É uma noite agradável, onde víamos toda a cidade sendo iluminada por diversas cores e monumentos. O vento frio batia também, mas causava-nos mais conforto do que frio. Estacionei meu carro na porta do hotel em que Rosinante vive e ele logo entrou, sentando-se ao meu lado na poltrona da frente.

Enquanto eu dirigia, ele olhava para janela encantado, observando toda a cidade inglesa à noite. Eu prestava atenção na estrada, mas não era motivo para não olhá-lo disfarçadamente pelos espelhos do carro. Seu rosto refletia no vidro, seus olhos fascinados deslumbravam a vista do lado de fora. Apenas me concentrei em levá-lo para a rua que eu sabia ser a mais aprazível para turistas.

Nada mais era que a rua mais iluminada, repleta dos mais variados costumes britânicos. Ainda no carro, eu ia apontando para as centenas de lojas existentes, as grifes que percorriam o mundo e algumas que nem mesmo haviam em Paris. Também tinham vários pubs, que são os bares que vendem bebida alcoólica.

– Você gosta de comida indiana? – Perguntei. – É o que mais tem nessa rua.

– Ah, eu como qualquer coisa! Já faz tanto tempo que eu não venho na Inglaterra, tudo parece tão diferente de como eu me lembrava.

– Eu conheço um restaurante ótimo aqui, nós dois podemos ir e depois andar pela rua. Eu prometi que iria te apresentar à cidade, certo?

– Obrigado, você é muito gentil!

Não é do meu feitio servir de guia turístico, aliás, é a minha primeira vez nessa situação. Nem nos meus maiores sonhos eu iria cogitar a possibilidade de levar um de meus pacientes em um passeio noturno, principalmente distanciado de Eustass. Me sinto até estranho pensando na probabilidade de ter feito um amigo em tão pouco tempo.

Mas seguimos com nosso passeio, pois não quero desfazer a impressão dele sobre eu ser uma pessoa gentil. Estacionei meu carro na calçada, em frente ao restaurante que mencionei e nós saímos juntos, entrando no estabelecimento e indo para nossas cadeiras. Sentamos um em frente ao outro, ao lado de uma janela.

– Já quer pedir? – Perguntei, estando nós dois segurando nossos cardápios.

– Pede pra mim? Geralmente é meu irmão quem pede a comida e eu acho que você conhece o restaurante melhor que eu.

– Tá bom, eu vou pedir algo que não tenha muita pimenta pra você não queimar a sua língua de novo.

– Brigado!

Chamei um garçom, pedi a mesma comida para nós dois e um vinho branco para acompanhar, então iniciamos a conversa costumeira de pessoas que aguardam por suas refeições. Perguntei como ele tinha passado o dia e eu estava certo afinal, já que ele acabou se afogando na piscina do hotel e quase morreu por não ter um salva-vidas. De fato, é impossível não se preocupar com esse sujeito.

Contudo, mesmo não sendo costume me envolver com pessoas tão desastradas, era ótimo passar o tempo com ele. Não tinham as conversas entediantes de sempre, era tudo muito novo e, podemos até dizer, estranho. Não sei como, mas o assunto passou a ser ratos e água.

– Isso é impossível, é óbvio que ratos bebem água. – Disse, arqueando uma das minhas sobrancelhas.

– Não bebem, eu tô te falando! Eu tinha um rato e ele se recusava a beber água com todas as forças.

– Seu rato não fala pelos outros. Não generalize os ratos.

– Você já viu algum rato beber água?

– Sim, nas lojas de petshop existem vários bebedouros para ratos, então eles bebem água.

– Isso são pra hamster, não pra ratos!

– Olha, como médico eu digo que é impossível ratos não beberem água.

– O meu não bebia.

– Ele morreu?

– M-Morreu, mas não teve nada a ver com isso...

– Deixa eu adivinhar, um dos seus gatos comeu ele?

– Não, meu irmão queria fazer uma sociedade para ratos então ele juntou vários na mesma gaiola e todos se mataram.

– Ah...

Realmente, falar sobre a morte de ratos não era um bom assunto para um restaurante, então depois da última frase o assunto misteriosamente morreu. Pelo pouco que eu sei do irmão do Rosinante, não me pareceu ser uma pessoa nada legal, acho que eles são opostos. O importante é, nossa comida chegou e prosseguimos com o jantar.

Por mais incrível que pareça ele não se queimou com a comida indiana, mas acho que o vinho leve serviu para refrescá-lo. Nós conversamos também sobre assuntos variados e fomos nos conhecendo devagar, eis que uma mensagem entra no meu celular.

