Notas iniciais
Oláááá! Terceira semana que eu mantenho a promessa de sexta-feira. Muito bem! Ponto pra escritora desorganizada aqui que está tentando impor um ritmo para si mesma hahahahaha Enfim, leiam ouvindo: https://www.youtube.com/watch?v=_gMq3hRLDD0 Boa leitura :*

A alegria intensa não é eterna; e a minha durou muito pouco.

Quebrei a minha perna alguns dias depois do meu momento agradável com Kyle e Ian. Eu limpava os espelhos quando a escada oscilou e eu caí — e daquela vez não havia nenhum Jamie prontificado para me salvar.

A dor da queda foi insuportável. O mundo ao meu redor girava, enquanto eu ouvia um burburinho irritante de pessoas preocupadas. Queria mandá-las se calar. Minha cabeça começou a latejar com o barulho e o meu único desejo era arrancar a minha perna fora de uma única vez. Talvez parasse de doer.

E eu queria ver Jamie. Queria que ele viesse até mim para me dizer que a dor passaria, que tudo melhoraria. Contudo, ele nunca dava sinal de vida. Eu via inúmeros rostos, menos o dele, que eu sabia que reconheceria mesmo a quilômetros de distância.

O mundo ao meu redor escureceu até desaparecer.

E eu não tinha conseguido ver Jamie.

A percepção de que o mundo voltava a ganhar formas voltou para mim o que pareceu pouco tempo depois. Passei a ouvir conversas indistintas sobre remédios de alma e senti uma dor latejante em uma de minhas pernas. As lembranças rastejaram em minha mente até me encontrarem e me afirmaram que eu tinha machucado a perna.

“Ah, deve ser isso”, pensei calmamente, “devo ter desmaiado de dor e fiquei desacordada por pouco tempo. Eu ainda devo estar no campo de espelhos e...”

Contudo, o meu raciocínio foi interrompido por algumas vozes; e eu passei a entender as conversas. Não queria ter entendido.

— Eles já deveriam ter voltado, não é? — era a voz consternada de Jared.

— Sim — era a voz de Jeb, bem mais sombria do que geralmente era.

Quis perguntar: “mas quem?”, no entanto resolvi esperar calmamente pelo entendimento da conversa antes de me precipitar.

— Mas tenha calma. Kyle e Sunny trarão notícias e talvez eles de volta.

— Era para eles terem voltado no dia — a voz delicada de Melanie interferiu baixinho.

— Eu sei, Mel — Jeb a consolou. — Eu tenho certeza de que foi apenas um pequeno imprevisto.

— Jamie, Peg e Ian estavam juntos nesse pequeno imprevisto — ela retrucou e parecia emocionalmente abalada. — E eu os quero novamente.

— Eu sei, Mel. Eu sei.

Quando percebi que eles não falariam mais coisas que eu pudesse me interessar, ainda de olhos fechados, perguntei:

— Onde eles foram? — minha voz estava rouca e meio fraca.

— O quê? — Jared disse.

Respirei fundo e abri os meus olhos, percebendo que eu estava no consultório do Doc e não na sala de espelhos. Franzi o cenho.

— Onde eles foram, por que, e há quanto tempo eles estão fora? — perguntei com a voz seca e fria, encarando o teto acima de mim.

— Os remédios tinham acabado para curar a sua perna — Doc disse imediatamente baixinho de algum canto de seu consultório. Ele parecia culpado e todos o olharam com olhares a fim de repreendê-lo.

— Doc — Mel chamou sua atenção quase que imperceptivelmente, encarando o chão.

— Deixe, Mel — Jared a tranquilizou, avançando para abraçá-la. — Ela vai ter que saber em algum momento.

— Saber do que, Deus do céu?! — exclamei, já irritada com o suspense.

Eles se entreolharam antes de Jeb falar para Doc continuar com o seu relato.

— Então, só tinha sobrado alguma coisa para dormir e o Corta Dor. Nada que fosse suficiente para curar sua perna. Fiz o melhor que eu podia com os meus equipamentos para enfaixar a sua perna, mas eu sabia que não era o satisfatório. Precisava de mais recursos. Jamie, Ian e Peg saíram imediatamente em busca de remédios. Eles não iriam para longe. Teriam que ter voltado no dia. Porém, até agora...

Era o suficiente para eu entender.

