Antes Que Você Vá
9 Capítulo 8
Notas iniciais
Espero que gostem, e agradeço mais uma vez a todos que leem, isso é muito importante para mim :D
Boa leitura!
Capítulo Oito
Acenei com a cabeça em concordância, mas não de uma maneira que parecesse que eu estava grata. Eu não precisava estar grata. Eles deviam estar gratos a mim por estar indo com eles. Eu devia estar chateada por quererem mudar até meu modo de vestir. Aliás, eu estava chateada. Mas não tanto a ponto de pirar com isso.
– Então vamos logo – falei, abrindo a porta da sala e passando na frente deles.
~
Minha mãe estava completamente constrangida quando finalmente chegamos ao restaurante. Eu percebi que meu pai também estava constrangido, mas não tanto quanto minha mãe. Ela me olhava com uma espécie de desgosto e indignação, e imaginei o quanto era difícil para ela que eu tivesse me transformado em uma pessoa tão diferente daquela que ela sonhara que eu me transformasse.
Eu entrei no restaurante atrás deles, deixando que falassem com a hostess. Era um lugar modesto, mas estava lotado, o que me fez imaginar que a comida devia ser boa mesmo.
A hostess nos indicou uma mesa e lançou a mim um olhar que, eu imaginava, era para ser discreto, mas o percebi.
Sentei-me na cadeira que ficava no ângulo da porta, enquanto meus pais se sentaram nas cadeiras da minha frente em volta da mesa retangular. Infelizmente estávamos a duas ou três mesas da janela, então eu não teria a distração de ficar olhando a rua.
O garçom chegou logo que a hostess saiu, e não deu tempo de meus pais falarem nada para mim. Eles pediram risotos de camarão e vinho branco – meu pai bebeu só um pouco, depois ficou com a água, só porque ia dirigir – e eu pedi lasanha com duas camadas de queijo e uma Coca. Meu estômago estava roncando e quando a comida chegou, comi até rápido demais sem prestar realmente atenção no que meus pais falavam.
Meus pensamentos estavam divididos entre Theo, minha pintura, minhas amigas, a porta, a comida… e eu não sabia o que colocar em primeiro plano. Eu não queria estar ali. Eu não queria ir àquele lugar cheio de famílias e casais. Pessoas como eu não se comportam como cidadãos normais. Por mais que a sociedade se julgue “aberta”, uma menina com cabelos com mechas roxas, roupas desfiadas, tatuagens e maquiagem estranha sempre é olhada meio de atravessado.
– Mianah fará amizades melhores nesse novo colégio, e começará a freqüentar lugares diferentes dos quais está acostumada – tagarelava minha mãe.
– Como a delegacia, por exemplo – murmurou meu pai.
Isso me fez voltar os olhos para eles.
– Então vão me deixar sair de casa quando arrumar amizades melhores?
– O caminho vai ser longo até deixarmos você sair sozinha de casa. Mas sim, não vamos mantê-la como uma prisioneira. Por exemplo, você está aqui agora – minha mãe respondeu, e parecia satisfeita que eu tivesse falado alguma coisa.
– Isso aqui não conta – fiz uma careta e bebi mais Coca. – É como colocar uma algema em um preso e prendê-lo ao próprio corpo, e depois sair com ele na rua dizendo que está livre.
Meus pais trocaram um olhar. Eles pareciam debater entre si se olhando daquela maneira. Era um tipo de conexão que eu não entendia. Como se seus olhos dissessem uns para os outros: “diga isso”, ou “fique calado, ignore”. Esse tipo de coisa me fazia perceber que minha resistência estava realmente funcionando.
Desviei meus olhos para a porta – os garçons circulavam na frente, com bandejas, interrompendo minha visão às vezes – e estreitei os olhos quando vi um casal chegando.
O garoto – que devia ter mais ou menos a minha idade – tinha uma altura mediana, mas não chegava a ser mais baixo que a garota. Ele falava com a hostess, sem soltar a mão da garota. Ela era linda. O tipo de garota patricinha, mimada, usando roupas de marca e salto alto.
Quando ela levantou o rosto, quase pulei da cadeira. Era a garota que morava na casa em que pichei o muro.
Eu não sabia por que ela era tão importante – só tinha jogado minha pintura na internet e nada mais – mas eu queria muito falar com ela. Olhei para os meus pais; eles tinham parado de falar sobre mim e conversavam sobre qualquer coisa em que eu não estava interessada.
– Já volto – murmurei baixinho, e tenho certeza de que eles não ouviram, mas só fiz isso para que pudesse dizer depois que tinha avisado que ia sair por um minuto.
Andei até a garota, e ela me viu ao mesmo tempo em que vi seu rosto maquiado perfeitamente com mais clareza. Eu conhecia os pais dela – há muito anos, eles tentaram falhamente, numa parceria com meus pais, tornar a nós duas amigas.