"Como vai o seu jantar? Tô esperando as fotos, viu."

– É sério isso? – Murmurei para mim mesmo.

– O quê? – Ele me perguntou. – Tem alguma coisa no meu rosto?

– Não, não é nada no seu rosto. Você gosta de fotos?

– Claro!

– Então vamos tirar uma selfie.

Pode ter sido um pedido muito repentino, mas eu me levantei e debrucei-me um pouco, abraçando ele pelo pescoço e Rosinante fez a mesma ação, sorrindo para a câmera do meu celular mesmo não sabendo do motivo de eu ter agido assim. Foi meio espontâneo, mas enviei a foto para Eustass e ainda deixei uma legenda.

"Viu, só? Ele não é um sequestrador, relaxa."

"Estão juntos demais..."

– Foi mal por isso. – Me desculpei, colocando o celular no bolso para não atrapalhar nossa noite.

– Tudo bem, eu gosto de fotos!

Continuamos com a conversa, ele era tão puro e alegre que uma foto não significava nada além de um gesto comum, um motivo para mostrar um sorriso tão espontâneo e verdadeiro. Ao final, pagamos a conta juntos, já que ele insistiu em dividir tudo comigo para não dar aquela velha briga chata de quem pagaria o quê.

Saímos juntos, andando um pouco pela rua, um ao lado do outro. Fui apontando para ele os diversos prédios e lojas existentes, dizendo o que sabia de cada um deles. Por ser de noite, o vento gélido batia cada vez mais forte e provocava frio principalmente nos turistas, pois nós britânicos já estão acostumados então nem ligamos muito. Rosinante pegou uma luva que guardava no bolso.

– Você não sente frio? – E me perguntou.

– Não, eu tô acostumado.

– Lá na França também faz bastante frio à noite então eu sempre carrego luvas comigo. Quer emprestada?

– Imagina, pode ficar.

– Tem certeza? – E, do nada, ele parou de andar e ficou de frente para mim, segurando minhas mãos. – Nossa, suas mãos são muito frias!

– A-Ahn, eu tô bem, eu juro...

– Você já tá sendo bem gentil comigo, eu não quero que você pegue uma hipotermia. Eu não me importo de emprestar as luvas, sério.

– Mas você só trouxe um par, certo?

– Não se preocupa com isso!

Para resolver o problema em que o próprio insistiu que existia, ele me deu uma das luvas, pedindo-me para colocar na mão esquerda, e colocou a outra em sua própria mão direita. Estávamos os dois com uma das mãos despidas então ele segurou a minha, mostrando-me um sorriso de conforto e pois nossas duas mãos juntas, no bolso de seu casaco.

– Viu só? Agora nós dois não precisamos nos preocupar com frio!

– É-É...

Acabei desviando o olhar sem perceber, mas percebi o que ele quis transmitir. O frio desapareceu totalmente, talvez devido a luva, talvez devido a comida quente do restaurante, só sei dizer que estava magicamente confortável. Ele era mais alto que eu e, ao mesmo tempo que andávamos de mãos dadas, escondidas pelo bolso do casaco, olhava para seu rosto disfarçadamente, querendo entender de onde surgira tamanha simplicidade.

Andamos juntos até um dos pubs que haviam na rua. Uma espécie de taverna bem movimentada, repleta de pessoas dançando e conversando, ouvindo as músicas típicas que tocavam na Inglaterra. Entramos juntos, desfazendo-nos da luva pelo local ser mais caloroso e nos sentamos no balcão, pedindo duas cervejas.

– É sério que aqui vocês pagam a cerveja na hora? – Ele me perguntou, assim que a bebida chegou.

– Por quê, lá na França é grátis?

– Não, lá a gente paga o que consumiu no final, que nem nos outros países.

– Ah, sério? Pagar na hora é tão mais prático, assim a gente não esquece de pagar e nem tem risco de receber algum golpe.

– É, talvez. Você nunca saiu da Inglaterra, doutor?

– Nunca nem saí de Londres, nunca viajei.

– Jura? Olha, se algum dia você for pra França, eu faço questão de te mostrar todos os lugares de lá!

– Brigado! Mas eu não sei se algum dia isso vai acontecer, eu sou muito ocupado graças ao hospital e tudo mais.

– Fica o convite mesmo assim. Eu quero retribuir a noite de hoje!

