"Sábado, dezenove anos atrás. Já haviam se passado cerca de seis dias em que meu amigo havia sido adotado. Não lembro seu nome, lembro alguns traços de seu rosto, mas apenas o chamava por um apelido. Cora-san. Antes de conhecê-lo, ficava encostado em uma árvore o dia todo, esperando o tempo passar em extremo desânimo. Quando ficamos amigos, era ao contrário, rezava para que os ponteiros cessassem, que o dia nunca tardasse.

Íamos juntos, de mãos dadas, correndo por todo o campo do orfanato, adentrando dormitórios e cômodos que nem mesmo tínhamos permissão para invadir. Eu o ensinei a ler, gostava de livros. Ele me ensinou que não há nada de errado em ficar caindo e tropeçando por aí, muito pelo contrário, que a vida poderia não ser o inferno a qual eu estava habituado.

Quando ele foi embora, sentia meu coração ser atingido por flechas em chamas, segurava um retrato de nós dois, olhava aquela foto todos os dias, torcendo para que ele esteja bem, que gostasse da nova família. Me preocupava com ele, sentia sua falta, mas não poderia fazer nada para evitar o destino. Não poderia atrapalhar a vida de alguém que tanto gostara.

As crianças do orfanato não gostavam dele, viviam fazendo piadas e ridicularizando seu jeito desastrado, o empurrando propositalmente e proferindo palavras que faziam desvaler nossa amizade, dizendo-nos que éramos abandonados e, por isso, eu era seu único amigo, ele era a única pessoa que eu tinha comigo.

Ele não se incomodava com as palavras, eu sentia ódio. Fiquei feliz quando ele foi-se, poderia encontrar melhores amizades; fiquei preocupado, entretanto, pois alguém tão desastrado não poderia viver sem proteção. Fiquei triste, também, por voltar a ficar sozinho, mas nossa promessa alimentava-me e encorajava-me a sair daquele lugar.

"Eu prometo, nós com certeza nos encontraremos de novo e vamos ser amigos para sempre!"

Meu ódio cada vez mais aumentava pelas pessoas ao meu redor, o tanto de imundice que eu ouvia, tudo fazia minha cabeça sem eu sequer perceber. Foram onze anos vivendo no inferno, o único retrato que eu tinha dele foi destruído por alguém que nem sequer atrevo-me a lembrar do rosto. Tudo muito rápido, obrigaram-me a odiar-me, a odiar as pessoas a minha volta, a odiá-lo."

[Sons de Despertador]

– Ahn..?

Acordei com uma extrema dor de cabeça, tontura e um aroma incrivelmente horrendo que eu não sabia se estava vindo do esgoto do outro lado da esquina ou de mim mesmo. Olhei pela janela, não estava sol, era como se fosse tarde. Eu não me lembro de nada... o que aconteceu no dia anterior? Como eu vim parar aqui?

– Law, finalmente acordou! – Eustass entrou no quarto com um comprimido e um copo d'água. – Tá tudo bem?

– Eu tô com uma puta dor de cabeça... o que rolou ontem? Que horas são?

– Se chama ressaca, isso que dá ficar em um bar até as quatro da manhã. São 18h.

– Ahh... pode crer, ontem eu fiquei com o Rosinante. E o meu carro?

– Eu trouxe pra cá, não se preocupa.

Eustass sentou-se ao meu lado na cama, dando-me o comprimido. Minha memória imediatamente voltou, é meio desnecessário dizer que eu vacilei feio indo passar a madrugada junto com uma pessoa que eu mal conheço, nem é do meu feitio. Se bem que considerando a situação, o Kid está agindo até bem melhor que eu imaginava.

– Desculpa por ontem, tá?

– Eu quero que você me conte o que foi aquilo! – Ele ficou um pouco nervoso, mas não alterou a voz. – Eu nunca imaginaria que VOCÊ passaria a noite em um pub daqueles. Não era você quem odiava agitação?

– Eu não sei o que deu em mim, eu juro...

