Ano Hi Mita Sora

4 Sequestrador de Gatinhos


Se é coincidência, destino ou apenas uma imbecilidade imensa não cabe a mim dizer, apenas pretendo esclarecer minhas dúvidas e deixar que o tempo fale por si. Ora essa, não é todo dia que recebemos um paciente com um semblante tão misterioso e, ao mesmo tempo, tão puro. Também não é todo dia que vemos o mesmo idiota cair de uma árvore tentando salvar um gato qualquer, mas quem liga?

Eu não ligo e, se ligasse, também não mudaria o que estamos fazendo agora. Depois de eu ter ajudado Rosinante a se levantar do chão e ter certeza de que estava tudo bem com ele, que não havia fraturado nenhum osso depois de cair de uma árvore, nós dois resolvemos conversar um pouco, para aprofundar uma, quem sabe, amizade. No momento, estamos em um café, tomando um cappuccino.

– PFFFFFF. – Mas ele acabou cuspindo o cappuccino devido a temperatura. – Blérgh, isso tá muito quente!

– Ahn, é normal estar quente, é um cappuccino. – Respondi, arqueando levemente uma de minhas sobrancelhas. Percebi também que todos começaram a nos encarar graças a esse ato tão... besta. Quem cospe um café do nada?!

– E-Eu sei, mas sei lá, poderia ser um cappuccino mais frio. Desculpa por isso...

– Existem cappuccinos gelados, você não quer que eu peça?

– Não precisa, eu não quero incomodar. Veja! – Ele começa a beber o líquido naturalmente, fazendo até uma careta estranha e arregalando os olhos. – Eu consigo beber direitinho, viu só?

– Desde que você não queime sua língua, tudo bem. Eu não quero te levar ao hospital hoje.

– Eu tô bem, eu juro! E vamos trocar de assunto, me fala mais de você, doutor. Quando eu recebi alta no hospital acabei não podendo me despedir...

– Não se preocupe com isso. E bom, eu não tenho muita coisa pra falar, mas não precisa me chamar de doutor fora do hospital.

– Ah, é que você não me disse o seu nome.

– Não? Perdão, Trafalgar Law.

Convidar um paciente, depois de tê-lo salvo de uma árvore perigosa, para tomar um cappuccino é algo que eu jamais pensei em fazer, mas até que está sendo bem divertido sair um pouco da normalidade. Porém, tudo ficou mais estranho ainda depois que eu disse meu nome a ele. Quer dizer, é um nome pouco comum, eu entendo, mas o Rosinante está me encarando tão fixamente que até me assusto um pouco.

– V-Você... – Usando aqueles olhos azuis arregalados ele olhou-me fixamente e não desviou o olhar. É muito agonizante estar sendo encarado tão de perto, já que ele aproximou seu rosto para me encarar ainda mais.

– O-O quê? O que houve? Tem alguma coisa na minha cara? – E ele se aproximava mais ainda, mesmo tendo uma mesa entre nós. É totalmente desconfortável ficarem te encarando, nossa.

– Caramba... não acredito... – E eu ficava ainda mais confuso, principalmente agora, que ele pareceu ter visto um fantasma na minha pessoa.

– V-Você tá bem?

– Esse seu nome... e o seu rosto... – Seus olhos chegavam a brilhar.

– O que tem meu nome e o meu rosto?!

– Wow, você é super parecido com ele! E ainda tem o mesmo nome!

– Com quem?! – Sério, que sujeito estranho. Ele ficou parecendo uma garota adolescente em frente a seu ídolo americano.

– Lá na França tem um museu sobre a Batalha de Trafalgar e um dos soldados da pintura é igual a você! Você é um parente distante deles? Que incrível!

– A-Ahn, não... que eu saiba...

Pelo menos agora eu entendi sua confusão, apesar de ser meio estranho, mas eu vos explico: sou órfão e, já que nunca fui adotado, resolvi batizar-me com um nome de um conflito entre a França e a Espanha, já que achei que esse nome "Trafalgar" combinava comigo. Ele provavelmente me achou parecido com um dos guerrilheiros, mas eu juro que nunca participei de uma guerra.

– Foi mal por isso, é que o meu irmão é fã de História então sempre me levou a esses museus. Seu nome é muito legal!

– Tudo bem, acontece. – Claro, é super normal ser confundido com um guerrilheiro. – Falando no seu irmão, você comentou que estava prestes a voltar para França. Decidiu ficar mais um tempo?