Mais uma vez, nossos assuntos variavam de uma forma incrível. Sorriamos, trocávamos altas risadas enquanto bebíamos diversos copos de cerveja, ouvindo a batida da música tocando. Nunca parávamos de conversar, sempre que o assunto subitamente terminava nós ríamos e iniciávamos outro de imediato, o mais idiota que fosse.

– Mentira que você nunca teve um gato? – Perguntei, surpreso.

– Nunca tive! Por mim eu teria vários animais, faria um zoológico dentro de casa mas meus pais não deixavam porque ter um animal é muita responsabilidade e blá, blá, blá.

– Que absurdo! Se os seus pais te deixassem ter um zoológico em casa, tenho certeza que os gatos não viveriam com medo de subir em árvores.

– Exatamente! Finalmente, alguém que me entende...

Já havíamos bebido tantos copos de cerveja que eu nem notei o horário, somente o peso da minha carteira ficando cada vez mais leve. Acho que já estávamos na décima quinta rodada e as risadas ficavam mais constantes ainda, então eu nem possuía mais o meu controle das razões. Se era tarde ou não, pouco importara-me.

– Você já reparou em como cavalos marinhos não se parecem com cavalos? – Ele me perguntou, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

– Sei lá, talvez eles deixem os peixes pequenos montarem neles. – E eu respondi, naturalmente.

– É uma boa teoria...

– Sabia que são os machos quem ficam grávidos?

– Que legal... quando eu era criança eu queria engravidar, mas a minha mãe disse que eu não podia...

– Que vacilo.

– É mesmo. Ei, quer dançar?

– Mas eu não sei dançar...

– E daí? Estamos bêbados!

– Pode crer...

Tudo o que eu senti foi minha mão sendo subitamente puxada e meu corpo saindo da cadeira. Nem dei conta do que estava acontecendo ao meu redor, só sei que haviam centenas de pessoas dançando e nós estávamos no meio deles, ouvindo a música e as luzes coloridas batendo em nossa visão. Não conseguia ver nada, mas meu corpo estava terrivelmente leve.

Meus lábios doíam então eu percebi que estava sorrindo feito um bobo, dançando feito uma criança e aproveitando a vida como um adolescente sem compromissos. Demorou até eu perceber minhas ações, mas estava dançando como jamais dancei em toda minha vida, fazendo passos que eu mesmo não conhecia. Só me dei conta disso quando olhei ao meu redor.

E o vi. Rosinante estava à minha frente, com o mesmo sorriso enorme e olhos fechados, dançando da mesma forma desengonçada que eu e espontâneo como sempre. Não prestava muita atenção na minha visão, tanto pelas luzes e o ambiente escuro, como também por estar tão bêbado que nem me importava com o meu celular vibrando no meu bolso ou dançando em um bar pela primeira vez na vida.

Nós até conversávamos enquanto dançávamos, mas o barulho estava tão alto que eu não entendia o que ele falava, ele não entendia o que eu falava, apenas ríamos. Ríamos com o corpo leve, dançando bem juntos, cruzando nossos olhares quando finalmente abríamos os olhos e retornávamos para a realidade.

De olhos fechados eu sentia meu coração palpitar pela música alta, meu cérebro espairecer todos os pensamentos racionais e sentir o clima de várias pessoas esbarrando em mim, já que um adulto tão sério que nunca se permitiu ir a um bar com um estranho numa noite de sábado, nunca teve uma vida que não girasse em torno de estudos e esforços. Uma noite diferente, com uma pessoa diferente, mas que, de algum jeito, é tão incrivelmente certa.

De olhos abertos eu apenas via, em relance, um homem mais velho que eu, porém que já conhecia todos esses gostos. Alguém tão simples, tão espontâneo e tão sorridente, capaz de transformar um garoto rabugento em um bêbado dançarino. Um sujeito de olhos brilhantes, cabelos esvoaçantes e pele macia.

Na pista de dança sentia seu calor, nós cada vez mais perto, trocando risadas abertas, inocentes. A música gritando em meus ouvidos, suas grandiosas mãos, tão macias e ao mesmo tempo tão rígidas, envolvendo minhas costas em um abraço e sua voz, grossa e afável, batendo em meus ouvidos em modo sussurrante.

Seus lábios macios, delicados e levemente vermelhos, dando minuciosos beijos em meu pescoço, deixando todo meu corpo arrepiado sem mesmo notar o que estava acontecendo, sua energia radiante e... espera, eu disse que meu celular tava vibrando no meu bolso?

