Ano Hi Mita Sora
1 Prólogo
Notas iniciais
Uma tarde qualquer de verão, em um ano qualquer numa data qualquer. Os ventos da manhã batiam, fazendo com que as folhas das árvores voassem e trouxessem consigo um majestoso dia ensolarado. Eu ficara observando, pela janela do orfanato, os doces pássaros cantando, com sua voz melodiosa, uma bela canção.
E ficava assim, com os braços apoiados, olhando tudo ao meu redor. Eu, em um orfanato cheio de crianças sem lar, preso, e eles lá fora, brincando com seus pais e amigos, sentindo toda a brisa de verão em suas peles, iluminando-vos. Pode parecer um tanto egoísta se fossemos pensar no presente, mas na mente de uma criança de seis anos, ter tudo aquilo era um privilégio grande demais para ser verdade.
O pior de tudo era que eu nem mesmo poderia estar assistindo às obras da natureza do lado de fora. Para interromper a minha imaginação e vista, uma das moças que cuidavam de mim, ou seja, uma das empregadas do orfanato, veio em minha direção. Puxou meu braço, dizendo que não poderia ficar parado, afastado das outras crianças, e me levou até o pátio.
No pátio, assim como eu, diversas crianças sem lares ficavam brincando, despreocupadas com o mundo a sua volta. Ficava assistindo a eles, divertindo-se ou distraindo-se com bolas, jogos e outros; enquanto eu ficava lá, debaixo de uma árvore, lendo um livro qualquer infantil. Não gostava de juntar-me às outras crianças, preferia ficar no meu canto, com esperanças de algum dia poder escapar daquele ínfimo lugar.
Não que eu me sentisse superior e, por isso, gostasse de ficar no meu canto. Não era isso. É só que, eu realmente não tinha esperanças de algum dia ser adotado, ou ganhar um novo lar. Afinal, quem iria querer uma criança de seis anos, com pais presidiários? O meu destino fora traçado antes do meu nascimento.
E eu apenas ficava observando tudo a minha volta, desde as árvores crescendo até as flores desabrochando-se. Se bem que, para ser sincero, existia algo que eu gostava mais de espionar. Uma pessoa, para ser mais exato. Um garoto que deveria ter a mesma idade que eu, portando cabelos loiros e olhos azuis que refletiam seu semblante pio, repleto de vida.
O motivo de eu perder horas olhando para ele não era nenhuma paixão infantil, e sim, que eu via em seus olhos, uma luz formando-se em minha vida. Não sei explicar muito bem, mas este garoto passava-me uma boa atmosfera. E além disso, ele conseguia fazer o impossível: tropeçar por todo o canto, graças aos cabelos loiros cumpridos que cobriam seus olhos. Era bem engraçado!
Debaixo da árvore, eu ficava sentado, de pernas cruzadas e o espiando, tomando cuidado para ele não perceber, já que eu posicionava meu livro em meu rosto, estrategicamente, camuflando-me. As demais crianças costumavam rir dele, tirar sarro, apontar e fazer caretas, já que o garoto loiro era bem tímido e não conseguia dar um passo sequer sem tropeçar. Tudo o que eu fazia era soltar um pequeno esboço de sorriso, imaginando como alguém tão adorável pode estar em um lugar tão horrendo.
Pode até ser considerado inveja. Aqueles cabelos loiros, pele suave e olhos azuis seriam adotados com muita facilidade, principalmente graças ao seu sorriso. Ele teria, com toda certeza, muito mais chance do que eu em sair desse lugar, e eu temia por isso. Porém...
... Mais do que tudo, eu sentia admiração.
E eu não poderia ficar espionando pelo resto do dia, já que o sinal bateu e todas as crianças voltaram a seus dormitórios. Éramos separados em grupos de A, B, C, D e E, e eu estava alojado no dormitório E, enquanto o garoto de olhos azuis estava no D. Nem mesmo sorte em estar junto a ele eu dei, minha vida é mesmo uma maré de azar.
Até que, em um desses fatídicos dias que todos temos, eu estava no pátio, como sempre, lendo livros e observando às pessoas à minha volta. Eis que minha visão é tomada subitamente, quando eu vejo o garoto de olhos azuis e rosto angelical, sendo empurrado com tudo no chão.
– Hahahaha, ele caiu de novo! Parece um idiota!
– Haha, você nem precisaria empurrá-lo, ele sempre cai!
– Verdade! Hahaha.
Um grupo de crianças se formou entorno do pobre garoto, rindo dele, apontando e proferindo palavras de mal gosto. Ele ficou no chão, tentando se levantar, mas suas súbitas tentativas eram em vão, pois sempre caia novamente, fazendo com que todos voltassem a rir de teu jeito desastrado. Aquela, eu me arrisco dizer, foi a primeira vez que eu senti raiva.
