O sol ainda estava à pino quando saíram do restaurante, como era comum naquela hora do dia.

Apesar do vento balançar as folhas das árvores com mais violência do que quando haviam chegado, Benjamin parecia acostumado com a mudança repentina do clima parisiense, diferente de Demetria, que apertava os braços contra o corpo para se aquecer.

━ Acho que agora estamos oficialmente divorciados ━ anunciou Benjamin com um sorriso, baixando os olhos para o próprio pulso a fim de conferir as horas.

━ Deve ter sido o casamento mais curto da história ━ a americana entrou na brincadeira. ━ Como é mesmo o nome do lugar...?

━ Le 10ème Ciel ━ Chevrin lembrou.

━ Isso. Então, vamos? ━ A loira abriu um sorriso cheio de dentes que não durou muito, uma vez que Chevrin já se adiantava em negar o convite.

━ Eu não sei se é uma boa ideia...

━ Ah, qual é! Eu vou ficar de vela ━ Demetria insistiu, trocando a palavra sozinha por vela no último segundo.

━ Talvez não fique ━ o rapaz disse antes de considerar alguns outros motivos para que se separassem naquele momento ━ e tenho certeza que o convite não se estende à mim.

━ Isso não é problema, acredite, Lauren e eu entramos em lugares que não fomos convidadas desde o dia que chegamos aqui.

Demetria rebateu a desculpa do bruxo, não se importando em transformar a insistência verbal numa versão física ao puxá-lo pelo braço; não que o francês tivesse saído do lugar. Benjamin tentou negar, sendo interrompido por um bombardeio de palavras.

━ Benjamin Chevrin ━ a americana desistia de puxá-lo e apenas o encarava com os olhos grandes com um falso ar de seriedade. ━ Eu espero que nada aconteça comigo nas próximas horas. Porque se algo acontecer, tipo, por acaso, eu desaparecer, você vai ter que explicar como eu sumi logo no dia que nos encontramos. Sabe que Jasper vai te procurar, né? Porque você vai ter que explicar pra ele, e possivelmente para as autoridades, como você foi logo a última pessoa com quem eu tive contato nas minhas últimas horas além de…

━ Tá, tá ━ cedeu Chevrin com um suspiro; deixá-la continuar falar parecia pior do que segui-la.

━ Essa foi fácil ━ Demetria sorriu com um dos cantos dos lábios, satisfeita demais por ter conseguido o que queria para disfarçar.

Sem dizer qualquer nova palavra, Benjamin virou o corpo para a esquerda, mas foi interrompido no meio do caminho por uma Demetria que soava tão confusa quanto aparentava.

━ Epa, vai pra onde? ━ a loira correu para alcançá-lo.

━ A um lugar onde podemos aparatar, é claro ━ Benjamin respondeu como se fosse óbvio; até poderia ser, se ele não estivesse falando com uma bruxa que estava passando os últimos dias como trouxa.

━ Nada disso. Nós vamos de carro.

━ Só pode estar brincando ━ Chevrin não conseguiu conter as palavras de incredulidade.

"Celular... Agora carro?" Aquilo não parecia certo pra Benjamin. Ou seguro.

━ Eu trouxe o carro até aqui e preciso leva-lo comigo e, bem, não dá pra aparatar com um carro, então... ━ Demetria falou depois de gargalhar com a reação do francês. ━ Confia, Chevrin.

O lufano estreitou os olhos em dúvida, mas não respondeu. Ele não parecia precisar.

Demetria tomou a dianteira, guiando-o na direção onde havia estacionado – bem mal — o carro alugado. A contragosto de Benjamin, eles viraram à direita e subiram a rua até encontrarem o carro branco que de alguma forma combinava muito bem com a personalidade de Demetria. Assim que chegaram, a loira buscou pela aprovação do bruxo.

━ Uma beleza, não é? ━ Os olhos da americana quase brilharam e a mão da garota roçou o capô da mini cooper conversível. ━ Lauren também achou que era uma péssima ideia, mas no final até que ela gostou. Se tem uma invenção dos trouxas que vale a pena, com certeza é essa aqui.

Benjamin não respondeu, mas era evidente em cada centímetro de seu rosto que pensava em Demetria como uma pessoa tão sã quanto qualquer paciente da ala psiquiátrica do Saint Mungus. A sonserina não abriu a porta para o banco do motorista; pulou direto da rua para o interior do carro e deu uma risada com a expressão em branco que o bruxo manteve no rosto enquanto entrava no carro da forma convencional.

━ Mostra o caminho? ━ A loira perguntou, lançando os olhos para a figura ao seu lado apenas para ver o menear afirmativo do francês. — Beleza. Tudo pronto?