— Quantos dias vocês me mantiveram desacordada? — perguntei, com medo da resposta.

— Quatro dias. Estávamos te tratando à base de soro.

— Por que vocês me mantiveram desacordada? E não me digam que era por causa da dor, porque eu sei muito bem que o Corta Dor é eficiente e eu não precisava de tanto sono assim.

Eles ficaram em um silêncio assustador dentro do local. Um silêncio que me deu tempo de cogitar todas as hipóteses do que poderia ter acontecido com Jamie, Ian e Peg no intervalo em que eles estiveram expostos no mundo real. Estremeci, com medo de desabar mesmo deitada em um catre desconfortável.

E então a voz fraca de Melanie murmurou:

— Não queríamos que você soubesse a nossa falta de controle sobre a situação. Não queríamos mais uma pessoa preocupada com isso.

Com a sua fala, eu entendi que todas as possibilidades de perda de um irmão e um namorado estavam ridiculamente próximas de minha vida. Naquele momento, em frente a todos, eu fechei meus olhos e chorei. Porque estava com medo.

Mas, principalmente, porque não tinha visto Jamie no dia em que ele desapareceu. E talvez eu pudesse nunca mais vê-lo.

GRUPO DE HUMANOS SOFRE UM ACIDENTE DE CARRO DURANTE UMA FUGA.

Era o que a manchete do jornal dizia, em letras ridiculamente destacadas. Em letras ridiculamente dolorosas. Grupo de humanos sofre um acidente de carro durante uma fuga. Na reportagem, havia a explicação de que um dos integrantes do carro era uma alma que havia sido coagida pelos humanos a participar de seu grupo. Os outros dois integrantes eram humanos, sendo que um deles — o mais velho e companheiro da alma — havia sido capturado e eles estavam tentando inserir uma alma em sua cabeça, enquanto o outro — o mais jovem — havia falecido durante o acidente.

Sunny e Kyle tinham saído em busca de notícias de nossos companheiros de caverna e a única coisa que encontraram foi esse jornal. Todos esperavam que eles trouxessem Jamie, Ian e Peg novamente. Contudo, passaram a acreditar na impossibilidade de tal feito. O jornal confirmava aquilo que todos já sabiam.

Eles não voltariam.

Em um dia qualquer, Peg havia me contado sobre quando Wes morreu. Ela disse que tinha ido a uma incursão e que quando voltou Jamie correu para abraçá-la com marcas de lágrimas em seu rosto. A Buscadora que perseguia Peg tinha matado Wes a tiros. Ela disse que ela se sentiu como se tivessem sido suas mãos que apertaram o gatilho e assassinaram o seu amigo. Para ela, era como se ela tivesse o matado.

E era dessa forma que eu me sentia. Se eu nunca tivesse caído da porcaria daquela escada, Jamie nunca teria saído em uma incursão às pressas. Ele estaria aqui na caverna, provavelmente trabalhando, mas estaria seguro. No momento em que eu quisesse, eu poderia conferir como ele estava. Poderia dar-lhe água e um beijo rápido.

Contudo, ele não estava na caverna. Tampouco em algum lugar no mundo. Ele estava morto, em algum plano paralelo, se este existisse. Se não existisse, ele estava perdido no nada. No entanto, independentemente da existência de um plano paralelo, eu nunca mais o veria para protegê-lo, mesmo que ele fosse várias vezes maior do que eu e o mais adequado fosse ele me proteger. Precisava abraçá-lo, consolá-lo.

Não podia.

Eu matei Jamie.

E eu fiz Ian e Peg serem capturados.

Kyle me abraçou enquanto eu desabava internamente por duas perdas: a do meu irmão, meu querido irmão, o qual havia aprendido a me amar lentamente, mas com uma verdade inquestionável. E de meu namorado, meu Jamie, o qual era incrível na questão de me compreender e de ser o meu eterno companheiro. Kyle também tinha perdido — e aquilo deveria estar ardendo como o inferno em seu coração —, Melanie também tinha perdido — e ela deveria querer morrer, se enterrar e desaparecer, assim como eu. A caverna toda tinha perdido. No entanto, ninguém tinha noção do meu sofrimento. Do sofrimento de dupla perda, intenso, profundo. Irreversível.