– Se você quiser sair, tudo bem, se você gosta de pubs agora eu até entendo, até porque eu também gosto. Se você tivesse me contado desse seu desejo por saídas noturnas eu faria questão de te levar!

– Mas esse é o ponto, Kid, eu odeio bares, pubs e nem gosto muito de cerveja, eu não consigo entender que demônio me possuiu ontem!

– Ah, eu sei muito bem que demônio foi esse, ficou te mandando mensagem o dia inteiro!

– O Rosinante me mandou mensagem? E-Ei, me mostra meu celular, eu preciso saber se ele chegou bem em casa! Sei lá, vai que ele tenha caído de uma árvore graças a bebida...

– Foi mal, mas eu exclui todas as mensagens e bloqueei esse cara.

– Você fez o quê?

– Algum problema?

– Óbvio que tem algum problema! – Agora fui eu quem fiquei nervoso. – Você não pode chegar pegando meu celular e bloqueando meus contatos, isso é invasão de privacidade! E como caralhos você descobriu minha senha?

– Por quê, tem algum problema eu saber sua senha? Tem coisa no seu celular que eu não posso ver?

– Eu não tô acreditando que você tá falando uma coisa dessas como se fosse normal.

– Eu não acreditei quando soube que você tava com um estranho, num bar onde rola todo tipo de coisas, até quase cinco da manhã! O que aconteceu ontem? Pode falar! Ele fez alguma coisa contigo? Ou ele nem precisou fazer nada?

– O que você tá sugerindo? Eu não sou esse tipo de pessoa!

– E como eu vou saber? Até ontem de manhã eu não sabia que você era do tipo que saía com estranhos e voltava pra casa semi-morto, mas aí eu descubro isso! E como eu vou saber se esse tal de Rosinante não era nenhum aproveitador? Porque ele me pareceu ser exatamente isso!

– Se você tá tão desconfiado assim, então vai no pub e pede as gravações, você vai ver que não aconteceu NADA!

– Ah, você acha que eu já não fiz isso? Pra sua sorte o local tava escuro e não deu pra ver nada.

– Você pediu as filmagens do local? É incrível como a gente acha que conhece as pessoas...

– Não vem tentar jogar a culpa pra cima de mim, eu fiz isso pela sua segurança! Tem mais é que me agradecer por eu não ter deixado aquela porra no hospital em estado grave.

– Olha, vamos parar essa briga por aqui. – Tentei me acalmar o máximo possível para dar um pouco de razão a toda essa crise existencial. – Eu errei, não vai acontecer de novo e não aconteceu absolutamente nada entre mim e o Rosinante.

– Verdade mesmo?

– Verdade. Agora você vai me dar o meu maldito celular pra eu esclarecer toda essa confusão, eu vou dizer que não gosto de pubs e que eu sou casado e tudo mais.

– ELE ACHAVA QUE VOCÊ ERA SOLTEIRO? VOCÊ ESCONDEU A ALIANÇA? Eu sabia! Eu sabia, eu sabia, tanto é que eu te pedi pra mandar foto do seu dedo e você me mandou? NÃO, você não me mandou!

– Puta que pariu, hein, é claro que eu não escondi a aliança! Essa coisa tá tão grudada no meu dedo que já adquiriu o formato e se duvidar, também tem consciência própria! É que esse cara é tão sem noção, tão distraído que eu aposto que nem se deu ao trabalho de notar!

– E você nem fez questão de falar, certo? Tava só curtindo a noite, tsc.

– Eustass Kid, nossas conversas se resumiam a ratos bebendo água, camelos de cinco corcovas, homens grávidos e em como porcos espinhos tomavam banho! Você acha que dá pra ter acontecido alguma coisa?

– Como vocês chegaram ao assunto 'homens grávidos'? Porque esse cara pode até ser um idiota, mas eu aposto que ele sabe como bebês são gerados!

– Pode deixar, eu vou fazer o teste de gravidez amanhã, agora será que dá pra devolver meu celular?

– O que você vai dizer pra ele?

– Vou dizer que eu sou casado com um brutamontes de dois metros de altura com cara de malvado que perde a cabeça quando tem um ataque de ciúmes. Posso?

