Another Life
16 Abalada
Notas iniciais
Depois que descobri que minhas horas para encontrar Jamie estavam sendo contadas, passei a persegui-lo incansavelmente. Olhava ao meu redor e deixava Kyle parado esperando alguns instantes a fim de explorar melhor os locais. Ele não reclamava; sabia que eu não o atrasaria nem mais um segundo.
Eram as minhas últimas chances. Se não encontrasse Jamie, tudo estaria perdido para sempre para mim. Não poderia me imaginar perdendo-o definitivamente. A mera imagem era insuportável. Tinha de ser forte; eu era forte, certo? Tinha de ser forte o suficiente.
Kyle insistiu para que parássemos descansar no antepenúltimo dia. Eu não queria; a minha vontade era continuar procurando Jamie, não deixando nenhum segundo precioso escapar. E se ele estivesse perto de nós e o perdêssemos por um mísero descanso?
— Não encontraremos nada durante a noite, Susi — ele resmungou cansado, estendendo-me um pedaço de maçã desidratada crocante e uma garrafinha de água. — É uma das últimas, não tome tudo — avisou-me, sentando-se no chão diante da fogueira que havia preparado.
— Mas temos que procurá-lo, não é? — murmurei, ajoelhando-me ao seu lado. O calor da fogueira foi acolhedor; não obstante, pois não me senti tentada a permanecer ali para sempre. — Não podemos perder essa oportunidade.
Kyle pareceu cansado quando me olhou com os olhos semicerrados.
— Se tivermos de encontrá-lo, o encontraremos.
Respirei fundo, não conseguindo crer em suas palavras. Elas eram desesperançosas e não me passavam segurança. Desviei o olhar, resolvendo mudar de assunto. Poderia sair enquanto Kyle estivesse dormindo.
— Você acha que ainda há chances de ele estar vivo depois de dois meses sem mantimentos? — sussurrei com a voz sóbria.
Ele hesitou alguns instantes antes de responder e, quando ouvi as suas palavras, entendi o motivo para tal hesitação.
— Acho que ele precisaria ter sido muito forte e esperto para conseguir isso.
Essas palavras foram — como tudo o que Kyle falava ultimamente — definitivas.
Jamie era esperto o suficiente, não era? Encontraria uma forma de sobreviver sem grandes dificuldades. E ele era forte o bastante para que me encontrasse com um sorriso, mesmo que estivesse fraco e machucado. Ele já havia suportado coisas piores. Sabia que sim.
No entanto, logo que formulei esse pensamento, fui obrigada a deixá-lo de escanteio. Ora, eu também era forte em minha essência! E havia sucumbido. Se ele desistiu, nem que tenha sido apenas um dia, pode ter se sacrificado definitivamente. Não haveria ninguém para salvá-lo. E se ele tivesse simplesmente ficado tão apavorado que qualquer chance de sobrevivência tivesse escapado de seus dedos? Era possível e apavorante.
Odiava admitir, mas Kyle estava certo. Não o encontraríamos durante a noite e, além de tudo, era perigoso vagar sozinho pela floresta no escuro. Se ele tivesse conseguido suportar, ainda dava tempo de encontrá-lo.
O meu maior medo foi que ele não tivesse conseguido.
***
O penúltimo dia foi parecido com o antepenúltimo. Mais sufocante, talvez, mas ainda manteve aquela chama da esperança tremulante em meu coração. Kyle já não falava mais; temi que ele não acreditasse minimamente em minha chance de encontrar Jamie e já se preparava para me ajudar a suportar a dor que se seguiria àquele longo período na floresta.
Mas eu ainda acreditava; e agarrava-me a um fio que ameaçava se arrebentar a qualquer momento. Tive medo de como seria se eu caísse.
A dor era maior do que eu mesma. O medo igualmente. E, ainda assim, precisava engolir as lágrimas e ignorar as lembranças. Pensar em como sua mão se encaixava perfeitamente à minha não era bom quando ainda existia o perigo de nunca mais poder experimentar sua mão cobrindo a minha. Pensar em seus olhos derretidos me dava muitas esperanças — mais do que eu poderia ter.
Kyle não falava, todavia eu sabia o quanto ele estava preocupado com o meu estado agitado. Percebia o medo em seu olhar quando eu falava com o tom cheio de certeza de que Jamie voltaria para mim. Ele sabia que alimentar tantas esperanças poderia ser perigoso e, mesmo assim, permanecia calado. Desconfiei que tivesse medo de me ferir mais do que eu já estava ferida.
