Notas iniciais
Eu sei que prometi para hoje de manhã, mas juro que não deu tempo de postar! Eu tive a ideia de mudar algumas coisinhas e precisei de mais tempo, desculpem, não vai acontecer de novo!
Vamos ao capítulo...
Boa leitura!

Capítulo Nove

– Ei, você e a Luiza viraram amigas de novo?

Minha mãe me deu um sorriso satisfeito enquanto eu voltava a me sentar, estremecida.

Luiza. O nome dela era Luiza! Que mente problemática esquece um nome como esse?

Não era como Theo, mas…

Minha mãe ergueu as sobrancelhas para mim enquanto eu olhava fixamente para a mesa, tentando destravar algo que estava emperrado em minha mente, alguma engrenagem que tinha parado de funcionar assim que ouvi o nome de Theo na boca de Luiza.

– Eu me lembrei dela e fui cumprimentá-la – falei mecanicamente. – Não somos amigas, nunca fomos.

– Pediu desculpas por emporcalhar o muro da casa dela? – perguntou meu pai.

– Vocês são os únicos que pensam que eu “emporcalhei” o muro. – minha voz foi ganhando força enquanto eu ficava irritada. – Ela não deixou os pais dela apagarem a pintura. Ela adorou, e acho que eles gostaram também. A foto está na internet, e está fazendo o maior sucesso.

Meus pais ficaram em silêncio, olhando para mim sem acreditar. Soltei um suspiro resignado.

– Podemos ir embora agora?

Minha noite foi péssima.

Enquanto eu tentava pensar em um escape para ver Theo, a iminente certeza de que eu seria arrastada para a escola nova me deixava apavorada. Eu não podia ir. E Lena? E Victoria? Nós éramos amigas inseparáveis. Não podíamos simplesmente romper nossos laços. Eu tinha prometido que resistiria. Eu não podia me deixar enjaular.

Quase tive uma parada cardíaca quando, às cinco horas da manhã, minha mãe bateu na porta do meu quarto. Ela segurava cabides e uma sacola, e acendeu a luz do quarto, chamando meu nome com animação.

– Uniforme novo. Vamos, você tem que se arrumar, Mianah.

Rolei na cama e xinguei alto.

– Mianah! – minha mãe me repreendeu.

– Ah, qual é! – berrei, enlouquecida. Eu odiava que me acordassem. Se eu tivesse uma faca à mão, poderia esfaqueá-la sem perceber. – Cinco horas? Você está louca? Perdeu a razão? Sai daqui!

Minha mãe sacudiu a cabeça. Eu ouvi os saltos dela batendo no chão.

Ela estava usando saltos? Às cinco da manhã?

Senhor. Eu morava em uma casa de loucos.

Senti minha mãe se inclinar sobre mim.

– Levante. Agora. – ela ordenou de modo duro.

Soltei um grunhido alto e afastei os cabelos do rosto. Ouvi mais do que vi – minha vista estava nebulosa por causa do sono – quando ela arquejou.

– Meu Deus. O que é isso na sua orelha?

– Hum… um alargador? – murmurei.

– Não! Você não pode ir com isso para a escola nova! Não! Tire isso! Que horror. Que horror!

Minha mãe saiu do quarto como se estivesse havendo um incêndio na casa. Eu não entendia, sinceramente. Eu não entendia por que eles tinham me deixado chegar até ali, com todas aquelas passagens na polícia e tudo o mais, e só agora resolver interferir. Eu não achava possível, mas se talvez eles tivessem começado a se importar antes

Eu sabia que minha mãe não ia me deixar voltar a dormir, e nem sabia se eu mesma conseguiria. Assim, saí da cama e dei uma olhada nos cabides e na sacola que minha mãe deixara.

Havia uma saia preta de pregas em um cabide e uma camisa branca com a insígnia do colégio no peito, ao lado direito, no outro. Por cima disso, havia um casaquinho preto e uma gravatinha feminina.

– Ótimo. Como em uma High School americana. Que inferno! – resmunguei.

Abri a sacola e me deparei com um par de All Stars pretos novinhos – pelo menos, eram All Stars – e com uma mochila nova. A imagem de mim mesma vestindo aquele uniforme com aquela mochila nas costas, de cabelos presos e sem maquiagem me fez ter náuseas. Isso sim era um horror.

