Notas iniciais
Gente, aqui está um novo capítulo para vocês.
Quero deixar claro que muitas opiniões da Mianah narradas aqui não são minhas, hein? Hahaha
Quero dar as boas-vindas à Leslie, minha nova e linda leitora - obrigada pelo review e por favoritar a história, Leslie. Fiquei imensa e absurdamente feliz. Obrigada a todos os outros leitores e pelos reviews. Espero que estejam gostando.
Boa leitura!

Capítulo Seis

– Eu esperava não precisar mais ver você, Mianah – disse um policial, apontando uma luz forte no meu rosto, cegando-me.

Eu não conseguia ver a cara dele, mas imaginei que fosse algum policial que eu já estava acostumada a ver, talvez até conhecesse ele um pouco.

– Pois é! – falei, dando de ombros, juntando minhas tintas rapidamente, sempre olhando para a viatura, para provar que eu não ia tentar nada.

Eles sabiam que eu não ia tentar nada. Eu era uma inofensiva adolescente pichadora. Grande coisa. Eu duvidava de que se realmente dependesse deles, eles me prenderiam. Que nada. Mas “a lei tem de ser cumprida”. A porcaria da lei só não é cumprida com bandidos de verdade, que coisa, não?

– Eu sempre decepciono vocês, não é? – falei, andando em direção a eles com a mochila nas costas.

Percebi que eram dois policiais, e o que falou comigo realmente eu já conhecia. Era o Lourenço, alguma coisa Lourenço – eu nunca sabia o nome dos policias, porque sempre os chamavam pelo sobrenome, e eles tinham sobrenomes ridículos. Enfim, me desculpem os “Lourenços” da vida.

Os dois sacudiram as cabeças e nem tocaram em mim – como eu disse, era inofensiva. Até me deixaram ficar com minha mochila. Lourenço dirigiu para a delegacia, silencioso, sem nem me monitorar.

Eu até me achava uma presa meio audaciosa. Não é todo mundo que chama os policias de “vocês”, podia até ser falta de respeito ou sei lá o que. Eu também não me envergonhava de ir até a delegacia cantarolando ou mascando meu chiclete tranquilamente.

No caminho para a delegacia, fiquei me lembrando da primeira vez em que fui em cana. Rá. Eu fiquei assustadinha, tinha de admitir. Lembro-me de soltar o spray e olhar cegamente para a luz da viatura, erguendo os braços como se estivesse sendo flagrada na cena de um crime hediondo. Como se tivesse assassinado alguém.

Não, eu não estou incentivando ninguém a fazer o que eu faço – só estou falando que isso não tem nada a ver com um crime horrível. Com o tempo, fui percebendo isso, e não foi por isso que não parei de pichar. É só que eu gostava de pichar. Sempre retratava meus sentimentos ou então, quando não os tinha – era comum isso – pintava qualquer coisa que me viesse à mente.

E os olhos naquele céu… não, aqueles olhos eram diferentes. Eram reais. Eram lindos, verdadeiros, eu jamais os veria de novo. Pela primeira vez, eu tinha pintado pensando realmente em alguém. Em homenagem a alguém ou simplesmente por alguém. Por ele.

Doía em mim, de uma maneira vergonhosa, a certeza de que jamais o veria. Theo. Ele era tão diferente de todo mundo que eu já tinha conhecido – isso o fazia ser bom e interessante. Era aquela sensação constrangedora e irritante, gostosa e nova, que ninguém tinha tido a ousadia de exercer sobre mim, e que, eu tinha certeza, ele mesmo não tinha consciência de provocar.

Ele nem reparou em você, pensei comigo mesma. Eu era ridícula, realmente. E ele também. Foi só Theo passar em minha vida para que ela virasse um emaranhado de linhas ininteligíveis e indecifráveis, fazendo-me me afogar e pintar olhos inebriantes.

Esse tipo de pensamentos e acontecimentos, essas perguntas estúpidas de “será que ele pensa em mim?”, “será que ele reparou em mim?”, blá, blá, blá, eram coisa de garotas vaidosas e egoístas que não tinham o que fazer. Sonsas. Idiotas.

Eu não era como elas, ou não queria ser. Ou não podia ser.

Eram muitos “ou” e “quase” e vírgulas, e dúvidas! Socorro! Onde estava a verdadeira eu? Aquela que era corajosa, firme e normal?

Ok. Talvez não normal.

Um assobio alto de Lourenço fez com que eu despertasse. Estávamos na delegacia. Ah, meu doce quase-lar.

– Com sono, Mianah? – disse ele com um sorriso de ironia nos lábios.

Franzi a testa e neguei com a cabeça. Ele sorriu um pouco mais.

– Vamos lá, mocinha – disse.