Depois da crise eu respirei fundo, enfiando na minha cabeça que estava tudo bem ele agir assim por preocupação e que faz parte de todo bom relacionamento, que não era uma briga boba que iria nos separar nem nada disso. Consegui reconquistar meu celular e desbloqueei o número dele, mandando uma mensagem em seguida.

"Oi, desculpa não ter te retornado, eu acordei agora e todas as mensagens misteriosamente desapareceram, então... é isso, foi mal por ter saído ontem daquela maneira."

Após enviar, fiquei no aguardo de sua resposta. Kid estava ao meu lado, observando tudo o que eu fazia e certificando-se que eu não enviaria nada inadequado.

"Doutor! Eu achei que você tinha ficado chateado comigo... e eu fiquei preocupado também, você disse que iria embora com um cara que queria me matar. Ele é perigoso? V-Você tá seguro?"

"Não se preocupa, esse monstro perigoso é o meu marido, ele é meio ciumento."

"O QUÊÊ? V-V-VOCÊ É CASADO?!" – Vários emoticons de surpresa.

– Que merda de reação foi essa?! – Eustass se preocupou.

– Eu sabia que ele não tinha notado...

"Sim, eu tenho aliança. Você não viu?"

"E-Eu... não sei diferenciar alianças de outros anéis..."

"Ahn, ok, tudo bem, é até bom esclarecermos pra não rolar nenhum mal entendido. Não aconteceu nada demais ontem, certo?"

"É, sim, sim, claro, nada demais... ah, sobre ontem, eu preciso te falar uma parada!"

"O que é?"

"Eu pesquisei no Google e eu estava certo, ratos NÃO bebem água!"

"Como assim? Impossível, todo ser vivo bebe água, é a lei do mundo."

"Ratos-canguru são os únicos seres vivos que não dependem de água para sobreviver. É meu rato! Ele é especial!"

"Caramba, então... seu rato não bebia mesmo água. Incrível."

"Mais um mistério concluído, agora só falta descobrirmos como porcos-espinhos tomam banho, doutor!"

"Posso te fazer uma pergunta?"

"Claro!"

"Por que você me chama de doutor? Você não lembra o meu nome?"

"Ah, eu lembro sim, é que eu tenho memória curta e eu já conheci um Law antes, aí eu tenho medo do meu cérebro acabar substituindo vocês dois e eu esquecer dele..."

– Esse cara é completamente idiota! – Kid comenta.

– Totalmente desnorteado... – E eu concordo.

– Termina com essa porra de uma vez, eu não aguento mais isso.

"Entendo, você tem um problema com xarás, tudo bem, acontece, mas eu acho melhor nós terminarmos a conversa por aqui."

"Por quê? Se for por causa de nome, não tem problema, eu te chamo de qualquer coisa, até invento apelidos, mas eu não gosto quando ficam chateados comigo!"

"Eu não tô chateado com você, é que eu não costumo sair muito e eu ando precisando me concentrar mais no hospital, é só isso."

"É pelo fato de você ser casado?"

"Também..."

"Olha, eu não quero atrapalhar o relacionamento de vocês dois, desculpa por qualquer erro que eu tenha cometido, é que, sei lá, eu não quero perder a sua amizade."

– Eustass, eu não tenho certeza se quero continuar com isso...

– Ah não, você tá com peninha desse traste? O cara é muito tapado!

– Ele é muito sensível, não dá pra continuar. Ele vai voltar pra França esse mês aí nós nunca mais nos veremos, eu realmente acho que você deveria dar uma chance a ele.

– Nem pensar, quero mais é que se foda! Você não precisa dele nem como amigo, nem como nada. Acaba com isso logo.

– Mas...

– Vai deixar esse sentimentalismo interferir na nossa relação? Se você não consegue, me dá aqui que eu mesmo faço! – Kid pegou o celular da minha mão à força, mandando a mensagem sozinho.

"Eu tenho um hospital pra administrar e eu não tenho tempo pra perder contigo, então só vê se me esquece e me deixa em paz!"

– EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FEZ ISSO!