Raiva por ver o único garoto que eu julgara bom no meio de um lugar tão horrível como aquele, sendo vítima de crianças inúteis. Raiva, principalmente, por ver um sorriso tão generoso e que me dava esperanças de um dia fugir dali, sendo dissipado tão rapidamente por lágrimas.
Minha garganta inteira estava queimando graças ao sentimento de ódio que havia nascido em mim, então eu, que sempre ficava debaixo de uma árvore sozinho, levantei-me finalmente. Andei, indo até o loiro jogado no chão, independente se haviam várias crianças ao nosso redor e estendi-lhe a mão.
– Você está bem?
Foi a primeira vez que eu falei com ele. Estendi a minha mão para alguém que estava no chão, com o joelho ralado, e fiquei parado, não me importando com as crianças que sussurravam outras palavras. A única coisa que importava naquele momento era ele, que não entendeu muito bem o gesto e ficou me olhando sem saber o que fazer de primeira, mas logo segurou a minha mão.
E no momento em que ele segurou minha mão, notei como ela era macia e quente. Meu coração palpitava somente com a sua aproximação, com a aura que ele exaltava, com os finos traços de seu rosto e seus olhos claros, por debaixo da franja, sendo iluminados pelo sol. Levantei-o e nós ficamos um de frente para o outro, até que ele finalmente mostrou seu sorriso para mim.
– Obrigado!
E também foi naquele momento em que eu percebi que deveria estar parecendo um idiota, pois vê-lo tão de perto despertou em mim outro sentimento, o qual não conheço o nome. Tudo o que sei é que, depois daquele dia, acabamos nos tornando amigos.
Fazíamos tudo juntos! Quando ele tropeçara eu cuidava dele e fazia questão fazer pessoalmente seus curativos, para deixá-lo o mais seguro possível. Conversávamos, falávamos sobre coisas aleatórias e brincávamos, afastados das outras crianças. Eu ensinei a ele a ler e, em troca, ele me ensinou a sorrir.
Aprendi também a sua idade, ele era dois anos mais velho que eu e não conhecia os pais biológicos. Seu nome, até hoje não lembro, já que era bem difícil para uma criança e eu também acabei lhe dando um apelido parecido com "coração", graças a sua camisa branca repleta dos mesmos, em cores vermelhas vivas.
"Cora-san"
Meus dias no orfanato eram os melhores possíveis, somente por estar junto a ele. Em pouco tempo, aquele garoto conseguiu transformar uma criança sem esperanças em uma tão cheia de vida e que sorria por tudo. Até que, por minha vida ser sempre uma maré de azar inescrupulosa, finalmente chegou o dia em que eu mais temia que chegasse, mas que também era inevitável.
"O céu que vimos aquele dia
Aquele céu rubro
Hein, você lembra dele?"
Nós estávamos na porta do orfanato, juntos em um aperto de mãos. Era um final de tarde de verão e, como sempre, o sol escondia-se e deixava o céu com um ar alaranjado. Os ventos batiam em nossas roupas, trazendo consigo uma canção triste, melodramática, que fazia meu pobre coração despedaçar-se. Sim, aquele foi o último dia em que o vi.
Meu amigo, de mãos macias, rosto angelical, olhos azuis apaixonantes, cabelos dourados e, certamente, dono do sorriso mais harmonioso que eu já vira em minha vida, estava prestes a ser adotado. Lágrimas não paravam de sair dos meus olhos, só em pensar no inevitável. De agora em diante eu ficaria lá, no orfanato repugnante, sozinho.
– Não fica assim, por favor!
– Como eu não posso ficar, idiota? O que eu vou fazer sem você?!
Vendo-me em prantos de desespero, ele me abraçou, transmitindo todo seu calor até mim. Em vão, pois minha situação só conseguiu piorar. Temia nunca mais sentir aqueles braços, ver aquele sorriso, ver aqueles olhos, ver aquele rosto. Pode parecer muito para uma criança inocente, mas ele era simplesmente o único amigo que eu tinha.
– Law, vamos fazer uma promessa.
"A promessa imersa"
– Promessa?
"No vento do início de um verão"
– Se nós prometermos, nós teremos que cumprir, então vamos prometer!
"Que une a nós dois"
– T-Tá...
"Atrás do seu sorriso forçado"
– Eu prometo, nós com certeza nos encontraremos de novo, e vamos ser amigos para sempre! Tá bom?
"As sombras se espalham"
– Pra sempre?