Tropecei para fora da viatura. Passei pela sala da frente da delegacia – que tinha alguns poucos indivíduos esperando não sei o que – ladeada pelos dois policiais. Passamos pela porta da sala do delegado. Ele estava lendo alguns papéis, e os deixou logo de lado assim que me sentei diante dele.

– Ah, Mianah, mas de novo?! – exclamou, sacudindo a cabeça com desgosto.

– Estava pichando, mas… – senti uma desconhecida compulsão de me explicar. Uma compulsão que eu não tinha; nunca tive, nem na primeira vez em que fui presa.

– Vai se explicar agora, Mianah? – o delegado estava quase rindo.

Coloquei a mão na testa.

– Não, é que… – eu me detive.

– Olhe, você tem dezoito anos. As coisas estão se complicando, suas passagens estão se acumulando… isso dificulta tudo, até mesmo para você tirar um visto para outro país, qualquer coisa assim… logo será necessário que você contrate um advogado e…

– Qual é, delegado – revirei os olhos.

– Qual é? Qual é, não. Isso é sério. A próxima vez que você fizer isso de novo, vai pagar mais caro do que imagina. Vou ter de te ensinar, de verdade, a não brincar mais com a lei.

– Eu estou só pintando!

– Existem telas para isso. Não muros e bancos de praças.

Suspirei.

– Uma noite na cela hoje – disse o delegado, assinando minha ficha. – O tribunal amanhã. Não pense que quero isso, só que você é classificada como uma jovem delinqüente. Delinqüente!

– Delinqüente – fiz eco à palavra. Ela me dava náuseas.

– Pode ir para a cela – disse o delegado. – Pense no que eu disse, sim?

Engoli em seco e assenti.

Outro policial foi me buscar e me levou para a cela nojenta. Por algum motivo, foi mais difícil dormir, e logo minha mente estava vagando para a cena imaginária – e que provavelmente se concretizaria – da minha linda pintura sendo apagada.

Depois que fiquei inconsciente, porém, só acordei com um policial batendo nas grades da cela.

– Ei! Acorda! – gritou ele.

Levantei-me de um salto e calcei meus tênis.

– Estou indo, estou indo – murmurei, abobalhada, zonza de sono.

O policial me levou até a sala do delegado, onde minha mãe e meu pai estavam, furiosos.

– Meu Deus! Meu Deus! Afogada, e presa! Na mesma noite. Você precisa de juízo, Mianah, meu Deus! Socorro! Onde você vai parar? – minha mãe estava louca, falando histericamente enquanto meu pai me olhava com uma expressão mortal.

– Foi só uma…

– Uma pintura? Uma pichação? Passando tempo? Falei para você não sair do quarto! Falei outro idioma, por acaso?

Minha mãe respirou fundo enquanto o delegado erguia as mãos. Eu olhava fixamente além do ombro dela.

– Compreendo a situação, senhora Antonelli, mas aqui é um local em que não admitimos…

– Desculpe – disse minha mãe, cruzando os braços no peito.

– Eu já expliquei a situação à Mianah. Eu sinceramente e inteiramente espero que ela não faça novamente.

– Fique certo de que isso jamais se repetirá – meu pai falou pela primeira vez.

O delegado acenou com a cabeça.

– Então, adeus – disse ele.

Minha mãe me segurou firme pelo braço e me rebocou até o carro.

– Você está encrencada, mocinha. Muitíssimo encrencada – ela falou.

Meu pai dirigiu até em casa com mais rapidez do que podia ser seguro, e bateu a porta quando todos entramos.

Ele estava furioso. Louco da vida. Pirado mesmo. Ai, Deus. Provoquei a fera.

Trinquei os dentes enquanto ele começava.

– O muro que você pichou… conhecemos os donos da casa. Reconheceram você, e ligaram para a polícia e depois para nós. Mas te deixamos passar essa noite lá, como sempre, mesmo sabendo que você não aprende a lição. Não vou mais admitir isso! Não vou mais engolir o que você faz! Está querendo chamar a atenção de alguém? Está com problemas psicológicos, vamos a um médico! Levamos você a um psiquiatra, o que for preciso, mas você não tem necessidade de fazer isso. Entendeu? E só vou dar dois ultimatos: não vai ver suas amigas corrompidas novamente. E eu vou, ah, eu vou te trancar no quarto toda noite. Se sair pela janela, espero que caia e quebre a perna. É horrível dizer isso a minha filha, mas você precisa aprender! E se não for o suficiente, podemos fazer mais. Pelo amor de Deus. Criamos você como uma garota normal e feliz, que deveria terminar a escola e ir para a faculdade, se casar e…

– Não! – gritei, interrompendo-o finalmente. – Eu não sou assim! Eu não vou ser a filha perfeita que vocês queriam, e lamento por não poderem me substituir! Eu não quero fazer faculdade, não quero me casar, não quero ser como vocês querem! E não vou deixar de ver a Lena e a Victoria. Não mesmo.

