Another Life
13 Recaindo
Notas iniciais
— Quando Ian te encontrou… Como foi, o que você sentiu? — Kyle perguntou, enquanto comíamos diante de nossa fogueira. Estávamos na metade da quarta semana, sem nenhum indício de encontrar o que tanto buscávamos. Suspirei. — Sempre quis saber isso.
Analisei um pouco a questão, recordando-me daquele momento.
— Foi… caramba, foi algo bem grande — murmurei, balançando a cabeça. — Você sabe o que é perder a mãe, ficar um tempo sozinha e quando encontra alguém, esse alguém é seu irmão mais velho?
— Sinceramente, eu não sei, não — ele admitiu.
— Que bom — murmurei. — Dessa forma eu posso te explicar tudo, todos os sentimentos, tudo o que passou pela minha cabeça — suspirei nostálgica. — Não é algo que seja possível esquecer ou ignorar ou, eu não sei, superar. É algo que foi e que ainda é sentido intensamente.
Kyle assentiu e se espreguiçou demoradamente antes de prosseguir.
— Pode me dizer, estou ouvindo tudo.
E então eu contei.
Contei como eu me senti sem nossa mãe — perdida, confusa e ao mesmo tempo corajosa com a perspectiva de que eu teria que enfrentar tudo sozinha, sabendo que nossa mãe não tinha mais suporte para tanto sofrimento —, contei como foi a época que eu fiquei sozinha — o quanto de medo eu passei, quantas vezes eu tive de roubar comida sozinha e quase fui flagrada, como eu andava encolhida e com os olhos sempre arregalados.
— Foi horrível — eu refleti. — Os piores dias da minha vida.
— Piores do que esses?
Inspirei profundamente.
— Acredite. Sobreviver sozinha com treze anos não é nada fácil.
Não sei se ele percebeu que eu me esquivei de sua pergunta; provavelmente sim, sendo esperto como Kyle é. Contudo, perceber essas coisas é a função de Ian. Kyle não é tão analista e atencioso.
— Continue.
Suspirei.
— E foi nesse exato instante que tudo deu certo na minha vida — disse, olhando para o céu estrelado. Apoiei-me em meus cotovelos. — Os Buscadores apareceram e, Deus, eu pensei que tivesse chegado a minha hora. Realmente pensei. Eu fiquei paralisada, vendo aquelas pessoas assustadoras se aproximando de mim, tentando me tranquilizar. Estava sem reação, vendo a morte bater em minha porta. O que eu faria?! Eu não sabia.
— E o que você fez?
— Arranjei uma coragem que eu não fazia ideia que existia. Enfrentei-os, com o risco iminente. Precisava tentar. Lutei, corri, subi em um skate e tentei despistá-los virando em uma rua que supostamente deveria ser deserta. Ela não era. E eu nunca agradeci tanto em minha vida por isso.
— Ian estava lá? — Kyle deduziu.
— Exatamente. Tinha um carro parado no meio da rua e quando eu percebi uma pessoa tinha saído de dentro dele. Era um homem alto e forte que avançou para cima de mim, me deixando tão assutada que o meu skate se foi… e, bem, eu fiquei. Encurralada. Tentei gritar, mas a minha voz não saiu. Ele tapou a minha boca com sua mão, me imprensou em uma parede e iluminou o seu rosto.
Parei de falar por alguns instantes, lembrando-me de todo o momento. Da adrenalina, do coração acelerado e da percepção. Arrepiei-me ao me lembrar do exato instante, sem um milésimo de segundo antes ou depois. Apenas aquele momento, aquela luz iluminando o seu rosto, aqueles olhos que entregavam tudo o que eu precisava saber.
— Foi o suficiente — sussurrei, com os pensamentos longe. Estava sendo engolida por aquela lembrança, como costumava fazer ultimamente. Não fazia muito tempo desde o meu primeiro treinamento com Kyle e não era sempre que eu conseguia fazer aquilo, no entanto eu estava pegando prática e melhorando naquele exercício. — A luz que iluminou o seu rosto me disse tudo o que precisava saber. Aqueles olhos! Eu reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar — estava emocionada e com a respiração fraca, sentindo o mesmo turbilhão de emoções. — Foi como se Sandra estivesse lá, em minha frente, em forma de homem… Eu tive certeza. Quando eu vi aquela cor e aquele sentimento, eu soube. E foi pra valer.