Foi como se um buraco tivesse sido aberto em meu peito. Como poderia dimensionar aquele sofrimento, aquela terrível sensação de vazio? Eu queria gritar, detonar com todas as minhas cordas vocais, quebrar tudo. Contudo, eu não conseguia. Portanto, somente me enterrei nos braços de Kyle e deixei que as lágrimas lavassem o meu rosto. Rezei para que elas levassem todo o meu sofrimento junto com elas, apesar de eu saber da impossibilidade disso. Era somente o que eu poderia pedir naquele momento.

As lágrimas eram mais ácidas do que eu me recordava. Elas escorriam por meu rosto e deixavam marcas nítidas. Quando me olhasse no espelho, eu as reconheceria. Reconheceria o motivo e então choraria mais. Muito mais.

Era injusto. Tanto sofrimento até conseguir o que eu queria e, quando finalmente consegui, perdi outra parte de minha vida. Minha cabeça não era capaz de acompanhar o ritmo cruel do que eu estava vivendo. Não conseguia aceitar, absorver a informação.

Na minha cabeça, Jamie apareceria a qualquer momento com aquele seu sorriso e seus olhos derretidos. Ele seguraria em minhas mãos e sustentaria o meu olhar, protelando antes de realmente me beijar. Ele costumava dizer que a melhor parte de seu dia era me olhar.

E eu nunca lhe disse isso, mas a melhor parte de meu dia também era olhá-lo. Poderia assisti-lo o dia todo e não reclamaria. Decoraria todos os seus movimentos, as suas manias e suas expressões e depois escreveria sobre tudo isso para não esquecer.

Poderia ter feito isso, mas quando percebi essa possibilidade, já não havia mais possibilidades. Eu havia o perdido para todo o sempre. Seus olhos nunca mais se derreteriam. Seu sorriso nunca mais encontraria os meus lábios.

Daquela vez, eu tinha perdido — e feio — para o destino. E eu não poderia sobreviver com aquilo.

Por algum tempo — um longo tempo, vale ressaltar —, eu somente fui capaz de chorar e chorar abraçada a Kyle. E, sim, ele chorou comigo. Não ruidosamente. Ele chorou do jeito que os homens choram: as lágrimas simplesmente escorrendo pelo rosto, a dor insuportável. Um momento de união, em um contexto que mais parecia um pesadelo. Preferia a nossa terapia familiar.

Mas então, com uma força sobrenatural e uma ideia insana, eu abri meus olhos inchados e percebi que ainda havia uma chance. Pelo menos para ele e apenas um tantinho para mim.

— Se não podemos salvar todos, ainda temos a chance de dois — murmurei, completamente cansada de minha luta contra o que não podia ser modificado. Não tinha a capacidade de aceitar que Jamie havia realmente morrido. Nunca mais o veria, nunca mais sentiria seus braços me envolvendo. Seus lábios nunca mais encontrariam os meus, seus olhos nunca mais se derreteriam. Como eu poderia viver com a certeza de que amanhã eu não teria um rosto para sorrir gentilmente ou para me perguntar sobre o meu passado? O que aconteceria a partir disso? — Eu não quero perder toda a minha vida. Vamos tentar resgatar Ian e Peg. Por favor. Pelo menos isso.

— Eu sei como é isso, Susi — Kyle murmurou enquanto esperávamos que Sunny retornasse ao carro com notícias. Tínhamos ido à cidade em busca de informações — e uma cura real para minha perna — e conseguimos encontrar o centro de cura para onde Peg e Ian tinham sido levados depois do acidente. Sunny diria ser uma Confortadora — uma espécie de terapeuta —, e tentaria convencer os Curadores a conversar com Peg e orientá-la. Na verdade, ela estava somente em busca de informações e sabia que Peg seria perfeita para oferecer isso a ela.

Não respondi à observação de Kyle, deprimida demais para conseguir fazê-lo.

— Eu perdi Jodi. Mais de uma vez. A primeira muitos anos antes, quando ela foi capturada pelos Buscadores. E a segunda quando eu encontrei Sunny e Jodi não conseguiu retornar ao corpo — ele fez uma pausa a fim de me dar espaço para alguma observação, contudo eu somente continuei olhando pela janela com desânimo. — Eu perdi minha mãe e meu pai. E inúmeros amigos. Você também perdeu sua mãe e suportou...

