Ano Hi Mita Sora

12 Unidos até o fim


Você acha que a sua vida é uma merda? Não querendo me vangloriar, mas no último mês eu fui obrigado a ficar preso dentro de casa, mofando e precisando fazer tudo o que o Eustass queria, pra no final, isso, eu ser sequestrado. E por quem eu fui sequestrado? Por uma organização de proteção às pessoas em cárcere privado? NÃO! Pelo irmão do cara que eu acho que matei.

– Pra onde a gente tá indo? O que você quer? O que você vai fazer comigo?! – Eu ficava perguntando desesperadamente. Doflamingo tinha me amarrado com umas cordas e me jogado no banco detrás.

– CALA BOCA! – E gritou do nada, enquanto dirigia. – Tsc, você é muito chato, como o meu irmão pode gostar de você?

– S-Seu irmão, ele tá mesmo morto? Ou tá vivo? – Quanto mais eu perguntava, mais ele me ignorava. – Responde!

Não importa o quanto eu questionava, ele nunca me respondia se o Rosinante estava vivo ou morto. A última lembrança que eu tenho dele é do corpo ensanguentado no hotel, com o cheiro de queimado pela fiação elétrica, e isso vêm correndo na minha cabeça por um bom tempo. Me sinto extremamente culpado e agora com medo desse cara fazer alguma coisa como vingança.

Aliás, esse sujeito me dá medo, as primeiras impressões que ele me passou foram horríveis e porra, ele tá me sequestrando e eu matei o irmão dele! De qualquer maneira, a viagem está durando horas então eu suponho estarmos indo pra algum lugar realmente muito longe. Já até sinto o cheiro do meu túmulo.

– Chegamos. – Ele me disse e saiu do carro. Deu pra ver que se tratava de uma casa pequena no interior da cidade, não era muito chamativa, mas também não era caída. Parecia ser uma casa de férias.

– O-Onde a gente tá?

Perguntei, mas já sabia que não obteria nenhuma resposta concreta. Como resultado, Doflamingo me arrastou pelas cordas até dentro de casa, como se eu fosse carne em um açougue mesmo, enquanto segurava uma sacola de compras. E foi lá dentro que eu pude perceber...

– Cheguei! – Ele exclamou, entrando comigo.

– Ah, oi, Doffy! Você demor... ou...

Assim que eu adentrei a casa, ele estava lá. Tudo o que eu senti foi um susto invisível, um alívio instantâneo e uma culpa tremenda esvaierando-se. Fechei os olhos e soltei um suspiro infinito, senti meu coração desacelerar em saber que pelo menos não era um assassino. Ele, por outro lado, ficou me encarando assustado.

– P-P-P-Por que ele tá aqui? – E após um longo silêncio ensurdecedor, eu pude ouvir mais uma vez sua voz. – E-E p-por que ele tá amarrado com várias cordas?!

– Você tá vivo... – Disse, mais tranquilo. Pelo menos a minha morte já não era mais tão certa. – Que bom...

– Doffy, o que você fez? Você disse que iria comprar peixe!

– Toma aqui a porra do seu peixe! – Do nada, ele arranca um peixe da sacola de compras e bate bem na cara do pobre irmão, que acaba ficando com a bochecha vermelha.

– Ai! – Ele grita. – Por que você fez isso?

– Pra tu deixar de ser otário, tsc.

– O que tá acontecendo aqui? – Perguntei. – E dá pra tirar essa merda de corda de mim?!

– V-Você sequestrou ele? – Rosinante questionou, tão assustado quanto eu.

– Eu disse que faria isso. – Doflamingo responde como se fosse a coisa mais normal do mundo.

– Não, você me disse que NÃO faria isso!

– Depois de dizer várias vezes que eu faria.

– Mas por q–

– Ai, que saco! – Se estressa. – Eu sequestrei ele porque você tava muito chato, toda hora ficava falando nessa porra desse cara, então eu fiz o que fiz pra você calar a merda da boca!

– I-Isso... não é verdade...

De onde eu estava, totalmente paralisado pelas cordas apertadas, eu só conseguia ver dois irmãos brigando pela minha presença. Houve um silêncio profundo onde ambos ficaram veementemente me encarando, e eu, como sempre, não sabia o que fazer.