Kyle aquiesceu com a cabeça.
— Não acho que tenha havido momento mais emocionante em minha vida. Antes mesmo de saber seu nome e seu sobrenome, eu já tive certeza — respirei fundo, deitando-me sobre a terra e fechando os meus olhos. Minha voz saiu fraca. — Mas ele não sabia. Mesmo com nossas semelhanças, não foi possível descobrir. Ele não fazia ideia sequer da existência de uma irmã.
— Realmente — murmurou Kyle. — Nem eu, não é? Armei um escândalo quando você chegou à caverna.
— Aquilo me magoou no momento, no entanto foi uma atitude linda, Kyle. Você ficou tão preocupado com a integridade de Ian. Foi algo entre irmãos.
— Sim — ele balbuciou. — É que eu me sentia, ainda me sinto, tão responsável por Ian. E sim, eu sei, ele já está bem grandinho. Mesmo assim eu cuidei dele por tempo demais para deixá-lo ser independente. Não consigo. Não posso.
Suspirei fracamente, abalando as minhas fracas estruturas com a verdade que me atingiu.
— Ele está sozinho agora — refleti. — Será que Peg conseguiu levá-lo para a caverna?
— Espero — Kyle disse em uma voz tão baixa e assombrada que tive medo de abrir meus olhos para conferir sua expressão.
Nós ficamos em silêncio por um longo tempo. Refleti muito sobre Kyle, Ian e esse desconhecido amor. Eu nunca havia visto Ian, no entanto a primeira vez já me disse tudo. Já o amava muito antes daquele fatídico dia de fuga. E quando conheci Kyle, foi o mesmo sentimento de admiração e amor. Desejava protegê-los com a minha própria vida e eu realmente poderia fazer isso.
Contudo, o que era aquele amor? Ele não era como o que eu sentia por Jamie, no qual as minhas pernas tremiam e meu coração disparava. Era um tanto mais natural e suave, como se fosse parte de mim sem que eu tivesse precisado adquiri-lo. Como se estivesse dentro de mim desde que eu fui gerada. Era tão real e tão forte. Talvez o amor mais sincero do mundo.
Lembrei-me de meus momentos mais turbulentos com Ian, como quando ele admitiu que tinha se arrependido de ter me salvado. Provavelmente foi a facada mais dolorosa que eu levei. Entretanto, nem aquilo freou o profundo amor que sentia por ele. Mesmo machucada, ainda carregava um sentimento forte por Ian e compreendia que ele tinha arriscado sua vida por mim. Entendia também que eu era o problema de sua vida, não a solução, enquanto ele não soubesse de nosso parentesco.
Recordei-me também de muito tempo depois, quando eu o ajudei em uma repentina separação com Peg. Tentava protegê-lo e fui até seu quarto para termos uma conversa civilizada; obviamente, tratando-se de mim e Ian não ocorreu da maneira que eu imaginei. Acabamos brigando e eu o chamei de hipócrita, afinal ele se sentia culpado mesmo não sendo. Depois, porém, eu tornei-me a única a compreendê-lo e ajudá-lo e isso provavelmente nos ajudou em nossa relação.
Lembranças. Tão fortes e definitivas.
— Do que você sente falta? — murmurei, abrindo meus olhos e procurando a mão de Kyle para segurar. Seu aperto era firme e seguro. O que eu precisava.
— Sinto falta de quando eu brincava com Ian — Kyle disse. — De quando ele e eu éramos apenas humanos em um mundo humano e tínhamos uma mãe. Era agradável — ele suspirou. — Sinto falta de nossas intermináveis conversas, que acabaram se tornando mais raras depois que separamos os nossos quartos. Sinto falta de quando as nossas ideias se complementavam.
— Suas ideias já se complementaram algum dia?
— Sim. Quando os alienígenas invadiram a Terra nós tivemos que começar a pensar sincronizadamente. Foi uma época de pensamentos iguais e atitudes parecidas.