━ Faz diferença?

━ Não ━ ela soltou outra gargalhada; estava rindo demais para um dia.

Demetria tentou disfarçar a vontade de rir quando assistiu um Benjamin, ainda incerto, apertar o cinto à frente do corpo, embora ele soubesse que a ideia de precisar do equipamento trouxa fosse meio irrisória e apenas ilustrativa. A loira abriu a bolsa e sacou os óculos escuros de dentro, colocando-os sobre os olhos antes de virar todo o espelho retrovisor na direção de seu rosto e arrumar um pouco os fios soltos.

━ 'Bora ━ Demetria falou como que pra si mesma antes de dar a partida.

Era, de longe, a coisa mais imprudente que o francês fazia naquele dia. Nem mesmo voar numa vassoura cercado por balaços seria tão perigoso. O carro arrancou de repente e só parou com o frear repentino ocasionado pelo pé direito de Demetria, fazendo ambos chacoalharem sobre seus bancos ao mesmo tempo que ouviam a buzina do carro que passava à frente deles pela rua principal.

━ Opa ━ a loira riu amarelo antes de dar partida novamente.

O carro arrancou com mais velocidade do que deveria, apesar de agora não colocar a vida de quase ninguém em risco.

━ Você não tem ideia do que está fazendo, não é mesmo? ━ Perguntou o lufano em certo ponto, quando já estavam longe do La Tour d'Argent, lugar de onde o rapaz não deveria ter saído, pelo menos não acompanhado da Howard mais propensa a problemas.

Apesar de perceber quando o francês, que se segurava no banco do carona, falou ao seu lado, Demetria não conseguiu entender nada sob o som das buzinas dos carros que ultrapassou quando desviou pela segunda vez de um ciclista na rua.

━ Se segura aí! ━ Gritou para ser ouvida sobre o cantar dos pneus ao fazer a curva em direção à Torre Eiffel.

O trajeto pelas avenidas privilegiadas pela vista do Rio Sena não durava mais do que quinze minutos, mas quando se estava como passageiro de um motorista pouco habilitado, esse pouco tempo podia facilmente parecer uma eternidade. Definitivamente o carro não era a melhor invenção dos trouxas se estava nas mãos de Demetria Howard. De toda sua família, ela sempre foi a mais propensa a se misturar ao mundo trouxa, beirando a obsessão toda sua curiosidade sobre como as pessoas conseguiam sobreviver sem magia. Não lembrava muito bem, pois havia acontecido há muito tempo, mas havia conseguido convencer sua mãe – ainda viva na época – a matriculá-la numa aula de dança livre para crianças trouxas. Não durou muito tempo: o primeiro acesso de raiva de uma bruxinha não era exatamente um dos mais sutis e se tornou perigoso deixar a mais nova dos Howard ficar muito tempo à vista dos trouxas, ainda mais sem a supervisão de seus pais para encobrirem o rastro de destruição. Então não deveria ser surpresa que agora, quinze anos mais velha, quando finalmente tinha a liberdade de fazer suas próprias escolhas, ela seguisse o mesmo caminho. Mesmo que esse colocasse em risco a parte da população parisiense no trajeto entre a Quai Anatole France e a Quai Jacques Chirac.

— Agora eu sei porque sua amiga achou o carro uma péssima ideia. — Benjamin soltou o que tinha segurado algumas vezes entre um quase acidente e outro. — E não vem com essa de que ela até gostou porque provavelmente o sumiço dela foi influenciado por sua capacidade de condução.

Ela era um desastre. E provavelmente ele era maluco por acompanhá-la.

— Relaxa! — Praticamente gritou, olhando rapidamente para o rapaz ao seu lado antes de lembrar que precisava manter a atenção à frente. — Não devia estar acostumado com um pouquinho de adrenalina?!

O frear do carro não foi o mais sutil – chacoalharam pela quarta vez — quando chegaram na rua onde ela estacionaria, mas ao menos não precisaram procurar por uma vaga por muito tempo. Enquanto Benjamin desafivelava o cinto de segurança, Demetria guardava os óculos no porta-luvas e abria um sorriso enorme, sem perceber a quantidade de fios que haviam soltado do coque durante a viagem e como eles faziam ela parecer que tinha levado um choque.

— Pode falar, nem parece que confundi ninguém pra conseguir a habilitação, não é? — Demetria confessou, sem pudor algum, que usou de Confundus pra passar na prova.

— Você parece muito satisfeita pra quem quase matou umas cinco pessoas — Benjamin comentou, não se admirando com a pouca importância que a garota deu à informação enquanto caminhavam para a entrada do prédio.

