Another Life
14 Lutando
Notas iniciais
Obviamente, a morte não veio tão facilmente como eu havia imaginado. Ela nunca vem fácil; é preciso lutar com garras para obtê-la, tendo coragem o suficiente para se machucar. E ser machucado dói. Embora eu quisesse muito morrer naquele momento, não tive forças para suportar a minha morte. Tive de suportar o frio, a fome e a dor da picada da aranha por um longo tempo, provavelmente menos do que eu imaginava, no entanto ainda era alguma coisa. Isso me matava, assim como fazia eu me arrepender de ter tomado tal atitude drástica e impensável. Como poderia morrer se não aguentava nem uma picada de aranha?
Meus olhos permaneceram fechados o tempo todo, pois tive medo de abri-los para conferir o estado de minha pele do braço por conta da picada. A chuva não cessou, caindo demoradamente e insistindo em tentar lavar a minha alma e as minhas lágrimas. Não foi possível, nunca seria.
Apesar de temer o me esperava para eu conseguir o falecimento que eu tanto desejava, estava demasiadamente cansada para continuar lutando. Vivia um pesadelo terrível, no qual eu lutava sem saber lutar. Não podia continuar fingindo que era forte e conseguiria superar as provações que a vida havia me oferecido. Para isso, joguei-me em algum lugar qualquer. Qualquer lugar é o suficiente para quem não tem casa.
Em minha mente, pedi perdão para Jamie por ele ter arranjado uma pessoa tão fraca e errante para amar. Ele poderia ter encontrado alguém melhor, que o faria bem e iria até o fim nessa missão. Essa não era eu, a garota que ele beijava e segurava delicadamente em seus braços. Não merecia que ele escutasse todas as minhas histórias noites após noites, interminavelmente. Ele não deveria ter me consolado tantas vezes, quando eu não conseguia suportar as lágrimas que invadiam os meus olhos.
Sabia por quem ele havia se apaixonado: pela garota forte e imprudente, que brigava mais que o necessário e tinha uma estrutura que a segurava. Essa era uma parte minha que ele havia conhecido com muita destreza e pela qual ele havia se apaixonado. Não era a parte principal, no entanto.
Depois que minha máscara caiu e que a verdade foi revelada, eu deixei de ser a garota arrogante que ele conheceu. Deixei de ficar com a postura reta e enfrentar tudo o que havia em minha frente, parei de encarar todos aqueles que me magoaram. Fiquei vulnerável, delicada e entreguei-me ao poder do primeiro — e, no meu caso, também último — amor.
Não era aquela pessoa que ele amava. Ele não amava a garota frágil e amável, que abraçava mais que o necessário e se declarava o tempo todo. Ele não amava todos os meus sorrisos suaves; e sim as minhas carrancas. Ele não amava quando eu era a parte que cedia; eu era a sua teimosia.
Como ele poderia suportar ficar perdido em uma floresta por causa de uma garota que ele amava, contudo que havia se transformado radicalmente? Quis dizer-lhe que eu sentia muito por tê-lo decepcionado.
Estava com muito frio, dor no corpo e fome. E a percepção de que eu havia causado aquilo por conta própria não me deixou nem um tantinho melhor. Não tive coragem de abrir os meus olhos e conferir se já havia amanhecido; temi que ainda fosse noite e não tivesse se passado tanto tempo quanto eu pensava.
Estava quebrada. Meus pedaços estavam na relva úmida que me servia de colchão. Entretanto, não eram pedaços que pudessem ser encontrados e unidos tão facilmente. Necessitava de mãos específicas que conhecessem cada lacuna e cada peça que se encaixasse perfeitamente. E eu não me conhecia o suficiente para cumprir tal serviço.
Pelo visto, nem mesmo quem eu achava que me conhecia poderia cumprir esse trabalho; afinal, com as oscilações de minha vida, seria impossível acompanhar minhas mudanças e me remontar. Não era capaz de ser remontada.
A perspectiva disso me deprimiu, fazendo eu me encolher ainda mais em minha posição fetal. Se eu não podia ser reconstruída, o que restava para mim além da morte? Havia feito a escolha certa ao ter me afastado de Kyle e seguido por um rumo distinto, no qual ele não me encontraria.
Não merecia ser encontrada. Ele que seguisse pelo caminho que tinha planejado e, caso encontrasse Jamie, contasse que eu tinha sido fraca e que ele deveria seguir a sua vida sem mim. Talvez Ian e Kyle ficassem tristes por minha partida, no entanto eles já sabiam viver sem minha companhia; superariam facilmente a minha ausência.