— E quando isso deixou de acontecer?
Ele ficou em silêncio ao refletir sobre o assunto.
— Quando Peg entrou em sua vida — ele esclareceu. — Ele deixou de odiar os alienígenas quando passou a amar uma.
— Você também passou a amar uma — argumentei.
— Por isso tenho esperanças de que as coisas retornem ao seu devido lugar.
Assenti fracamente, fechando meus olhos novamente.
— Sunny ou Jodi?
— Não sei.
Aquiesci novamente.
— Jamie? — ele retrucou.
— Um dos melhores humanos que já tive o prazer de conhecer. Sinto tanta falta de sua presença. A saudade me mata todos os dias.
— Eu imagino. Já fui morto pela ausência.
Jamie. Novamente o mesmo assunto à tona, que sempre vinha com inúmeras lembranças e com a dor de que eu não o tinha ao meu lado. Precisava falar seu nome novamente, de maneira suave, ao pé de seu ouvido. Precisava de seus braços me rodeando de maneira firme e de sua respiração descompassada batendo em meu pescoço. Precisava sentir seus lábios cálidos cobrindo os meus de forma delicada e de suas mãos percorrendo a extensão de meu rosto.
Ok, pensamentos egoístas. Não posso pensar somente em mim, no meu bem-estar e no quanto Jamie me deixa contente e segura. Preciso pensar nele, no quanto ele deve estar sofrendo nesse instante se ainda estiver vivo. Ele está sozinho, perdido nessa mesma floresta em algum canto qualquer, lutando por uma vida pela qual não sabe se deve lutar.
Contudo, ele tem uma família inteira o esperando. Melanie, Jared, Peg. Eu. Todos o aguardam, vivo e saudável, com aquele sorriso cativante e seus olhos derretidos. A sua felicidade é o combustível que me faz procurá-lo; sei que ele, tendo sua família novamente, terá sua felicidade completa, incluindo-me ou não. A única coisa que me importa é que ele esteja seguro e feliz.
Talvez, tendo-o novamente, eu consiga os abraços e beijos que tanto desejo. No entanto, seria tolice se não considerasse que a nossa distância possa tê-lo feito mais gélido e frio e que ele possa me culpar por sua desgraça. E se o amor dele acabar nesse tempo de separação, enquanto ele pode pensar muito, mais do que conseguiria se estivesse rodeado de pessoas?
A floresta proporciona isso a ele: o silêncio necessário para cogitar as hipóteses de que eu seja a culpada pela sua desgraça. Se ele não me amar mais, talvez eu possa ainda sobreviver. Contanto que ele tenha um sorriso constante em seus lábios e que esteja bem seguro nas paredes de pedra da caverna. Mas e se eu simplesmente não conseguir?
— E se ele não me amar mais? — questionei em uma voz trêmula e vacilante, enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas sorrateiras.
— O que quer dizer? — Kyle me perguntou, virando sua cabeça em minha direção. Não tive coragem de sustentar seu olhar.
— Quero dizer… E se ele entender que eu sou a culpada por ele estar aqui, nessa floresta, perdido, sozinho, sofrendo?
— Você não é culpada — Kyle retrucou com uma segurança que não deveria existir.
— Claro que sou. Se não fosse por meu descuido ao limpar os espelhos, não teria quebrado a perna e ele jamais teria saído da caverna às pressas…
— Isso poderia acontecer com qualquer um — Kyle disse em uma voz assustadoramente firme. Ele pegou um dos lados de meu rosto e me fez encará-lo. — Com qualquer um. Você não é a culpada. Esses alienígenas detestáveis são.
— Não tente culpar outras pessoas.
— Não seja tão ridícula.
Tentei respirar, mas não tinha ar no meu pulmão. Meus pensamentos estavam nebulosos e perdidos e a minha visão estava fosca.
— Estou aqui por culpa, não é? — sussurrei inaudivelmente. — Me senti tão culpada que precisava me redimir sofrendo tanto quanto ele. E eu nem mesmo sabia disso.
