Another Life
15 Acreditando
Notas iniciais
— Nós precisamos ir, Susan — ouvi a voz de Kyle dizendo na manhã seguinte que eu havia desaparecido, enquanto ainda não havia nem clareado o dia e chovia constantemente
Pisquei meus olhos lentamente, mal tendo acordado. Suspirei, olhando-o com os olhos estreitos.
— Olha essa chuva, Kyle — repreendi-o com a voz sonolenta. — Iremos nos molhar.
— Não devemos nos importar com isso — ele respondeu rudemente, começando a organizar as poucas coisas que havíamos tirado do lugar. Senti uma pontada dolorida em minhas costas por ter dormido sobre um lugar duro e em uma posição errada.
— Por que tanta pressa? — questionei, fechando meus olhos novamente de forma derrotada.
— Chega de tantas perguntas — ele rezingou e ouvi o farfalhar de seus movimentos. — Vamos.
— Eu nem mesmo acordei direito — protestei, abrindo meus olhos novamente.
Depois de tanta delicadeza no dia anterior, cuidando de mim, nunca pensei que ele pudesse dizer:
— E quem se importa?
Aquilo me magoou profundamente. Ele, que havia sido tão atencioso comigo durante quatro semanas, agindo tão rudemente foi uma pancada forte. Quase fui derrubada. Meu cenho se franziu ao vê-lo sair de nossa pequena proteção sem me aguardar. Tive de correr com dor no corpo para alcançá-lo.
Deve ser somente um dia ruim, pensei. Mal sabia que Kyle estava passando por uma grave mudança e que não era apenas “um dia ruim”.
Deus, como eu queria que tivesse sido.
Andamos todo aquele dia, com a chuva nos cobrindo como um manto frio. Não acho que eu já tenha passado tanto frio em minha vida, contudo me mantive de boca calada, entendendo que Kyle estava em um momento complicado.
No entanto, dia após dia ele continuava da mesma maneira, se não pior. Mal conversava comigo, não se importava com o estado que eu estava e ainda exigia que eu andasse mais rápido e por mais tempo. Não conseguia compreender o que causou a sua mudança tão repentinamente e tive muito medo de perguntar.
Pensei que ele estivesse simplesmente cansado de me aturar e de ser o meu suporte. Tinha abandonado o barco e me deixado por conta própria, sem que eu tivesse a opção de reclamar. Havia forçado demasiadamente a barra naquela noite que desisti e ele não estava conseguindo aguentar com a mesma garra de antes. Pensava que eu fosse fracassada e não merecia ser ajudada.
E não era aquilo que eu queria? O reconhecimento de que era fraca e não conseguiria vencer? Ele estava fazendo exatamente o que eu tinha pedido; me deixando para trás, não se importando se os seus passos eram grandes demais para mim ou se eu estava com a garganta seca.
Contudo, a sua indiferença teve o efeito reverso sobre mim. Pensei que fosse enfraquecer, abandonar a situação definitivamente, ir para o buraco. No entanto, estava me fortalecendo de forma assustadora. Cada dia eu acordava mais disposta e passei a acompanhar o seu ritmo rápido e exigente. Parei de chorar durante a noite e as lembranças não me afetavam da mesma forma que antes: eu as expulsava antes mesmo de senti-las.
Frieza. A frieza havia me alcançado, com muito esforço, mas obteve sucesso. Eu já não era mais a garota vulnerável que se deixava afetar por pensamentos ou por saudades. Era forte e fria o suficiente para encarar a floresta sem reclamar, tendo o mesmo objetivo de sempre: encontrar Jamie. Custasse o que custasse. Mesmo que precisasse me cegar para não ver os meus sentimentos.
Não seria fria para sempre; pelo menos, era nisso que eu acreditava. Estava com a sede de vencer que eu tinha descrito no texto, dias atrás. Lutava, com muita garra, acreditando em minha vitória. Aceitei a minha condição de perdas e ganhos. “Com um sorriso na boca e lágrimas nos olhos, eu aceito”.
Nunca minhas palavras tinham feito tanto sentido para mim.
