Notas iniciais
Oláááá! Sexta-feira é dia de... Another Life! Isso aí! Aeeeeeee! hahahahahaha Bem, e sim, é um capítulo bem deprê e a minha felicidade não tem nada a ver com o que eu escrevi. Tem a ver com o fato de eu estar cumprindo com a minha promessa, viva! Enfim, escutem essa música enquanto leem: https://www.youtube.com/watch?v=vyT-oGDnMqE E boa leitura :*

Qual o sentido de provar a existência do amor? Um dia todos saberão, quando finalmente encontrarem sua “metade da laranja”. E isso pode parecer terrivelmente clichê, mas é real. Se até eu, em um contexto de fim de mundo, encontrei alguém para me relacionar, por que não pessoas normais em contextos normais? Por que tantos duvidam? Por que imaginam uma sociedade onde ninguém é de ninguém? Essa deve ser uma terrível desculpa pra quem não sabe quem é ou que não sabe amar. É um subterfúgio.

Naquele dia onde as nuvens esconderam o sol, ele chegou para mim, me provou quem eu era. Seu olhar inquisidor me questionando que tipo de intrusa que eu era me incomodou. Ora, eu era uma pessoa em busca de algo concreto em minha vida, tentando mostrar a todos que eu podia ser boa o suficiente. Para ele, porém, eu sempre fui boa o suficiente. Nenhum esforço precisou ser feito: ele simplesmente me aceitou do modo como eu era, irresponsável, rude, um cubo de açúcar derretido e completamente sensível por trás de toda uma fachada. Nunca precisei usar essa fachada com ele. Desde nosso momento como verdadeiros amigos, até quando ele me beijou em um corredor qualquer da caverna. Ele me disse na ocasião: “Por favor, não me diga que o que estamos fazendo é errado”. Não, não havia nada de errado com o que estávamos fazendo. Lembro-me até de ter pensado que aquele era o momento que eu vivia profundamente, sentindo seus lábios contra os meus. Foi perfeito. Mas então, menos de horas depois, a “verdade” foi descoberta. E meu mundo virou de ponta cabeça: acusações de Ian e Kyle. Estava perdida.

Contudo, Jamie nunca me abandonou. Seus braços sempre estavam prontos para me envolver, sua boca sempre pronta para me beijar, suas palavras sempre prontas para serem ditas. Ele estava pronto para mim, e eu estava pronta para ele.

Amávamo-nos, independentemente de qualquer coisa.

A humanidade sempre sofria alguma forma de perda durante a vida. Poderia ser uma borracha na sala de aula, um livro, um colega, um conhecido ou um amigo íntimo. Ou poderia ser a família, que machucava como uma navalha cortando o coração e que tirava um pedaço seu para nunca mais. Era doloroso. Poderia ser também um companheiro, uma pessoa que havia te aceitado mesmo sem ter nenhum laço inicial. Um completo desconhecido que passa a se tornar parte de sua família, uma pessoa com quem você mantém contato e que quer manter para sempre ao seu lado.

Eu perdi várias coisas durante a minha vida. Não somente borrachas e conhecidos. Porque ninguém em um mundo alienígena é somente “conhecido” do outro. Quando se conhece, imediatamente há um laço vivo que é criado entres as partes envolvidas. Olhei para você, você é humano, portanto eu já te amo.

Logo, as minhas perdas se entenderam de amigos, até família. Houve coisas que eu perdi no meio de minha estrada também como, por exemplo, o direito de viver livremente. De não precisar me esconder e de não estar sujeita à morte cada vez que queria alguma coisa concreta.

Era aterrorizante viver em perigo constante de perda. Perda de si mesmo e de todos que você ama. Perda de sorrisos, de alegrias inventadas.

Mais uma vez, eu tinha perdido.

E, não, eu não estava acostumada. Nenhuma das tragédias anteriores tinha amenizado o baque dessa queda. Eu estava dilacerada, presa em minha própria caverna — não na que eu morava, na que eu havia criado em minha cabeça —, presa em minha escuridão. As nuvens não se arrumariam no céu em figuras que só os apaixonados reconhecem. “Olha só, é um coração”, quando na verdade era só um tipo de nuvem stratus. Para os apaixonados, é um coração, ora.

As constelações não se arrumariam novamente para serem admiradas. Eu não sentiria seus dedos traçando levemente meu braço e não poderia erguer meu rosto para enxergar melhor o seu sorriso.

O vento não bateria em meu rosto para eu sorrir, pensando que qualquer hora ele se aproximaria. Ele não colocaria meu cabelo para trás da orelha e seguraria em meu rosto, levantando-o ligeiramente para um encontro delicado de lábios. Não haveria mais declarações melosas de livros que líamos da época que éramos humanos. Transformamo-nos em estrelas perdidas no meio de um universo enorme. Éramos estrelas raras e difíceis de encontrar. Deus, queria que fôssemos impossíveis de sermos encontradas.