— Quase.

Precisaram subir até a cobertura para chegar ao evento, o que não tomou tanto tempo. O que parecia demorar era o acesso à festa, já que quando chegaram à entrada do Le 10ème Ciel uma fila já estava formada. Esta não era muito extensa, mas por ser convidada do anfitrião — ou da namorada dele, se é que já podia dizer isso de Lauren -, Demetria achava merecido pular a etapa de espera.

— Com licença — disse Demetria enquanto atravessava a fila, ignorando os murmúrios em francês. — Oi! Quer dizer, bonsoir!

— Podemos falar em inglês, madame — o funcionário respondeu com um sorriso cínico.

— Ótimo! Demetria Howard. Fui convidada pelo anfitrião. Pode checar — a loira apontou com os olhos para a lista na mão do trouxa.

— Pode entrar — ele falou sem emoção.

Com súbita animação, Demetria se virou à procura de Benjamin, mas o encontrou mais distante do que esperava, ainda no final da fila.

— Vem! — Chamou-o, mas foi interrompida pelo atendente.

— Somente uma pessoa por nome — ele franziu o cenho para a bruxa.

— O quê? — Demetria lançou um olhar aturdido ao homem. — Não, ele tá comigo.

— Convidados não trazem convidados — ele ergueu as sobrancelhas em deboche.

— Na verdade, eu sou convidada de uma convidada — Demetria cruzou os braços, tentando argumentar. — Então acho que essa regra não vale pra mim. E eu só entro se ele entrar, então...

E ela falou aquelas palavras como se realmente tivessem alguma importância.

— Então não entre. Próximo! — O homem voltou sua atenção para a fila, acenando para que o seguinte se aproximasse.

— Dá pra acreditar nesse cara? — Demetria falou para si mesma.

Àquela altura, o péssimo inglês do segurança havia vencido a paciência escassa de Howard. Ela estava prestes a arrancar o celular da bolsa quando, provavelmente pela agitação na entrada, Lauren a reconheceu do outro lado das paredes de vidro que cercavam o lounge e a alcançou ainda na porta. Um abraço rápido e uma breve explicação depois, a amiga de Demetria sabia o que havia ocorrido.

— Não achei que precisava avisar que só você estava convidada. — Lauren falou entredentes. — Não pensei que traria alguém.

— Bom, eu não pretendo ficar outra noite como castiçal do casal — disse em tom vexatório antes de dar o ultimato, apontando para um Benjamin com cara de quem preferia estar em qualquer outro lugar, menos ali —, então ele vai me fazer companhia hoje. Aqui ou em outro lugar.

— Tá, tá — Lauren desistia —, mas se tivesse me perguntado eu teria avisado que você não ficaria de vela.

Lauren voltou para o interior do lounge e Demetria voou para perto de Benjamin com um sorriso que mais parecia um letreiro em neon escrito "eu disse". Chevrin rolou os olhos; estava esperançoso, até aquele momento, de que não conseguiria entrar, mas quando Lauren retornou para a entrada acompanhada de um homem desconhecido para liberar o acesso, ele se viu sendo literalmente puxado para dentro do salão da festa.

O clube era bonito, com as janelas e teto de vidro dando uma visão privilegiada da Torre Eiffel que àquela hora ainda não tinha suas luzes acesas. As poltronas coloridas em azul e vermelho – como a bandeira do país – estavam quase todas ocupadas e as mesas tinham bebida e comida o suficiente para satisfazer a pequena multidão de convidados. Somado a isso, a música de fundo ecoava pelas paredes, baixa suficiente para não atrapalhar a conversa, mas alta suficiente para que todos aproveitassem.

"Que ótimo!", Benjamin pensou, mudando de opinião sobre o carro ter sido a pior ideia da loira naquele dia.

Mal haviam adentrado a festa quando Lauren puxou Demetria para o seu lado, não se importando se Benjamin ficava para trás enquanto a levava na direção de um grupo de pessoas com a animação de quem já estava bebendo há algum tempo. Benjamin as seguiu, porque parecia não haver nenhuma outra opção além de acompanhá-las. Todos se cumprimentaram, mas foi Lauren quem fez as apresentações, por mais informais e dispensáveis que fossem.

— Essa é Dytto, a amiga de quem falei — o francês de Lauren nem se comparava ao da americana, restando para a loira apenas sorrir e acenar. — E esse é... — A mulher lançou um olhar de incentivo para Benjamin se apresentar.

— Benjamin — acenou, sem muita emoção; aquilo parecia mais algo feito por pura educação do que um incentivo para que fizesse parte do grupo.