A minha perda não causaria tanta dor. Sempre agi no papel da intrusa. Não havia conseguido conquistar o meu lugar no coração de todos, assim como Peg fez. Consegui no coração de alguns — poucos — e esses aprenderiam a superar a minha ausência sem tantas dificuldades.
Apertei minhas mãos em punho e senti uma fisgada no braço que tinha sido picado. Era uma dor forte, quase insuportável. Contudo, não era maior que a dor emocional que eu sentia, que me dilacerava, que me conflagrava por dentro.
Desejei que a minha dor me matasse. Quis que ela chegasse encapuzada, empunhando uma arma, e mirasse diretamente em minha cabeça. Queria que fosse tão rápido que eu não pudesse sentir e simplesmente permanecesse caída no chão, enquanto outros animais alimentavam-se de minha carne para sobreviver. Se eu morresse, poderia manter alguém vivo.
E o que eu encontraria depois que partisse? O paraíso que tantos comentavam sobre no mundo dos humanos? Ou o inferno, o lugar quente abaixo da terra que me faria querer ter continuado na Terra? Ou a Terra era o meu próprio inferno? Desejei que além dessa vida existisse apenas escuridão e nenhuma sensação de existência ou lembranças. Queria flutuar no vazio enquanto era deteriorada no chão úmido da floresta.
A única coisa que eu desejava era a morte imediata. Quanto antes chegasse até mim, melhor seria. A minha única necessidade, naquele momento, era morrer.
Jamie sorriu e caminhou até mim, saindo de dentro daquele mar de árvores. Ele estava íntegro, sem machucados e sem lesões em seu modo de olhar. Ele continuava sendo o meu Jamie, seguro de si, e que me protegia de todo o mal.
Senti seus braços envolverem meu corpo com firmeza, do modo como ele costumava fazer. Estava tão fraca que tive forças somente para levantar a cabeça e flagrar seu rosto perigosamente próximo do meu, seus olhos derretidos me convidando a adentrá-los mais uma vez.
Meus lábios pálidos e rachados exibiram um sorriso leve, que fez sangue escorrer de minha boca quando as rachaduras se partiram totalmente. Jamie acariciou o meu rosto quando isso aconteceu, sem abandonar o sorriso sereno, e avançou o espaço que faltava entre nossos lábios.
Senti uma respiração em meu rosto, mas nenhum par de lábios me beijou.
Não pude evitar a atitude de piscar minhas pálpebras para conferir se era mesmo um sonho como eu pensava que tivesse sido. Sentia o calor de braços fortes me segurando, contudo não confiava no milagre que aquilo teria sido. Somente me lembrava de estar jogada no chão da floresta, desejando a morte como eu desejava comida em meus momentos normais. Como tudo haveria de ter se transformado tão rapidamente?
Quando descobri um par de olhos azuis muito próximos de mim, soube que tinha sido apenas mais um sonho. Se tivesse sido realidade, encontraria chocolate derretido me esperando com uma expressão de ternura e esperança. A expressão de quem me encarava era um misto de severidade e preocupação; a junção perfeita para definir a reação de Kyle à minha fuga. Uma respiração em meu rosto me fez sentir cócegas. Ainda estava escuro.
Kyle havia me encontrado. Eu estava adormecida, sonhando com um toque que pensei que fosse de Jamie, mas que na verdade era de Kyle. Foi por esse motivo que não houve beijo nenhum ao final do sonho. Era o meu irmão quem me segurava em seus braços. Ainda chovia em meu rosto. Fechei meus olhos novamente, soltando um gemido baixo e delirante de dor ao perceber que Kyle havia tocado em meu braço que havia sido picado.
— O que faz aqui, Kyle? — perguntei com a voz fraca e entrecortada por conta da dor lancinante.
Abri meus olhos, querendo conferir tudo o que se passava em sua cabeça. Ele se sentou ao meu lado, mantendo uma carranca infeliz em seu rosto.
— Vim te resgatar — ele murmurou, puxando o meu braço com a picada e pegando remédios de alma em nossa maleta. Recusei-me a observar o estado de minha pele.
— Não queria que viesse me resgatar — resmunguei, sentindo uma agradável sensação de formigamento em minha pele que antes latejava. Não pude conter um suspiro de alívio.