– Vamos ver quem fala mais alto aqui, Mianah. Vamos ver.

Meu pai saiu de casa, e minha mãe só me fitou profundamente, antes de sacudir a cabeça e subir as escadas.

– Não quero perder você – disse ela antes de subir. – E espero que você não queira perdê-lo – ela apontou para a porta por onde meu pai saiu.

Larguei-me no sofá, sem conseguir acreditar em como tudo aquilo era patético. Como meu discurso foi patético e ridículo. Como o que meus pais queriam era inaceitável.

E eu teria de aceitar. Não havia saída, nada que eu pudesse fazer. E eu não tinha certeza se queria ir para o tribunal por continuar pichando. Mas não conseguia aceitar o fim da linha. Eu não era como queriam que eu fosse. Não era e nunca seria.

Subi as escadas me sentindo uma prisioneira. Eu não tinha dúvidas de que meu pai iria com sua palavra até o final, mas que eu também cumpriria a minha. Tomei um banho longo e gelado, como sempre costumava fazer depois de voltar da cadeia, lamentando a provável impossibilidade de fazer a tatuagem nova que eu queria.

Vesti a roupa mais folgada e velha que encontrei. Enquanto penteava meus cabelos, alguém bateu na porta.

– Oi? – falei, sem lançar a ela um mero olhar.

– Estou saindo para trabalhar – disse minha mãe. – Vou trancar as portas e levar as chaves. Fique aí.

– Não vai nem me mandar ir à escola? É meu segundo dia de falta consecutiva.

– Você não pertencerá mais àquela escola a partir de amanhã. Então não precisa ir hoje.

Soltei a escova de cabelo, o queixo nos joelhos.

– O quê?

– Isso mesmo!

– Mãe! Não!

– Vou fazer o que é melhor para você. Tem comida na geladeira. Esquente algo para comer.

– E a Jana?

– Ela só vai vir de dez em dez dias aqui, a partir de hoje, só para limpar. Não vai mais ficar fazendo a sua comida e lavando suas roupas. Você vai fazer isso sozinha a partir de hoje.

– O quê? – repeti.

– É isso mesmo. Vamos levar você ao colégio todo dia, como se fosse uma criança, já que age como uma.

– Você enlouqueceu. Quer me envergonhar na frente de pessoas que nem conheço ainda?

– Você nos envergonhou na frente de velhos amigos.

– Certo, agora é olho por olho e dente por dente. Ok.

Eu me virei novamente e peguei a escova de cabelo.

– Isso não é uma batalha. Você vai ter de aprender a viver na linha um dia.

Eu forcei uma risada.

– Me obrigue.

~

Passei a tarde enclausurada no quarto, sem comer nada. Iam mudar tudo ao meu redor, porque não conseguiam aceitar que era impossível me mudar. Eles podiam fazer de tudo; podiam gritar, trocar meu colégio, me isolar de minhas amigas, me trancar dentro de casa, dispensar a empregada. Eu não ia ser outra Mianah por isso.

Acessei a internet no fim da tarde; eu precisava desesperadamente falar com Lena ou Victoria. Elas não estavam online, mas pelo menos havia mensagens delas.

Hey, Mianah, o que aconteceu? Você sumiu. A gente pode se encontrar hoje à noite no barzinho perto daqui de casa? Beijos.

Lena queria me ver, mas a mensagem de Victoria era muito mais peculiar que a dela.

Mianah, eu não contei para ninguém sobre o link abaixo, mas estou morrendo de curiosidade. O que é isso? Cara, estou pirando. Me liga, ou vem aqui em casa! Você foi em cana de novo? Até mais.

Abaixo havia um link em que cliquei avidamente.

Era uma foto postada em um tumblr, uma foto de um muro.

No muro, estavam desenhados dois olhos misturados a um céu azul… uma montanha…

A minha pintura! Foi parar na internet… a minha pintura!

Estreitei os olhos e li a discrição.

“Galera, olhem só o que picharam no muro daqui de casa esta madrugada. Criativo, né? Perfeito demais. Não deixei meus pais apagarem. A menina que pintou é filha dos amigos dos meus pais. Eu não sei o sobrenome dela, mas ela se chama Mirna… ou Mianah, não tenho certeza”.

Ofeguei. Meu. Deus! Meu Deus. Os notes eram incrivelmente altos, mais altos do que eu esperava.

Eu não sabia o que pensar daquilo. A pintura ainda estava no muro. Não tinham apagado. Ela ainda estava lá, e agora estava bem ali, reproduzida na tela do computador.

Os olhos dele, a minha mensagem.

Me encontre. Me encontre.

Notas finais
Deixem reviews com suas opiniões, por favor! Preciso de incentivo hahahahaha estou dando o meu melhor na história, qualquer crítica e elogio será bem-vindo.
Beijos e até o próximo capítulo!