Ano Hi Mita Sora
13 Confronto
Após uma fria onda de isolamento, mesmo estando preso em um quarto como em outrora, sinto meu corpo quente e minha mente limpa, calma, sem preocupações, como se um peso de anos tivesse sumido para nunca mais voltar. E foi graças a ele.
Estou aqui, sentado em seu colo. Cora-san havia se dirigido até a cama e apoiou as costas na cabeceira, ajeitando-se comigo em cima de si. Me abraçou e me fez encostar com a cabeça em seu peito, sentindo todo o calor que emanava. Ele apoiou seu queixo em meus cabelos e ficou brincando com meus dedos, conversando comigo. Estávamos em paz.
– Então é por isso que você me odiou por tanto tempo... – Contei-lhe minha história no orfanato e ele reagiu preocupado. – Eu sinto muito por não ter vindo antes e te protegido.
– A culpa não é sua. – Respondi. – E isso ficou tão no passado, eu já deveria ter esquecido.
– Não é algo que se esqueça tão facilmente, leva tempo, mas eu vou ficar ao seu lado. Tá bom? Eu prometo, e dessa vez é sério.
– Obrigado. – Me aconcheguei mais em seu peito, ele deu um leve beijo entre meus cabelos.
– Quando eu fui adotado, meus pais me levaram pra França, onde eu conheci o Doffy. Na época ele me odiava, foi bem tenso também.
– Ele me assusta...
– Sabia que eu sempre falava de você? Eu irritava o Doffy de tanto mencionar o seu nome e isso só o fazia me odiar ainda mais, mas mesmo assim, eu sempre falava do meu amigo do orfanato.
– Mas atualmente vocês se dão bem, né?
– Depois que eu entrei no colégio e os garotos de lá começaram a me bater, o Doffy, não sei porquê, decidiu que iria me proteger. Foi aí que ele me ensinou a lutar, depois de ser expulso da escola por quebrar o nariz de um deles.
– Seu irmão é bem esquentadinho, né..?
– Mas ele é uma boa pessoa! Não parece, mas ele é, só é meio superprotetor.
– Isso explica porquê ele nos prendeu aqui.
– Ah, não foi só por isso. É que depois que você me deixou inconsciente no hotel, reclamaram do barulho e do cheiro de queimado e acabaram me levando a um hospital, daí chamaram o Doffy, só não foi o mesmo hospital que você trabalhava.
– Ele ficou com vontade de me matar?
– Depois que eu me recuperei, disse que tinha sido você. Ele ameaçou te matar, mas aí eu disse que você também era o mesmo garoto do orfanato.
– E o que ele disse?
– Ele me chamou de burro por não ter percebido antes.
– Realmente...
– E depois disse que te mataria mesmo assim, mas eu o impedi e disse que preferia esquecer essa história e voltar pra casa. Eu recebi alta e nós voltamos pra França, só que aí...
– Você não conseguiu parar de falar de mim?
– Eu falava de você toda hora sem perceber! Pro Doffy foi como reviver a infância, porque foi difícil pra ele me fazer parar de mencionar o orfanato, eu até recebi algumas chantagens, mas depois que eu te reencontrei foi inevitável não ficar comentando.
– Mas você comentava de modo ruim? Porque eu ficaria com muita raiva de mim.
– Ruim?
Flashback de Rosinante e Doflamingo
– Eu ainda não acredito que não tinha ligado os nomes... – Rosinante comentava.
– Eu já entendi. – Doflamingo dizia sem nem mais ouvi-lo de fato.
– Nossa, como eu não tinha percebido? Eles tem o mesmo nome!
– Eu sei...
– E a mesma cor de cabelo, de olho. Quem mais no mundo teria olho cinza além dele?
– Eu sei, você é idiota, disso eu já sabia.
– Caramba, era ele mesmo... esse tempo todo.
– Rosinante, eu já ouvi.
– Depois de tanto tempo, era ele me–
– CARAMBA, QUE SACO! – E bate na cabeça do coitado. – Eu já entendi que eles são a mesma pessoa, porra!
– M-Mas isso não é inacreditável?
– Não!
– Doffy, ele era o meu melhor amigo! Você sabe que eu sempre quis reencontrá-lo, mas eu fiquei com medo dele achar que eu era um idiota por isso...
– E você de fato é.
– Mas o destino nos uniu. Isso significa algo, não é?
– Significa que ele bateu em você com a porra de um abajur! Que saco, ele te odeia e você fica falando bem dele. Você é masoquista?
– E-Eu não sei porque ele me bateu, mas ele deve ter seus motivos...
– E quem precisa de motivos pra te bater? – Bate nele na cabeça de novo. – Idiota.
