Ano Hi Mita Sora
2 Olhos Azuis

Eu tinha apenas sete anos quando vi meu único amigo ir embora para sempre.
Eu tinha apenas sete anos quando segurei sua mão pela última vez, notei sua maciez e ouvi, soando por meus ouvidos, sua voz afável.
Eu tinha apenas sete anos quando, debaixo de um final de tarde no início de um verão, fizemos uma promessa. A promessa de que, com certeza, iríamos voltar a nos encontrar.
Quando eu tinha sete anos, vivia em um orfanato. Este orfanato era sustentado apenas com doações aleatórias, já que o governo britânico pouco se importara com nós e, graças a isso, o lugar onde eu estaria destinado a viver até o fim de minha vida despencava em ruínas.
Mesmo assim, não havia um só dia em que eu não me lembrasse daquele garoto. Me lembrasse de seu sorriso, que fazia-me esquecer dos piores dias. Me lembrasse dos seus olhos, que abriam em mim, uma luz nova, fazia-me ter esperanças de uma nova vida. Me lembrasse de sua risada doce, que fazia-me a criança mais feliz daquele lugar deplorável.
Dos meus sete anos até meus dezoito, idade em que pude finalmente sair daquele local, meus pensamentos foram transformando-se. A saudade que eu sentia, as alegrias em passar o tempo com ele, iam acabando e, em seu lugar, outros pensamentos surgiam. Novas emoções brotavam em meu peito, tal como uma série de questionamentos pessoais.
"Por que ele saiu daqui?"
"Por que ele me abandonou nesse lugar?"
"Por que ele não voltou a me procurar?"
"Por que ele não manda cartas? Tenta comunicar-se de alguma forma?"
"Por que ele fez uma promessa, a qual ele sabia muito bem, que não poderia cumprir?"
No dia em que eu saí do orfanato, eu fiz uma promessa a mim mesmo. Uma última promessa.
"De agora em diante, eu não confiarei em mais ninguém."
Porque eu simplesmente, odeio aquele garoto.
(…)
[Sons de Despertador]
Acordei em minha cama, com os raios solares invadido meu quarto através das cortinas e atingindo diretamente meu rosto. Desviei meus braços até uma pequena mesa que havia ao meu lado, almejando pegar o despertador que tocava feito louco e, subitamente, calá-lo de vez.
– Bom dia... – Disse, coçando meus olhos, para o homem que dormia ao meu lado e insistia em roubar meu cobertor durante a noite.
– Bom dia.
Eustass Kid, um sujeito bem alto e com cabelos vermelhos rebeldes, é o motivo da minha vida não ter seguido por uma solidão eterna. Quando eu sai do orfanato, dei sorte em ganhar uma bolsa de estudos numa faculdade de medicina, até porque sempre interessei-me por livros e, mesmo sem professores, eu costumava estudar desde a infância.
Quando me formei, a própria faculdade apresentou-me ao hospital a que hoje trabalho, afirmando minhas excelentes notas e esforço pessoal. Ganhei meu emprego, consegui alugar um apartamento, porém mesmo assim não tinha ninguém ao meu lado. Nunca tive um amigo de verdade, não sou do tipo social.
O importante é, tínhamos nossa própria rotina e convivíamos excelentemente bem. Arrisco-me a dizer que a minha vida atualmente é muito melhor do que o de muitos, que tiveram uma infância igual ou até pior que a minha. Sou um sujeito sortudo, no final das contas.
No momento, uma manhã de verão, eu estava cozinhando algumas panquecas com o avental que ele havia me dado, enquanto Eustass estava bebendo um café e lendo um jornal matinal. Éramos um casal normal, sem muito o que falar. Nos beijávamos de manhã, eu o lembrava de trocar a gasolina do carro e, em troca, ele me lembrava de não ficar com cara emburrada perante os pacientes.
(...)
