Essa situação é tão estranha. Assim que eu cheguei em casa, deparei-me com um ser humano que eu nunca vi na minha vida e daí descubro que precisarei conviver com ele pelo resto dos meus dias. E quem essa pessoa é? Bom, segundo ele, seu nome é Jean Bart e ele é meu guarda-costas. Ou do Eustass, não sei direito.

Falando no diabo, Eustass achou que seria uma boa ideia contratar este homem para ficar de vigia, ter total certeza de que eu não faria nenhuma besteira do tipo fugir de casa ou da cidade. Pff.... por que eu faria isso? Eu só fui obrigado a me demitir e passar a viver em cárcere. Nada demais.

Na primeira hora eu fiquei louco, totalmente indignado diante aquela situação, e minha mente só conseguia xingar Jean e Eustass, mas então decidi me acalmar, visto que eu não conseguiria nada com tanto ódio. E cá estou, tomando um café e sentado no sofá junto com o meu segurança particular indesejado, fazendo uma série de perguntas a ele.

– Então... – Disse, querendo puxar assunto e distrair minha mente. – Eu não vou poder sair de casa? Tipo, nem pra fazer compras e tudo mais?

– Bom... – Jean até parecia ser um cara legal apesar de tudo. – O Eustass disse que faria as compras sozinho.

– E ele não vai ficar com ciúmes de você? Ele tá tão paranóico com essa questão ultimamente...

– Hahaha, ele me fez responder um questionário enorme sobre essas coisas, parecia até um interrogatório! Relaxa, eu não vou dar em cima de você.

– Ahn... então tá.

– Não precisa ficar bravo comigo, Law. Eu sei que você não gosta desse lance de ficar em casa, mas relaxa, é tudo questão de costume.

– Eu não sei se quero me acostumar com essa ideia.

– Pelo menos tenta se distrair. Eu instalei o video-game, você quer ver?

– Nah, eu nunca nem sequer toquei em um antes, não sou fã de jogos.

– Quer que eu te ensine? Eu tenho um sobrinho que joga, então eu entendo um pouco.

– Tanto faz... – Disse, indiferente.

– Vai, não fica assim! Vai te distrair.

Jean, ignorando totalmente o meu desinteresse, ligou o aparelho e colocou em um jogo que eu não sei o que é, só sei que tem um homem feio cercado por lixo e com uma arma na mão. Como alguém pode se interessar em fingir ser um soldado na guerra..? Isso é tão incrivelmente patético...

Mesmo assim, é melhor do que fazer nada, então eu decidi tentar jogar, mesmo que minha profunda cara de tédio demonstrasse o quanto eu estava me divertindo. Eu pessoalmente estou torcendo pra esse maldito soldado dar logo um tiro na minha cara, pra ver se me livra desse pesadelo, mas infelizmente o jogo não é em 3D.

– Onde clica pra começar? – Perguntei. O Jean tinha me dado um controle totalmente bizarro que tinha só quatro números, duas bolas e quatro setas que eu acho que deve ser pra andar.

– Ah, deixa que eu cuido disso. Você é o player dois, eu sou o player um.

– Por que você é o “um”? Eu sou o dono da casa.

– Você sabe jogar?

– Não.

– Então não reclama. Vem!

Ele apertou lá o botão de ligar e apareceu uma espécie de vídeo introduzindo o jogo, que era só um homem cheio de coisas no corpo tais como armas e outros que eu não faço ideia do que sejam, acho que tem umas granadas também. Enfim, essas coisas de videogame.

– É necessário ficar vendo esse vídeo..? – Perguntei, já entediado.

– Não, eu vou pular. – Ele apertou outro botão e apareceu só uma mão com uma arma, que eu suponho que seja minha. – É bem simples, é só você atirar nos seus inimigos.

– Tá. – Respondi, atento. – Como atira?

– No R1, é só apertar nele.

– Hã? – Fiquei olhando pro meu controle e não tinha essa porra. – Aqui só tem o X, a bolinha, o triângulo e o quadrado.

– Ah, o R1 fica aqui atrás. – Daí ele me mostrou que tinham botões escondidos.

– Oh... – Por que caralhos botaram o botão mais importante atrás do controle?

– E agorCUIDADO LAW, SAI DAE!!