Dessa forma ele ainda estaria comigo. Uma dor insuportável espalhou pelo meu peito, queimando-o em sua ausência. Eu não poderia aceitar, não cabia a mim acreditar na terrível realidade que estava em minha frente.

Jamie havia morrido. E a simples ideia disso me fazia estremecer e querer desistir da vida que eu levava. A genuína noção de que a sua presença não seria mais minha me fazia querer chorar pelo resto da minha vida. Tinha me esquecido como superar o sofrimento.

Eu sabia que alguma hora eu melhoraria. Poderia ser em um dia, uma semana, um mês, um ano. Alguma hora eu poderia tentar esboçar um novo sorriso. Ele que tinha trazido o sorriso novamente para a minha boca quando a minha mãe partiu. Ele era o meu sustento, aquele que eu me sentia segura para abraçar e sorrir delicadamente, com a felicidade verdadeira estampando meu rosto. Jamie me acalmava, me consolava e era tudo o que eu poderia pedir para Deus.

E eu não o tinha mais.

Uma nova onda de dor percorreu o meu corpo e não queimou menos que a última. Acho que nunca deixaria de queimar profundamente, deixando hematomas e derretendo uma parte verdadeiramente real minha. Se ele estivesse comigo, provavelmente me falaria coisas que eu gostaria de escutar. Como daquela vez que ele pronunciou três palavras e falou tudo o que eu queria ouvir. “Ela te perdoou”, foram as palavras que ele disse. Ele sabia. Além de tudo, ele lia pensamentos. Se ele estivesse comigo nesse momento, seguraria em minha mão e pediria para eu olhar em seus olhos derretidos. “Não foi sua culpa”, ele diria. E, embora suas palavras fossem parecer reais, essa ideia nunca me deixaria em paz. E então as suas mãos procurariam o meu rosto e ele conduziria meus lábios até os seus, beijando-me delicadamente, como se tivéssemos todo o tempo do universo.

Lágrimas silenciosas caminharam trôpegas pelo meu rosto. Elas não conseguiam mais encontrar caminho que as outras não tivessem passado. Tiveram de usar os mesmos. Uma lembrança me atingiu, nítida, com cores vivas. Fez-me sentir como se eu estivesse lá. Eu queria estar.


— No que está pensando? — sussurrei em seu ouvido, visto que ele observava a estrada pouco movimentada que passava em frente ao hotel onde havíamos nos instalado naquela incursão.

Percebi que ele sorriu serenamente.

— Vem cá — ele murmurou, puxando o meu corpo para o seu colo. Envolvi o seu pescoço, acariciando os cabelos na base de sua nuca. Ele adorava quando eu fazia isso. — Eu estava pensando em como estou feliz com você — ele balbuciou, traçando uma linha com o seu nariz em meu queixo.

— Hmmm — murmurei com os olhos fechados. — Será?

Ele riu fracamente.

— O que foi? Está duvidando de minha palavra?

Abri meus olhos e afastei um pouco meu rosto do dele, mordendo meu lábio.

— Não, é que... parece bom demais para ser verdade, sabe? É difícil de acreditar em minha sorte.

Ele sorriu para mim, usando sua mão livre para acariciar meu rosto delicadamente. Ele balançou a cabeça de um lado para o outro.

— Eu é que não posso acreditar em minha sorte, Susi — ele murmurou, tão baixo que tinha o perigo de eu não conseguir ouvi-lo. — Imagine só, você, toda linda e formosa, mordendo o lábio em minha frente, fazendo carinho em minha nuca e dizendo que é sortuda por me ter. Você realmente não se enxerga, garota.

E então ele puxou meu rosto para o dele, colando os nossos lábios apaixonadamente, como se fosse a nossa última chance de nos beijarmos. Lembro-me de ter sorrido durante o beijo, sem nenhum motivo muito claro. Eu estava simplesmente feliz.

Se eu pudesse escrever uma coisa para ele, qualquer coisa, e soubesse que ele fosse ler, teria algumas coisas que eu queria que ele soubesse. Simulei uma carta em meus pensamentos, conseguindo imaginar a caneta deslizando pelo papel e até ele lendo depois.

“Meu amor,

Houve coisas que nunca foram ditas enquanto estávamos juntos. Quero que você as saiba agora, mesmo que já seja tarde demais. Não há mais nenhuma opção, nenhum modo de eu lhe comunicar essas palavras, a não ser pela imaginação. O que eu posso fazer? O nosso momento chegou ao fim.

