Ano Hi Mita Sora
14 Epílogo

Pra ser sincero, eu já sabia. Ou melhor, uma parte de mim desconfiava que desde o começo eu vivia uma mentira, mas uma mentira cômoda o suficiente para não querer ir em busca da verdade. O medo de perder a única pessoa ao seu lado e ficar sozinho é tão grande, que praticamente te obriga a perdoá-la em meio a tudo que fizer, todos os erros, como se não valessem nada.
Quando uma dependência emocional que te faz perdoar, colocar a culpa em si e até mesmo passar a ver aqueles defeitos com naturalidade, sem questionar o porquê, é criada, mesmo se a pessoa não estiver fazendo nada para obrigar que você fique com ela, é capaz que você permaneça ali. Não por burrice, mas por medo e, principalmente, por falta de opção.
♥ ♡ ♥
– Vocês dois...
Havia ido junto com Rosinante e seu irmão até a oficina, encontrar meu marido e pedir o divórcio, ignorando a pequena voz em meu interior que gritava por “não vá”. Bati à porta do quarto, sozinho, e lá pude deparar-me com Killer deitado em cima de Eustass, trajando poucas roupas. Qualquer um em meu lugar, imagino, gritaria ou choraria. Minha reação até mesmo espantou-me, pois não me surpreendi.
– L-Law! – Eustass, por outro lado, jogou o loiro para longe e me olhou mau-encarado. – Que merda você tá fazendo aqui? Era pra você estar em casa!
– Eu...
– Como você conseguiu sair? E o Bart? Tsc, aquele incompetente!
– É só isso que você tem pra me dizer?
– O que você quer que eu diga? Você não tinha que estar aqui, quem te deu permissão pra invadir a casa dos outros desse jeito? O Killer poderia até te processar!
– “Me processar”?
– Fala logo o que você veio fazer aqui! Tsc, ultimamente você anda insuportável, em casa você mal fala comigo e agora tá dando uma de rebelde? Que foi, veio aqui só pra cuidar da minha vida?
– Eu vim aqui pedir divórcio, Eustass.
Disse, ignorando a composição da cena e seu discurso culpabilizador, o mais seguro possível. Ele, entretanto, tampouco levou a sério.
– Divórcio? Ei, que piada é essa agora?
– É a melhor atitude a tomar, tanto pra mim quanto pra você, não acha?
– Hã, mas de onde você tirou tudo isso agora? – Ele vinha até mim, com raiva. Permaneci parado. – Como você conseguiu chegar aqui, afinal? Você convenceu o Bart a te deixar livre?
– Quer mesmo saber como eu cheguei até aqui? – Cerrei os pulsos. Depois da cena que vi, o melhor a fazer é ser sincero.
– Quero! Vai, me diz.
– Você me deixou trancado em casa e me obrigou a pedir demissão do meu próprio trabalho, durante todo esse tempo eu até mesmo já havia perdido as esperanças de conseguir fugir e pensava que teria essa vida pra sempre. Mas...
– Vai direto ao ponto.
– Mas ele me salvou de novo e me fez ter coragem de vir até aqui e acabar logo com isso. Eustass, eu vou pedir o divórcio você querendo ou não.
– Hã, mas de que merda você tá falando? Ele quem?
– Te vejo no tribunal.
Virei de costas, andando por meio de largos passos até a saída, onde Rosinante estava me esperando. Queria sair de lá o mais rápido possível, mas não queria transparecer minha pressa. Eustass, furioso, me seguiu gritando e Killer, mais calmo apesar de ansioso, também vinha em nossa direção, porém tentando evitar maiores confusões.
– ESPERA! – Era a voz do ruivo, que tentava me fazer parar a qualquer custo. O ignorei, queria logo sair dali.
– Kid, fica calmo! – Killer puxava seu braço. – Deixa ele fazer o que quer, essa história já foi longe demais!
– Cala boca, ele não tem que decidir nada, só quem pode escolher esse negócio de divórcio sou eu!
Continuava o ignorando, fechei minha mente para quem proferia palavras tão egoístas e autocentradas. Finalmente fui até o portão de entrada da casa, saindo daquele lugar abafado para encontrar a única pessoa que eu gostaria de ver aquele momento.
– Cora-san! – E a primeira coisa que fiz, foi partir direto para um abraço bem apertado no loiro.
– Law. – E ele retribuiu. – E aí, como foi?