Ele deixou de olhar para o meu braço a fim de me encarar com firmeza.
— Você realmente pensou que se livraria disso tão fácil, Susan? — ele sustentou o meu olhar. — Quero dizer… essa dor, esse sofrimento. Pensou que fosse possível se livrar deles?
Engoli em seco, desviando o olhar.
— Pensei que se eu morresse…
— Você não pode querer morrer todas as vezes que precisar matar alguma coisa dentro de você — ele replicou, soando sábio. — Susan…
— Eu não consigo, tá legal? — interrompi-o, sentindo uma pontada dolorida em meu coração. Como o explicaria que ser forte era uma missão praticamente impossível? Não consegui conter as lágrimas que alcançaram os meus olhos no momento em que percebi o quanto era fraca. — Não dá. Eu não consigo voltar a ser forte como algum dia eu já fui. Por isso acho que é melhor você me deixar aqui, para eu ter uma morte lenta e…
— Bem dolorosa — ele completou, balançando a cabeça de um lado para o outro. — Você realmente acha que eu, teu irmão, vou te deixar abandonada no meio da floresta pra morrer?
— Deveria. É egoísmo me obrigar a ir com você — repliquei, provavelmente magoando-o. Não me importei; ultimamente, importava-me somente com o que eu sentia e com encontrar Jamie. — O melhor a fazer é me deixar aqui. É o meu último pedido.
— Egoísmo? — ele rezingou, estreitando seus olhos para mim. — Eu sou egoísta? Quem resolveu fugir sem se importar com os sentimentos dos outros, hein, Susan?
Fiquei em silêncio, encarando-o com os olhos arregalados ardendo em lágrimas.
— Me responda, porra! — ele se exaltou. — Me responda quem é capaz de desejar morrer tendo a oportunidade de uma vida toda pela frente. “Último pedido”, isso é babaquice. Seu último pedido é ficar sofrendo dias e mais dias, interminavelmente, até que uma gentil morte venha lhe saudar? Puta que pariu, Susan, você não tinha uma ideia melhor de discurso comovente, não?
Nunca tinha visto Kyle naquele estado de tamanha violência. Já tinha visto Ian e ele brigarem quando eu cheguei à caverna, mas nesses dias eu fui presenteada com um Kyle tão atencioso que quase me esqueci de sua personalidade complicada e explosiva; confiei demasiadamente em minha sorte e não pude esperar que ele se cansasse de minhas atitudes fracas e infantis.
A sua ironia deixou a frase carregada. Encolhi-me em meu lugar, quase esperando uma surra de meu irmão grandalhão. Sabia que ele não seria capaz de bater em mim, afinal, não era covarde. Contudo, medo era o único sentimento que me dominava. Naqueles instantes desejei realmente já estar morta.
Ele me encarou por um longo tempo com o cenho franzido, afinal, em sua cabeça eu tinha enlouquecido. Talvez tivesse mesmo, no entanto sentia que aquela verdade que eu consegui alcançar em minha loucura nunca chegaria até mim na minha sanidade. Fiquei quieta, esperando que ele desse o próximo passo. Temi qual seria.
— Eu não vou te deixar, Susi — Kyle afirmou, parecendo estar mais calmo. Senti o chão desaparecer e passei a sentir somente seus braços fortes me aparando e sua respiração descompassada em meu rosto.
— Não pode me obrigar! — protestei, ainda vacilante e com medo de qual atitude ele poderia tomar.
— Na verdade, sim, eu posso — ele me desafiou, arqueando suas sobrancelhas.
— Não vai saber o caminho a tomar de volta — argumentei, minha voz desafinada pelo descontrole.
— É claro que vou — ele desdenhou de minha provocação. Caminhou alguns poucos passos até uma árvore mais próxima e me apontou uma marca, na qual estava escrito: SIK.
— O que significa SIK? — questionei, com o cenho franzido.
— Susan, Ian e Kyle.
Estreitei os meus olhos. O que era aquilo? Algum tipo de sigla, lema ou nome de empresa?
— Isso é o quê? Um nome de empresa familiar? — zombei, mal humorada. Desejava que ele me largasse no chão e se fosse sem minha companhia.
— Isso é um laço — ele respondeu, ignorando o meu tom desagradável.
Um laço? Imaginei uma fita colorida, na qual era possível fazer um laço. Contudo, o que realmente isso significava? Com certeza era algo bem mais profundo do que uma fita colorida. Um laço entre pessoas seria uma conexão, uma ligação. Aquilo era a nossa ligação?