– AHN, QUÊ, COMO?! – Do meio do nada ele deu um grito imenso. – QUE QUE TÁ ACONTE–

– SAI DAE, VOCÊ VAI MORRER!

– EU VÔ MORRE? – Então eu fiquei desesperado e apertei todos os botões, mas eu não saía dali! – NÃO TÁ QUERENDO ANDAR!

– PARA DE FICAR PARADO, SAI DAI! – O Jean começou a tentar pegar o controle das minhas mãos. – CORRE!

– COMO CORRE? – Mas eu simplesmente não o deixava pegar, eu só queria sair dali porque tinha muitos bichos e tava tudo vindo pra mim, mas eu queria sair dali sozinho. – COMO ATIRA MESMO?

– NO R1, APERTA O R1!

– POR QUE NÃO TÁ CORRENDO? – Sério, eu ficava apertando as setinhas mas o meu bicho não se mexia! – CORRE DESGRAÇADO!

– NÃO É NAS SETAS, É NO ANALÓGICO! – Eu tentava sair dali, mas o Jean também não me ajudava, só me deixava mais ansioso ainda. – CORRE NO ANALÓGICO!

– CARALHOS É ISSO?! – Porra, não é na seta que anda?

– Ah, já era... – E de repente, apareceu uma tela preta.

– O que houve? – Fiquei terrivelmente confuso, antes tava tudo um misto de cores, agora não tem nada!

– Você morreu.

– Eu morri?!

– Morreu! Por que você não correu?

– Eu tentei! Tsc, acho que esse jogo tá quebrado.

– Eu disse pra você correr usando o analógico...

– Que porra é essa?

– Essas duas bolonas grandes aí.

– Hã? Ele anda com as bolas? E a seta?

– A seta não serve pra nada.

– Como assim, meu Deus?

– Bom, é a sua primeira vez, compreensível. – Jean tentou se acalmar, sério, ele conseguiu me deixar assustado com aquelas reações. – E aí, gostou do jogo?

– Não, odiei, é péssimo.

– Quer jogar de novo?

– … quero.

(…)

Não sei porque caralhos, então nem adianta me perguntar o motivo, mas eu e Jean ficamos jogando – e ainda estamos – até de noite. Quer dizer, eu não tinha a mínima noção do horário, só sei que estava tarde porque tava escuro. Mesmo assim, eu não podia simplesmente levantar porque se não eu perdia o jogo e eu não posso fazer isso até porq...

– RÁ, EU GANHEI! – Porque eu havia ganhado pela décima vez consecutiva. – SE FODEU!

– COMO VOCÊ FEZ ISSO? – E ele ficava indignado, era um péssimo perdedor. – Como você conseguiu ganhar de mim por dez vezes consecutivas? É a sua primeira vez jogando!

– Eu aprendo rápido. – Disse, voltando a pegar o controle. – Vamos mais uma!

– Eu tô com um pouco de fome, não quer fazer uma pausa pra comer e ir ao banh–

– Comecei.

– FILHO DA PUTA!

Nós dois voltamos a jogar e, por algum motivo que eu não sei, tínhamos a estranha mania de ficarmos nos xingando. Mesmo eu não tendo nada contra o Jean, era muito bom xingá-lo e ele fazia o mesmo comigo, então nos comunicávamos através de ódio. Eu nem sabia que isso era verdadeiramente possível, mas até que é bem divertido.

– Cheguei! – Ouço a porta abrir, mas continuo jogando. Suponho que seja Eustass.

– Oi! – Eu e Jean gritamos, mas não tiramos os olhos do jogo.

– FILHO DA MÃE! – Ele exclama. – Para de fazer essas porras!

– Não tenho culpa se você é um incompetente. Se não sabe jogar, aprende vendo!

– Hã? Era eu que tinha que estar te dizendo isso, vai se foder!

– Ér, gente...

– TOMA ESSA! – Finalizei. – CHUPA, OTÁRIO!

– Desgra... EU VOU MATAR VOCÊ!

– Como se você conseguisse, hmpf.

– GENTE!

Somente que eu e Jean finalizamos a partida, notamos a real presença de Eustass. Ele precisou gritar pra ter um mínimo de atenção, já que o video-game estava mais interessante que sua presença. Eu e Jean, então, paramos um pouco de jogar para recebê-lo.

– Ah, oi, eu não tinha visto você chegar. – Disse, indo até ele.