Eu sabia, no fundo de minha alma, mas não confessava a ninguém. Eu sabia que Jamie poderia não estar em lugar nenhum ou que poderia ter morrido muito tempo antes e alimentado outros animais. Sabia e não queria saber. Tinha medo de que, se admitisse em voz alta, aquilo pudesse se tornar ainda mais real. Por isso, repetia incansavelmente que o encontraria. Porque assim aquela realidade parecia muito mais próxima, embora pudesse não ser.
***
Estava chovendo na noite do nosso penúltimo dia na floresta. Encontramos uma gruta para passarmos a noite protegidos da chuva. Kyle fez uma fogueira e pusemos roupas quentes e secas. Estava tão exausta pelo dia todo de caminhada constante que me alimentei e logo deitei, adormecendo rapidamente.
Acordei com o meu próprio grito. Tive um pesadelo terrível, no qual mostrava toda a vida que eu levaria passando em minha frente. Uma vida de dores e infelicidades, na qual eu somente pensaria em Jamie e não me permitiria um novo recomeço. Não me permitiria renascer.
Comecei a chorar depois de semanas, encolhendo-me o máximo que conseguia, desejando simplesmente desaparecer. As lágrimas lavaram o meu rosto e, embora me esforçasse para fazer silêncio, Kyle logo acordou com os meus ruídos abafados.
Ele se sentou ao meu lado imediatamente, acariciando os meus ombros com delicadeza. Não falou nada por um momento, me deixando chorar tudo aquilo que eu tinha guardado para mim. Somente quando eu me acalmei que ele conversou comigo.
— Eu não consegui — murmurei, o olhar perdido. — Ele se foi.
— Shh — Kyle acariciou mais freneticamente o meu braço. — É claro que você conseguiu — e por um segundo acreditei que ele diria que eu ainda tinha uma chance, que ainda não havia acabado. Não poderia esperar isso de alguém que não acreditava, portanto somente ouvi palavras que não diziam o que eu queria ouvir. — Conseguiu aprender a ser forte. Não era isso que Jamie gostava em você?
— Ele não vai ver que eu consegui ficar mais forte — sussurrei, engolindo em seco. — Ele não está aqui para presenciar isso, Kyle.
— Ele sabe que você conseguiu — Kyle murmurou. — Sabe que você vacilou, caiu, se levantou e ficou forte novamente. Ele sabe disso.
— Mas eu fui incapaz de encontrá-lo.
— E isso não significa nada — ele balbuciou. — Você tentou, tentou muito. Não poderia percorrer a floresta inteira sabendo que ele poderia estar do lado oposto que você. Era tudo o que você podia fazer.
Senti um enorme aperto em meu coração.
— E se fosse para ter sido naquele dia que eu desisti? E se ele estivesse perto de nós e eu tenha perdido-o por um deslize? Não fiz tudo o que podia ter feito, Kyle.
— Fez sim. Aquele foi um deslize necessário para você se fortalecer.
Funguei.
— Mas até mesmo você culpa o nosso atraso por aquele deslize — protestei.
— Não, eu não te culpo. Eu só estava… preocupado que alguém pudesse vir parar aqui e correr perigo de vida também. Não tinha nada a ver com você. Aquele dia foi necessário para o seu crescimento. Acredite em mim.
Fiquei em silêncio por um tempo, pensando que eu poderia ter feito muito mais e não conseguindo me perdoar. Fechei meus olhos e apertei minhas mãos em punhos, sentindo muita raiva de mim por ter sido tão fraca. Poderíamos ter explorado mais, no entanto eu não tinha sustento o suficiente para buscar Jamie. Para encontrá-lo. Era uma fracassada e Jamie me odiava por isso. Não, Jamie não. Eu me odiava por isso.
— Eu o perdi, não é? — murmurei com a voz embargada, lutando contra o choro e contra a vontade de socar qualquer coisa. Contra a vontade de me socar.
— Você é forte. Vai superar.
Fiquei com raiva de Kyle também por depositar tantas esperanças em mim quando havíamos perdido por minha culpa. Talvez tivesse sido o sono, o sonho ou a exaustão, mas naquele momento eu simplesmente queria me jogar na relva úmida e esperar a morte chegar. Porque eu não tinha conseguido. E porque eu sabia que não conseguiria.