E então eu entendi. Éramos apenas um. Se um morresse, os outros também morreriam. Estávamos terrivelmente conectados por laços que não poderiam ser cortados. Todos entendiam que se mexesse com um, os outros se afetavam. Não era algo que poderia ser movido ou abalado por qualquer coisa que fosse. Éramos os SIK. Soava bonito.
— Você aceitou vir até aqui — Kyle murmurou, obrigando-me a olhar no fundo de seus olhos. — Não pode mais desistir. Se desistir, isso — ele apontou para a marca — será destruído. Você quer ser a responsável por destruir um laço do qual você fazia parte?
Não respondi à sua colocação. Simplesmente continuei analisando a sigla enquanto a chuva se desmontava ao meu redor por algum tempo, acalmando os meus nervos.
— Como me encontrou? — sussurrei.
— Pensei: para onde eu iria se estivesse sem rumo? — ele respondeu. — E então eu vim.
— As marcas foram feitas para você não se perder — deduzi.
— Também para confirmar o quanto estamos conectados. Caso contrário eu não teria te encontrado.
Suspirei, já sem forças para lutar contra o inevitável. Recostei minha cabeça em seu ombro.
— Você pode fazer isso, Susi — ele sussurrou.
Fechei meus olhos.
— Não, Kyle…
— Você veio, chegou até aqui — ele murmurou. — Já enfrentou coisas piores. É claro que você consegue.
— Não sabendo da terrível verdade que descobri ontem — retruquei.
Ele vacilou por alguns segundos.
— Você não está aqui por culpa. Está aqui porque ama Jamie o suficiente para enfrentar essa floresta, a dor e o seu irmão.
— Eu o amo o suficiente para ter desistido? — perguntei, sabendo que para essa pergunta ele não tinha resposta.
Estava enganada.
— Até os mais fortes sucumbem — ele suspirou. — E foi apenas um deslize. Você conseguirá enfrentar o resto dessa jornada.
— Mas ele também não me ama mais, Kyle — protestei. Meus olhos encheram-se de lágrimas. — Ele não me quer ver nem pintada de ouro. Não sou mais a garota por quem ele se apaixonou. Se eu ainda fosse… não titubearia em nenhum momento dessa jornada. Ele amava a garota forte, que enfrentava Deus e o mundo e sempre vencia. Não a garota que em uma noite qualquer se joga em um lugar aleatório para morrer.
Kyle respirou fundo, apertando-me mais contra o seu corpo.
— O amor acompanha até mesmo a mudança mais drástica — ele argumentou antes de suspirar e balançar a sua cabeça. — E mesmo que isso seja verdade, você desistiria dele porque ele não te ama mais? O sentimento é teu, Susi. É você quem tem que decidir se o ama o suficiente para continuar lutando.
— Eu não sou uma lutadora! — repliquei.
— E por que está vestindo essa armadura? — ele me questionou. — Você é uma lutadora. Chegou até aqui. Se não fosse uma lutadora, não estaria tão na defensiva. Você luta até para morrer. Por que não luta para encontrar outro alguém vivo?
Não tive nada para dizer diante sua colocação. Ele me carregou seguramente para o lugar onde havíamos estado na noite passada e me deu comida desidratada para comer. Com a questão das roupas a única solução foi encontrar uma pequena estrutura de pedra que nos protegia da chuva, na qual eu me sequei com uma toalha e troquei de roupa, colocando até mesmo um moletom de Kyle por causa do frio.
Ficamos naquela cabana o dia todo, vendo a chuva desabar ao nosso redor sem nos atingir. Kyle não disse mais nada e pareceu abatido. Quis saber o que o preocupava, mas tive medo de perguntar.
Afinal, eu não tinha morrido. Tinha sido encontrada. Não estava mais com frio, fome ou dor física. A única coisa que permanecia comigo era a minha dor emocional e os pensamentos de que eu estava naquela floresta simplesmente por culpa.
— Kyle, me alcança o mapa e alguma caneta? — pedi com a voz fraca.
Ele se exaltou por alguns instantes.
— Por que você quer isso?
— Quero escrever algo.
— Para quem?
— Acho que para mim mesma.
Mesmo a contragosto, ele me entregou o que pedi. Quando viu que virei o papel no verso conseguiu suspirar aliviado, contudo senti seus olhos me queimando o tempo todo. Não me importei.