Como geralmente acontece, Chevrin foi naturalmente deixado um pouco de lado. Todos estavam mais interessados nas mulheres – porque a maior parte do grupo era formada por homens –, ainda mais quando estas eram as visitas. Chegaram a perguntar sobre ele, mas nada que tomasse tanto o tempo quanto as investidas e flertes direcionados à Demetria, mesmo que estes não soassem tão bem ao traduzir para o inglês. Felizmente, uma bandeja de coquetel à base de licor italiano e frutas amarelas distraiu o francês o suficiente para não se sentir entediado e ligeiramente envergonhado pelo desempenho de alguns de seus conterrâneos. Devia ser sobre isso que Demetria falava quando disse na carta que não se surpreendeu com a França. Bom… Neste caso, não era culpa dela.

Se já era difícil entrar numa conversa que estava acontecendo há bastante tempo, ainda mais difícil era entrar numa conversa em outra língua. Por mais que Lauren fizesse a função de tradutora, Demetria não era exatamente participativa. Pelo menos podia fingir que não queria falar por escolha, já que tinha uma taça de Kir Royale na mão e a usava muito bem como desculpa para continuar calada. Mais estranho do que se sentir menos social do que o normal, era a quantidade de vezes que lançava o olhar para Benjamin pra ter certeza de que ele estava se divertindo. Toda vez que o fazia, porém, era interrompida por algum comentário em francês do trouxa de cabelos escuros à sua esquerda, sentado no braço de uma poltrona, propositalmente para alinhar sua altura com a dela. Sentia-se fora d'água demais para agir naturalmente, por mais que aquele tipo de mar fosse no qual nadava melhor. Talvez a tarde a tenha feito gostar da sensação de não ter que lidar com alguém flertando com ela, pra variar.

Howard deu um sorriso sem graça pro francês trouxa e virou o restante de sua taça, se afastando sob a desculpa de pegar uma cheia. Não voltou; aproveitou-se para ir até Chevrin — que parecia estar a quilômetros de distância e falava vez ou outra só para não ser totalmente expulso do grupo — e o alcançou em meio a um novo gole de seu drink. Demetria sequer conseguiu emitir qualquer palavra. Uma música animada fez Lauren pular pra fora da cadeira que compartilhava com o anfitrião e puxar a americana pela mão num pedido insistente para que a acompanhasse à pista de dança. Se era possível soar ainda mais fora do comum, Demetria negou.

— Agora não, Lauren. Preciso beber só mais um pouco.

— Desde quando você precisa beber pra dançar? — Lauren perguntava com o cenho franzido.

— Desde que você decidiu que ia sumir o dia inteiro — Howard soava como uma criança birrenta.

— Ah, qual é.. Não vai brigar comigo por isso a viagem inteira, vai? — os olhos da morena rolaram em cansaço; achava que já haviam resolvido isso.

— Você devia chamar Jean pra dançar com você — Demetria deu um sorriso cínico antes de levar a bebida à boca.

Lauren lançou um olhar de quem pede ajuda para Benjamin.

— O que foi? Tá com vergonha de dançar tão mal quanto dirige? — Provocou Benjamin, levantando uma sobrancelha com um ar de diversão.

— Aí é que você se engana, lufa-lufa — a casa sempre foi utilizada de forma pejorativa quando dita como apelido pela bruxa, mas naquele momento era apenas uma menção nostálgica. — Só tem três coisas em que eu sou realmente boa. A terceira delas é dançar.

Demetria arqueou uma sobrancelha em desafio, mas a vontade de prová-lo errado dissipou no mesmo minuto em que imaginou o motivo de ele estar fazendo tanta questão que ela fosse. Como um dos caras legais, ele provavelmente não queria atrapalhar.

— Você não veio aqui só pra ficar parada, não é? E eu também preciso pegar outra bebida, então… — Benjamin deu de ombros. — Se não dançar, vão nos expulsar, tenho certeza.

Naquele ponto Chevrin estava exagerando. E Demetria se perguntou rapidamente se assim que sumisse de vista, ele daria um jeito de ir embora dali.

— Eu mesma me encarrego disso — confirmou Lauren sobre a expulsão, agradecida pelo incentivo.

— Depois — Demetria mentiu. — Na próxima eu vou.

Lauren não se convencia fácil – ou não se convencia fácil enquanto bêbada – e insistiu. A loira negou com o rosto até bagunçar os fios de cabelos soltos.

— Tá bom! Uma só. E você não saia daí! — Ameaçou o bruxo, antes de ser arrastada para o meio do que deveria ser a pista de dança.