Antes Que Você Vá
20 Capítulo 19
Notas iniciais
Esse até agora foi um dos melhores capítulos que eu escrevi - bom, pelo menos, eu gostei. Espero que gostem também. Ficou um pouco grande, mas acho que é melhor do que interromper a ação bem no meio, não acham? hahahaha
Obrigada pelos reviews no capítulo anterior! :D
Leiam as notas finais, por favor? (não tenho certeza se alguém lê, mas leiam só desta vez! :D)
Boa leitura!
Capítulo Dezenove
A melhor tarde de minha vida eu passei com Theo.
Dizem que as coisas mais simples são as maiores coisas. Um dia li em algum lugar o que um homem chamado Robert Brault escreveu. “Desfrute as pequenas coisas, porque talvez um dia você olhe para trás e se dê conta de que eram as grandes coisas”.
Eu não sabia se aquilo que estava acontecendo com Theo era uma pequena e passageira coisa, mas com certeza naquele momento foi a mais sublime e majestosa de todas. E era tão simples.
Uma tarde em que caminhamos debaixo do sol ardido do Rio até chegarmos ao Vectra prateado dele. Entramos no carro e abrimos as quatro janelas, dispensando o ar-condicionado. Anakin ficou no banco de trás enquanto eu me sentava no de passageiro, na frente. Theo acelerou e o cão latia animadamente com o vento batendo em seus pelos. Meus cabelos balançavam ao vento e os olhos de Theo brilhavam. Ligamos o rádio e ouvimos uma música que nunca tínhamos ouvido.
Chegamos à casa de Theo depois de alguns minutos – ele morava no Leblon, o que só deixava a certeza de que eu estava lidando com alguém tão rico quanto Luiza, e isso não contou como um ponto a mais ou a menos. Eu não me importava.
Anakin correu no imenso gramado que circundava a piscina da casa de Theo, e ele me mostrou o sobrado brevemente. Resolvemos pegar comida na cozinha e fizemos um suco gelado. Estendemos uma coberta vermelha na grama e comemos os bolos e doces que achamos na cozinha, enquanto brincávamos com Anakin.
Eu mal notava que o tempo voava e levava embora meus incríveis e inesquecíveis momentos com Theo.
– Como vai a escola? – ele perguntou.
Estávamos deitados na coberta vermelha e meus novos cabelos estavam espalhados ao redor de meu rosto. Theo se apoiou em um cotovelo e começou a deslizar os dedos por meus cabelos enquanto meus olhos pareciam pregados aos dele para sempre.
– Eu espero conseguir terminá-la esse ano – sussurrei com uma ponta de sorriso nos lábios.
Eu não tinha conversado sobre muitas coisas com Theo, mas passei a tarde toda sorrindo, e aquilo era surpreendente.
– E depois?
– Depois o quê?
– Você vai para a faculdade?
A maneira como Theo me fez ilustrar o fato em minha mente me fez rir. Eu. Na faculdade!
Theo franziu a testa.
– Você não quer ir para a faculdade.
– Não é isso – murmurei depois de parar de rir. – Eu não tenho o que fazer na faculdade.
– Certo. Suponhamos que não. – as mãos dele pararam de acariciar meus cabelos.
– Eu não sei o que quero fazer, mas tenho que sair de casa e voltar ao normal. Preciso do meu skate e das tintas. E, claro, eu preciso de dinheiro. Preciso saber algumas coisas e resolver outras. E talvez depois eu possa encontrar uma maneira de viver do modo como gosto sem tem de ser o que os outros esperam que eu seja. Simplesmente o que quero ser.
Era uma versão resumida de meus planos, mas deixei de fora a parte da pessoa interessada em minhas pinturas, até porque eu mesma nem tinha detalhes sobre o fato.
– Que tal se você esquecesse tudo isso, fizesse o que seus pais querem e escolhesse um curso na faculdade, que fosse próximo daquilo de que gosta? – Theo começou a mexer nos dedos de minha mão, quentes pelo sol e frescos pelo vento.
Eu olhei para ele com a mesma expressão cética com a qual olhei para minha mãe mais cedo.
– Nem pensar – resmunguei. – Estou sendo boazinha agora porque preciso me munir antes de atirar.
– Você fala como se fosse uma guerra – os olhos de Theo estavam tempestuosos naquele momento. – Como se estivesse disposta a lutar contra os seus pais e…
– Se não me aceitam como sou, é uma guerra. Preciso que confiem em mim para poder agir. Eles ainda estão na defensiva.
– Você precisa de um pouco de disciplina, Mianah.
Me ergui sobre os cotovelos, soltando minha mão da de Theo.
– O que você sabe sobre o que eu preciso ou não? – falei de um modo grosseiro.
Theo olhou para baixo e não disse nada.