– Ahn... – Ele ficou me olhando com uma cara desconfiada. – Você passou o dia inteiro jogando?

– Sim, com o Jean. Desde umas duas horas da tarde.

– São oito e meia da noite! – Ele exclama. – Você não tá com fome, não?

– Huh? – Fiquei parado, olhando pra ele, tentando raciocionar. Foi aí que eu percebi. – Caralho, que fome! – Minha barriga começou a doer no meio do nada. – T-Tem alguma coisa aí pra comer?

– Sei lá, eu acabei de chegar.

– Bom, então... – Jean se aproximou de nós dois. – Acho melhor eu ir agora, certo?

– É, obrigado por ficar com o Law. – Kid apertou a mão dele. – Até amanhã.

– Imagina, foi um prazer! – Ele se vira pra mim depois. – Amanhã eu vou te ensinar a não me subestimar, viu?

– Vai sonhando.

Me despedi e Jean foi embora, me deixando sozinho em casa junto a Eustass. O estranho é, assim que a porta de casa se fechou, eu senti algum aperto forte em meu peito, como se fosse uma sensação ruim acontecendo. Não sei porquê. Aliás, eu sei sim. Por eu ter ficado o dia inteiro jogando video-game, acabei me esquecendo do resto da história.

– Eu vou tomar um banho, tá bom? – Eustass disse, se retirando. – Acho melhor você comer alguma coisa.

– Ahn... tá bom.

Eu nem tinha me tocado, ou melhor, acabei me distraindo totalmente. Foi hoje mesmo de manhã que Eustass me obrigou a pedir demissão, foi hoje também que eu quase cometi suicídio mental por estar aprisionado dentro de casa com um guarda-costas estranho. Todas essas lembranças ruins acabaram vindo como uma bomba de uma só vez.

E eu sabia exatamente o que fazer agora. Primeiro, enquanto pensava, fazia alguns sanduíches para alimentar meu estômago, mas eu realmente preciso ter uma conversa com Eustass. Não uma conversa como as outras que foram inúteis, uma conversa de verdade, com algum tipo de imposição. Eu não posso trocar a medicina por video-game todo dia.

Enquanto estava comendo, todas as lembranças vieram. Cheguei até mesmo a pensar em Rosinante. Realmente, amanhã fará três dias que eu não tenho notícias dele e só consigo pensar na cena dele adormecido com um mar de sangue por volta da cabeça. Será que sofreu algo grave? Será que ele está bem? Eu juro, não queria machucá-lo, eu só... sei lá...

– Voltei! – Eustass chegou e sentou comigo na mesa da cozinha.

– Oi. – Respondi, meio seco, meio pensativo. – A gente pode conversar?

– Eu achei que você estaria chateado comigo, mas você e o Jean até que se deram bem, hein.

– O fato de eu ter me dado bem com ele não significa que eu perdoei o que você fez.

Fiquei olhando pra ele o mais sério possível. Ele retribuia despreocupado.

– Olha, eu entendo o porquê de você estar chateado comigo, mas pensa pelo lado bom também.

– Você contratou um guarda-costas pra não me deixar sair de casa! – Gritei, quase batendo na mesa. – Que parte disso é bom?

– Ah para, vocês ficaram o dia todo brincando! – Ele respondeu na mesma altura. – O que é melhor, jogar video-game ou ficar com vários doentes?

– PARA DE SER EGOÍSTA! – Não aguentei. – Se você gosta disso, então se demita VOCÊ e fique em casa jogando, eu NÃO QUERO ESSA VIDA!

– Ah não, não começa com os gritos. – Eustass ficou sem paciência. – Já não basta ficar o dia todo trabalhando, ter que voltar pra casa e ainda ter que te aturar é uma coisa, hein.

– Você ouve as coisas que você diz? Se você odeia tanto assim o hospital, então sai de lá e me deixa voltar a trabalhar!

– VOCÊ NÃO VAI VOLTAR! – Ele se levanta e bate na mesa com força. – Sua vida agora é AQUI, onde eu possa te ver e saber onde você tá! ENTENDEU?

– EU NÃO VOU FICAR EM CASA! – Virei de costas. – Se eu quiser, eu saio daqui agora mesmo e nunca mais olho pra essa sua cara!