– Ah, já que o Doffy foi sem mim, eu resolvi ficar mais um tempo na Inglaterra por ter nascido aqui. Eu tô em um hotel aqui perto e acho que vou ficar um mês.

– Se quiser eu posso te mostrar alguns lugares mais tarde, passear um pouco. Que tal?

– Não sei, eu não quero te atrapalhar, você provavelmente é bem ocupado graças ao hospital e tudo mais.

– Imagina, não atrapalha em nada. Além disso, eu não posso deixar de me preocupar, como médico, com essa sua característica tão peculiar de ficar caindo de árvores graças a gatinhos. – "Resumindo, eu me preocupo com sua sanidade mental."

– Ah, se estiver tudo bem mesmo, eu adoraria!

– Eu vou te passar o número do meu celular e nós combinamos mais tarde, tudo bem?

Coloquei o número no guardanapo e o entreguei antes de nos despedirmos. Não ficamos muito tempo porque, além de termos vindo para cá apenas tomarmos um café, eu ainda tinha que levar o pão e o queijo para casa antes que Eustass acordasse e pensasse, sei lá, que eu fugi de casa ou fui sequestrado. Mas meu plano de chegar antes dele acordar não deu muito certo, já que assim que eu abri a porta, ele estava lá.

– Law! O que houve, você fugiu de casa? Foi sequestrado?!

– Calma, eu só fui fazer compras. Não vivemos em um país tão perigoso assim e eu não fugiria de casa...

– Ah, eu tinha pensado nessa probabilidade, mas você demorou tanto que eu acabei ficando preocupado.

– É que eu acabei encontrando uma pessoa.

Me dirigi com as sacolas da compra até a cozinha, preparando um sanduíche e um café para ele, aproveitando também para lavar a louça da noite anterior. Depois servi a mesa e sentei junto a ele, mas não preparei nada para mim justamente por já ter tomado café com Rosinante.

– Encontrou alguém? Quem?

– Você não vai acreditar! Eu encontrei aquele paciente, o salvador de gatinhos. Lembra dele?

– O loiro? Impossível não lembrar, ele acordou numa hora não muito amigável.

– E eu encontrei ele justamente subindo em outra árvore, prestes a salvar um gato.

– Ah, então é um costume habitual dele. Será que ele é de alguma religião que visa salvar gatinhos em árvores?

– Eu não acharia estranho se ele dissesse que tem atração por gatos. Mas até aí tudo bem, ele está hospedado em um hotel aqui perto e nós tomamos café juntos.

– Você disse que é casado?

– Ah claro. "Eu vou comprar dois capuccinos e torradas. A propósito, eu sou casado tá?". – Disse, em tom de deboche.

– Então você não disse...

– Foi só um café amigável, nada demais. E eu tenho uma aliança, isso já fala por mim.

– Bom, que seja. Eu vou ver televisão, você vem?

Acabamos indo juntos até a sala de estar, deitando-nos no sofá e assistindo televisão, um ao lado do outro. Colocamos em um filme de ação qualquer, já que era nosso gênero favorito e ficamos aproveitando em silêncio. Eis que eu recebo uma mensagem no celular de um número desconhecido.

"Oie, doutor! Sou eu, tô só testando as mensagens."

"Rosinante? Ótimo, assim eu salvo o seu número. Caiu de outra árvore depois que eu fui embora?"

"Não, tudo tranquilo! Eu tô na piscina do hotel, aqui é seguro."

"Tem salva-vidas?"

"Não..."

"Você sabe nadar?"

"Eu não vou me afogar, não se preocupa."

– Quem é? – Kid me perguntou.

– É o Salvador de Gatinhos, eu dei meu número pra ele.

– Você me disse que era só um café da manhã e agora ele te manda mensagens?

"Foi mal, é mania de médico se preocupar com os outros. Eu acredito que você fique bem, sim."

– Ah, ele é estrangeiro, talvez eu mostre algumas coisas do nosso país a ele.

"Brigado pela preocupação!"

– Então vocês meio que... viraram amigos?

– Sim, por quê? É tão estranho assim eu ter amigos?

– Não que seja estranho, sei lá, é que você nunca foi muito social.

"A propósito, doutor, você tem alguma recomendação de lugar pra ir hoje à noite?"

– Eu me preocupo com esse sujeito, ele é muito desastrado. Acredita que ele queimou a língua tomando cappuccino?

– E eu posso ler as mensagens?

– Tá bom. – Mostrei meu celular ao meu marido. – Não é como se nós estivéssemos trocando fotos pelados.