Tomei um banho gelado como sempre enquanto minha mente começava a agir. Simples. Fugir da escola devia ser tão fácil quanto fugir de casa. Eu podia encarar uma expulsão. Aliás, eu ficaria muito feliz se fosse expulsa do colégio.

Me sequei em um toalha e vesti o novo uniforme. A saia ficou um palmo acima dos joelhos e o conjunto todo me deixou igualzinha às garotas de High School Musical. Odiei minha nova imagem; eu não queria ser aquela pessoa. Meus cabelos com mechas roxas ficavam completamente fora de contexto enquanto eu estava enfiada naquele uniforme. Com o alargador, acontecia a mesma coisa.

Respirei fundo e dobrei as mangas do casaquinho preto horroroso até que ficassem na altura dos cotovelos. Tirei os tênis e procurei até encontrar minha meia-calça preta desfiada, e a vesti, depois coloquei meus velhos All Stars, para ficar mais original. Deixei a gravata frouxa no pescoço e sequei meus cabelos, deixando-os jogados, as mechas bem perceptíveis. Fiz a maquiagem de sempre e peguei minha mochila velha também, colocando dentro dela alguns cadernos, para dar volume, e minhas roupas normais – jeans e camisetas largas – e óculos escuros também.

Eu sairia da escola e iria direto para a casa de Lena, ou de Victoria. Eu não fazia idéia de onde ficava a nova escola, mas fosse aonde fosse, eu fugiria. Teria de agir rápido; as garotas só iam para a escola às oito da manhã, já que as aulas começavam às oito e meia, então eu tinha pouco menos de três horas para ir até a escola nova e chegar à casa de uma das garotas antes que elas fossem para o colégio.

Eu só conseguia pensar em Theo. Eu precisava vê-lo. Eu estava fazendo aquilo por ele; só por ele. Era estranho, assustador, mas verdade. Claro que, quando se dessem conta de que a aluna nova não estava no colégio, contatariam meus pais. Claro que eles ficariam loucos. Claro que eu estaria ferrada, novamente. Mas não havia como eles me acharem. Eles jamais perguntariam nada a Luiza – eles não tinham nem como desconfiar que eu fugiria por algo que ela falara. Eles nem sabiam do que se tratava a pintura.

Eu ri baixinho. Tolos. Eram dois tolos tentando domar uma criatura indomável.

Ridículo.

Desci as escadas para a sala. Minha mãe estava no sofá, e ela não usava o uniforme de enfermeira. Estava vestida de madame, e provavelmente ela e meu pai me levariam pela mão até dentro da sala de aula, e se apresentariam à diretora como os malfadados pais da garota problemática, que, eles esperavam, fosse consertada naquela linda e perfeita instituição de ensino. Blá, blá, blá!

– Mianah, não – minha mãe simplesmente disse. – Para cima. Quero o uniforme completo.

– Está completo. Não está faltando nada. Estou completamente vestida – murmurei, indo para a cozinha. Peguei algumas torradas no armário e entornei um pouco de suco de laranja direto da caixa. Isso fez minha mãe emitir um ruído de nojo.

– Que falta de educação! – ela me repreendeu de novo. – Onde estão seus modos?

– Achei que estivesse com pressa – falei, dando uma dentada na torrada.

– Suba logo e arrume sua roupa – ela ignorou meu comentário. – Seu material novo está aqui na mesinha de centro da sala.

– Ah. Tá. – eu dei de ombros e continuei mastigando.

Minha mãe me olhou com desgosto.

– Olhe, estamos tentando ajudá-la. Você precisa terminar o colégio e tentar apagar seu passado de crimes, para ter uma chance de…

Crimes? – eu bufei, batendo com a caixa de suco no balcão. – Crimes? – repeti. – Eu picho muros, pelo amor de Deus!

– Não vamos discutir esta questão de novo. Segundo a lei, sim, pichar muros é crime. Danos ao patrimônio…

– Mãe, poupe o trabalho de mover sua língua – eu a interrompi, e ajeitei a bolsa no ombro. Andei até a mesa de centro da sala e, mal olhando o novo material, coloquei-o dentro da bolsa. Ela me observava em silêncio. – Vou escovar os dentes e já volto.

Subi as escadas de volta para o quarto e escovei meus dentes minuciosamente. Desci de novo as escadas depois de encostar a porta do quarto e encontrei meu pai e minha mãe na sala desta vez.

Meu pai me olhou duramente e minha mãe fez uma cara de “está vendo? É tão grave quanto pensávamos”.