– Ai! Ah, talvez ele tenha me batido porque ficou entusiasmado demais em saber quem eu era!
– Quem tentaria matar alguém por entusiasmo..?
– Você acha que ele não gostou de me reencontrar?
– Eu tenho certeza.
– Por quê?
– Porque você não tem qualidades, ele provavelmente era seu amigo só por pena.
– Poxa...
– Então não fique querendo reencontrá-lo, esse seu entusiasmo que é problemático! Você se importa muito com os outros e ninguém tá nem aí pra você.
– Você acha..? – Rosinante fica cabisbaixo. – É, talvez você tenha razão... eu vou tentar esquecê-lo de novo.
– Ótimo.
– E vou parar de falar dele.
– Perfeito.
– Não vou mais falar nele...
– Então para...
– Ok, parei.
– Beleza.
Dois segundos depois...
– Nossa, teve aquele dia em que nós dois fugimos do nosso dormitório pra domirmos juntos! Hahaha, foi muito legal, pena que não deu certo.
– Argh...
Fim do Flashback
– Deve ter sido difícil pro seu irmão. – Law comenta.
– E foi! Tanto é que ele mentiu dizendo que teria um compromisso de trabalho aqui na Inglaterra e me arrastou, alugou essa casa e armou esse plano de te sequestrar.
– Então você não ficou com raiva de mim? Nenhum pouco?
– Tá bom, eu confesso que eu fiquei magoado e uma parte de mim não queria mais te ver, mas sei lá. Eu gosto de você, e não é pouco.
Fiquei me sentindo culpado mesmo ele dizendo que não estava com raiva, até mesmo porque eu sei que fiz besteira e não posso voltar atrás. De qualquer forma, é inegável o conforto que eu sinto estando junto a Rosinante, principalmente seu abraço e seu cheiro suave.
Me virei em seu colo e fiquei de frente para ele. Meu rosto na altura do seu, o cinza dos meus olhos se cruzando com o profundo azul dos seus, tudo em um profundo silêncio. Ele me abraçou pela cintura e retribuiu meu olhar perdido, me deixando cada vez mais com certeza de que no fundo, eu não quero deixá-lo nunca mais. Ou melhor, eu não posso deixá-lo.
– Ei, Cora-san...
– Hm?
Até pensei em dizer-lhe algo, algo que estava preso em meu peito há tempos. Algo sufocante, tão quanto um peixe fora d'água que luta com todas as forças em busca de sobrevivência. Algo entalado no peito de forma tão brusca, preso em meio há centenas de cadeados distintos, todos cuja chave foram perdidas em um passado frio e distante.
Tentei o dizer, porém não consegui; ainda precisava ter certeza se estaria disposto a jogar tudo fora para continuar junto a ele, nem que fosse somente por um curto tempo. Não consegui dizer, então fui obrigado por mim mesmo a demonstrar. Joguei meu rosto em sua direção, fechei meus olhos e tomei seus lábios.
Foi quando percebi a saudade que tinha, foi quando percebi o que aquela presença significava para mim. Não era somente uma pessoa, não era somente uma lembrança, não eram somente palavras perdidas, ditas por duas crianças, era mais. Era tudo o que eu tinha. Foi sentindo o toque de seus lábios, o afável gosto de sua língua que eu pude perceber e afirmar para mim mesmo o que na verdade eu já sabia. Foi quando eu consegui dizer.
– Eu te amo.
Ele me olhou como se eu tivesse dito algo extraordinário, chega até a ser cômico. Consegui perfeitamente sentir seu coração gritando, mas não sem ele antes me puxar para o abraço mais forte que eu já conhecera, apertando-me e quase deixando-me sem ar, praticamente chorando em meu ombro.
– Eu fico tão feliz em ouvir isso... – Dizia sussurrante, o que me deixou ainda mais arrepiado. – Obrigado! Eu também te amo, eu te amo, eu te amo muito!
Rosinante apenas dava-me certeza do que eu havia dito e continuamos abraçados por um bom tempo. Não sentia tamanha tranquilidade há eras; se for para arriscar algo novo, então eu tenho certeza absoluta do que eu quero. Nos separamos, voltamos a nos olhar. Nós dois seguramos o rosto um do outro, fazendo pequenas carícias e sorrindo levemente, apenas nos apaixonando cada vez mais.
– Eu te amo. – Disse, mais uma vez, com certeza.
– Eu também te amo. – E ele me respondeu, até colarmos a testa um no outro e fecharmos os olhos, sentindo apenas as vibrações ao nosso redor se equilibrarem para em seguida, eu me jogar em seus braços e beijá-lo novamente.
– Promete que vai ficar comigo de agora em diante?