— Não, Susan — Kyle exclamou, sendo rude comigo. Seu aperto era firme e dolorido, não mais tão seguro. Nada era seguro. — Você está aqui por amor. Não por culpa. Apenas por amor.
— Eu nem mesmo conheço esse sentimento.
Kyle parecia preocupado e desesperado, como se eu tivesse perdido o rumo. Pelo contrário, nunca tinha me sentido tão lúcida e dona da verdade. Aquela era a verdade. Ele se sentou rapidamente e me puxou para os seus braços, tentando em vão me ninar. Era impossível.
Soluços irromperam de dentro de mim, abalando a estrutura que tinha sido criada ao meu redor. Agora eu entendia que não podia ser a princesa protegida e que precisava enfrentar tudo com mais garra ainda, a fim de me redimir de todo o mal que eu causei a Jamie. Lágrimas escorriam impiedosamente por meu rosto, marcando a minha face a fogo. O rastro de fogo mais ardente que poderia existir.
O que poderia fazer tendo causado tanto mal a alguém? Kyle não entendia o que eu estava sentindo. Ele cegamente acreditava que me segurando em seus braços e me ninando carinhosamente eu melhoraria. Não poderia melhorar. Não a partir daquele momento.
Estava destruída tendo descoberto a verdade. Jamie deveria me odiar por tudo o que eu fiz com a sua vida, fazendo tudo desabar ao seu redor. Fechei meus olhos bem forte e desejei que fosse um sonho, um terrível pesadelo, aquilo que eu estava sentindo, apesar de eu saber ser real.
Era a dor mais forte que eu já havia sentido. Mais forte que quando a minha mãe se foi ou quando Ian admitiu ter se arrependido de me resgatar. Mais forte que tudo aquilo, pois naqueles momentos eu não tinha consciência do quanto estava machucando a todos. Simplesmente me sentia machucada, despedaçada e ferida. Maldito egoísmo.
Egoísta. Era aquilo que eu era, colocando-me sempre em primeiro lugar. Eu era egoísta e feria as pessoas, deixava um rastro perigoso, cheio de armadilhas. Todos que me tocaram foram queimados e caíram ao chão, como se tivessem levado um tiro. O tiro que eu não fazia ideia que escapava de meus dedos, mas que estava lá o tempo todo.
Destruía vidas. Uma bomba, que explodia constantemente e abalava tudo ao seu redor. Essa era eu, Susan Foster O'Shea, nascida de Sandra O'Shea e que tinha a pior personalidade do mundo.
Chorei muito, até que os meus espasmos cessaram e Kyle foi capaz de adormecer. Eu nunca mais adormeceria. Suspirei e discretamente saí de seu aperto reconfortante, levantando-me e seguindo para algum lugar, sem lanternas e mantimentos, apenas seguindo.
Andei muito, a noite toda, caindo algumas vezes pela falta de luz e assustando-me com barulhos desconhecidos. As lágrimas continuavam a embaçar a minha visão e a dor ainda era a única coisa que eu era capaz de sentir. Kyle não merecia ter de suportar a minha dor comigo, ninguém merecia me suportar.
Eu servia somente para machucar. Caminhei tropegamente e com os soluços balançando o meu corpo continuamente, até que eu caí e resolvi ficar deitada na relva úmida. Pela primeira vez em quatro semanas, começou a chover forte. Uma tempestade que foi incapaz de lavar as minhas lágrimas.
Eu morreria. Precisava morrer e deixar todos os que estavam presos a mim serem libertos; Kyle jamais me encontraria, visto que eu tinha saído de seu caminho planejado. Agora eu estava sozinha, deitada no meio da mata enquanto o mundo enfrentava uma chuva muito forte.
A minha chuva forte estava dentro de mim. O meu tormento. Fechei meus olhos e me deixei ser carregada. Não lutei contra o frio, a fome ou qualquer aranha que tenha vindo me picar e tenha me deixado com uma dor insuportável. Era menor que a dor emocional que eu sentia.
Sabia que estava morrendo e que talvez os próximos dias não chegariam. Por isso eu disse adeus e permaneci deitada. Permaneceria desse modo para sempre.
Era a única coisa que eu podia fazer.
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