– AH, VAI SIM! – Contudo, ele acabou segurando meu braço com a mesma força de hoje de manhã e me aproximou de si, me fazendo praticamente abraçá-lo.

– ME SOLTA! – E eu comecei a bater em seu peito. Ele acabou me abraçando com força. – ME LARGA!

– PARA DE GRITAR! Escuta aqui... – Eustass puxou o meu cabelo e me obrigou a encará-lo bem de perto, justamente pra eu sentir a fúria que ele tinha nos olhos. – Você vai ficar aqui em casa, vai me obedecer e vai parar de perder a cabeça! Entendeu?

– Não vou..! – Tentava me soltar, mas ele puxava meu cabelo com tanta força que era impossível. – Para com isso, já tá ficando ridículo me manter como um troféu pro seu próprio ego inútil!

– CALA BOCA!

Ele me segurou de todas as maneiras, até tentei me debater, mas era impossível, visto que sua força é muito maior que a minha. Gritava pra ele me soltar, mas Eustass foi me arrastando até o quarto. Estava escuro e frio, as janelas fechadas não deixavam sequer uma luz entrar. Ele fechou a porta com o pé e me jogou na cama.

– O que você pnesa que vai fazer? – Eu estava deitado e ele em pé, começou inclusive a tirar a camisa. – Fica longe de mim! – Fui me levantar e ele voltou a me jogar.

– O que você acha que eu vou fazer? E não adianta tentar fugir!

– Para com isso, você tá completamente maluco!

– Maluco? Imagina... – Eustass deitou por cima de mim e me prensou na cama, segurando meu pescoço com força e com intenções de me arrancar completamente o ar. Ficava tentando empurrá-lo pra longe, mas era inútil, ele usava os dois braços para me impedir.

– K-Kid... – Tentava dizer, mas já era difícil.

– Eu vou ter que te ensinar a me respeitar.

(…)

Na manhã seguinte, Eustass saiu de casa na mesma hora em que Jean chegou. Não dissemos sequer uma palavra um para o outro, aliás, nem dormir eu dormi. Passei a madrugada inteira deitado de frente para a janela fechada, ele me abraçando e eu forçando-me para não fazer qualquer tipo de barulho ou movimento que pudesse acordá-lo. Meu corpo todo doía.

Poderia estar calor, visto que as janelas agora estavam abertas e o sol batia forte, mas isso não muda o fato de eu estar de calça jeans cumprida e moletom, até mesmo com o capuz, ao invés de uma simples roupa de casa. Para er sincero, eu nem sentia calor, muito pelo contrário, meu corpo estava trêmulo e só conseguia estar com dor. Muita, muita dor.

– E aí, Law! – Jean chegou e sentou-se no sofá ao meu lado. – Não tá com calor, não?

– Huh? – Demorei um pouco para responder. Na verdade, sequer tinha percebido sua presença. – O que você disse?

– Essas suas roupas, tá muito quente aqui. Tá com febre, é?

– Ah, não, eu... não tô com calor, só isso.

– Verdade mesmo? – Ele ficou me olhando como se eu fosse de outro planeta.

– Verdade.

– Então... bom! – Mas automaticamente mudou de assunto. – Vamos jogar?

– Não tô muito afim...

– Por quê?

– Nenhum motivo, eu só não quero jogar.

– Deixa disso! Ontem você disse a mesma coisa e a gente ficou jogando por horas.

– Jean... eu não tô mais com vontade, só isso.

– O Eustass disse que você não poderia mais jogar ou algo assim?

– Não.

– Então tá, a gente joga mais tarde.

– Pode jogar se quiser, eu vou pro meu quarto dormir um pouco.

Me levantei com um pouco de dificuldade visto que minhas pernas ainda tremiam um pouco e minha coluna não ficava perfeitamente ereta, parecia até mesmo um idoso com dor nas juntas. Jean ficou me olhando como se eu fosse um completo estranho, mas não disse nada, então não me importei. Fui primeiramente até o banheiro, tomar alguns remédios para dor.

Já tinha tomado um pouco mais cedo, mas sinceramente não me importava mais com doses certas. Também mal conseguia me encarar no espelho sem sentir um aperto no peito em ver minha própria face, acho que já me cansei até mesmo da minha vida, do meu corpo. Isso pra mim não significa mais nada.