– Para o carro – ela disse.

O novo colégio ficava mais perto de minha casa do que eu imaginava. Apesar de morar em uma área nobre do Rio, eu estudava antes em uma escola menor e menos exigente porque meus pais sabiam que eu não conseguiria atingir as médias de uma boa escola, – já era difícil quando a escola era ruim, porque estudar não era a minha paixão – mas agora meus pais queriam mudar isso. O colégio era gigantesco e parecia muito luxuoso e bem-cuidado, e os filhos das melhores famílias provavelmente estudavam ali.

Meu pai parou o carro na porta do colégio. Todas as garotas estavam vestindo aquele uniforme ridículo – que eu usava um pouco modificado apenas, não que eu estivesse satisfeita com ele, jamais – e seus cabelos presos balançavam com o vento da manhã. Eram seis e quinze. Seis e quinze. Minha mãe disse que as aulas começavam às seis e meia. Eu não podia acreditar. Isso era um absurdo. Ridículo. Impossível.

– Certo. Quando subir as escadas e passar pelas portas de vidro e as catracas, haverá uma orientadora te esperando – minha mãe explicou enquanto eu olhava tudo com um ar incrédulo. Eu não ia nem pisar naquele lugar. Não, não, não! – Pegue este cartão magnético e passe-o pela catraca. Você estará dentro e só conseguirá sair com segunda ordem, ou no fim do período, ao meio-dia – minha mãe estendeu para mim um cartão com uma foto minha. Uma foto muito, muito velha. Eu devia ter uns doze anos. Meus cabelos eram castanho-claros e meus olhos eram apáticos. Devia ser a “melhor” foto que meus pais tinham de mim.

Meio dia. O cartão só funcionaria de novo ao meio dia.

Assenti rigidamente.

– Tchau – murmurei sem mais nada a dizer, e desci do carro.

Pelo menos eles não me levariam pela mão. Uma orientadora faria isso. Beleza.

O carro continuou parado na frente do colégio. Eles não iriam embora sem antes me ver entrar naquele lugar asqueroso.

Todos me olhavam. As garotas passavam por mim e me lançavam olhares de nojo. Os garotos – que pareciam vestir algum tipo de smoking ridículo – reviravam os olhos uns para os outros e murmuravam palavras de desprezo.

Fui andando em meio àqueles alunos que eu já odiava. Esnobes. Mesquinhos. Que ódio! Eles eram como paredes de opressão, eram como lembretes de como meus pais e todo mundo queria que eu fosse. Eram, para mim, simplesmente coisas abomináveis. Eu preferia morrer a me tornar como eles.

Passei, finalmente, pelas portas de vidro. Avistei uma mulher vestida com um conjunto de calça e blazer pretos que a deixavam velha e séria demais, e tive certeza de que ela era a tal orientadora. Ela parecia estar com sono, assim como eu, e não estava exatamente prestando atenção para ver se avistava a garota estranha.

Olhei de soslaio para trás, e não vi mais o carro dos meus pais. Era a minha chance. Correr ou correr.

Virei-me para trás e saí novamente pelas portas de vidro. Desci as escadas de volta à calçada num átimo e novamente todos ficaram me olhando. Olhei para os dois lados da rua, escolhi um para o qual seguir e corri, desenfreada.

Livre. Sim, eu estava livre. Por enquanto.

Era cedo demais para ir até o Pão de Açúcar. Theo só estaria lá às três da tarde. Mas Lena e Victoria com certeza ainda não tinham saído para o colégio. Eu seria mais rápida se tivesse o skate, e duplamente abençoada se tivesse minha moto. Mas não tinha nenhum dos dois no momento, só minhas pernas e a infinita vontade de mandar tudo e todos se danarem.

Eu posso ter corrido por horas ou por um único minuto, não sei dizer ao certo. Só quando cheguei à casa de Lena e avistei a de Victoria logo ao lado foi que senti tudo. Cansaço, sede, exaustão, o peso da corrida incansável. O horário tinha sido ótimo. Seis e meia da manhã não fazia calor, e nem havia muita gente na rua. Eu queria cair ali mesmo na calçada e dormir até recobrar minhas forças.

