Assim que ele foi embora, meus dias no orfanato voltaram a ser o que eram antes, porém com uma única diferença. Antes de conhecê-lo, eu não sabia o que era felicidade. Eu não sabia o que era sorrir. Os únicos sentimentos que eu conhecera em minha curta vida eram: abandono e amargura, mas, de alguma forma, isso me tornava forte.

Tornava-me forte porquê, já que eu nunca tivera esperanças de sair daquele inferno, eu nunca precisei me importar com o que falavam ou com o que faziam. Simplesmente você não pode magoar alguém sem antes mostrar a essa pessoa o que era uma mágoa.

Contudo, quando eu o conheci, minha vida transformou-se. Todos os dias eu ria, todos os dias eu era feliz. Não me importava se estava na rua ou no orfanato, desde que eu estivesse junto a ele, nada mais faria diferença. Então, quando ele foi adotado e sumiu da minha vida de uma forma tão súbita e tão de repente, meu mundo desabou.

Mesmo assim eu ainda abraçava a promessa que ele me fez. Aquelas palavras poderiam não significar muita coisa para qualquer pessoa com vida feita, mas para mim, que tinha apenas sete anos e só ele como amigo, aquelas palavras significavam muito. Foi a primeira vez que eu gostei de alguém, foi a primeira vez que eu confiei em alguém.

Então, quando eu cresci e percebi que aquelas palavras não passavam de uma promessa boba feita por duas crianças, meu mundo transformou-se no que é hoje. Quando eu pensei na probabilidade daquele garoto loiro de olhos azuis estar junto a outros milhares de amigos, eu me dei conta do quão invisível eu era.

Afinal, quem iria perder tempo com uma promessa infantil? Quem iria se lembrar de um garoto órfão que não via há mais de vinte anos?!

Eu me lembrava, pois humanos são assim. Afogamo-nos em amargura e temos mais facilidade em lembrar dos momentos ruins, do que dos bons. Esse é o ponto fraco de se confiar em alguém com tanta facilidade.

(...)

– Você tem... olhos azuis.

Estávamos eu, meu marido e nosso paciente, todos juntos em um quarto. Rosinante havia acabado de despertar de um coma que durou cinco dias, mas já parecia estar passando bem e estava fora de perigo. Contudo, após minhas palavras, um silêncio reinou no ambiente. Quem diabos faz uma afirmação tão óbvia assim de primeira? É claro que ele tem olhos azuis, idiota!

– A-Ahn, q-quer dizer... – Me dei conta do que havia dito e tentei quebrar o clima constrangedor, mas sem muito sucesso.

– Então... onde eu estou? – Ele perguntou, ainda meio tonto.

– No hospital, você acabou tropeçando e caindo de uma árvore, lembra-se? – Eustass disse, já que eu ainda estava meio fora de mim. A presença desse paciente é muito forte.

– Caí de uma árvore, hm... – Ele começou a pensar. – Qual delas?

"Isso acontece com muita frequência?" – Perguntei para mim mesmo.

– Ah, pelo que eu soube você caiu tentando salvar um gatinho. – Kid afirmou mais uma vez.

– E o gatinho ficou bem?

– Não sei... mas e você, não sente nenhuma dor? Tontura?

– Não, eu tô ótimo!

– Então eu vou ligar para o seu irmão, tudo bem? Vou fazer mais alguns exames e vejo se posso te liberar.

– Meu irmão? Ele ainda tá na Inglaterra?

– Por que não estaria?

– Se você disse que eu dormi por cinco dias, ele já deve estar na França. Ele ia pra lá no dia seguinte...

– E ele deixaria o próprio irmão que quase morreu aqui?!

– D-Deixaria...

– Nossa, então, eu... vou ver os seus exames e já volto, tá?

– Tá bom.

Eustass se retirou, deixando-me e sozinho com o paciente. É bem estranho você ver uma pessoa que conheceu durante o coma, falando e se movendo normalmente. Especialmente esse paciente, o tal do Rosinante, que parecia ter uma aura tão gentil e amigável, além de cabelos ondulados loiros e um curto sorriso estampado no rosto, mesmo tendo acabado de acordar em um hospital.

– Eu sou o médico que fez a sua cirurgia. – Afirmei. – Precisa de alguma coisa, está com fome?

– Ah, obrigado por me salvar! E não, eu tô bem, obrigado.

– Então eu vou te deixar aqui no quarto para descansar. – Estava me retirando, quando fui impedido.

– V-Você vai me deixar sozinho?

– Ahn...

– F-Foi mal, eu sei que você deve ser ocupado e tudo mais, é que eu não gosto de ficar sozinho...