Finalmente, fui para meu quarto e deitei em minha cama. De lá fiquei e não consegui mais sair, meus pensamentos vagavam somente em simplesmente olhar para o teto, sem nenhuma preocupação específica. Perdi a vontade de ficar armando planos para tentar fugir de casa ou algo do gênero, sabia que não ia dar em nada mesmo.

Então o dia seguinte veio e, consequentemente, o dia depois dele. Devo ter decepcionado o Jean pois até agoa não senti a menor vontade de voltar a jogar com ele, embora isso não fosse tão importante. Na verdade, mesmo o vendo todo dia, eu sequer lembro da aparência dele direito.

A única pessoa em que eu penso realmente depois de ficar encarando o teto do meu quarto por tanto tempo é ele, Rosinante. Três dias, cinco dias, sete dias. Não importa quanto tempo passe, eu não consigo parar de me perguntar em como ele está, se ele está realmente bem ou pelo menos vivo depois de eu ter feito aquela besteira e batido nele com um abajur.

Oito dias, nove dias, onze dias. Eu sei que nunca mais o veria, aliás, eu não o culpo por não ter voltado a me procurar. Eu mesmo não me procuraria. Eu sou um monstro que perde a cabeça e deixa outra pessoa sangrar no chão sem fazer nada para ajudá-lo, ou até mesmo verificar se ele ainda respirava.

Doze dias, treze dias, fazem quinze dias que eu não vejo o sol sem ser por ser através da janela. Meu corpo não tinha mais energia nenhuma, só me alimentava com besteiras e ficava deitado o dia todo encarando o nada. Eu nem sentia mais nada, não sentia ódio de Eustass, saudades da vida lá fora, nada. Absolutamente nada.

Dezesseis, dezo.. han? Quantos dias se passaram mesmo? Um mês? Isso não importa. Também não sentia mais rancor nenhum por Rosinante, ou por Cora-san, sei lá. Não tem motivos para ficar com rancor de alguém que na verdade não fez nada, eu apenas o culpei por toda uma vida por não ter a quem mais culpar. Isso agora já não importa mais, entretanto.

Era de noite e, como sempre, eu estava em casa com Eustass. Ou melhor, eu estava no meu quarto, fazendo o que faço de melhor: nada, enquanto ele estava na cozinha. Sei que hoje é sexta-feira porque vi na televisão, mas sinceramente nem me preocupo em saber os dias.

Narrador P.O.V

Ao mesmo tempo em que Trafalgar descansava no quarto, o ruivo estava na cozinha comendo macarrão e falando no celular com seu amigo de infância, Killer.

“Por que não?”

– Eu já disse, eu não vou mais aí, para de insistir, que coisa.

“Mas por quê?!”

– Porque não.

“Porque não não é resposta.”

– Tsc, porque eu não preciso mais de você agora que o Law tem aqui, só isso. Eu quero ficar com ele. É difícil de entender?

“Affs... de onde surgiu tanto interesse repentino em ficar com ele em casa? Você nem ligava pra isso!”

– Agora eu ligo. E para de me importunar!

“Deixa disso, Kid. Você não sente falta de mim?”

– Não.

“Ah, para, vai. Nem um pouquinho?”

– Tá... um pouco, às vezes.

“Viu só? Então dá uma passada aqui no fim de semana, não custa nada! O Law não vai sair de casa, vai?”

– Mas você é um porre mesmo, hein. Tá bom! Eu vou sábado e volto no mesmo dia, nada de ficar pra dormir. Entendeu?

“Isso!! Te vejo aqui, então. Beijos!”

– Beijos.

(…)

Trafalgar P.O.V

Ainda bem! Por algum motivo que eu nem faço questão de saber, o Eustass resolveu ficar na oficina com o Killer e eu fiquei em casa com o Jean. Eu gostava muito mais desse jeito, uma vez que não preciso lidar com a presença do ruivo. O guarda-costas pelo menos me deixava em paz no quarto e ficava na sala, fazendo o mesmo que eu: nada.

Mas então, vou voltar a falar dos meus pensamentos inconstantes. Eu já olhava tanto para o teto que ele parecia adquirir uma coloração própria, era muito lega...

Toc toc

Huh? Que estranho, eu pensei ter ouvido alguém bater na porta da frente. O Eustass tinha saído há algumas horas, mas...