Eu não conseguia lembrar seu nome. Simplesmente não fazia idéia nem de com qual letra ele começava, e não sabia como abordá-la. Mas por sorte, ela sorriu simpaticamente e me abordou primeiro.
– Oi, Mianah – disse.
Não era o tipo de cumprimento esquisito ou arrogante de uma patricinha. Na verdade, ela até era bem simpática. Eu só não queria que meus pais revivessem a idéia de me fazer amiga dela.
– Oi – murmurei, forçando um meio sorriso.
– Hã… – a garota (que droga, qual era o nome dela mesmo?!) puxou o braço do garoto que estava com ela. O namorado, obviamente. – Amor, essa é a Mianah. A vizinha… sabe?
O garoto sorriu. Imaginei que ela tivesse contado sobre mim a ele.
– Oi. Você pinta bem – disse ele.
Acenei com a cabeça.
– Oi. Ah… obrigada.
A garota sorriu.
– Vá para a nossa mesa – disse ao namorado. – Eu só vou falar uma coisa para a Mianah.
– Claro, anjo – ele disse, então beijou a mão dela antes de soltar.
Aquilo revirou meu estômago ao mesmo tempo em que me provocou uma sensação esquisita e horrível de solidão. Os dois pareciam tão apaixonados…
– Então, eu… – começou a garota, e depois apenas deu de ombros. – Você já viu a foto, não é?
– Ah! Sim – por um minuto eu tinha me esquecido do motivo por que ela se tornou um pouco importante. A foto.
– Bom, eu espero que não tenha se importado. É que de repente todo mundo gostou tanto… é realmente uma pintura tão…
– Não me importei nem um pouco – eu a interrompi.
– Que bom – ela sorriu e jogou os cabelos sedosos para trás. – Sobre o que estava escrito na foto, é… teve alguém que meio que… levou a sério.
Eu a fitei, surpresa.
– Como assim?
– Um garoto. Ele viu a foto e veio conversar comigo por ask. Ele disse que o nome dele é Theo, e que conhece você.
Não ouvi direito a última parte. Tudo o que ficava em minha mente era “ele disse que o nome dele é Theo”…
O nome dele é Theo…
Meu Deus. Ele tinha realmente… ele queria realmente me encontrar?
– Estou ciente de que isso é loucura – disse a garota. – Mas ele realmente te descreveu bem. E, além do mais, ele disse que os olhos da pintura são os dele.
Ela sorriu, e eu forcei outro sorriso condescendente, mas não consegui falar.
– Ele só me pediu para que passasse isso para você. E para você procurá-lo, mesmo que for pelas redes-sociais. Eu ia até a sua casa para te falar isso, mas já que nos encontramos aqui…
Eu assenti.
– E então? Você o conhece? – a garota pressionou. – Sabe quem ele é mesmo? Não quero te envolver em nada estranho…
– Não. Quer dizer, sim – eu finalmente falei. – Eu o conheço. É só que é muito louco tudo isso. Eu não o vi muitas vezes – mordi o lábio, depois suspirei. – Só que agora eu não vou poder procurá-lo. Então… se puder dizer isso a ele… não quero te fazer de garota de recados, mas…
– Não. Tudo bem. Eu passo o recado.
– Ok. Obrigada. Foi legal te ver.
A última parte pode até ter soado falsa, mas de alguma forma era verdade. Theo estava mais perto outra vez, por causa da ajuda da garota. Uma ajuda que ela não tinha idéia que deu, mas tudo bem.
Meu coração começou a disparar, e quando aquela garota cujo nome eu ainda não lembrara começou a se afastar, senti que não podia deixar que ela passasse um recado tão mínimo e subjetivo a Theo.
– Ei! Espere aí! – falei, dando passos rápidos em direção à garota.
– Sim? – ela disse, se virando.
– Hã. Desculpa. Só diga a ele que vou estar no mesmo lugar onde nos encontramos pela primeira vez, às três da tarde, amanhã. Acha que dá tempo de falar?
A garota me olhou. Agora ela parecia meio assustada. Ou pensando em como eu era ridícula.
– Claro.
– Certo. Obrigada.
Ela se virou rapidamente, assim como eu fiz.
Eu não fazia idéia de como sairia de casa para encontrar Theo no dia seguinte. Eu não fazia idéia do que faria quando o visse. Eu não fazia idéia do que aconteceria se meus pais descobrissem a fuga que eu teria de realizar, de qualquer jeito.
Mas eu tinha absoluta certeza de que iria vê-lo. E logo. De qualquer maneira, eu o encontraria.
Notas finais
Reviews, por favor!
Beijos e até o próximo capítulo!
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