Antes Que Você Vá
8 Capítulo 7
Notas iniciais
Queria agradecer mais uma vez pelas recomendações, reviews e favoritos, e a todos que estão acompanhando a história. Obrigada, de coração.
Esse capítulo é só uma espécie de "preparação" para o próximo, porque se eu colocasse tudo junto ia ficar muito muito grande e aí fica ruim de ler. De qualquer forma, espero que gostem.
Boa leitura!
Capítulo Sete
– Cadê o jantar?
A cabeça do meu pai surgiu na fresta da porta do meu quarto logo depois que ouvi sua voz no corredor.
– Hã, deve estar em algum lugar da geladeira – respondi sem entonação.
Minha cabeça estava zonza ainda, pensando na minha pintura no muro.
– Não, agora você tem de fazer o jantar. Sabe que horas são? Acabamos de chegar e precisamos comer.
– Engraçado, porque eu não senti fome o dia todo.
E, se meu estômago roncasse justo naquele momento eu nunca o perdoaria.
– Mianah. Nós vamos fazer você entrar na linha. Agora; quero seu celular e o computador.
– Não.
– Sim, pode ir tirando o celular de onde escondeu.
Estreitei os olhos. Meu pai suspirou.
– Eu sei que você escondeu. Vamos lá. Quando eu descer, quero você pronta para sair e quero o celular e o computador em cima da mesa da sala de jantar.
– Aonde é que nós vamos?
– Jantar fora. Como muitos filhos e pais fazem.
Eu ri alto, sarcasticamente.
– Eu não vou jantar fora com vocês, não mesmo.
– Vai. Porque você devia ter feito o jantar. Então a menos que queira ir para o fogão agora, vai sair com a gente. Como uma pessoa normal.
– Como se eu fosse um animal, você parece dizer – murmurei.
Aquilo na minha voz era uma nota de mágoa?
– Você não é nada disso – meu pai com certeza notou a mágoa em minha voz. – Só quero que vista uma blusa que não tenha caveiras ou que seja preta e rasgada. Só quero que não se vista como um homem ou como uma delinqüente.
– Eu não vou me vestir como você quer, pai.
Meu pai estava ficando irritado. Eu via seu rosto ficando sucessivamente vermelho.
– Desce. Logo. E deixe as coisas aonde eu mandei.
Ele bateu um pouco a porta ao sair. Eu mal estava ligando se o estava deixando revoltadinho. A única coisa por que temia era sua saúde. E se eu o matasse de desgosto ou provocasse nele um enfarte? Eu podia não fazer o que ele queria, mas não desejava a morte dele!
Cobri a cabeça com as mãos. Meu Deus, eu precisava tomar uma drástica e desesperada providência em relação a tudo isso. Pensei em fazer uma espécie de greve de fome e ver se os dois ficavam com pena de mim, mas eu não era de fazer esse tipo de coisa patética. Também pensei em ligar para a polícia e falar que estava sendo escravizada ou qualquer coisa assim – mas meus pais eram amiguinhos demais da polícia. A medida mais drástica seria sair de casa – mas eu também não estava a fim de perder o conforto e morar de favor com alguém.
Digitei uma mensagem rápida para Lena e Victoria, num acesso de inspiração e coragem. Eu não tive coragem de falar com as duas de nenhuma forma, simplesmente por não saber o que dizer. Elas também não me procuraram, e isso significava que sabiam que eu estava encrencada – ou talvez também tivessem sido presas à tarde. Enfim. Enviei a mesma mensagem para as duas.
Oi meninas.
Acho que agora me ferrei de verdade. Pelo menos, em algumas coisas. Se eu for presa de novo, vou para o tribunal, e meus pais estão loucos. Me tiraram da escola. SIM, É ISSO O QUE VOCÊS LERAM. ELES VÃO ME OBRIGAR A IR A OUTRA ESCOLA. Ou acham que vão. Não sei, preciso pensar. Eles querem que eu cozinhe, lave roupa, até dispensaram a empregada. Acham que eu deveria ser uma mulherzinha certinha, Deus do céu. Querem me obrigar a ser. Não liguem mais para este número, não me mandem mais mensagens no computador. Eles vão confiscar os dois aparelhos daqui a minutos. Eu não sei quando vou ver vocês de novo; eles não me deixam mais sair. Agora vou JANTAR COM ELES. SIM, PASMEM. E MEU PAI QUER QUE EU USE ROUPAS “FEMININAS”. Eu não sei o que fazer, mas vocês sabem que vou pensar em algo. E, Victoria, quanto à pintura – que provavelmente a Lena já deve saber a respeito agora –, sim, é minha, e sim, eu estou pirando. Não vou explicar mais nada agora. Não pensem que eu estou me rendendo, eu não vou fazer o que eles querem. Tenho um monte de coisas para contar. Espero que possamos nos ver logo. Até.