“Diante daqueles conflitantes pensamentos, calei-me e fechei meus olhos. Era tolice, eu tinha certeza. Eu não me sentiria aliviada ao fechar os olhos, em vez disso, trancar-me-ia na mesma prisão da qual eu gostaria de me libertar. Talvez o mais adequado fosse libertar as minhas lágrimas a fim de aliviar-me, todavia elas não chegavam até meus olhos. Ficaram presas em meu coração despedaçado.
Mesmo com um milhão de tentativas, não fui capaz de desacelerar meus pensamentos. Eles me corroíam, me consumiam, me esgotavam. Dilaceravam-me lentamente, tortuosamente. Não tinham piedade de mim. Estava quebrada, arranhada, corrompida. E não sabia o que fazer a respeito.
E quando tudo que você acredita na vida se desmonta? Escorrega por entre os vãos de seus dedos e se espatifa em milhões de pedacinhos no chão? Você pode recolher esses pedacinhos e tentar se remontar, no entanto talvez tenha uma parte que nunca se encaixe em lugar algum. Ela sempre ficará de fora e sua ausência lhe incomodará, não importa quão esforçado você seja para ignorá-la. Afinal, aquilo também é seu. Mesmo fora de você, continua sendo uma parte sua.
Talvez em algum outro dia ou em alguma outra hora você se reencontre. Pode ser em uma esquina qualquer, em sua casa ou em uma pessoa. Inimaginável. Quem sabe você tome uma decisão certa, se é que existe alguma errada. Talvez seja possível se remendar; quem nunca teve que usar algum pedaço de outra coisa para remendar alguma parte rasgada? Aceite, você também pode ser rasgado. Você pode ser rasgado por suas (in)decisões e ter que aprender a costurar a si mesmo. É a vida, simples assim. Acontece com todo mundo. Comigo também aconteceu.
Minha vida dependia daquilo. De um sorriso, de um pró, mas principalmente de uma pessoa. Mas tudo estava contra. Contra mim, contra o mundo. Você está contra a vida mesmo quando a chuva lava sua alma? Eu, geralmente, sim. Minhas palavras são traduções de sentimentos que eu quero deixar para amanhã ou para nunca mais. E se eu decidir não decidir? Será o crime perfeito? Queria que fosse. Ah, como queria! Porém a realidade é muito mais cruel que isso. Afinal, ela faz parte da vida que ignora a fantasia. Vamos criar uma fantasia onde a decisão é não decidir? Vamos ignorar o mundo e construir um novo lugar para ficar? Não precisa ser perfeito, só precisa ser um lugar para ficar. Vamos chorar pelas perdas e sorrir pelos ganhos, mesmo que esses não sejam tão bons quanto o esperado?
Uma decisão. Uma perda, um ganho. Deixe-me ganhar a vida. Deixe-me vencer a minha própria batalha. Não me importo em perder as batalhas contra o mundo. Decido vencer minhas próprias batalhas. Mesmo chorando. Mesmo não deixando a chuva lavar minha alma. Eu aceito. Com um sorriso na boca e lágrimas nos olhos, eu aceito.”
Sorriso na boca e lágrimas nos olhos? Bobagem. Não entendi o motivo daquelas palavras terem escapado de dentro de meu coração para um pedaço de papel. Não aceitava a luta a que estava sendo submetida e não desejava vencer minhas próprias batalhas. Havia desistido daquilo.
No entanto, por que tinha escrito aquelas palavras lotadas de esperança muda? O que aquilo significava? Não estava pronta para lutar; muito menos para vencer. Poucas partes do que escrevi eram realmente verdadeiras: o desejo de um plano alternativo para ser feliz, os pensamentos conflitantes, a opção de não deixar a chuva lavar a minha alma.
Para quem eu havia escrito aquilo?
— Por que quis fazer isso? — Kyle me perguntou quando lhe entreguei novamente o mapa.
Suspirei, dando de ombros.
— Acho que só quis escrever o que estava sentindo. Desabafar. Mas é pura bobagem. Nem perca seu tempo lendo.
Kyle aquiesceu.
Tinha sido um longo dia, bem silencioso e diferente do que eu havia imaginado.
Escureceu. Kyle cochilou, roncando alto e desviando os meus pensamentos para lugar nenhum. Aproveitei e fechei meus olhos, encolhendo-me em meu lugar e aceitando uma noite de sono. Um sono sem sonhos. Era tudo o que eu desejava.
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