Antes Que Você Vá
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Boa leitura!
Capítulo Três
Eram olhos… hipnotizantes. Tinham uma luz que nunca me atraíra em um olhar. Na verdade, não haveria como, porque era peculiar e única, completamente desconhecida para mim. Esse era o tipo de coisa que se vê em filmes, e eu estava longe de ser a donzela em perigo, porque nunca fui uma donzela. E nunca seria.
Mas os braços dele… e o cheiro dele… e a respiração acelerada dele enquanto me segurava…
Quase xinguei o instrutor por ter subido tão rápido depois que ele já tinha me segurado. Quero dizer, quando eu estava morrendo, ele não parecia ter pressa em me salvar!
– Para baixo ou para cima? – perguntou o instrutor a si mesmo, sem saber o que fazer.
Revirei os olhos. Pronto. Eu não estava mais morta, já podia voltar a ser chata e louca.
– Me deixe continuar – falei. – Só cuide para que a próxima corda não arrebente e me deixe com duas dívidas.
– Dívidas? – perguntou a criatura cujos braços ainda estavam ao meu redor e cujos olhos eu não suportava fitar.
– Sim. Por ter salvado a minha vida. Não suportaria passar por isso uma segunda vez.
O garoto estreitou os olhos.
– Não se sinta em dívida comigo. Sempre odiei essa coisa de escalar. Espero que não se coloque em risco novamente.
Emiti um som incrédulo.
– Se odeia essa “coisa de escalar” o que está fazendo a trinta metros do chão pendurado em uma pedra? Quero dizer, como isso se chama para você? Dançar na vertical?
O instrutor mordeu os lábios para não rir, mas eu não quis ser engraçada. Continuei olhando o garoto de forma indireta, esperando uma resposta plausível.
– Foi uma aposta com meus amigos idiotas ali – ele jogou a cabeça para o lado, onde seus amigos estavam.
– Ah, uma aposta – resmunguei.
– Você tem sorte, garota – disse o instrutor.
– Vão me mandar outra corda? – me limitei a perguntar.
– Não – respondeu o garoto. Ele era muito metido mesmo. Como se pudesse mandar em algo só porque tinha me segurado! – Vamos descer já.
– Olhe aqui, – eu disse indignada, cerrando os punhos no peito dele, quase me distraindo com os músculos que… esqueça. Suspirei e continuei. – Escute aqui, você não pode decidir por mim. Além do mais, está me usando como pretexto para descer também e não levar a aposta até o final.
O garoto começou a rir. Era um som tão… doce. Rouco, meio diferente. Que me gelava e aquecia ao mesmo tempo.
– Você é louca, garota – disse ele em meio ao riso.
Quase não consegui me conter e mostrar a língua para ele, mas gritei por sobre seu ombro, para seus amigos:
– Não paguem o que quer que tenham apostado com ele! Ele não quer cumprir a aposta até o final! Isso é trapaça! Trapaça!
Os garotos atrás de nós começaram a rir, e eu me dei conta do quanto estava ridícula. O que estava havendo comigo? Experiências de quase morte alteram o cérebro das pessoas, deixando-as retardadas? Ou era só porque tinha me sentido atraída por esse cara idiota que provavelmente me achava uma estúpida e já tinha confessado me achar louca?
As palavras seguintes foram doloridas. Eu nunca tinha me rendido antes. Nunca.
– Muito bem, vamos descer.
– Então você ama esportes radicais – disse ele.
Tínhamos acabado de chegar à base de escalada e eu estava devolvendo meu equipamento para outro instrutor. Ele tinha me feito o favor de descer em silêncio, deixando que eu me afogasse no arrependimento por ter sido tão submissa. Mas agora resolvera ser simpático? Ah, que meigo.
– E você não – respondi secamente, pegando minha bolsa.
– É, não gosto.
– Então beleza. Continue sendo uma pessoa que não gosta de esportes radicais e, se quer meu conselho, não aceite mais apostas com seus amigos. Obrigada por salvar minha vida e seja feliz. Adeus.
Acenei para ele com indiferença, já me virando para partir quando ele me chamou.
– Ei!
Voltei-me para ele com má vontade.
– Oi?
– Não vai perguntar se pode expressar sua gratidão de alguma forma?
Revirei os olhos e ri sarcasticamente.
– Ah, sim. Você é um clichezinho, não?
Ele deu de ombros.
– Então me diga seu nome.
Ergui o queixo, pronta a negar. Mas algo me fez mudar de idéia.
– Mianah – eu disse. – Caso não tenha ouvido o instrutor falar comigo.
– Ouvi, sim. Só queria saber se seria sincera comigo.
Idiota. E clichê, sempre clichê.
– Ah, sim. Ótimo.
– O meu é Theo – ele disse.
Theo. Era um nome lindo. Principesco, mas lindo.
– Adeus – eu disse, e desta vez fui embora mais rápido, antes que decidisse voltar por mim mesma.
– Meu Deus, onde é que você se meteu? – gritou Lena.
Ela e Victoria estavam encostadas em minha moto, exatamente onde eu a tinha parado ilegalmente.
Pela primeira vez olhei ao redor de verdade. O fluxo de crianças na orla tinha diminuído muito, e havia mais idosos e atletas correndo. O sol poente no céu também deixava claro que não era cedo.
– São quase seis da tarde! Estava esperando a gente morrer do coração? – Victoria me segurou pelos ombros e me chacoalhou.
– Por que estão tão preocupadas? Vocês sempre estão se lixando para o que houve comigo.
– Porque nós tínhamos brigado – disse Lena. – Porque você já tem várias passagens na polícia. Porque houve um assalto aqui perto, e não sabíamos se algum tiroteio havia sucedido… e porque você está horrível! Olhe os seus braços machucados!
– Isso não foi nada – murmurei, esfregando meus braços. – Fui escalar o Pão de Açúcar e acabei… quase caindo.
Victoria arregalou os olhos.
– Meu. Deus! Te deu ataque de loucura? Quer se matar?
– Para com isso, Victoria. Um cara me segurou.
Victoria e Lena se entreolharam, e eu suspirei.
– Vamos embora?
As duas lentamente concordaram e subiram na moto. Eu as ouvi trocar palavras indiscerníveis, e só a última frase me foi clara.
– Cancele a pichação hoje.
Notas finais
O próximo capítulo está quase pronto. Reviews!
Até logo, eu espero...
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