– Eu não minto! Nós com certeza vamos nos ver de novo, é uma promessa!
"O som, a cor, o calor
Deste quarto que diminuíram
Hoje também foi deixando desarrumado
Quando adormeci de cansaço"
(…)
[Sons de despertador]
Acordei jogado na minha cama, sendo abraçado pelo homem o qual sou casado. Meu nome é Trafalgar Law, sou um britânico órfão de vinte e seis anos e, atualmente trabalho em um excelente hospital. Quem estiver vendo isso pode considerar-me sortudo, já que minha vida seguiu muito bem no final das contas.
Apesar de nunca ter sido adotado, assim que eu saí do orfanato, eu consegui me virar em uma faculdade pública e segui meu sonho de ser médico. Meu sobrenome derivou de uma guerra a qual li num livro e chamou-me muito atenção, então decidi presentear-me com ele.
De vez em quando, eu sonho com o orfanato a qual fui vítima de um dos maiores pesadelos de minha vida inteira. Antigamente eu conhecia um garoto loiro e de olhos azuis, o qual não lembro nada além de seu rosto e do apelido de corações que eu o dei. Aquele garoto, o responsável por tornar minha vida um inferno pessoal, e que hoje não tenho nem a ousadia de lembrar teu nome infeliz.
"Você é bom em trapacear, né? Gostava das suas palavras
Porque você odiava mentiras
Mas agora
Esses sentimentos são dolorosos
E por isso nós dissemos adeus"
Lembro-me perfeitamente de sua personalidade calma, inocente. Ele odiava mentiras e chorava por tudo, sendo uma pessoa realmente irritante e que tropeçara toda hora. Ele me deu esperanças de sair de lá algum dia, me deu esperanças de ter finalmente conseguido um amigo, me deu esperanças de encontrarmo-nos mais uma vez. Ele, senhoras e senhores, conseguiu fazer em pedaços todo o meu ser.
Graças a ele, eu nunca mais faço uma promessa. Simplesmente não vejo sentido em prometer algo que não podermos cumprir. Ora essa, por que precisaríamos correr o risco de magoar outras pessoas, se sabemos muito bem nossas limitações? Será que algum dia ele levou tão a sério essas palavras, quanto eu levei?
"Um dia nos despedimos com um "até logo" e um aceno
Não vamos nos encontrar novamente
A ultima mentira foi uma mentira gentil, eu não me esqueço"
Contudo, tudo bem, não vamos nos apegar à uma mentira, vamos prosseguir com nossas vidas, e eu realmente não posso reclamar da minha. Sou casado com um homem chamado Eustass Kid e nos conhecemos no mesmo hospital onde eu trabalho, já que ele é enfermeiro e eu médico cirurgião.
Nossa rotina era bem específica. Acordávamos juntos, tomávamos nosso banho matinal e eu cozinhava algumas torradas enquanto ele lia o jornal. Pegávamos nosso carro e dirigíamos até o hospital onde trabalhávamos, que era inexplicavelmente grande. Apesar de trabalharmos juntos, infelizmente, víamo-nos poucas vezes, graças a nossos empregos.
Ao mesmo tempo em que ele trabalhava, eu estava apoiado em uma parede qualquer, bebendo um café para acordar, tranquilamente, sem nenhuma preocupação em minha mente. Eis que, contrastando totalmente meu bom humor, ouço enfermeiras gritando e correndo com uma cama e um homem sem vida.
– SAIAM DA FRENTE, ABRAM ESPAÇO!
Gritos eram ouvidos e todos desesperaram-se, embora eu permaneça o mesmo, já que não era incomum. O homem deitado na cama estava inconsciente, mas não morto como eu pensara, indo às pressas para uma sala de cirurgia, até que uma das enfermeiras vem até mim.
– Doutor Trafalgar, precisamos do senhor.
– Eu estou indo. – Nós dois fomos correndo junto com os restantes dos médicos, em direção a sala cirúrgica, enquanto ela ia me explicando a situação.
– Parece que ele caiu de cima de uma árvore, o irmão dele o trouxe para cá. Traumatismo craniano.
– E o que um homem adulto fazia em cima de uma árvore?
– Parece que estava... salvando um gatinho.
– Salvando um gatinho? Que idiota... – Tudo bem, muito pouco ortodoxo esse comentário, mas foi inevitável.
– Não fale assim do paciente, por favor...
– Foi mal! E já sabemos o nome do "salvador de gatinhos"?
"O céu que vimos aquele dia
Aquele céu rubro
Hein, será que você vai se lembrar disso um dia?
Nos apegando à promessa não cumprida
Juntos caminhamos"
– Donquixote Rosinante.
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