– Ahn, será que vocês podem... me desamarrar?

– Sim, claro! – Rosinante veio em minha direção e iniciou o processo de desamarrar. – Me desculpa pelo meu irmão, ele é louco.

– Tá bom...

Eu sei muito bem que o correto sou eu pedir desculpas pela tentativa de assassinato, mas confesso que eu não sabia muito bem reagir perto dele. Rosinante ia retirando as cordas em um profundo silêncio constrangedor, sem dúvidas alguma aquela não era uma boa situação. A última vez que o vi tive um ataque de raiva, não é fácil encará-lo tão perto.

– Ei, ei, ei, ei! – Doflamingo interviu e olhou pra mim, com raiva. – Não vai pedir desculpas, garoto?

– Doffy, esquece isso! – E o mais novo o tentou impedir.

– Não, não, ele tá certo. – Mas acabei intervindo. – Desculpa pelo que eu fiz lá no hotel, eu não queria ter descontado em você.

– Tá tudo bem, de verdade...

– Então acho melhor eu ir embora, agora que eu sei que tá tudo bem contigo não preciso mais me preocupar. – Me virei, preparando-me para ir embora daquela casa. Não que a minha fosse melhor, aliás, eu pretendo usar essa oportunidade e fugir pro México, mas eu simplesmente quero esquecer toda essa história.

– Espera aí! – Mas Doflamingo me impediu, que saco.

– O que foi agora?

– Você acha que vai mesmo embora assim? Você sabe a merda que fez o meu irmão passar, garoto?

– Novamente, eu peço desculpas pelo lance do hotel.

– Que se dane a porra do hotel! Esse traste já quebrou tantos ossos na vida, já pegou fogo, já caiu de prédios, de árvores, até da merda do bueiro ele já caiu, você acha mesmo que bater nele com um abajur vai matá-lo? Quem dera!

– “Q-Quem dera”...? – Rosinante se entristece.

– O que você quer comigo, então? – Perguntei.

– Foi como eu disse antes, desde esse dia ele não para de falar em você por um segundo sequer! É um porre, eu preciso que vocês dois façam as pazes pra eu poder ter um pouco de sossego, tsc.

– Han? – Eu sou obrigado a isso?

– Doffy, para com isso! – O mais novo se estressa e vem até mim. – Desculpa pelo meu irmão, eu nunca pedi pra você vir pra cá, ele é que inventa essas besteiras, você pode ir embora a hora que quiser.

– Então tá. – Mais uma vez, me virei.

– Pode ir embora porra nenhuma, eu não aluguei essa bosta de casa à toa!

– E-EI, ME SOLTA!

Doflamingo, essa criatura que mal conheço e já odeio, achou que seria uma boa ideia agarrar meu braço e me arrastar pra algum lugar não-identificado. Rosinante tentou impedí-lo, mas foi inútil, uma vez que seu irmão também o estava arrastando para o mesmo local. Em seguida, ele nos jogou em um quarto qualquer.

– Vocês dois vão ficar aí! – E fechou a porta, trancando-a. – Só vão sair quando fizerem a porra das pazes!

– D-D-Doffy, não faz isso, me tira daqui! – Rosinante ficou batendo na porta desesperadamente. – Abre isso, ele já me pediu desculpas e eu também já me desculpei, não tem mais nada pra falar! Abre essa porta, por favor!

Eu, por outro lado, preferi apenas deitar-me em uma cama de solteiro que havia aqui. Se tratava de um quarto absolutamente normal, pequeno, perfeito para aprisionar dois coelhos em uma gaiola. Francamente, são tantas preocupações atuais que sequer consigo me importar.

Permaneço olhando para o nada, com as costas na cabeceira e ouvindo Rosinante gastar suas energias à toa. Rosinante...

Fazem cerca de trinta dias que não o vejo, nem sabia se estava vivo ou não. Descobri também que a mesma pessoa que encontrei caindo de árvores e salvando patos afogados tratava-se do garoto que conheci na infância, aquele que guardei um rancor profundo por tanto tempo, por tantos motivos... motivos que ele sequer deveria saber. No fundo eu sei que a culpa não é dele, mas...