– ME LARGA, QUE SACO! – Eustass vinha logo atrás de mim, sendo atordoado por Killer. Contudo, assim que saiu de casa, viu-me com Rosinante e não pôde deixar de levar um susto. – O quê...
– Kid, fica calmo! – Killer veio logo atrás dele. – Huh, quem são esses?
– Ih, pelo visto vai rolar briga. – Doflamingo pressupõe.
– Ah, então é isso. – Eustass encara Rosinante com asco. – Eu deveria ter imaginado que essa sua rebeldia recente tinha a ver com esse cara, Law. Quer dizer que aquela briga toda entre vocês dois foi encenação?
– Não foi nada de encenação! – Grito. – E isso agora não importa, o fato é que eu já me cansei de você há muito tempo, Eustass.
– Você não pode se cansar de mim! Tsc, antes desse cara aparecer nossa vida tava ótima, por que é qu–
– Antes “desse cara” aparecer, a SUA vida tava ótima porque VOCÊ podia fazer o que quisesse comigo a hora que quisesse, porque eu não tinha força nenhuma pra te dizer a porra de um NÃO! Pelo menos não um que você entendesse.
– Que mentira! Você adorava a nossa vida, eu sempre fiz tudo o que você queria, agora é que tá com esses pensamentos errados.
– Adorava a nossa vida quando você não ficava me forçando a transar contigo quando eu não queria, quando você não tava implicando com quem eu saía ou que horas voltava pra casa, quando você ficava inventando desculpas ridículas pra vir pra cá! Tirando isso, eu adorava a nossa vida; adorava quando eu conseguia ignorar isso tudo pra ficar com você! Mas agora não mais.
– Ei, ei, ei, já chega de gritos! – Doflamingo nos interrompe. Eu, desabafando, acabei ficando trêmulo de ansiedade, mas pelo menos sentia-me seguro nos braços de Cora-san. – Vamo para com a briga e resolver isso como pessoas normais.
– Kid, deixa eles, essa história tá fazendo mal até pra você. – Killer tentava acalmar o ruivo, mas sem êxito.
– A CULPA DISSO TUDO É SUA! – Kid aponta vigorosamente para Rosinante. – Você modificou a cabeça do meu marido pra poder ficar com ele, seu desgraçado! Todas essas brigas são por sua causa!
– Foi decisão própria do Law tudo o que ele fez, eu não o influenciei a nada! – Responde. – E mesmo assim, eu vi você o agredindo naquele dia, isso por si só já é inaceitável. O Law corre perigo ficando junto contigo!
– Cora-san, já chega. – O impedi de continuar a brigar, olhando para ele. – Vamos embora daqui logo, continuar essa discussão não vai dar em nada.
– Tem razão, já dissemos tudo o que tínhamos pra dizer.
Resolvemos dar às costas para irmos, enfim, embora daquele lugar. Me sentia mais aliviado por conseguir dizer tudo o que eu queria, e acho que deu certo, afinal, Eustass não estava nos seguindo. Fiquei abraçado com Rosinante durante todo o percurso, até chegarmos ao carro de Doflamingo e seguirmos viagem para o aeroporto.
Narrador P.O.V
Eustass e Killer ficaram parados, apenas observando o trio indo embora daquele lugar. O ruivo estava serrando os punhos e rangendo os dentes tamanha era sua raiva, enquanto o loiro tentava o acalmar a todo custo, estando até secretamente feliz por essa situação.
– Deixa eles, Kid. – Killer segurava seu braço. – Esse casamento tava te desgastando muito, assim foi até melhor.
– Tsc... isso é inaceitável. – Continuava com ódio. – Como o Law acha que pode me trocar por esse retardado tão fácil assim?
– Esquece isso, vai, deixa o Law fazer o que ele quer e vamos ficar juntos de uma vez...
– Até parece que eu vou deixar! – Entra, furioso, em casa, indo buscar algo.
– O que você vai fazer? – Killer o segue, preocupado.
– Acabar de vez com essa palhaçada.
Era inútil tentar impedir Eustass de continuar a andar, uma vez que sua raiva poderia fazer a madeira no chão quebrar a qualquer momento por culpa de seus passos apressados, e mesmo assim, Killer o seguiu. O ruivo foi, determinado, até o quarto, onde tirou, da gaveta ao lado da cama, nada mais, nada menos que uma pistola semiautomática.