Eu também não disse. Fiquei pensando no ponto de vista dele. Ele era como os meus pais; queria que eu cursasse uma faculdade, abandonasse de vez minhas roupas estranhas e meu skate. Queria que eu me desse bem com os meus pais e mudasse porque supostamente aquilo seria melhor para mim.
Se Theo pensava exatamente desse jeito, então ele não era certo para mim.
Mas de que adiantaria ficar em casa até terminar a escola? De que adiantaria esperar conseguir deles qualquer coisa?
Eu me sentei no cobertor e Theo fez o mesmo. Ficamos observando Anakin rolar na grama e agitar as patas enquanto uma borboleta voava em volta, e havia tanta paz naquele lugar que minhas preocupações voltaram a se dissolver.
– Tenho uma proposta – senti os lábios de Theo bem próximos ao meu ouvido, seus dedos afastando meu cabelo dos ombros.
– Estou ouvindo – falei com a voz trêmula.
– Esqueça tudo isso por enquanto. Vamos voltar à praia, já que é fim de tarde. Podemos jantar em algum restaurante na orla, se você quiser. Meu pai tem plantão hoje. Depois levo você para casa.
Eu me encostei ao peito de Theo e concordei com a cabeça.
Ele passou os braços por meu tronco e encostou o queixo no topo de minha cabeça. Eu sabia que ambos estávamos apenas nos rendendo naquele momento; segundo a segundo. Como dois apaixonados, unidos por algo tão forte como a mais forte das maldições.
Paixão.
Meu corpo se tencionou com a palavra enquanto eu sentia os efeitos.
Talvez fosse mesmo como uma maldição. Não importava.
~
Depois de uma tarde perfeita e ensolarada, a chuva fria que desceu sobre a areia quente, levantando vapor, surpreendentemente não estragou nada. O clima ficou mais ameno, o que permitiu que eu parasse de suar, e as pessoas sumiram da praia. Theo por sua vez parou o Vectra em uma das vagas que aos poucos eram liberadas na praia e eu desci do carro, voltando meu rosto para as gotas frias de chuva e apreciando aquele imenso e maravilhoso refresco.
– Muito melhor assim – murmurei com prazer.
Theo acionou o alarme do carro e veio para o meu lado. Ele se abaixou e acompanhei-o com os olhos, vendo-o tirar os tênis e jogá-los perto do carro, sem se importar com nada.
– Hum… e será… que a água está muito gelada? – ele deu um sorriso malicioso e eu entendi tudo.
– Hã… não… – resmunguei, e comecei a correr dele imediatamente.
Era como meus velhos planos. Brincar de pega-pega na chuva.
Aquilo tudo parecia um sonho que começou abruptamente e terminaria da mesma forma.
Theo correu atrás de mim e, em meu esforço para tirar meus sapatos, ele me alcançou com facilidade. Seus braços me envolveram e nós acabamos rolando na areia e rindo histericamente. Seu corpo pressionado contra o meu me fez esquentar por dentro, e seu rosto estava tão próximo que tampava a visão do céu chuvoso. Os olhos azuis e límpidos dele me faziam imaginar que o céu estava ensolarado. Que o mundo todo estava ensolarado.
E não pensamos em muita coisa. Tudo estava certo no momento. As gotas de chuva molhavam nossas roupas aos poucos enquanto a noite aparecia de vez, e os braços de Theo dos dois lados do meu corpo eram desnecessários, porque eu não ia fugir. Eu sentia cada terminação nervosa gritar “sim!”.
E foi o que fiz.
Puxei a nuca dele para aproximar de vez nossas bocas e me entreguei ao beijo. Não sei direito quanto tempo durou, mas fiquei feliz pela intensidade e lentidão com que ele explorou meus lábios. Como se fossem coisas preciosas e dignas de algo especial, como os lábios dele. Como o toque dele, seu sabor, sua textura, seu cheiro. Rolei para um lado e me encostei ao peito dele. Não estava nem um pouco frio no momento, e ele me abraçou como um gesto de pura doçura e carinho.
– Nunca senti nada parecido – sussurrou ele.
Eu não sabia o que responder. Eu não sabia ao certo. Só sabia que com Bruno não fora tão especial e inesquecível.
– Você já se apaixonou por alguém que jurasse ser para a vida toda? – Theo continuou.
Eu confirmei com a cabeça, ainda que relutante.
– Já.
– E como foi?
– Antes ou depois?
– Dos dois jeitos.
Eu pensei por um segundo.
– Primeiro foi como estar com frio e ser jogada numa piscina de água quente. É como um choque, mas depois é muito bom. E depois… é como se você saísse da piscina e começasse a nevar e não parasse nunca mais. E você fica com frio para sempre.