Se em algum momento de sua vida você se sentiu inseguro em relação aos meus sentimentos — por conta de minhas atitudes muitas vezes frias —, quero que saiba que eu sempre o amei profundamente. Eu sabia — e só acredite nisso se quiser — que ficaríamos juntos desde a primeira vez que você me olhou nos olhos. Esses seus convidativos olhos castanhos...

Que eu nunca mais verei.

Sinto muito se fiz alguma coisa errada durante a nossa relação. Gostaria de voltar no tempo e pedir desculpa por algumas vezes que perdi a cabeça e que fui estúpida. Acontece o tempo todo, mas você nunca é o real motivo. Eu só perco a cabeça por você no bom sentido, se é que me entende.

Nesse momento, eu gostaria de ter seus braços me envolvendo. Impossível, eu sei. Caramba, eu sei, e não queria saber! Por que isso foi acontecer justo com você, que sempre foi o melhor? Sinto muito, muito mesmo. Por tudo. Por ter quebrado a perna e tê-lo matado, mesmo que não diretamente. Se pudesse voltar no passado, teria tomado mais cuidado enquanto limpava os espelhos. Você não teria saído em uma incursão, não teria sido perseguido e nem...

Fico imaginando as simples coisas que fazíamos. Todas as manhãs logo que acordávamos tomávamos banho e íamos tomar café juntos. Suas mãos não abandonavam as minhas. Você me levava e me buscava nos lugares em que eu trabalhava e então íamos para o quarto e passávamos intermináveis horas jogando assuntos bobos fora. Às vezes conversávamos sério, às vezes estávamos melosos demais para isso. Eu gostava quando você fazia carinho em meu cabelo.

E agora, como sobreviverei sem essa rotina? O simples ato de caminhar pela caverna será doloroso. O calor da sua mão não estará esquentando a minha, não mais, nunca mais. Quando eu deitar na cama, vou querer sentir a sua mão mexendo em meu cabelo e vou desejar ouvir a sua voz me falando as palavras certas. Quando eu tomar café, haverá um lugar vazio ao meu lado. Sempre vazio. A sua presença invisível e muda estará lá, me fazendo companhia. Queria a sua companhia concreta.

Você consegue dimensionar a imensidão do meu sofrimento, Jamie? Você consegue ver agora como eu o amava com ardor e verdade? Console-me. Por favor. Preciso arranjar alguma maneira de me consolar com a sua ausência.

O nosso tempo acabou, não é? O tempo sempre acaba; é a lei da vida. Mas eu gostaria que ele tivesse sido eterno. Foi tão repentino... em um instante, estávamos juntos e felizes. Contávamos histórias e mais histórias. E então, a bomba estourou. Sem retorno.

Perdão, Jamie Stryder. Por tudo o que eu possa ter feito para te magoar ou te machucar, literal e figurativamente. Eu te amei, e ainda te amo, mais do que posso escrever em uma folha de papel imaginária. Sinto muito. Amo você.

De sua eterna amante, Susan.”

Sacudi a cabeça voltando aos pensamentos relativamente normais. Agora eu estava apenas dentro de um carro sozinha e não escrevia nenhuma carta impossível para o meu amor efêmero. Eu nunca poderia falar aquilo que queria para ele. Muito menos podia ficar trancafiada dentro de uma caverna com ele, abraçada ao seu corpo, beijando seus lábios.

Não tinha mais essa oportunidade. Ele tinha ido, desaparecido no espaço e no tempo, e nunca mais voltaria para os meus braços. Nunca mais sentiria a textura de sua pele.

Lágrimas escorreram por meu rosto mais uma vez, alcançando a minha boca em uma rápida corrida. Seu gosto era amargo. O gosto de sofrimento, de agonia. De perda. De rendimento.

Eu nunca rezei na minha vida, mas naquele momento foi a única coisa que fui capaz de fazer. Pedi que, onde quer que ele estivesse, que não sofresse. E que, se fosse necessário, todo o sofrimento dele fosse transferido para mim.

Eu o amava. E não poderia suportar o fato de imaginar seu sofrimento; que eu sofresse em seu lugar. Eu suportava, eu conseguia...

Irei vencer essa batalha. Com sofrimento e luta. Destruída, despedaçada. Sozinha. Mas vencerei. Eu sempre venci, sempre superei, não é?

Que droga! Eu odiava aquilo.

Notas finais
E então? Eu sei, matei com vocês igual matei ao Jamie, não é? Isso é tão triste :'( Mas, mesmo assim, ainda aguardo comentários com tudo o que vocês pensam sobre o capítulo ;3 Beijinhos e até sexta que vem :*