– E essa pergunta? Ele tá te convidando pra um encontro na cara dura! Ele não viu a aliança, isso eu tenho certeza.

– Calma, não é um encontro, eu só me ofereci pra mostra a Inglaterra a ele.

– E ele não pode ir visitar a Inglaterra sozinho? Ele não conhece o Google?

– Tudo isso só por uma mensagem? Credo, eu vou responder, sim.

"Tem uma rua bem famosa, cheia de bares e restaurantes. Quer ir comigo?"

– Tudo bem você sugerir o local, mas precisa convidá-lo pra um encontro?!

– Eu não me sinto seguro deixando um cara desastrado desses andando sozinho por ai.

"Pode ser!! Que horas?"

– Ele pode ir com o irmão, sei lá! – Kid já estava irritando-se. – Você tá fazendo isso tudo só pra me provocar, né?

– Claro que não, Eustass, eu só estou sendo educado. Qual é o problema de dois amigos saírem juntos?

"Às oito. Pode ser? Eu te busco no hotel."

– E eu posso ir nessa sua "saída de amigos"?

"Te espero aqui, então!"

– Nah, não sei. Você anda sendo um ruivo muito malvado ultimamente, acho que vou te deixar de castigo.

– Fala sério...

– Olha, se você quiser ir, vai. Isso não é um encontro romântico nem nada do gênero.

(...)

Ficamos o dia inteiro fazendo coisas que pessoas normais fazem, até que finalmente anoiteceu. Em nosso quarto, comecei a me arrumar, jogando um pouco de gel no cabelo, passando cremes nas mãos e colônia, além de uma calça jeans qualquer e um moletom graças ao frio na Inglaterra. Eustass ficou me observando, deitado na cama, como quem não quer nada na vida.

– Tá se arrumando muito pra um "encontro casual"...

– Eu posso ir pelado se você preferir.

– Só acho que passar creminho na mão é exagero seu.

– É antibactericida e deixa minhas mãos muito macias, dupla utilidade. Você deveria usar também.

– Que seja, eu vou me arrumar. – Ele levantou-se da cama com uma preguiça visível e colocou uma blusa branca, mas logo teve seu telefone tocado e precisou atender. – Alô?

""

– Tsc, sério? Agora?

""

– Não, não tenho nada pra fazer. Se é tão urgente assim eu vou. Tchau. – E desligou o celular.

– Quem era? – Perguntei. Pelo tom de voz dele não parecia ser algo bom.

– Aquele inferno do Killer, ele disse que tá com uns problemas urgentes e precisa de mim.

– Não fala assim dele... e é tão importante assim? O que é?

– Não sei, mas parecia bem sério. Eu vou precisar ir lá.

– Oh, você não vai ao meu encontro? Que pena. – Disse, sarcasticamente.

– Que saco, você precisa mesmo ir se encontrar com esse cara? Eu não quero te deixar sozinho...

– Pelo que parece, essa noite seremos eu e Rosinante, você e Killer. Fizemos uma troca de casais.

– Mas o Killer é meu irmão, esse cara aí é um estranho. E se ele for um sequestrador?

– Irmão de consideração. E... sequestrador de gatinhos?

– Sei lá... por que não?

– Eustass Kid, pode ficar tranquilo, eu prometo que volto pra casa antes da meia noite e não vou aparecer grávido. – Dei um pequeno beijo nele, para não preocupá-lo.

– Tá bom, eu vou tentar não pegar no seu pé, mas avisa que você é casado. E me manda foto de onde você está a cada cinco minutos. Ah, se você puder, tira uma foto do seu dedo também, pra ver se ainda está com a aliança...

– Que exagero, é só uma saída!

– É que eu te amo, poxa, eu não quero te perder pra um idiota com atração por gatos.

– Eu te amo também, relaxa.

Mandei uma última mensagem ao Rosinante avisando que estava saindo de casa, peguei meu carro e me dirigi até seu hotel, depois de receber o endereço do mesmo. Chegando lá, ele estava na recepção, já vestido com uma roupa simples. Camisa branca, cabelos levemente bagunçados e uma calça social bege. Acenou para mim assim que me viu, junto a um enorme sorriso e parei com meu carro ao seu lado, abrindo a porta da frente. Ele entrou e fechou-a.

– Doutor! Você é muito pontual.

– Não precisa me chamar de doutor, pode me chamar de Law.

– Desculpa, é mania minha. Então, vamos?

Notas finais
O encontro promete, hein. ♥