– Sempre? Você… está com frio agora?
Eu sabia que Theo não estava falando do frio físico, e sim do frio da minha metáfora.
– Não –, respondi sinceramente.
– Então… você está na piscina de água quente – deduziu ele.
Eu sorri e me virei para ele, sentindo seus músculos através da camiseta.
– Sim, eu estou. E você é a minha piscina de água quente.
~
Theo e eu demos um mergulho no mar para tirar um pouco da areia de nossas roupas, e acabamos entrando em seu Vectra e deixando tudo molhado. Eu o guiei para minha casa, confiando no fato de que meus pais não estariam lá. Luiza e Mateus provavelmente estavam perdidos de mãos dadas noite afora, e eu sabia que não dariam notícias tão cedo. Nossos pais pensavam que estávamos juntas…
E a casa estava vazia. Seríamos Theo e eu.
Foi quase como imaginar o mundo inteiro só para nós, mas antes partimos do princípio de que o plano era ele me deixar na porta de minha casa e ir embora. O jantar ficaria para outro dia, já que estávamos muito molhados.
Mas eu não poderia ser tão indelicada, não é?
– Por que você não entra? – convidei.
Theo olhou para a casa escura e depois para mim. Imaginei que ele já tivesse ligado os pontos.
– Estamos sozinhos – confirmei.
Ele pareceu desconfortável.
– Minha mãe me deu a chave porque vai chegar tarde e eu supostamente estaria com Luiza – sem dizer mais nada, apertei o controle do portão eletrônico e ele se abriu. Theo engatou a marcha no Vectra e entrou na garagem, colocando seu carro no lugar vazio dos carros.
Saí do carro antes dele e peguei no escuro a chave da porta da frente. Rodei a chave de leve na maçaneta, como se ainda esperasse que alguém estivesse em casa.
Senti Theo atrás de mim e puxei sua mão, levando-o para dentro.
Apalpei a parede buscando o interruptor, mas não encontrei. O quase completo breu me fez tropeçar na mesinha de centro da sala, quando uma música começou a tocar e o microssistem no canto da sala se acendeu.
Estreitei os olhos e olhei para Theo ao mesmo tempo em que ouvia a música.
Settle down with me
Reconheci a melodia de súbito.
Kiss me, de Ed Sheeran.
Theo passou os braços por minha cintura enquanto eu murmurava.
– Essa porcaria deve ter ficado em stand by e agora resolveu voltar à vida.
Senti o corpo de Theo se contrair com um risinho enquanto eu passava os braços pelo pescoço dele.
– Dançar em um baile – ele disse baixinho enquanto eu percebia que provavelmente agora tínhamos uma música.
E que eu queria dançar em um baile antes, e agora aquele podia ser o nosso baile.
Perdemos um pedaço da música, mas logo nos sintonizamos com ela novamente e começamos a nos mover com o som.
I’m falling for your eyes, but they don’t know me yet
Enquanto Ed cantava, Theo começou a acompanhar, e percebi que ele também conhecia a letra. E que estava cantando para mim com sua fantástica voz suave e incomparável.
E ele estava dizendo “eu estou caindo por seus olhos, mas eles não me conhecem ainda”.
And with a feeling I’ll forget, I’m love now
Kiss me like you wanna be loved
Eu fechei os olhos e concordei de leve com a cabeça enquanto ele me beijava.
“E com um sentimento eu esquecerei, eu estou apaixonado agora”.
Perdemos alguns trechos da música enquanto nossos lábios, mentes, corpos e corações estavam conectados.
– Settle down with me and I’ll be your safety, you’ll be my lady. Oh I was made to keep your body warm, but I’m cold as the wind blows so hold me in your arms – ele cantou. Eu sabia que ele poderia ser minha segurança, ele era minha segurança naquele momento. “Oh eu fui feito para manter seu corpo quente, mas eu estou frio com esse vento que sopra, então me segure em seus braços”.
E eu cantei:
– My heart is against your chest, your lips pressed to my neck, I’m falling for your eyes, but they don’t know me yet – “meu coração está contra seu peito, seus lábios pressionados em meu pescoço, eu estou caindo por seus olhos, mas eles não me conhecem ainda”.
E seguimos no ritmo da música, dizendo um ao outro o que deveríamos dizer, tornando aquele momento nosso, subindo as escadas devagar, nos beijando e nos tocando sem saber, sem nos preocuparmos com qualquer coisa.
Eu sabia que não estava pronta para dar um passo importante como aquele com Theo, mas não consegui refrear a parte de mim que o estava puxando para dentro do meu quarto e tirando suas roupas molhadas enquanto ele tirava as minhas.
Tentei focar minha mente em algum ponto sóbrio enquanto os dedos dele deslizavam por minhas costas nuas e seus lábios percorriam meu pescoço.