– E-E-Ei, o que você vai fazer com isso? – Killer até mesmo ficou assustado. – Kid, não faz nenhuma besteira!
– Cala boca! – Ele o ignora, tendendo a ir até Law e os outros estavam.
– Eu tô falando sério, guarda esse negócio! Resolver as coisas desse jeito não vai adiantar de nada, só vai estragar mais ainda a sua vida!
– Nah, eu só vou acabar com a raça daquele loiro infernal e do irmão dele, nada demais. Quando eles morrerem o Law vai aprender a me valorizar.
– V-Você tá falando sério?
– Hã, de que lado você tá, Killer? Tá querendo defender aqueles merdas?
– Não, mas... m-matar não é um pouco exagerado? Olha, Kid, você tá nervoso então é normal falar esse tipo de coisa da boca pra fora, ma–
– Que saco, para com isso! – Eustass se revolta e segura o braço de Killer com força, deixando até marca. – Eu não tô afim de ficar ouvindo merda moralista, então se você não vai me apoiar, vai embora que eu não preciso mais de você!
– Não fala isso, por favor.
– Então fica quieto e me ajuda ao invés de atrapalhar!
– Por que você não pode simplesmente esquecer essas pessoas? Vem morar aqui comigo, deixa o Law ir morar com quem ele quiser, só para d–
– ARGH, QUE SACO! – Eustass revolta-se e carrega a arma que está em sua mão, apontando diretamente para o loiro. – Eu juro, eu juro que se você não calar a merda da boca eu mato você junto!
– N-Não faz uma coisa dessas, cara...
– Então para de me estressar, que coisa! – Prossegue, indo embora ao encontro de Law.
– Se você quer tanto tomar atitudes extremistas, e-eu vou tentar ignorar, mas pensa bem se é exatamente isso que você quer pra sua vida!
– Se eu não soubesse o que eu quero, eu não teria pegado a arma pra começo de conversa, idiota.
– E vai valer a pena ser preso depois?
– Quem tá falando em prisão? Se você ficar com a matraca fechada ninguém vai saber de nada!
– Kid, você não é um assassino, eu não acredito que você seja, então, por favor, para com isso!
– EU NÃO VOU PARAR!
– ENTÃO EU VOU SER OBRIGADO A TE IMPEDIR!
Killer se descontrola e parte para cima do ruivo, tentando pegar a arma de suas mãos.
– Hã, o que você pensa que tá fazendo? – Kid ainda segurava a pistola e tentava impedir o outro.
– Eu não vou deixar você matar aquelas pessoas! – Mas Killer continuava a tentar pegar a arma, até mesmo conseguiu a segurar nas mãos do ruivo.
– Tsc, desde quando você se importa? – Tentou afastar o outro, sem êxito. – Eu achei que você gostasse de mim!
– Justamente por eu gostar de você que eu não posso deixar você fazer isso! – Ambos brigavam pela arma, Killer tentava pegá-la a todo custo.
– Quem gosta deve apoiar as decisões do outro, idiota! – E Eustass continuava a tentar defendê-la.
– Se eu deixar isso acontecer, você vai voltar a manter o Law em cativeiro, não vai? – Killer consegue tirar a arma das mãos do ruivo, mas por pouco tempo. Logo, Kid voltou a segurar no cano da mesma.
– Então você tá tentando salvar a vida deles por ciúmes do Law? – Puxava o cano da arma, enquanto o loiro, já com as duas mãos, tentava segurá-la sozinho de uma vez por todas. – Que patético!
– Eu só não entendo porque você não pode esquecer essa história e ficar comigo, aqui, em paz, de uma vez por todas! – Killer puxava o objeto pela armação com vigor, com o detalhe da arma estar apontada para o ruivo.
– EU NÃO VOU FICAR CONTIGO! – Kid trincava os dentes tamanha era sua raiva e tentava, de todas as formas, puxar o cano da arma para tirá-la das mãos do outro. – Tsc, será que você não entende que você é só a porra de uma distração e que o meu marido de verdade sempre foi e sempre será o Law?!
– MAS ELE NÃO GOSTA DE VOCÊ! – E ele não perde o pulso. – Qual é o sentido de continuar obrigando alguém a ficar contigo? É orgulho demais de não conseguir levar um fora sequer?
– CALA BOCA, VOCÊ NÃO SABE DE NADA!
