Notas iniciais
Então, gente, mais um capítulo para vocês. Estou fazendo eles curtos porque acho que é melhor para ler, sei lá. Obrigada a todos que estão lendo - são poucos, mas sou muito grata.
Boa leitura!

Capítulo Dois


Era incrível como dezenas de centenas de pessoas gostavam de ficar sob o sol escaldante do meio-dia, sentadas na areia grudenta da praia. Eu não planejava ficar muito tempo ali, não mesmo.

Assim que estacionei a moto em um lugar “adequado” – na calçada, ao lado de uma barraca de camarão fedorenta – Lena, Victoria e eu caminhamos pelo calçadão, arrancando nossos tênis e olhando a orla.

– Qual é o horário que os caras gatinhos vêm? – perguntou Lena, jogando os cabelos sedosos para trás.

Victoria e eu olhamos para ela com as sobrancelhas erguidas.

– Querida, caras gatinhos não servem para alguém como você – disse Victoria, com um olhar de “me poupe”.

– E por que não? – Lena retrucou, com cara de poucos amigos. – Está me xingando de feia agora, sua idiota?

Eu ri. Já estava acostumada com os tratamentos “amorosos” entre as meninas e eu.

– É só que um atleta bombadinho não tem nada a ver com as suas tatuagens – justifiquei. – Quero dizer, se quiser um cara, melhor procurar nos adolescentes delinqüentes.

Victoria caiu na risada com meu comentário. Lena me olhou, cética.

– Está querendo dizer então que é para eu fazer como você fez para achar aquele seu ex corrompido e prepotente?

A menção nada indireta ao meu ex namorado me fez estacar. Elas sabiam que eu não gostava de falar nele, e mesmo assim Lena tocou no assunto.

– Ele foi um erro. Pode parar de falar agora. E quer saber, não me arrependo. Gosto de errar.

Lena mostrou a língua para mim, infantilmente.

– Vagabunda – disse, virando as costas.

Revirei os olhos e fui na direção contrária. Victoria ficou no calçadão, e não sei para onde foi, só sei que não veio comigo.

Eu não estava chateada com Lena. Ela e Victoria eram minhas melhores amigas, e brigávamos assim o tempo todo. Na verdade, foi bom elas me deixarem sozinha. Eu estava com vontade de fazer algo interessante e radical.

Parece que andei mil quilômetros até chegar ao Pão de Açúcar. Estávamos relativamente perto de lá, mas minhas condições físicas não eram das melhores. Eu não gostava de esportes normais, como caminhas, judô, ciclismo ou qualquer coisa do gênero. Mas minha idéia era melhor.

Eu queria escalar.

Já tinha ouvido falar de escaladas no Pão de Açúcar; algo super normal para os cariocas, mas por algum motivo que nem eu mesma sabia, nunca tinha ido lá.

Cheguei a uma das bases de escalada e pedi para falar com um instrutor. Ele me passou as instruções de escalada e me informou sobre o caminho que faríamos, e o preço da escalada. Não era dos mais baratos nem dos mais caros, e fiquei feliz por ter o cartão de crédito de minha mãe na bolsa – não que ela soubesse disso, mas eu podia explicar depois.

Fiquei ainda mais satisfeita quando o instrutor disse que poderíamos ir escalar assim que eu tivesse instalado e entendido como funcionava o meu equipamento, e isso não demorou muito.

– Então, Mianah, já que você tem dezoito anos e responde legalmente por si mesma, vamos escalar – disse o instrutor. – Mas eu não me responsabilizo se os seus pais…

– Meus pais não são um problema. Vamos logo – eu disse.

O frenesi e a adrenalina que tomaram meu corpo quando apoiei minhas mãos enluvadas na pedra foram quase incontroláveis. Havia um grupo de iniciantes bem grande conosco, mas eu me sentia sozinha, pendurada em uma pedra no meio daquela imensidão azul. Era perfeito. Empolgante. Eletrizante.

Era fácil escalar. Uma mão atrás da outra, um pé frente a outro. A pedra raspava um pouco, mas olhar para baixo e ver a praia tão distante era uma sensação indescritivelmente prazerosa. A maioria das garotas no grupo parecia estar morrendo de medo da altura, mas eu estava sorrindo.

Ah, como não tinha feito isso antes? Eu precisava descobrir caminhos mais difíceis e desafiadores…!

Assim, um pé ante o outro e sucessivamente, parecia que o passeio estava acabando rápido demais. Não podia negar que já estava ficando cansada, ofegante pelo esforço nos braços e o sol alto na cabeça.

– Daqui a pouco chegaremos lá! – gritou o instrutor, segurando o braço de uma mulher que estava prestes e cair em prantos.

Revirei os olhos em direção a mulher e continuei a subir. Na minha velocidade, acabaria deixando os outros para trás, se não fosse por um grupo de rapazes que estava bem perto de mim.

Olhei para baixo, procurando onde apoiar meu pé, e perdi meu apoio. Meu coração disparou, todavia respirei fundo e me senti completamente segura pela corda que me segurava, se não fosse por ela…

Estar arrebentando.

Estreitei os olhos, sem acreditar no que estava vendo. Se eu me apoiasse ali, certamente cairia.

Meu coração trepidou, tropeçou e parou, antes que meu outro pé se soltasse. Ouvi vagamente o choro da mulher desesperada, e a xinguei baixinho. No momento, quem podia morrer era eu!

Tentei gritar, só que isso parecia covardia. Minha respiração entrecortada foi falhando enquanto me segurava na corda.

– SOCORRO! – cuspi a palavra enfim.

Várias pessoas gritaram ao mesmo tempo enquanto eu trincava os dentes. Observei a corda arrebentar e cair na imensidão, enquanto eu ficava segura apenas pelas minhas duas mãos.

Oh meu Deus. Eu vou morrer. Vou morrer agora mesmo.

Os pensamentos passavam por minha mente em uma velocidade incrível, e eu não podia acreditar que fosse morrer desta forma. Eu não tinha a intenção de morrer, só de me divertir!

Me perdoe, Lena. Victoria. Mãe, pai! Professora de matemática, delegado Fernandes…

Nunca imaginei que fosse pedir perdão à professora de matemática na hora de minha morte!

– Calma, Mianah – ouvi o instrutor gritar. – Vamos pegar você.

Eles estavam muito atrás! Sentia minha mão escorregando… eu olhei para o lado.

O grupo de garotos me olhava aterrorizado, senão por um, que vinha corajosamente em minha direção. Seu capacete não me deixava ver seu rosto, mas a visão dele vindo para mim fez meu coração falhar de uma forma esquisita.

E depois, e depois finalmente eu estava nos braços de alguém. Segura.

– Calma – ele sussurrou, no tom realmente tranqüilizador que eu precisava ouvir.

Seus braços estavam suados e quentes, e eram maiores e mais fortes do que eu julgava. Seu aperto me fez imaginar o quanto eu estava trêmula.

Ele tirou o capacete e afastou os cabelos loiros da testa.

E aquela foi a primeira vez em que fitei seus olhos perfeitos e profundos.

Notas finais
Então gente... Reviews??? hahahahaha
Até o próximo capítulo!!