No momento em que ele enviou a mensagem, eu acabei me descontrolando com a tamanha grosseria que foi o ato e pulei em cima dele no sofá, querendo pegar meu celular a todo custo, mas ele empurrou meu rosto e bloqueou Rosinante antes mesmo de me deixar dar explicações, colocando o aparelho em seu próprio bolso após.

– Eu fiz isso pro seu próprio bem, esse cara já tá saindo dos limites!

– Não, você fez isso pro SEU bem, você não tem o direito de destratar alguém desse jeito, ruivo idiota!

– Você acha mesmo que eu vou deixar um sujeito desse tipo ficar te procurando toda hora? Nem pensar, pode ficar chateado comigo agora, mas um dia você vai me agradecer!

– Agradecer pelo quê?!

– Por te proteger! Agora deixa disso, vamos seguir a nossa vida normal e esquecer essa coisa toda. Eu vou tomar um banho, tchau!

Eustass saiu do sofá e me deixou sozinho, indo tomar seu banho e até mesmo trancou a porta para que eu não tentasse roubar meu próprio celular. Fiquei sentado, sem saber muito bem o que fazer, mas logo liguei a televisão para me distrair. Fiquei observando a tela chiando por vários minutos, meu cérebro havia desligado completamente e me tirado daquele mundo por um longo tempo. Demorei para perceber que a televisão estava na tela cinza de chuvisco e eu nem ao menos havia notado.

Somente conseguia pensar em como alguém tão sensível reagiria a receber uma mensagem que ele pensasse ser minha, sentia-me culpado por ter errado tão feio e não ter esclarecido a situação antes. Isso tudo não é pelo fato de ter perdido uma suposta amizade, até porque ele mora na França, um dia nos separaríamos. Não é isso.

A questão é, fui surpreendido pois não sabia que Kid seria capaz de fazer algo assim, sendo que não aconteceu nada demais na noite anterior. Nunca mais ver uma pessoa não é o que me preocupava, e sim, eu não ter podido nem ao menos me despedir, dizer adeus ou até mesmo alertá-lo do perigo de ficar subindo em árvores por uma última vez.

Não importa o que eu faça, o quanto eu fique parado encarando a televisão em modo chuvisco ou fique lendo um livro em meu quarto, com a janela fechada no mais puro breu noturno, nada disso distraía minha mente. Eu poderia sair, ir para parques e observar o verde, trabalhar no hospital silenciosamente e somente concentrar-me na medicina. Mas durante a noite, quando eu me deito...

Lembro-me de sua face angelical, seus finos traços e cabelos esvoaçantes, sua voz grossa e masculina escondida em um sorriso infantil, seu jeito puro e inocente, talvez até mesmo irritante graças às bobagens que ele dizia ou por deixar de notar coisas tão óbvias. Não importa nada disso, mesmo os dias passando lentamente, não consigo tirá-lo de minha cabeça por um só segundo. É como se eu o conhecesse há séculos, meu cérebro simplesmente sente falta dele.

– Eustass...

Dezenove dias haviam se passado desde que eu não tinha mais sequer notícias sobre Rosinante. Era de noite, estava escuro e eu deitara em minha cama, aguardando o sono chegar, bater à minha porta e levar-me para sabe-se lá onde. Meu sono sempre foi muito ruim, acordo de manhã mesmo dormindo de madrugada e, quando adormeço, não há nada capaz de fazer-me despertar se não o próprio despertador.

– Hm?

– Amanhã você vai à oficina do Killer?

Quando criança, Kid me contou que nasceu em uma cidade do interior onde só havia mato e mais mato. Seus pais eram donos de uma oficina de carros e o único amigo que ele tinha chamava-se Killer, que acabou herdando a oficina pelo ruivo seguir a carreira de medicina. Os dois são como irmãos, apesar da paciência de Eustass acabar rapidamente quando o loiro tinha algum problema na área mecânica e que ele precisa ir pessoalmente consertar.

– Pior que sim, quer ir comigo?

– Você sabe que eu não entendo nada desse assunto.