– PARA DE ME MANDAR CALAR A BOCA, QUE SACO!
Ambos, furiosos e sem a menor paciência, continuavam a brigar pelo objeto carregado por balas de fogo. Eustass puxava o cano para si enquanto cuspia de tanto gritar, porquanto o loiro, que agora não tinha mais sua paciência, trincou os dentes e segurou a arma com mais firmeza, pondo suas mãos em todo o corpo da pistola, inclusive no gatilho...
… que foi quando o acidente definitivo ocorreu.
– Kid..?
(…)
Trafalgar P.O.V
Nunca senti uma calmaria tão grande antes. Havia ficado com medo de Eustass nos seguir ou algo do gênero, mas suponho que Killer tenha conseguido o conter. Fomos até o aeroporto no carro de Doflamingo, que é onde todos estamos agora, reunidos, em um verdadeiro ambiente familiar.
Por sorte conseguimos passagem para hoje mesmo, de madrugada, até a França. Sentamos em uma cadeira enquanto aguardávamos o vôo, eu estava com o rosto deitado no ombro de Cora-san, segurando suas mãos macias que acalmavam-me.
– Vocês dois são muito grudentos, cruzes. – Doflamingo reclamava, desviando o olhar. – Tsc, agora vou ter que ficar aturando pessoas sendo felizes do meu lado.
– Vocês irmãos moram juntos, tipo, na mesma casa..? – Perguntei, temendo precisar dividir o teto com esse cara.
– Sim, moramos juntos, você vai ter que me aturar. Vai ser tão ruim morar comigo que você vai sentir falta do seu ex-marido.
– Eu não duvido.
– Doffy, para com isso! – Rosinante interrompe o irmão. – De que lado você tá, afinal?
– Cora-san, deixa ele. – Volto a abraçá-lo, ignorando a presença de certas pessoas. – O que importa é que nós dois vamos viver juntos, não é?
– Exatamente! Ah, deixa eu pegar uma coisa aqui.
Viver com o Doflamingo certamente não seria fácil, mas desde que eu possa ter o deslumbre de ver a pessoa que eu amo todos os dias, o resto é puramente resto. Cora-san pegou em sua bolsa um porta-retratos de vidro, mostrando-me.
– Isso é...
– A nossa primeira foto juntos. – Me disse com um sorriso, e eu mal pudia acreditar. Era a mesma foto que eu tentei defender com garras e dentes há anos, sem sucesso. Era a mesma foto que me fez perceber quem era Rosinante de fato. Era, também, a mesma foto que eu pensei nunca poder reaver.
– Essa foto... – Eu falava, sem saber direito o que dizer, uma vez que o alívio que sentia em meu peito era enorme. Um ínfimo sorriso também fez-se em meu rosto.
– Gosta dela? Eu fazia questão de vê-la todos os dias, até pra escola eu levava e sempre a trouxe comigo nas viagens.
– Eu adoro ela, me faz ter boas lembranças.
– Lembranças que durarão pro resto de nossas vidas, Law. Nós dois já tivemos uma história juntos no passado, e agora temos a oportunidade de escrever a continuação.
Por mais que seja difícil admitir para si mesmo que a pessoa que você ame possa não ser a pessoa certa para você; por mais que seja complicado desfazer vínculos criados e fortalecidos durante anos e por mais que digam que é somente coisa da sua cabeça, lembre-se sempre que um relacionamento saudável é aquele em que ambas as partes estejam igualmente felizes.
Pois se uma das partes estiver se beneficiando da outra, ou tomando controle de alguma forma, fique atento. Seja sincero consigo e avalie se a sua relação faz mal para ti, ou note se você frequentemente toma a culpa para si, desculpando seu parceiro de todos os erros que ele comete, sem questionar. Perceba se sua autoestima cresceu ou diminuiu após o início de seu namoro.
Não deixe que te controlem, mesmo que seja algo que pareça simples ou pouca coisa, como monitorar suas roupas e amizades; estar em um relacionamento não signifique que não sejamos mais donos de nós mesmos, de nossos corpos.
Muitas pessoas começam achando que estão com Rosinante, mas geralmente, quando percebem que na verdade estão com um Eustass em suas vidas, já é tarde demais.
Ano Hi Mita Sora
(O céu que vimos aquele dia)
As falsas palavras que nos apegam,
e nos despregam da realidade.
Baseado em diversos casos reais.
Fim.
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