– Caramba, eu esqueci totalmente! – Acordei de um sono que nem percebi que havia entrado, depois de um transe intenso devido a muita bebida e agitação. Peguei meu celular, estava escuro, então nem me dei conta de quantas mensagens haviam entrado.

– O que houve?

– E-E-Eu preciso ir, foi mal!

Saí daquele local, esbarrando em não sei quantas pessoas, totalmente desvirtuado do resto do mundo. Não sabia se ele estava vindo atrás de mim, apenas olhava para o celular e tentava encontrar a saída, ainda um pouco tonto. Quando finalmente achei a saída, fui até a rua. Estava tudo calmo, sem som nenhum, então minha tontura momentânea sarou. Liguei imediatamente para Eustass.

– Oi! Foi mal, eu não tinha visto suas ligações.

"LAW! ATÉ QUE ENFIM VOCÊ ME LIGOU! Graças a Deus...."

– D-Desculpa, eu acabei bebendo aí eu não notei mais nada...

"Percebe-se! São quatro da manhã, você tá com a porra de um estranho que eu nem lembro o nome! Puta que pariu, eu achei que você tinha sido sequestrado... já tava ligando pra polícia."

– C-C-Como assim são quatro da manhã? O que houve com o resto da noite?!

"Me diz você! Onde é que você tá?"

– Num pub...

"Eu tô indo aí AGORA!" – E desligou o celular. Minha respiração ainda estava pesada, meu coração batia forte. Fiquei sentado na calçada, pensando no que eu fiz e chegando a suar frio.

– Doutor! – Eis que Rosinante aparece finalmente. – E-Eu não tinha encontrado a saída! O que houve?

– Como assim "o que houve"? São quatro fodendo horas da manhã!

– E o que é que tem? Quer dizer, hoje é sábado...

– Tá brincando, né?

– Eu não sabia que você dormia cedo. – Ele sentou ao meu lado na calçada. – Desculpa.

– A culpa não é sua, eu perdi o horário.

– M-Me desculpa mesmo assim! Eu acho que exagerei na bebida...

– Você não tem culpa nenhuma, não precisa pedir desculpas. Eu é que preciso me desculpar por ter saído tão de repente assim, acho que eu te assustei.

– E-Eu achei que tinha feito alguma coisa errada...

– Ei...

Direcionei meus olhos, que antes estavam ocupados apreciando o chão, até acima, onde encontrei seu rosto. Estávamos sentados tão próximos que quando o olhei, acabei perdendo-me na profundeza de seus olhos. Tudo o que via era seu rosto, tão assustado, temendo ter feito algo errado e desculpando-se silenciosamente. O homem que eu mal sabia o nome, mas de alguma forma, sentia que já conhecia há tanto tempo. Foi aí que eu percebi...

– Sai daqui, agora. – E disse tão seco que nem parecia ser sério.

– Por quê? – E nem parecia mesmo, já que ele nem se importou.

– Porque eu acabei de me dar conta de uma coisa.

– O quê?

– Tem um homem vindo pra cá, com raiva, ele te odeia e vai tentar te matar.

– Eh?

– É-É sério, foge daqui, rápido!

– P-P-Por quê?! – Agora ele se assustou. – E-E-Eu não sei realizar tarefas quando eu entro em pânico!

– T-Tem um gatinho preso em uma árvore naquela rua! – Apontei pra uma direção qualquer.

– J-Jura?!

– S-Sim, juro!

– E-Então tô indo nessa! – Ele se levantou e começou a correr de forma tão desastrada que sempre dava um passo em falso, temendo cair a qualquer momento. – Eu te ligo depois! – E gritou, já bem distante.

Fiquei absolutamente transtornado. Como uma noite tão perfeita acaba de forma tão desastrosa? Pela primeira vez eu me senti como um adolescente, sem preocupações nenhuma e responsabilidade zero, aproveitando a noite com uma pessoa que eu conheci numa cama de hospital, quando eu abri a cabeça dele. Que noite estranha...

– LAW! – E não tardiamente, Eustass chegou e me abraçou com tanta força que até me faltou ar. – Ainda bem, eu pensei que nunca mais ia voltar a te ver!

– Vamos pra casa...

– Onde tá o seu carro?

– Meu carro... é uma ótima pergunta.

– Você tá péssimo...

– Ei, sabe qual é outra ótima pergunta?

– O quê?

– Cara, parando pra pensar...

– O quê?!

– ... ratos bebem água?

Notas finais
E aí, bebem ou não? Eis a questão! XD