– Claro que sim. – Ele me abraçou. – Eu nunca vou deixar que nos afastemos de novo.
– Que bom... – Voltei a deitar em seu peito.
– Mas... posso te perguntar uma coisa?
– O quê?
– O seu marido... vocês se separaram naquele dia?
– Han? Marido?
– É, aquele ruivo.
– Ruivo... – Por alguns curtos segundos eu havia esquecido completamente da minha vida. – CARAMBA, VERDADE, EU SOU CASADO!
– Ahn? – Deve ser meio atípico você esquecer que é casado, até ele estranhou minha atitude. – Você é, não é?
Graças a toda essa confusão, a esses sentimentos de liberdade que eu tive em mim por curtos momentos, eu esqueci completamente que Eustass me manteve em cativeiro por quase um mês inteiro. Aliás, esqueci até de sua existência! Dá pra acreditar? Mas no momento em que me lembrei, pulei da cama.
– E-Eu preciso ir! – E gritei, indo até a porta, arrumando meus cabelos.
– E-Espera aí, pra onde você vai? – Rosinante me seguiu.
– Como pra onde? Eu preciso ir pra casa antes que o Eustass volte!
Por que eu disse isso?
– M-Mas você vai continuar com ele?
– Óbvio que sim! Eu...
Pera, do que eu tô falando?
Fiquei parado em frente a porta, segurando a maçaneta paralisado, como um perfeito idiota.
– Você vai mesmo continuar com ele? – Rosinante se aproximou.
– Ahn...
Sendo bem sincero, eu não consigo mais saber como seria a minha vida sem o Eustass.
– Você acabou de dizer que me ama, certo?
– …
Não encontrei respostas. Por tantos anos, eu só aprendi a conviver com uma pessoa, e somente com ela.
– Você ainda ama o seu marido?
E mesmo odiando Eustass, eu simplesmente não sei o que fazer.
– Não, é que...
Porque todos os anos em que eu vivi sozinho, foi ele quem acobertou.
– Eu não quero atrapalhar a sua relação, é só que...
Nós moramos juntos, trabalhamos juntos. Fazíamos tudo juntos.
– Rosinante...
Ele foi o meu único amigo por anos e a única pessoa que eu vi durante vinte dias.
– Sim?
E mesmo ele sendo um idiota, mesmo ele me forçando a pedir demissão ou me obrigando a fazer o que eu não queria...
– Eu... não gosto mais do Eustass.
… Eu nunca tinha pensado em me relacionar com outra pessoa. Na verdade eu gosto muito de rotinas.
– Então por que continuam juntos?
Porque rotinas são fáceis de serem seguidas.
– Porque ele precisa de mim, eu acho.
São cômodas, não te obrigam a mudar de realidade.
– Mas você não pode continuar com alguém que você não gosta.
Ou te fazem questionar se aquilo é realmente o que você quer.
– Eu sei, mas...
Quando você quebra uma barreira, você se arrisca.
– Tem alguma coisa te prendendo?
Quando você se arrisca, você sai da sua zona de conforto.
– …
Quando você sai da sua zona de conforto, você precisa se preparar para o risco de nunca mais conseguir voltar.
– Pode me contar, Law.
E esse risco pode ser bom ou ruim, mas isso você só descobre depois depois de tentar.
– É que na verdade...
Que eu já sabia que teria que me afastar de Eustass, é óbvio que eu já sabia. O problema é como eu posso fazer isso, se a minha vida inteira foi junto a ele, se foi com ele quem construí todos os laços que tenho até hoje e se foi com ele quem prometi estar junto pra sempre. É esse o problema, eu sempre dependi dele e, por isso, fiz tudo o que ele queria, com medo de perdê-lo.
– ELE FEZ O QUÊ? – Rosinante gritou assustado, fez até uma careta de pavor. – ELE... ele te obrigou a pedir demissão do hospital? E que história é essa de te deixar preso em casa?!
– Quando o seu irmão me tirou lá de casa, foi a primeira vez que eu vi o sol em um mês, fiquei até meio tonto.
– M-Mas isso é um absurdo, você precisa denunciá-lo!
– Denunciar? Não precisa exagerar, ele não é ruim, só é inseguro.
– É sério que você acha isso? Isso pra mim não é insegurança, não.
– De qualquer maneira, eu só... só não quero voltar pra lá.
– Óbvio que não! – Cora-san vem em minha direção e me abraça. – Você vem comigo pra França, eu não vou te deixar sozinho.
– Mas...
– Você não quer vir comigo?
– Querer eu quero, só que... nós vamos assim? Quer dizer, você espera que eu fuja e pegue um avião agora, sem nem me despedir do Eustass?
– O que você sugere?
– Eu não quero fugir.