***
Não consegui mais dormir depois daquilo. Fiquei revirando-me em meu saco de dormir e logo que clareou eu me levantei, antes mesmo de Kyle. Não desejava me jogar em um lugar qualquer e esperar a morte vir até mim. Havia desistido daquela ideia quando considerei que eu ainda tinha algumas horas decisivas e que talvez Kyle não merecesse passar por aquilo novamente. Decidi que não era justo acabar com a vida de outras pessoas; a minha era o suficiente. Portanto, saí para espairecer, para clarear meus pensamentos, para procurar por um último resquício de vida.
Vaguei sem rumo por um tempo, sempre perto da gruta. A chuva me lavava gradativamente, contudo não me incomodava. Tinha aprendido a lidar com ela. Precisava saber lidar com ela para poder procurar até as minhas forças se esvaírem. Precisava tentar encontrá-lo, mesmo que aquele fosse o último dia, mesmo que aquela fosse a minha última chance.
Contudo, eu estava demasiadamente desesperançosa. Tinha perdido Jamie para todo o sempre; ele seria apenas uma parte de meu passado. Esbocei a reação de Mel em minha mente: ela me considerando uma fracassada, chorando, gritando. Vi os olhares acusadores que receberia de dentro da caverna. Eu tinha de levar Jamie junto comigo se quisesse reações positivas. E, a essa altura do campeonato, era impossível. Eu já sabia.
Mesmo assim, continuei andando. Procurando. Eu acreditava naquilo, não? Durante toda a jornada eu acreditei que o encontraria; mesmo quando desisti pensei em quando Kyle o encontraria. Em minha mente, aquela não era uma procura sem fundamentos. Aquela jornada não era uma pergunta sem resposta. Jamie precisava voltar para mim. Não suportaria viver se não pudesse sentir ao menos uma última vez a textura de sua pele. Não sobreviveria se não gravasse atentamente cada nuance de seus olhos.
Por isso, marchei por todos os lugares da floresta que eu podia. Peguei uma pedra no chão e passei a gravar em cada árvore que passava a sigla que fez Kyle me encontrar: SIK. A sigla que o garantiu o caminho de volta. A sigla que garantiu a nossa conexão.
Conexão.
Se Jamie estivesse conectado comigo, então o encontraria por meio de nossa conexão. Por meio de nosso laço. Passei a escrever abaixo de SIK, a sigla JS. Todas as árvores estavam sendo marcadas, gravadas. Nossas marcas estavam sendo deixadas. Mas somente seriam nossas se eu encontrasse Jamie e ele voltasse para casa comigo. Poderia até me odiar; eu suportaria se soubesse que ele estava vivo e ainda era humano. Suportaria seu ódio, se este me trouxesse ele novamente. Precisava encontrá-lo de qualquer forma.
Continuei procurando-o, sem me importar com a chuva, com o frio e com os arranhões que consegui ao longo do caminho. Estava determinada a não desperdiçar a minha última chance. Por favor, apareça Jamie, pensei. Ele tinha que aparecer. Não parei nem por um segundo para respirar ou até mesmo tomar a água da chuva. Continuei andando, frequentemente girando em torno de mim mesma para olhar por todos os ângulos.
— Jamie — sussurrei com os dentes cerrados. — Por favor.
Quase chorava. Meu peito já doía e eu estava trêmula. Minhas esperanças estavam se esvaindo lentamente, abandonando o meu corpo junto à força que eu tinha obtido. — Não posso ser fraca — murmurei, apoiando minhas mãos em meus joelhos. — Eu vou encontrá-lo. Serei forte por ele. Por ele — fechei meus olhos, quase me deixando cair no chão.
Puxei o ar por entre os dentes, levantando-me em um impulso. Não poderia me permitir ser fraca. Não desistiria em minha última chance. Olhei para cima e tentei encontrar o céu entre as copas das árvores. Era praticamente impossível ver as nuvens. Suspirei, abaixando o olhar.
Também era praticamente impossível vê-lo. Entre várias árvores, havia um garoto deitado. Seu rosto estava levantado para cima, como se ele observasse o céu, apesar de eu saber que ele estava com os olhos fechados. Era um ponto escondido. Uma agulha em um palheiro. No entanto, eu o vi.
Jamie.
Com o coração acelerado, sem nem mesmo esperar alguma outra confirmação, corri através da floresta em direção ao corpo deitado na base da árvore. Cada passo mais perto parecia que não era ele; mas tinha de ser e eu me ceguei ao ponto de acreditar que fosse. Mesmo que o seu corpo fosse diferente, ainda podia ser Jamie. Mesmo que seu rosto fosse diferente, ainda podia ser Jamie. Mesmo que tudo que o compusesse fosse diferente, ainda podia ser Jamie.
Somente podia ser Jamie.