– Eu sei, eu sei, é que eu sinto sua falta, mas eu também não vou te obrigar a ficar o dia inteiro me olhando consertar carros. Por que a pergunta?

– É que amanhã é sábado e vai ter a feira de Medicina Quântica que eu comentei.

– Pode crer, verdade, eu nem tinha lembrado! Você se importa de ir sem mim?

– É o jeito, né... ver tanta gente de jaleco em um fim de semana não vai ser a mesma coisa sem você.

(...)

Sábado de manhã. Eustass pegou seu carro e foi até a cidade onde morava na infância, enquanto eu tratava-me de me arrumar para ir visitar a feira. Um sol infernal tampava minha visão assim que saí de meu prédio e fui até a rua, mas simplesmente utilizei minha mão para ter o privilégio da sombra fresca.

Por ser um lugar teoricamente perto, não me importei de ir a pé, isso até mesmo possibilitar-me-ia de realizar exercícios físicos, afinal. Fiquei caminhando pelas ruas, notando como seres humanos podem ser tão comuns, pois todas as pessoas usavam basicamente as mesmas roupas: bermuda, regata e tênis. Claro, eu não poderia reclamar, até porque estava com o mesmo visual.

Eis que, andando pela rua e resmungando mentalmente como um velho rabugento preso em um jovem de vinte e seis anos, deparo-me com uma visão, por incrível que pareça, não muito inovadora. Fiquei parado, atrapalhando a passagem das pessoas, mas simplesmente não poderia crer no que estava vendo. Estava, como dizem por aí, completamente hipnotizado.

Do outro lado da rua onde eu estava, existia uma árvore e, em cima dessa tão bela planta, um animal repousava, tranquilamente. Eu nem preciso vos dizer que existia um gato preso no mais alto galho, certo? E também nem preciso dizer de quem eu lembrei, mas não se preocupem, o Deus do destino não atuara nesse dia.

Poderia até mesmo haver um gato preso em uma árvore, claro, é uma coisa super comum, mas não tinha ninguém para salvá-lo. A pessoa que costumaria estar lá, não mais estava, provavelmente já mudara de país ou simplesmente não tinha um "radar" que o avisava onde cada gatinho preso se encontraria.

O fato é: Rosinante não estava lá. Fiquei parado por incontáveis segundos apenas encarando o pobre animal que miava com todas as forças para tentar sair do tão temido galho, então resolvi fazer o que qualquer ser humano decente faria em uma situação dessas. Ignorei o bicho completamente, pondo minhas mãos nos bolsos e dando as costas, me retirando daquele local.

– Tsc, que besteira...

Essa súbita experiência pode até ter sido assustadora para o pobre gato, mas para mim serviu como um aviso. Um aviso para esquecer totalmente esse homem que só me causava confusão e parar de me lembrar dele por tudo que acontecia. Um aviso bem claro. Ele não estava lá para salvar o gato, isso significa que nós, provavelmente, nunca mais iríamos nos encontrar de novo.

‭Segui a minha vida normalmente. No caminho para a feira, eu gostava de ir por uma praça mesmo sendo uma rota mais longa, já que eu não tinha o mínimo de pressa e não me importara de andar um pouco mais. Adentrei a tal praça, tinham vários patos em volta de um rio e, o mais curioso é que também havia uma multidão junto aos animais. Provavelmente algum espetáculo, ou sei lá.

– ALGUÉM CHAMA UM GUARDA OU UM MÉDICO, URGENTE!

Ou melhor, multidões geralmente significam problemas e eu não pude deixar de ouvir o grito que uma senhora idosa proferiu, muito assustada e apavorada. Fui correndo ver o que era e abri espaço, esbarrando nas pessoas para poder passar e indo até a ponta do lago, onde a mesma senhora estava.

– Saiam da frente, eu sou médico! O que houve?! – Perguntei, aflito, olhando o rio. Tudo o que eu via era alguém se debatendo lá no fundo.

– Aquele jovem cismou que tinha um pato se afogando, aí ele foi entrar e SE AFOGOU!

– O QUÊ?