Passei a acreditar que conseguiria vencer aquela floresta e encontrar Jamie. Acreditei em todas as oportunidades perdidas. Não era tempo para desistir; era tempo para lutar e acreditar. Tempo para ser forte. Forte para Jamie, para Kyle. Pelos dois. Por Ian, Peg, Melanie, Jared e Sunny também. Precisava devolver a esperança aos desesperançados que sucumbiram. Morri vezes demais nesse tempo que passei na floresta; já era tempo de voltar à vida. Eu ainda estava viva. Ainda podia vencer.
Ainda podia devolver a vida que eu tirei de todas aquelas pessoas que haviam tocado em mim.
***
Em uma noite qualquer de insônia, ouvi que Kyle tinha acordado. Espiei por meu ombro discretamente, tentando descobrir o motivo que havia o feito se levantar. Ele estava com uma lanterna na mão e analisava atenciosamente o mapa, com uma cara preocupada.
— Meu Deus — ele murmurou. Seu cenho estava franzido e ele parecia uns dez anos mais velho.
É a minha chance de descobrir o que o transformou tão drasticamente, pensei.
Respirei fundo e tomei coragem, virando-me em sua direção, ainda deitada em meu saco de dormir. Minhas feições estavam firmes. Não me permitiria deslizar em frente ao Kyle mais uma vez.
— O que foi? — sussurrei, olhando-o fixamente.
Ele pareceu surpreso, olhando-me com os olhos vidrados.
— Nada não, Susi — ele murmurou. — Pode voltar a dormir.
— Eu não vou sossegar enquanto não souber — protestei, soando firme. Da maneira como eu costumava ser antigamente. Impositora, destemida. Gostei do modo como estava segura.
Ele me encarou, não tão resistente quanto durante o dia, apenas o suficiente para eu me calar.
— Me dê um tempo, tá? — ele falou, virando o seu rosto. — Apenas me dê um tempo.
Achei-o tão vulnerável que não pude fazer outra coisa além de virar para o outro lado. Mas não pude dormir quando ouvi seus soluços abafados. Embora a frieza estivesse constantemente presente em minha vida naqueles últimos tempos, o som de seu choro contido rasgou o meu coração. Levantei-me em solidariedade, abraçando-lhe os ombros e deixando-o desabar lentamente em minha frente.
— Por que está fazendo isso, Susi? — ele murmurou. — Vá dormir, você precisa dormir.
— Como dormirei sabendo que você está sofrendo? — retruquei. — E, além de tudo, você já fez tanto por mim. Deve estar na hora de eu retribuir.
Ele se calou. Deitou sua cabeça em meu colo e deixou as lágrimas escorrerem por seu rosto, lavando-o. Meu irmão grandalhão que me carregava seguramente até a água para me ensinar a ser mais forte e superar as lembranças estava chorando. Não chorava desesperadamente, nem alto, e muito menos parecia um gatinho assustado. Simplesmente estava com a cabeça apoiada em meu colo, deixando as lágrimas escorrerem lentamente por sua face, e recebendo os carinhos de minhas mãos.
Mantive-me firme o tempo todo, embora estivesse dilacerada por dentro ao ver seu sofrimento tão explícito. Será que ele sentia o mesmo toda vez que me via desabar? Se sentisse, eu conseguia compreender o motivo de ele ter sido tão atencioso comigo. Vê-lo se perdendo de si mesmo e se entregando para o choro era insuportável. E saber que era dessa forma que ele havia me visto também era péssimo. Sentia-me um tipo terrível de monstro. Era impossível ver alguém cair totalmente em sua frente sem cair junto com essa pessoa.
Na manhã seguinte, porém, ele agiu como se nada tivesse ocorrido. Levantou-se antes de mim, com a cara um tanto inchada, mas sem abandonar a postura. Quando acordei ele já me esperava energicamente para seguirmos adiante. Suspirei e coloquei meu tênis surrado sem reclamar.
Depois de mais algumas semanas de caminhada constante, encontramos um lago. Não me exultei tanto — afinal estava frio —, contudo me animei o suficiente para me ajoelhar de imediato e lavar o meu rosto. Suspirei, levantando a minha cabeça para o céu com um meio sorriso em meu rosto.
— Vamos logo, Susan — Kyle reclamou impacientemente.
— Não vamos nem nos lavar ou, sei lá, pararmos um pouco para descansar? — protestei com as sobrancelhas arqueadas.
— Não temos tempo para isso.