– Você quer confrontá-lo?
– Por pior que seja, eu tive uma vida inteira junto com ele, não é nem justo sumir assim de repente e fingir que nada aconteceu.
– Tem razão... e-então eu vou contigo! Nós dois vamos juntos até ele e conversamos civilizadamente.
– Conversa civilizada entre você e ele? Tá bom...
– Ok, o Doffy fica como escudo.
(…)
Acabamos resolvendo ir até a oficina de Killer, uma vez que eu sabia que Eustass estaria lá. Doflamingo se sentiu realizado por conseguir que seu irmão e eu façamos as pazes, apesar de eu notar claramente que esse sujeito me odiava e guardava rancor de mim. Problema dele.
Deve ser bem tenso ter esse demônio como futuro cunhado, nem quero imaginar como a minha vida será daqui pra frente, mas vamos que vamos. Nós chegamos à oficina e Doflamingo estacionou seu carro para, logo em seguida, nós três sairmos em busca de Eustass. Eu estava absolutamente apreensivo.
– Ué, cadê eles? – Perguntei. A oficina estava vazia.
– Tá meio tarde, será que não estão jantando? – Rosinante sugeriu.
– Ah, verdade, eles podem ter ido à casa do Killer.
– Tsc, que saco... fica muito longe daqui? – Doflamingo reclama.
– Nah, fica pertinho.
Resolvemos ir até a casa do loiro, que ficava bem perto da oficina. Não sei porquê, mas enquanto caminhávamos, eu senti algo ruim invadindo minha garganta. Talvez pelo fato de que Eustass se zangaria com minha presença, talvez por nós definitivamente brigarmos... não... não era isso, era meio diferente.
Fomos caminhando e quanto mais andávamos, mais a sensação ruim aumentava. Fui dando passos cada vez mais lentos, como se eu não tivesse plena certeza de se queria ou não ir àquela casa. Nada contra Killer, até gosto dele, então por que essa sensação? E Rosinante até estranhou, tanto é que está olhando para mim de relance.
Mas deve ser normal. Afinal, meu marido está prestes a descobrir que eu vou fugir pra França, então qualquer nervosismo é justificável. Mas por que será que eu sinto que não é só por isso? Credo, eu sou mesmo uma pessoa confusa. Não sei se questiono demais ou de menos.
– Chegamos. – Disse, parando em frente à casa do Killer. Notei mais uma vez meu coração apertando, resolvo enfiar na minha cabeça de uma vez por todas que era só por simples nervosismo de divórcio, mas por que é que eu sinto que algo muito ruim vai acontecer se eu abrir essa porta?!
– Você tem a chave? – Rosinante perguntou, uma vez que eu estava paralisado e pensando sozinho, sem tomar quaisquer atitudes. – Ou não quer mais fazer isso?
– N-Não, eu... acho melhor tocarmos a campainha.
– Tá aberta. – Doflamingo afirma, abrindo a porta.
– Ah, tá aberta. – Falei, meio que sem perceber as coisas ao meu redor.
– Você quer que eu entre com você? – Cora-san me perguntou, preocupado.
– Não, eu preciso fazer isso sozinho.
Determinado, adentrei de uma vez por todas a casa, porém, assim que pisei no chão, minhas pernas pararam. Não conseguia mais andar, era como se meus sapatos estivessem grudados no chão com super bonder. A má intuição que eu tinha cada vez aumentava, uma parte de mim gritava pra eu sair dessa casa e eu, teimoso, não dou a mínima.
Consegui voltar a andar, apesar de cambalear um pouco com pernas trêmulas. Em minha garganta, um ácido gosto invade, provavelmente me impedindo de falar ou gritar, ou de simplesmente arrumar mais confusões ainda. Caramba, por que é que eu sinto isso? Eu estou ficando realmente paranoico.
Andei até o quarto de Killer, depois de notar que ambos não estavam jantando. Já era consideravelmente tarde, talvez estivessem descansando ou jogando video-game, sei lá, sempre foram amigos de infância. Do corredor consigo ouvir perfeitamente, em tom de sussurro, a baixa junção das vozes dos dois. Meu coração palpitava sem motivos, mas continuei.
Fui andando e, quanto mais eu andava, mais minha mente tentava me impedir de continuar. Gritavam em minha cabeça para dar às costas e ir embora, contudo, ignorei. Ignorei e continuei minha eterna caminhada até o quarto do loiro, onde as vozes cada vez ficavam mais altas e berrantes. Parei em frente à mesma e, com somente um singelo empurrão, abri a porta. Foi quando eu tive a confirmação de algo que na realidade, já sabia há um tempo, mas negava com todas as forças.
– Vocês dois...

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