– Eu posso ficar um pouco mais, mas é bom você descansar, acabou de passar por uma cirurgia de risco.

– Mas eu não já dormi por cinco dias?!

– Bom, tecnicamente... – Eu poderia dar uma resposta complexa e explicar a diferença entre "ficar em coma" e "dormir", mas não queria ser estraga prazeres. – Tudo bem, eu te faço companhia por um tempo.

– Brigado! Senta aqui.

Ele apontou para um canto na cama e eu me sentei ao seu lado, estranhando um pouco aquela atitude. Não era comum um médico e um paciente conversarem, até era pouco ortodoxo, mas não faria mal nenhum. Além disso, ele despertou-me curiosidade desde o momento em que veio parar no hospital por ter arriscado a vida salvando um gatinho.

– Antes você perguntou de que árvore caiu... desculpe a pergunta, mas isso é comum?

– Ah, eu sou meio desastrado, mas não se preocupa! Eu sou resistente.

– Tem certeza? Não seria bom se você acabasse tendo que voltar ao hospital.

– Meu irmão também cuida de mim, então não tem problema!

– S-Seu irmão, aquele que te abandonou pra viajar pra França?

– É... o Doffy não deixa uma boa impressão no começo, mas ele é uma boa pessoa.

– Entendo...

Tudo o que eu sabia sobre esse tal de Doflamingo era que ambos são irmãos, e nada mais. Antes eu achava estranho o fato dele não ter vindo visitar o irmão, mas agora que eu soube do lance dele viajar pra França e abandonar completamente o coitado, imagino que esse cara deva ser uma pessoa terrível.

– Então doutor, me fala mais de você! Você tem irmão?

– Não, eu sou filho único.

– Ah, eu só tenho o Doffy mesmo. Nós moramos lá na França, na verdade eu só vim pra cá visitar.

– Oh, você é turista? Estranho, na sua ficha diz que você é inglês.

– Eu nasci aqui, mas os meus pais me levaram pra lá quando criança então eu tenho poucas memórias da Inglaterra.

– E você volta pra lá quando?

Antes que ele pudesse responder, uma enfermeira entrou. Ela era uma jovem ruiva, cabelos presos e uniforme discreto.

– Doutor, seu paciente acabou de chegar.

– Nossa, eu tinha me esquecido totalmente! Valeu, Nami.

– Você anda meio distraído esses dias, hein, isso não é bom! – Nami se retirou, deixando-me sozinho com o paciente mais uma vez.

– Eu preciso ir agora, tenho uma cirurgia.

– Desculpa, eu acabei te distraindo!

– Não tem problema, não se preocupe. Mas descansa um pouco, tá? Nada de ficar caindo de árvores por aí!

– Tá bom!

(...)

Como um sujeito tão simples pode, ao mesmo tempo, causar uma presença tão grande? Enquanto eu realizava a cirurgia do paciente, lembrava-me do sujeito que havia acabado de conhecer. Além de não ser comum a relação entre médico e paciente, o fato dele pedir para conversar comigo abalou-me um pouco. Nunca haviam pedido para que eu me aproximasse de forma tão espontânea como Rosinante fez.

Eu preciso parar com essa mania de me impressionar com pequenos gestos...

Bom, mas o importante é que a vida segue. Consegui concluir a cirurgia com êxito, junto a minha equipe, e fomos descansar. Já estava no final da tarde, meu expediente se encerrava, mas antes de sair do hospital resolvi novamente ir até o quarto de Rosinante, para ver se ele passava bem. Entretanto no caminho, encontrei meu marido, Eustass Kid, que estava passeando no corredor.

– Ah, oi, Law! – Ele me chamou. – Já quer ir embora?

– Eu vou sim, mas antes decidi dar uma passada no quarto do Rosinante.

– Por quê? – Ele me perguntou, arqueando a sobrancelha. – Você não é do tipo que se apega tão facilmente.

– Não é nada disso, eu só quero ter certeza de que ele não andou pulando de árvores por aí.

– Sinto muito, mas o seu "salvador de gatinhos" recebeu alta e já foi embora.

– Ahn... sério? Ele nem veio se despedir?

– Por que deveria? Vocês ficaram amiguinhos agora?

– Bom, não exatamente...

– Então vamos pra casa! Daqui a pouco escurece e o trânsito piora.

Mesmo nós não sendo exatamente amigos, confesso que eu senti falta de uma despedida, mas talvez ele tenha tentado se comunicar comigo e não conseguido graças a minha cirurgia. Enfim, não vou deixar minha vida seguir diferente por uma pessoa que não sei nada além do nome, não sou do tipo que se apaixona pela primeira vista. Fui para casa, jogando-me no sofá com uma lata de refrigerante e um sanduíche frio, assistindo televisão.