— Como não? — questionei, levantando-me para encará-lo com mais firmeza. — Temos que ter tempo pelo menos para tomarmos um banho, Kyle!
— Mas nós não temos! — ele gritou, agarrando os meus dois braços com força. Sua exultação repentina foi consequência de seu estresse, que tomava conta de todas as suas terminações nervosas.
— Por que não?! — desafiei-o, não me intimidando com o seu toque rude. Era a minha última chance de descobrir o que tanto o atormentava. — O que tanto te incomoda, Kyle? Desembuche logo.
Ele respirava com dificuldade. Soltou os meus braços depois que exigi um motivo, recuando alguns passos. Não queria me dizer a razão de tanto incômodo.
— Tome banho, então. Rápido — ele ordenou, rendendo-se e virando-se de costas para mim. Sua vontade de não revelar seu incômodo era tanta que ele até mesmo cedeu ao meu desejo.
Poderia ter aproveitado a brecha e tomado o banho que eu tanto queria. No entanto, deveria ser firme e tentar arrancar aquelas palavras definitivas dele. Não vacilei ao avançar até o lugar onde ele estava.
— Não — neguei, contornando seu corpo para encará-lo novamente. — Não vou tomar banho até descobrir por que tive de consolá-lo naquela noite.
Ele arregalou seus olhos, não esperando que eu exigisse uma prestação de contas. Logo depois, houve a raiva. Sólida, destruidora, definitiva. Tão rápida e destruidora quanto um foguete. Seus olhos gélidos queimavam sem se derreter.
— Quer realmente saber? — ele me perguntou, os olhos estreitos ardendo em chamas de ódio e sua voz desconfigurada de sarcasmo.
— Sim.
Não pude imaginar que na verdade eu não quisesse.
— Sabe aquela fatídica noite que você fugiu? — ele perguntou. Assenti. — Aquilo nos atrasou um dia todo.
— Não, foi a chuva que atrasou.
— Porque você não tinha forças para seguir em frente com chuva, não é? Porque era fraca — ele esfregou a palavra em minha face. — Vulnerável — ele desdenhou. — Esse um dia comprometeu toda a nossa jornada, se quiser saber.
— Por quê? — perguntei confusa, não entendendo onde ele queria chegar com aquelas acusações. Comprometer a nossa jornada?
— Porque nós temos tempo contado para ficar nessa floresta — ele esclareceu. — Já havíamos nos atrasado nos outros dias, quando eu deixava nós seguirmos um caminho lento e cuidadoso. Contudo, eu sabia administrar o tempo. Ainda tínhamos tempo. E então chegou aquele dia, que atrasou ainda mais tudo. De repente, não tínhamos mais tempo.
Engoli em seco.
— E por que não me contou isso antes?
— Estava te protegendo — ele disse. — Não queria que tivesse mais um motivo para se preocupar.
— Ótimo, porque agora eu tenho de qualquer jeito — rosnei, respirando fundo e tentando colocar minha cabeça no lugar. — Quanto tempo nós tínhamos para ficar nessa floresta?
— Dois meses. Exatamente dois meses.
— E o que acontece depois disso?
Ele ficou em silêncio por um tempo. Fiquei com medo da resposta que receberia.
— O pessoal da caverna vem nos procurar. Se ainda estivermos aqui dentro, todos nós nos desencontramos. E é aí que eu quero ver alguém conseguir ser forte.
Tentei processar suas palavras. Foi lento, doloroso. Entretanto, definitivo. Não havia outra maneira. Tínhamos que sair desse lugar em três dias, caso contrário nos desencontraríamos de todos. Não apenas de um. Entendi também que não importava mais se Jamie voltaria conosco ou não. Ele era o nosso principal motivo, no entanto não nos prenderia em uma floresta.
Meu coração vacilou em seus batimentos com a percepção do que estava acontecendo.
— Ele não importa, não é? — murmurei, minha voz fraca de tristeza. Havia vacilado ligeiramente depois de semanas de uma força invencível.
Kyle respirou fundo, desviando o olhar e ignorando minha pergunta.
— Tome um banho. Apresse-se. Ainda temos um longo caminho para percorrer.
Não precisava de uma resposta de meu irmão para entender que Jamie não importava mais naquela missão.
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