Mas não era.
O corpo inerte estava sobre uma poça de sangue que se confundia com a terra úmida. Uma arma estava presa na mão que não a segurava mais. E, mesmo assim, permanecia lá, um lembrete claro de que havia sido um suicídio. Com o coração pesado e com ânsia, caí de joelhos no chão ao lado do corpo morto.
Cogitei possibilidades. Ou era uma alma que ainda tinha um humano a incomodando tanto em sua cabeça que decidiu se matar. Ou era um humano que tinha conseguido dominar uma alma e não suportou a criatura prateada em seu corpo, tanto que se matou. Ou era um humano que estava com muito medo e não viu outro caminho senão a morte. Ou, ainda, poderia ser uma alma deprimida. Existia isso no mundo perfeito das almas? Elas estariam privadas da completa tristeza que as fariam pensar incoerentemente ao ponto de se matar em uma floresta?
Eram dúvidas que jamais poderiam ser respondidas. Dúvidas que me deixariam no segundo seguinte, mas que naquele instante queriam ter sido sanadas. Apenas naquele instante, naquele mísero segundo, elas pareceram de extrema importância. Isso até eu perceber as minhas poucas certezas, que me fizeram esquecer de tudo. Uma de minhas certezas — e essa não me confortou tanto quanto eu imaginava — era que aquele corpo não era o de Jamie. A outra era de que estávamos perto do fim. Aquela pessoa provavelmente não haveria andado tanto antes de se matar. Portanto, a nossa jornada estava muito próxima de acabar, sem nenhum sinal de Jamie.
Estava chorando ao lado do corpo inerte de um desconhecido quando Kyle me encontrou. Ele não disse nada, apenas me rebocou pela cintura através do caminho pré planejado e me conduziu para fora da floresta, enquanto eu ainda chorava. Não teve nenhuma dificuldade em roubar um carro, visto que o tempo estava chuvoso e era muito fácil pedir ajuda a qualquer alienígena.
Eu tentei secar as minhas lágrimas e segurá-las quando entramos no carro. Quis dizer que tinha sido firme durante toda a jornada e que seria digna de encontrar Jamie. Droga, mas eu não era. Era simplesmente uma humana errante que pensava que conseguiria suportar a perda com força invencível. Eu não podia, essa não era eu.
No entanto, consegui me manter firme no nosso caminho de volta. Engoli o choro e tentei não me deprimir mais ainda com o barulho constante da chuva naquele dia. Kyle ficou em silêncio boa parte do caminho, apenas dirigindo concentrado e sem se preocupar com o frio que sentia por estar molhado, mesmo que o ar-condicionado esquentasse o carro.
— Eu li o que você escreveu no mapa aquele dia — ele sussurrou tão baixo que pensei que tivesse sido somente minha imaginação.
Olhei para ele, mas não o respondi.
— Sabe, eu acho que você é forte o suficiente para suportar tudo com lágrimas nos olhos e um sorriso na boca.
Mesmo que não tivesse forças para falar, fiz um esforço para usar o sarcasmo. Minha voz saiu desafinada e não se projetou da forma como eu desejava.
— Nem que seja por orgulho?
— Nem que seja por orgulho — ele assentiu e eu desviei meu olhar, encarando as gotas de chuva que escorriam pela janela do carro.
E então era aquilo. Eu havia perdido. Segundo Kyle, havia me tornado mais forte nesses meses e tinha aprendido a ser uma sobrevivente. Não era assim que me sentia. Sentia-me fraca ao me ver de mãos abanando e tremia de medo dos olhares que receberia. Dois meses não teriam sido suficientes para encontrá-lo? Era o que todos achavam; era o que eu também acharia se não tivesse sido fraca e desistido no meio do caminho. Se não tivesse tanto medo de minhas lembranças ao ponto de ter de parar.
Eu havia perdido e sabia — mesmo que aquilo estivesse escondido em uma gaveta dentro de mim — que teria de aprender a suportar aquilo sozinha. Teria de suportar a dor de sua ausência nos corredores da caverna. Teria de suportar os olhares e as conversas interrompidas. Teria de suportar tudo aquilo sozinha e também negar a ajuda de Kyle. Já estava na hora de ele retomar a sua vida.
Estava cansada de roubar a vida dos outros. Mas não podia me esconder como um gatinho medroso. Se eu tinha roubado, teria de enfrentar a prisão. Não era assim que tinha que ser?
Era, eu sabia, mas isso não me impedia que odiasse aquilo com tudo o que ainda me restava.
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