriu e fechou a porta em seguida, deixando Luci sozinha no corredor.