– Ei. – O chamei, baixo, sem nem olhá-lo. Ele parou de bater na porta mas também não me olhou, estava de costas. – Não vai adiantar, seu irmão não vai abrir essa porta.

– Algum dia ele vai precisar abrir, né! – Respondeu, já impaciente. Ele provavelmente me odeia, com motivos. – Não dá pra ficar num quarto pro resto da vida.

– Quem sabe... talvez dê.

– O que você quer dizer?

– Só quero dizer que não adianta você gastar sua voz, seu irmão não vai abrir a porta.

– Então o que eu devo fazer? Eu não quero ficar preso contigo.

– E você acha que eu queria estar aqui? Eu nem queria voltar a olhar a sua cara.

É, esse era exatamente meu medo e meu desejo. Estar preso com a pessoa que conseguiu arruinar a minha vida duas vezes sem nem ao menos se dar conta, aliás, voltar a vê-lo por si já era um inferno mental. Tudo o que eu queria era esquecê-lo e voltar a ter minha vida de antes, é pedir muito? E depois da última frase, Rosinante ficou em silêncio e se virou, olhando pra mim com os punhos cerrados.

– Por que você começou a me odiar de repente? – Não disse nada em resposta, então ele começou a andar em minha direção. – Responde! Por que você disse aquilo no hotel? Quem é você, afinal?

– Você...

– Hm?

Continuei sentado na cama do mesmo jeito que estava, com a única diferença de voltar a olhá-lo. Minha voz estava tão seca e sem emoção que chegava a soar triste. A verdade é que eu não consiguia nem olhá-lo, quem dirá explicar todos os motivos de odiá-lo.

– Você se lembra? Daquele dia.

– Dia?

– O retrato... a promessa. O orfanato.

– Orfanato? – Ele hesita. – Então é verdade mesmo... você é aquele garoto.

– Quando eu soube que era você, eu acabei perdendo o controle. Na hora eu até pensei que você soubesse e por isso se aproximou de mim, por brincadeira.

– Bom, eu não sabia e... "por brincadeira"?

– Pra se aproveitar.

– Eu nunca faria isso! Eu não sabia que era você, e mesmo se eu soubesse eu não usaria isso pra me aproximar de você. Eu me aproximei porquê... como eu posso dizer... porque eu senti algo de diferente assim que te vi, desde a época do hospital.

– E eu deixei que você se aproximasse, ou melhor, eu também me aproximei de você. Foi um erro enorme, e agora estamos aqui. Presos.

– Foi tão ruim assim? – Ele se aproximou um pouco mais e se ajoelhou no chão. – Você não queria voltar a me ver?

– Não, não queria.

– Desde a época do orfanato?

– Desde que eu saí do orfanato.

– Por quê?

– É complicado explicar...

– Então só tenta me dizer.

– É uma longa história.

– Bom, o meu irmão não vai nos deixar sair tão cedo, então acho que temos tempo.

Não sabia por onde começar ou o que dizer. Uma parte de mim sabia muito bem que a culpa não era de Rosinante, contudo, esta é apagada de modo tão brusco por meu passado que não consigo, mesmo após tanto tempo, perdoá-lo. Eu o odeio, o odeio e não quero odiá-lo, mas ainda sim odeio. Fiquei o olhando, pensando por onde começaria.

– Eu te amava.

E pelo visto comecei mal.

– Huh? – Tanto é que ele não entendeu.

– Na época do orfanato, eu te amava, Cora-san.

Ele ficou paralisado, engoliu seco e sua pele empalideceu de modo até mesmo a corar. Deu para ver que havia sentido um impacto, tanto é que não houveram respostas.

– Foi tão chocante ouvir isso? – Perguntei.

– É que... você me chamou de Cora-san. E disse que me amava.

– Era como eu chamava antigamente, não é?

– É, eu acho, mas... – Agora desviou o olhar, com um leve sorriso. – Eu achei que nunca mais ouviria esse apelido de novo.

– De qualquer maneira, eu gostava muito de você, mas...

– Passou a não gostar depois que eu fui adotado?

– Não, nem foi por isso... me disseram pra não gostar mais de você.

– Disseram pra você não gostar mais de mim?