No hospital, nos separávamos, apesar de sempre darmos um jeito de nos encontrar. No dia anterior, eu havia feito uma cirurgia de um paciente chamado Rosinante, apelidado por mim de "Salvador de Gatinhos", já que o sujeito conseguiu ter a capacidade de adquirir um traumatismo craniano só por salvar um bicho de rua. Um idiota completo.
E, no momento, eu estava analisando a ficha deste idiota, para ter certeza de que tudo estava certo. A cirurgia havia ocorrido com êxito e o paciente descansava, com ajuda de aparelhos, em um quarto qualquer no hospital, onde estava em coma induzido. Dentro do mesmo quarto, junto a mim, seu irmão mais velho estava.
– Doutor, você tem alguma ideia de quando o meu irmão irá acordar? – Perguntou. Seu nome era Donquixote Doflamingo, não sabia muito sobre ele, mas era um sujeito realmente alto, portador de cabelos loiros curtos. Quanto a seus olhos, não sei vos dizer a cor, por estarem sempre cobertos à um óculos.
– A cirurgia foi um sucesso, ele não corre riscos nenhum, não se preocupe. Eu não sei quando ele irá acordar, mas um de nossos enfermeiros sempre estará a disposição dele.
– Entendo. – Ele bufou e levantou-se da cadeira. – Bom, eu preciso ir, eu trabalho agora.
– Tudo bem, pode ir, o seu irmão está em boas mãos.
– Obrigado mais uma vez.
Assim que Doflamingo se retirou, eu continuei no quarto do paciente, pois eu não tinha mais nada para fazer e gostava de ficar passando o tempo com eles. Trabalho somente em emergências. Puxei uma cadeira, colocando-a ao lado da cama onde ele estava.
Não dava para ver o rosto de Rosinante muito bem, por várias máquinas o estarem cobrindo, mas mesmo assim eu conseguia ter o deslumbre de alguns de seus traços. Ele tinha cabelos dourados médios, enrolados, e uma pele branca que parecia ser bem macia e suave ao toque. Fiquei o encarando, pensando em assuntos aleatórios.
– Então você é o salvador de gatinhos, huh? Como foi arriscar a vida por um animal que você nem sabe se tem nome?
Poderia parecer pouco ortodoxo, mas eu gostava de conversar com eles. Bom, eu não esperava ter uma resposta, mas para passar o tempo nós fazemos qualquer coisa. Confesso, nunca havia conhecido nenhum sujeito capaz de subir em cima de uma árvore para salvar um reles gato, achava que esse tipo de coisa só acontecia em filmes. Devo admitir, a história dele chamou-me a atenção.
Ficava olhando para o homem desacordado, imaginando qual seria a cor de seus olhos. Um verde cintilante, um azul mais escuro, para contrastar com seus cabelos loiros, ou até mesmo um castanho, capaz de esconder seus mais profundos segredos. Sua voz, mesmo não a ouvindo, tinha cara de ser bem grave graças a fisionomia de seu corpo, alto e malhado. É estranho ficar curioso em saber a história de vida de alguém com quem você nunca trocou palavras?
– Oh, Law! – Enquanto eu distraia-me, Eustass Kid entrou no quarto. – Não sabia que você estava aí.
– Ah, eu só tô passando o tempo. E você?
– Me mandaram tomar conta desse sujeito. Parece que ele caiu de uma árvore, certo?
– Tentando salvar um gatinho. – Afirmei, com um riso debochado, e parece que ele entendeu isso.
– Hahaha, é um jeito estranho de ficar em coma! Vejamos... – Kid olhou em sua prancheta. – Donquixote Rosinante, 28 anos. Parece tudo certo pra mim.
– Bom, pode continuar o seu trabalho, eu não quero atrapalhar.
Levantei pronto para sair do quarto, mas logo fui impedido de continuar quando senti meu braço sendo subitamente puxado para perto dele. Eustass me segurou em uma espécie de abraço bem apertado, subindo um pouco meu queixo com a ajuda de seus dedos.