Calculei quanto tempo mais eu teria até que a escola ligasse para os meus pais perguntando sobre mim, e não era muito tempo – se é que já não tinham ligado. Era óbvio que o primeiro lugar a que iriam era a casa de Lena e Victoria. Eu não sabia se eles ainda se lembravam onde elas moravam – há muito tempo eu tinha pedido ao meu pai uma carona até a casa delas –, mas eu sabia que eles fariam de tudo para lembrar.

Bati palmas em frente ao portão, porque não achei a campainha, e também não havia interfone. A mãe de Lena saiu da casa com os olhos cerrados, como se a fraca claridade do início do dia machucasse seus olhos claros.

– Bom dia – eu disse, dando um sorriso. A mulher me cumprimentou com a cabeça. – Posso falar com a Lena?

– Ela está dormindo.

– Eu sei. Mas é urgente.

A mãe de Lena hesitou um pouco e depois abriu o portão.

– Ela está no quarto. Pode entrar. Mas não me responsabilizo se ela bater em você – ela deu um pequeno sorriso.

Eu sabia que Lena não ia ficar brava assim que visse que eu era quem a estava acordando. Entrei na casa de Lena, passando pela sala apertada e a mesa de madeira da cozinha até chegar à porta do quarto dela. Girei a maçaneta e avistei minha amiga. Não estava mais escuro lá dentro – as cortinas claras deixavam entrar o tênue brilho da manhã, assim como a porta entreaberta. Lena estava espalhada na estreita cama de solteiro de uma forma hilária, e eu quase não quis acordá-la para continuar observando aquela cena cômica. Mas sacudi seu ombro fracamente, e ela deu um pulo quase instantâneo ao sentir meu toque.

– Mãe de Deus, o que é isso? – ela gritou. – Não me mata! – implorou em seguida.

Caí na gargalhada.

– Sou eu, sua idiota – eu disse entre os risos.

– Sua estúpida! – Lena disse, quando seus olhos finalmente focaram em meu rosto. – Quase achei que fosse…

– Achou que fosse algum estripador? – eu ainda ria.

– Eu achei que nunca mais fosse te ver – ela disse, me fazendo parar de rir. Nos abraçamos brevemente.

Suspirei.

– Eu tinha que dar um jeito. Mas daqui a pouco meus pais vão estar me caçando. Precisamos ir para algum lugar. A escola nova é ridícula, e eu…

Agora foi a vez de Lena rir.

– Estou vendo pelo seu uniforme! Credo! – ela ria histericamente.

Revirei os olhos.

– Fiz o melhor que pude, certo?

Lena ficou séria de súbito.

– Desculpa.

Ela saiu da cama e acendeu a luz do quarto. O cômodo não era tão bagunçado quanto o meu, mas quase. Ela pegou algumas roupas no chão e se vestiu ali mesmo, na minha frente, sem vergonha nenhuma.

– Sem tempo para frescura – explicou.

Ficamos em silêncio por alguns momentos, enquanto ela se arrumava.

– E os olhos na pintura, cara? – ela perguntou, me olhando meio de lado. – Sinistros.

– Hã – eu pigarreei. – A Victoria mostrou para você?

– Não. Mas o Rio inteiro já viu. O Brasil inteiro já deve ter visto; sei lá, talvez o mundo.

– Não exagera.

Eu me senti desconfortável falando sobre os olhos de Theo. Victoria sabia que tinha alguma coisa errada, e Lena também. Elas me achariam uma idiota por me interessar por um cara como Theo. Surtariam se soubessem que eu planejava me encontrar com ele mais tarde. Eu já estava me afastando delas; apaixonar-me por um playboy seria como dar a cartada final e acabar com nossa amizade.

O silêncio zunia enquanto Lena me olhava. Ela suspirou e segurou meu cotovelo, jogando uma mochila sobre o ombro e me puxando para fora do quarto.

– Eu sei para onde vamos. Tenho uma pessoa para te apresentar. Acho que você precisa de uma boa dose de realidade.

– Como assim?

Lena suspirou.

– É um cara. Ele é exatamente o que você precisa. Ele já te viu outras vezes na pista de skate. Você está com muita besteira na cabeça desde que quase morreu lá naquele Pão de Açúcar.

Meu estômago girava e girava e girava. Um cara. Eu não queria um cara, eu queria Theo!

– Lena…

– Relaxa. Você vai gostar dele. Pelo bem da nossa amizade, para você se libertar. E para esquecer quem quer que seja a pessoa que está te enlouquecendo.

Notas finais
O que estão achando? Reviews???
Até o próximo capítulo!