– ... me ensinaram a não gostar mais de você, na verdade. Eu não sei explicar, na época eu era só uma criança que sonhava em sair dali.

– Pera, pera, pera. Você nunca foi adotado?

Fiz um "não" com a cabeça.

– S-Sério? Você ficou naquele lugar até quando?!

– Até os dezoito, quando eu escolhi meu sobrenome e ganhei uma bolsa de estudos. Eu meio que acabei me adotando.

– Nossa, eu não fazia ideia disso, deve ter sido horrível.

– E foi. Foi horrível, eu... eles... – Não conseguia falar direito sobre esse assunto, não importa quanto tempo passe. Também nunca esperaria poder falar diretamente com a pessoa em questão, então acabei fraquejando. Não chegaram a cair lágrimas, mas não consegui falar.

– Law... – E Rosinante pareceu entender, uma vez que segurou em minhas mãos. Olhei para ele e senti um calor subir pelo meu braço graças a textura macia que ele possuía. As mãos tão grandes e confortáveis que senti falta por tanto tempo.

– Desculpa. – Foi só o que consegui dizer. – Me desculpa por precisar descontar em você, mas...

– Você passou anos vivendo naquele lugar sozinho, eu não te culpo. Law...

Pouco depois de falar, Rosinante apoiou seu rosto em meu ombro e ficou em silêncio, de um jeito que eu somente conseguisse ouvir sua respiração bater em meu pescoço. Sua mão segurando a minha, seus dedos fazendo um leve carinho pelos meus. Seu corpo estava tão quente como em um estado febril, mas acima de tudo, tão confortável.

Já fazia tanto tempo que eu não tinha contato humano, nem mesmo a luz do sol eu pude ter em minha pele nos últimos trinta dias. Eu não fazia questão de dizer nada, só em ouvir o coração dele batendo no mesmo ritmo do meu, seus braços me abraçando e sua mente em sintonia com a minha era o bastante para que eu não conseguisse pensar em mais nada senão pelo fato de eu sempre tê-lo amado, mas que fui forçado a odiá-lo por um trauma, por uma mentira boba.

– Ei... posso te perguntar uma coisa?

Por tanto tempo, ao invés de querer sentir esse calor novamente, ver seus olhos reluzentes ou vislumbrar o sorriso infantil mais inocente e afável existente, eu preferi me deixar levar por tanto ódio. Acabei acreditando em pessoas desprezíveis, fui fraco demais para admitir uma culpa que sinto há anos.

Pra falar a verdade...

– Sim?

Tentei fugir, tentei esquecê-lo para ver se conseguia superar os anos de abuso psicológico. Tentei com todas as forças apagar Cora-san de minha mente, simplesmente para ter um subterfúgio. Eu não tinha ninguém, precisava de alguém para culpar e não afogar-me em prantos.

Talvez...

– Você ainda se lembra daquele dia?

– Dia?

– O dia em que você foi embora, foi um dia de verão.

Por mais novo que fosse, jamais esqueceria. Em um fim de tarde qualquer, em um simples verão, debaixo de um céu alaranjado. A promessa que sempre nos uniu, mesmo com tantos pensamentos negativos, aquela promessa feita por um sorriso forçado que cobria suas lágrimas.

Só talvez...

– Eu lembro. Claro que eu lembro, eu disse que iríamos voltar a nos encontrar, não disse? E nós voltamos.

Foram somente simples palavras, porém, para alguém que não tinha nada, aquele som foi tudo. Mesmo após a perseguição, o único abrigo que eu ainda tinha era a velha promessa. Passei a minha vida inteira o culpando à toa, logo ele, a única pessoa que não posso culpar por nada. Logo ele, a única pessoa que me manteve vivo até hoje.

– Você se lembra... que bom...

No fundo...

Acabei fechando meus olhos, segurando firme suas mãos e retribuindo o carinho que Rosinante fazia nas minhas. Pela primeira vez em anos, um leve sorriso apareceu em meu rosto, mas dessa vez, nada forçado. Se é para arriscar algo novo, então eu decido confiar minha história nessa pessoa. Até por que...

Eu sempre quis voltar a vê-lo.

Notas finais
Demorei pra postar, mas foi! No próximo teremos a visão mais pelo lado do nosso querido e amado Rossy :3 ♥