Minha respiração acelerada e meus dedos trêmulos me deixavam transtornada, e chegamos a um ponto em que Theo não sabia direito o que fazer, o que talvez tenha sido grande parte da prova de que ele nunca tinha feito aquilo antes.
Eu o puxei para o banheiro e ele me sentou na pia, abrindo as gavetas à procura de algo que ambos sabíamos o que era.
– Não tem – sussurrei, puxando-o pelo braço para beijá-lo um pouco mais.
– Não estamos prontos para isso, certo? – Theo sussurrou, deslizando os dedos por meu rosto e roçando o nariz no meu.
Eu não sabia se concordava ou discordava, e acabei derrubando um monte de toalhas no chão – tudo o que precisávamos no momento.
Theo se abaixou e me enrolou em uma toalha, enxugando meu corpo frio e trêmulo. Eu fiz o mesmo com ele e pedi um minuto para uma ducha.
– Certo – ele saiu do banheiro e vi a luz de meu quarto se acendendo.
Tomei um banho quente como há muito não tomava e me enrolei em uma toalha seca quando terminei. Theo estava encostado no batente da porta, vestindo apenas uma bermuda. As luzes estavam todas acesas e meus cabelos pingavam em meus ombros. Theo se aproximou, e imaginei se por acaso ele não queria tentar de novo, sem preservativo mesmo.
Ele apenas afastou meus cabelos encharcados dos ombros e tocou minha tatuagem na nuca. Meu corpo se arrepiou enquanto ele beijava as gotas de água que escorriam, e eu me virei para ele, pronta para abrir a toalha, mas ele me deteve.
– Não esta noite – sussurrou baixinho, e apenas beijou minha testa.
Eu concordei com a cabeça e murmurei para que ele tomasse uma ducha. Não havia roupas ali que servissem nele, e eu coloquei o moletom mais normal que encontrei e desci as escadas para a sala, tirando nossas roupas molhadas do caminho e passando um pano seco no chão. Desliguei o som e subi novamente as escadas para o meu quarto. Joguei todas as roupas molhadas de Theo em uma sacola e fiquei imaginando a situação constrangedora – ou talvez não – que seria ele saindo do chuveiro só de cueca.
Comecei a rir sozinha e acabei jogando as roupas molhadas para ele dentro do banheiro – e não olhei para dentro, é claro.
Depois tive uma ideia melhor, e entrei no quarto de minha mãe. Peguei lá a maior camiseta de meu pai e uma bermuda, que milagrosamente serviram em Theo – mesmo a camiseta ficando um pouco apertada nos braços musculosos dele.
– Pronto, estamos secos – disse Theo com um sorriso satisfeito.
Eu sorri em resposta e coloquei as toalhas molhadas junto com as roupas também molhadas. Me arrastei para a cama e dei um tapinha nela, chamando Theo.
Ele me olhou com hesitação, mas logo depois se deitou ao meu lado.
– Relaxe, eu não vou te agarrar – eu ri baixinho.
– Eu não deveria estar aqui – disse Theo. – Isso deve ser contra as regras.
Eu revirei os olhos para ele.
– Você vai embora antes de eles chegarem.
– Quando eles vão chegar?
– Quer tanto assim ir embora? – eu ergui as sobrancelhas.
– Não. É só que, como eu disse, é contra as regras.
– Você se preocupa muito com elas.
– Um pouco.
Houve um minuto de silêncio em que nós dois ficamos olhando para o teto.
Falei a primeira coisa que me veio à cabeça.
– Então você é virgem?
Theo se virou para mim e forçou um riso.
– O que te faz pensar assim?
Eu o olhei com presunção.
– Nada.
– O que eu fiz errado?
– Nada. Porque você não fez nada.
Ele estreitou os olhos.
– Se você quer tanto assim, nós podemos…
– Não estou falando que quero.
– Então não quer?
– Claro que quero.
– Não estou entendendo. Você quer ou não? Até agora disse que não.
Eu comecei a rir de nossa conversa estranha.
– Você é virgem – desta vez afirmei.
Theo passou um braço por meu corpo.
– Não por muito tempo, se depender de você.
Eu ri de novo.
– Não estou reclamando de nada. Você foi ótimo. Acontecerá no momento certo.
Theo se curvou para me beijar.
– Que tal fecharmos os olhos por um minuto? – sugeri. – Meus pais não vão chegar já. Podemos descansar, e então você vai embora.
Theo concordou com a cabeça e suspirou de modo satisfeito.
– Me sinto como em uma piscina de água quente.
Notas finais
Aqui deixo o link com a música, se alguém não a conhecia e tiver interesse em escutar ;)
http://www.youtube.com/watch?v=kFfKb_WEkCE
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