Não sei o que deu em mim, nem tive tempo de pensar em como alguém teria o descaramento de realizar tal ação, tudo o que sei é que me atirei no lago e comecei a nadar procurando o tal homem. A água estava verde e cheia de plantas aquáticas que eu julguei não ser um bom lugar para dar um mergulho, provavelmente eu teria que me desinfectar por inteiro depois, mas não importa.

Quando pulei, fui direto para onde o tal homem estava se debatendo em desespero, mas ele logo parou com os movimentos e começou a afundar. Mergulhei com mais pressa ainda e consegui abraçar seu corpo, tirando-o da água e voltando para a terra. Todas as pessoas se afastaram, me dando espaço.

Coloquei ele primeiro no chão e depois saí do lago, observando sua face. Ele estava completamente inconsciente e desmaiado. Tomei rápidas atitudes médicas, sem nem mesmo notar de antemão quem era o sujeito em questão e coloquei minha orelha em seu peito, ouvindo seus batimentos cardíacos. Estava batendo fraco, então fui checar sua respiração e finalmente olhei seu rost...

– PUTA MERDA HEIN, TINHA QUE SER VOCÊ?!

Todos olharam-me assustados e provavelmente pensaram que eu era um médico louco, então ignorei totalmente o fato da pessoa idiota em questão ser nada mais, nada menos que o próprio Rosinante e continuei com os procedimentos. Notei que ele não estava respirando, então me aproximei de seu rosto.

Desconsiderei o fato de que meu coração batia aceleradamente em ver a pessoa que não saía de minha cabeça estando agora há poucos milímetros de distância de mim, totalmente inconsciente. Seus olhos fechados, seus lábios rosados em busca do tão famigerado ar. Me aproximei mais ainda, segurando seu nariz e abaixando seu queixo.

O que sentia naquele momento era a raiva de ver que aquele sujeito não tinha adquirido sequer um pingo de inteligência nos últimos vinte dias, o ódio de encontrá-lo naquela situação, o medo de perdê-lo por um simples erro médico e, acima de tudo, talvez até mesmo o desejo mais egoísta, a felicidade de vê-lo por uma última vez.

Me aproximei lentamente, olhando seu rosto cada vez mais perto, jamais havia me aproximado de forma tão repentina daquele homem que, mesmo desacordado, conseguia emanar o mesmo calor e energia costumeira. Tampei seu nariz totalmente e abri sua boca, preparando-me para realizar o boca-a-boca, até que...

– Ahn? – Ele acordou.

Tirei minha mão de seu nariz e de seu queixo, sem nem ao menos começar o ato de resgate, mas não me afastei. Não consegui me afastar. Quando seus profundos e cintilantes olhos azuis abriram lentamente, bateram nos meus como uma flechada. Sua respiração estava forte e eu a sentia bater em meu próprio nariz.

– Você...

Não importa se tinha uma multidão olhando apavorada, eu simplesmente não consegui me mover. Fiquei como um idiota, debruçado no chão e encarando aquele rosto tão de perto, notando cada minuciosa característica que ele tinha, a quantidade de fios loiros ondulados e as singelas marcas de sua face, denotando sua idade.

– Doutor...

Ele também ficou me encarando, provavelmente estranhando o que estava acontecendo e aguardando que eu saísse dali, mas não o fiz, não consegui fazê-lo. Olhando-o tão de perto, depois de tanto tempo sem vê-lo, fiquei mais uma vez hipnotizado. Podem me chamar de idiota ou achar a atitude clichê, não importo-me com mais nada.

Se se passaram segundos, minutos ou até mesmo horas não fazia a menor ideia, nem faço questão de saber. Tudo o que eu percebi neste período de tempo que o encarava é que seu braço foi subindo até eu sentir sua mão, tão macia e grande, entrelaçando seus dedos em meu cabelo em um simples gesto de afago. Seus olhos se fecharam junto aos meus e senti meu rosto ser puxado, indo em direção a seus lábios, que beijaram-me instintivamente.

Notas finais
O Deus do destino foi um pouco mais criativo dessa vez! ♥