– Você não me atrapalha.
Suas mãos desviaram até meu cabelo, puxando-os um pouco, até ter meu rosto bem próximo ao seu, em um beijo. Segurei no jaleco que ele usavas, mas logo subi, abraçando seu pescoço para nos aproximarmos ainda mais, até perceber o que estava fazendo e me afastar, empurrando-o e limpando meus lábios, desviando minha visão.
– Não faz isso aqui...
– Qual é o problema? Ele tá dormindo. – Disse, com um riso sarcástico. – E não tem câmeras aqui...
– Alguns pacientes, mesmo em coma, conseguem ver as coisas, sabia? Se controla e trate de esperar até o fim do expediente.
– Não dá. – Ele me ignorou, me empurrando até a parede mais próxima e segurando minhas mãos com força para que eu não pudesse escapar, dando beijos em meu pescoço. – Eu não consigo resistir a você...
– Kid, é sério, para... – Tentava me afastar, mas ele era indescritivelmente mais forte que eu e continuou dando-me beijos no pescoço. – Aqui não...
– Por quê? – Ele começou a tirar os botões do meu jaleco, fazendo peso com seu corpo para que eu não pudesse escapar, me pressionando contra a parede. – Ninguém vai ver, não se preocupa com isso.
– Porque não! – Eu ainda tentava o afastar, mas sem êxito. – Para com isso, eu não quero perder o meu emprego por você não conseguir se controlar.
– Ah, para com isso... – Ele já havia retirado meu jaleco, dando chupões por onde as roupas costumavam esconder. – Não tem ninguém aqui, o paciente não vai ver nada, relaxa.
– Você é muito insistente, que saco...
– Eu já disse, não dá pra resistir a você. Ninguém mandou me provocar.
– É sério, para...
– Se você parar de falar vai ser mais rápido, aí não tem risco de ninguém aparecer aqui.
(...)
[Sons de Despertador]
A minha vida seguia em uma rotina infinita, mas eu não me cansava, muito pelo contrário. Eu adorava. Adorava porquê, sempre que eu acordava com o sol em meu rosto, eu lembrava de que estava vivo e precisava agradecer por isso, pois o direito a vida, muitas vezes, é um privilégio enorme.
Acordei novamente, realizando a mesma ação de desligar o despertador e ver o rosto do meu marido. Agradeço também pelo fato de estar casado com ele, justamente por ter sido Kid quem me tirou de uma enorme depressão. Ele foi o único que continuou comigo, o único que até hoje não me abandonou.
Já haviam se passado cinco dias desde que o meu paciente, o qual eu julgava ser o mais sem noção, alojou-se no hospital. Seu irmão nunca mais foi o visitar, provavelmente graças ao trabalho, mas isso não faria diferença nenhuma, uma vez que o homem não havia despertado do coma.
E todo dia, sempre que eu tinha tempo disponível, eu ia lá visitá-lo. Não sei porquê, sua história me deixou tão curioso que eu simplesmente sentia vontade de vê-lo. Não há uma razão específica, apenas curiosidade. De qualquer maneira, eu me sentava ao seu lado e ficava observando sua feição.
– Boa tarde, Salvador de Gatinhos.
Alguns aparelhos já haviam sido retirados, então eu conseguia ver mais de seus traços. Ele era totalmente oposto ao meu marido, que era um ruivo de olhos castanhos avermelhados e traços fortes. Rosinante possuía madeixas loiras suaves, lábios rosados e uma calmaria infinita. O tipo de homem que nunca ficava com raiva, uma pessoa simples, um sujeito de bom coração.
Eu era bom nisso. Conseguia adivinhar as virtudes de uma pessoa só em olhá-la, enxergar sua personalidade até mesmo sem o deslumbre de seu olhar. Ele passava-me uma sensação de conforto, com certeza até maior a de meu marido, e eu facilmente ficava com vontade de conhecê-lo.
– Oi, Law! – Kid surgiu. – Passando o tempo de novo?