TOC TOC

E parece que não foi a minha imaginação. Que bom, eu pensei que estava ficando louco por viver aprisionado, mas parece que eu ainda tenho ciência das coisas. A batida na porta dessa vez foi diferente, algo mais pesado, bruto.

– Já vai, já vai! – Dessa vez era a voz do Jean, provavelmente indo atendê-la. – Quem é? É o Eustass?

– Oi. – Agora já era outra voz, não sei de quem, mas parecia ser bem grossa. Fiquei até preocupado e resolvi levantar da cama, indo até a sala de estar.

– Perdão, quem é você? – Ouvi a voz de Jean, mas me aproximava com cuidado, para que eles não me notassem.

– Você é Eustass Kid? – Consegui finalmente ver quem era o sujeito na porta. Era bem alto, com um cabelo curto loiro e óculos pesados. Estranho... acho que eu já vi esse cara antes.

– Não, eu sou o segurança dele. Por quê?

– Ele tá em casa?

– Posso saber quem exatamente é você..?

– É, Pelo visto isso foi um não. – O sujeito loiro foi entrando em casa, sem mais nem menos.

– Ei! – E é claro, Jean o segurou. – Quem te deu permis–

– CALA A PORRA DA BOCA! – Não sei como, não sei porquê diabos, mas o tal homem estranho se virou e deu um soco tão forte no meio do rosto de Jean que o fez cair no chão, inconsciente. – Não toca em mim enquanto eu estiver puto!

– JEAN!

Por Deus, com o susto eu acabei gritando, mas aí eu percebi que foi uma péssima ideia. Tapei minha boca imediatamente e estava agora de frente para o loiro, que me encarava de uma forma tão séria que até dava arrepios. Q-Quem é esse cara? Por que ele invadiu a minha casa e praticamente matou o meu segurança? O que ele quer com o Eustass?!

– Você é o Law, certo? – Ele me perguntou, com uma voz terrivelmente grossa.

– N-N-Não, e-eu...

– Tsc, eu sei que é você!

Ele veio andando até mim e eu fiquei paralisado, queria fugir, mas não tinha para onde. Porra, já não basta ficar preso em casa, agora um estranho a invade e faz isso? O que ele quer comigo? Por que eu sou tão azarado? Caralho, é tanta coisa na droga da minha cabeça...

– Q-Q-Quem é você?

– Não lembra de mim? Nos conhecemos no hospital.

– H-Hosp... hospital?

– Meu nome é Doflamingo, eu sou o irmão mais velho do Rosinante.

– Ah... AAAAAAAAAAAAHHH! – Caralho, agora eu lembrei e tudo só piorou. – E-Eu sinto muito pelo seu irmão! E-Eu não queria matá-lo, mas eu juro que eu pago o enterro, eu pago tudo, só por favor não me ma–

– CALA BOCA.

Fiquei calado rapidamente. É esse o irmão mais velho que abandonou o pobre irmão desastrado pra ir à França e cagou pra se ele quase morreu? É esse o irmão que ensinou aquele mesmo sujeito desastrado a bater tão forte que fez o Kid desmaiar? É esse o irmão que acabou de matar a porra do meu guarda-costas?!

– Suponho que o seu marido não esteja em casa, certo?

Ele me perguntou e como eu estava em choque, só fiz “sim” com a cabeça.

– Ótimo, isso vai facilitar meu trabalho. Vem.

Mesmo já tendo parado de tentar entender as coisas que acontecem ao meu redor, não posso deixar de comentar o que Doflamingo tinha acabado de fazer. Por algum motivo obscuro, ele achou que seria uma boa ideia me pegar no colo e me botar em seu próprio OMBRO.

– EI, ME LARGA! – Gritei e comecei a me debater. Isso tudo é Karma? Eu devo ter sido uma péssima pessoa na vida anterior... – O que você vai fazer comigo?

– Fica bem caladinho, isso aqui é um sequestro. – E ele ignorou completamente o corpo de Jean e saiu de casa comigo.

– S-S-Sequestro?!

Fiquei tentando me debater, mas não adiantava em nada. Por que tudo isso tem que acontecer comigo? Porra, eu já tava me acostumando com a vida de solidão dentro de casa, até era interessante ficar encarando o teto, mas agora eu sou SEQUESTRADO?

Bom, pelo menos agora eu consegui sair de casa...

Notas finais
♥ Tretas finais ♥