Deixei meu celular perto do computador e fui tomar outro banho. Realmente, greve de fome não ia dar. Eu estava muito faminta. Provavelmente chegaria ao restaurante e pediria a maior porção de todas.
Enrolei-me na toalha e saí caçando uma roupa especial; pela primeira vez. Mas não era uma roupa como a que meu pai queria que eu vestisse. Eu queria uma roupa especial, mas que provocasse meus pais e fosse completamente contrária ao que eles esperavam.
Encontrei uma legging preta desfiada nas coxas, e calcei uma bota de cano longo de couro. Vesti uma blusa preta de ombro caído, com uma caveira enorme na frente, mas antes a estiquei em cima da cama e desfiei um pouco a barra com lâmina de depilar. Joguei meus cabelos ao redor do rosto e nos ombros e passei rapidamente um esmalte cor de carvão nas unhas. Carreguei meus olhos com maquiagem forte, e peguei em uma gaveta do banheiro um conjunto de alargadores que eu estava com vontade de colocar havia um tempinho, mas não tivera coragem. Era o tipo de coisa perfeita para se fazer em um momento como esses.
Eu sabia que ia doer, e que eu corria riscos de infecção, inchaços horríveis e outras conseqüências, e talvez um alargador tão fino não valesse à pena. Eu me sentia cada minuto mais como uma selvagem revoltada, indomada, do que como uma garota. Até quando eu iria adiante com essa resistência, eu não sabia. Mas estava disposta a ir até meu máximo.
Lavei minhas mãos na pia e encontrei um vidro de álcool no fundo do armarinho debaixo da pia, – eu estava me surpreendendo com o que podia encontrar ali – e higienizei da melhor maneira que pude, tanto o alargador quanto minha orelha, e a única agulha que eu tinha – que na verdade servia para costurar roupas em lugares que não deviam estar rasgados.
Fechei os olhos, trinquei os dentes, respirei fundo e reabri os olhos. Engoli em seco. Tentei sorrir, puxar aquela coragem que sempre tive dentro de mim.
– Vamos lá, Mianah…! – eu disse a mim mesma.
Finquei a agulha na cartilagem, sentindo todo o meu corpo se arrepiar e minha mão tremer um pouco. Está bem. Tremer bastante. Antes de perder a coragem e começar a chorar, passei o alargador fino – mas a dor pulsava imensamente – pelo buraquinho, que se esticou como um elástico.
– Ai. Ai, ai, ai. Ui – bufei baixinho, rangendo os dentes, grunhindo em silêncio.
Despejei álcool em um pedaço de algodão e passei em minha orelha. Estava vermelha, um pouco inchada, ainda pulsando de dor.
Se eu me ferrasse por causa disso, me consideraria mesmo uma estúpida.
Mas gostei do resultado final. Meus pais ficariam loucos, e não teriam como fazer nada.
Depois que a dor arrefeceu, me senti pronta para descer. Foi um pouco difícil transportar a CPU do computador lá para baixo, mas consegui. Coloquei tudo na mesa de jantar, como ordenara meu pai, sentindo por não ter como resistir a isso.
Minutos depois que desci, meus pais saíram do quarto. Eles estavam vestidos de forma casual e normal, pois não íamos a um lugar chique. Eu não sei quem ficou mais boquiaberto ao meu olhar – se foi meu pai ou minha mãe. Ambos soltaram exclamações exasperadas e fizeram caretas.
– O que seu pai disse sobre se vestir bem? – disse minha mãe, olhando a barra desfiada da minha blusa.
– Para cima, Mianah – meu pai disse com a voz dura, firme. – Agora.
– Eu não encontrei uma roupa legal – fiz uma careta fingida. – Só tenho essas. E as roupas da minha mãe – completei, já sabendo qual seria a próximo argumento deles – ficam com um caimento péssimo em mim.
– Mas ficam melhores do que isso – falou minha mãe.
– Não. Ah, vamos embora. Não vou vestir as roupas que vocês querem. Estamos todos com fome. Vamos logo.
– Não, não vamos sair com você assim! – objetou meu pai.
– Vocês têm vergonha de mim, ah, desculpe, eu tinha esquecido. Então, vamos ficar em casa. Aliás, podem ir. Eu fico em casa.
Os dois suspiraram e olharam um para o outro. Meu pai ergueu as mãos. Não era bem uma rendição, era mais como uma demonstração de “paz”.
– Hoje você vai assim. Só hoje.
Notas finais
Reviews???
Beijos e até o próximo capítulo!
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