– Sim, sem nada pra fazer.
– Você fica observando esse Rosinante todos os dias. Assim eu vou ficar com ciúmes, viu?
– Ciúmes, de alguém que só dorme? Que exagero...
– E você sabe como me fazer parar de ter ciúmes?
Novamente, ele dirigiu-se até mim e me segurou pelo braço, arrastando-me até a parede mais próxima e prensando meu corpo contra ela. Segurou minhas duas mãos, colocando uma perna entre meus joelhos e me beijou, sem mais nem menos, até que eu consegui me afastar.
– É sério, para com essa mania...
– Alguém, algum dia, nos pegou no flagra?
– Não, mas sempre tem uma primeira vez!
– Deixa disso, eu sei que você quer tanto quanto eu...
– Para com isso, eu tô falando sério!
– Se você ficar gritando, aí sim é que vão nos ouvir.
– Kid, e–
Antes que eu pudesse falar alguma coisa, ele voltou a me beijar e me calou completamente. Não que eu gostasse do jeito autoritário dele, de sempre fazer o que quer na hora que quer, mas eu já estava acostumado. Mesmo assim, eu não odiava, só tentava ignorar porquê, afinal, todos nós temos algum defeito.
Seus lábios tocavam o meu, arrancando-me completamente o ar, e suas mãos faziam o trabalho de me despir, sem nem se importar com o paciente dormindo à nossa frente. Seus beijos desciam até meu pescoço e sua coxa invadia o espaço entre minhas pernas, me imobilizando completamente, até que...
– Ahn... o quê...
Eustass me empurrou e me soltou, dando um jeito em seu próprio cabelo e roupas amarrotadas, e eu puis-me a fazer o mesmo, sem nem tomar ciência do ocorrido. Meu pior pesadelo havia acontecido, o paciente acordou no momento em que eu mais temia, então, como resposta, meu coração começou a bater em disparada.
Por sorte, graças ao fato dele estar tonto e por nós não termos começado nada, pudemos nos vestir na velocidade da luz e nos afastamos antes que Rosinante notasse alguma coisa. Naquele momento, meu coração batia tão forte graças à adrenalina, que eu nem pude notar que seus olhos haviam se aberto e sua voz havia saído.
– V-Você acordou! – Kid disfarçou, indo até o paciente. – Como você se sente? Dormiu por cinco dias inteiros!
– Ahn...
E eu fiquei totalmente parado, olhando para o paciente estirado na cama, coçando seus próprios cabelos e apoiando sua coluna na cabeceira. Por sorte, ele não havia percebido nada, mas não era por isso que eu havia ficado paralisado. Foi porquê, naquela hora, eu pude finalmente ouvir sua voz pela primeira vez.
O homem que eu ficara espiando todos os dias enquanto dormia, imaginando qual seria sua história de vida e os segredos por trás de seu rosto adormecido, havia despertado. Só soltou um ínfimo barulho, mas eu consegui perceber a tênue voz que Rosinante possuía. Uma voz levemente grossa, porém suave. O tipo de voz que você poderia ouvir todos os dias, sem nunca se cansar. Uma voz angelical.
Assim que abriu os olhos, ainda meio tonto, a primeira pessoa que olhou foi meu marido, porém seu olhar logo foi desviado até mim, e um silêncio se criou no quarto. Eu estava parado, o olhando, e ele retribuiu, olhando-me, sem dizer qualquer palavra. Do meu ponto de vista, nós dois estávamos nos encarando por horas.
E foi aí que eu percebi. Meu coração palpitava lentamente, porém eu conseguia ouvi-lo com perfeição. Senti minha pressão baixando, mas não conseguia parar de olhá-lo por um só segundo. Pela primeira vez, seus olhos se abriram e eu fiquei completamente hipnotizado. Tão hipnotizado que minhas ações se tornaram inconscientes e, tudo o que eu poderia fazer, era afirmar.
– Você tem... olhos azuis.
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