— Mas ela está viva — protestei com a voz fraca e já com vontade de chorar. — Não totalmente, mas ainda assim.

— Ela não está aqui com você — ele replicou. — Além disso, você acreditou por anos que ela estivesse morta antes de encontrá-la. E você a encontrou sendo hospedeira, sem sinal de vida, seu corpo sendo dominado por uma alienígena.

Eu entendia o que ele queria dizer. Entendia que não era a minha primeira, muito menos última, perda. Sabia que ele estava tentando me ajudar acima de tudo, mas que compreendia perfeitamente o meu sofrimento. Eu sabia que ele era o meu irmão e que me apoiaria para sempre, que me abraçaria quando fosse necessário e cometeria as maiores loucuras por mim. E, sim, eu era muito grata a ele por isso. Mas, naquele exato momento, eu não consegui demonstrar isso.

— É tudo tão injusto — e eu sabia que aquela frase tinha esclarecido muitas coisas para ele. Era injusto ter que perder, chorar e sofrer. Era injusto ter que aparentar fortaleza para ajudar a irmã mais nova sensível e despreparada, mesmo quando tem muita vontade de chorar pela perda do irmão mais novo. Tudo é injusto.

Ele segurou em minha mão quando eu comecei a chorar novamente; e me segurou por mais muito tempo, até quando Sunny entrou no carro com os remédios necessários para curar a minha perna e uma história esclarecedora: Peg tinha trocado de corpo temporariamente — o outro corpo dela seria analisado — e uma alma tinha sido inserida em Ian. “Por enquanto não tem muito o que fazer a respeito”, ela disse, “porém, quando eu conseguir, desfaço a inserção e Ian e eu voltamos à caverna sem problemas”. Essa parte, pelo menos, estava resolvida, segundo Sunny.

— E Jamie? — perguntei com a voz oscilante, tentando me manter firme para a resposta que ouviria.

Sunny ficou em silêncio por algum tempo e isso já foi resposta suficiente para mim, contudo ela reforçou em uma voz vacilante:

— Essa parte não tem como resolver.

Eu já sabia, mas as lágrimas passaram a escorrer silenciosamente pela minha face enquanto eu via Kyle indo buscar mais caixas de remédios para manter na caverna. Era estratégico ele sair discretamente do carro e apanhar mais caixas de remédio: não queriam que a ocasião de perda por irresponsabilidade se repetisse.

Sunny não falou comigo no momento em que permanecemos sozinhas no carro. Ela me deixou chorar em silêncio no meu assento no banco traseiro do carro. Quando Kyle voltou, ele me lançou um olhar preocupado de relance, sem esboçar nenhuma reação quanto à boa notícia de que teríamos Ian novamente para nossas vidas. Pelo contrário, ele se juntou ao meu luto, compreendendo a minha dor e sendo solidário quanto a isso. Permaneceu em silêncio, com a expressão sombria, enquanto a paisagem banhada pelo sol passava rapidamente por nós.

Estava tudo perdido realmente, então. Não sabia de qual esperança eu tinha sido preenchida, no entanto ouvir a verdade em sua crueza me fez querer chorar mais e mais. Essa parte não tem como resolver, essa parte não tem como resolver. A frase ecoou em minha mente por muito tempo, dando pontadas em meu coração despedaçado, até que o mundo ao meu redor escureceu e eu entrei em um sono profundo e sem sonos. O primeiro em muito tempo.

E talvez o último.

Notas finais
Foi um capítulo bem diferente, entrecortado com cenas em diferentes momentos e contextos. Eu tenho uma história que costumo escrever assim, mas é a primeira vez que eu aplico em alguma fanfic minha. Por isso, estou meio insegura. Ficou bom? Ou vocês preferem o ritmo normal dessa história? Eu não vou usar isso em todos os capítulos, mas alguns exigirão essa minha técnica. Então eu preciso da opinião sincera de vocês, porque ainda há tempo de trabalhar de outra maneira os próximos capítulos da trama. Tirando isso, eu sei que foi um capítulo bem deprê, não foi? Eu sei que foi. E eu me odeio por ter matado o Jamie, mas foi um mal necessário :'( :'( Enfim, enfim. Espero que vocês não estejam me odiando muito, porque ainda há o resto da história para acontecer, não é? Até a próxima sexta e espero que vocês não tenham chorado muito :*