Aqui em casa normalmente víamos algum programa juntos ou líamos um livro qualquer. Nossa rotina era bem tranquila, não costumávamos sair à noite, somente nos fins de semana e mesmo assim só quando tínhamos certeza de que não precisaríamos ir ao hospital no sábado ou no domingo, principalmente ele, que era enfermeiro. Já aconteceu várias vezes de nos ligarem em cima da hora, e é um saco. Humanos poderiam parar de ficar doentes e quebrar ossos com tanta facilidade.

– Hey, Law. – Eustass entrou no quarto. Eu estava deitado, lendo um livro, mas logo interrompi minha leitura.

– Sim?

– Já faz tempo que não fazemos alguma coisa juntos. Lembra de quando nós começamos a namorar e eu tocava violão pra você?

– Claro, você queria inventar de invadir o hospital pra tocar isso.

– E eu teria invadido se não fosse pela Nami. Enfim, eu nunca mais fiz isso.

– Porque nós nos casamos e pessoas casadas não fazem coisas românticas.

– Isso não é verdade! Nós podemos ser românticos também.

– Mas os vizinhos vão reclamar do barulho...

– Eles que se fodam. Vai, eu vou pegar o violão.

Deixando minhas reclamações de lado, o Eustass realmente foi buscar seu violão e veio para a cama, botando-me deitado em seu peito enquanto tocava para mim. Ele podia ser muito bom tocando, mas sempre que dava uma de cantor eu acabava rindo graças a sua voz, tão grossa que facilmente imitava um desses narradores de futebol.

Nós acabávamos nos divertindo rindo mais de nossas vozes horríveis do que do momento romântico em si. Pelo menos nós temos bom senso e viramos médicos ao invés de cantores, certo? O importante é, eu realmente não tenho do que reclamar. Considerando meu passado, minha vida atual é extraordinariamente ótima.

(...)

Passaram-se os dias. Quatro, para ser mais exato. A rotina continuava a mesma, contudo hoje era domingo, então eu não trabalhava. Acordei de manhã, normalmente, coçando os olhos e tendo certeza de que Eustass estava ao meu lado. Por não querer acordá-lo de manhã, fui tomar um banho sozinho para despertar.

Eu era do tipo que acordava cedo, mesmo sem despertador, enquanto ele era o oposto. Somente acordava com o barulho do alarme e, mesmo assim, perdia a hora às vezes. Por isso, decidi preparar o café da manhã enquanto ele dormia, mas notei que não havia pão e nem queijo, então desci para ir à padaria.

Mesmo não sendo muito fã de pão, comprava mesmo assim, para agradá-lo. Fui lá na padaria e fiz minhas compras, retornando para casa com as sacolas na mão. Tudo estava indo bem, calmo, tranquilo e pacifico, até que eu deparo-me com uma visão inovadora. Não poderia crer no que estaca vendo, então cocei os olhos e até bati em minha própria cabeça para garantir que não era um sonho. Se uma palavra definisse o que eu estava vendo, esta seria: bizarro.

– Que porra... é essa?

Domingo de manhã. O sol se abria, trazendo consigo o majestoso céu que iluminava as almas mais puras da Inglaterra. Ao mesmo tempo, eu, Trafalgar Law, estava prestes a inovar minha carreira como médico adicionando "fazer um curso de psiquiatria" à minha agenda mental, pois a genialidade do ser humano é algo surpreendente. Sim, senhoras e senhores, o idiota voltou a atacar.

Eu estava de frente para uma árvore, bem bonita até, cheia de folhas verdes bem resolvidas, com um pequeno gato miando assustado na ponta do galho mais alto. Nem preciso dizer que um sujeito estava tentando salvá-lo, certo? E também nem preciso dizer quem era o sujeito, pois é algo tão óbvio que, se o Deus do destino existe mesmo, saibam que ele não tem criatividade alguma.

– ROSINANTE! – Exclamei, com raiva. – Domingo de manhã, você quer que eu te faça outra cirurgia?!

– Oh, doutor, é você mesmo?!

O sujeito alto, de cabelos loiros e olhos azuis, mais velho que eu, estava em cima de uma árvore, no galho mais alto, tentando resgatar um gatinho. Inevitavelmente, o galho quebrou com o peso do homem, então ele se espatifou no chão. O animal, por outro lado, apenas caiu em pé e saiu andando, como se nada tivesse acontecido.

Aproximei-me dele, correndo e jogando a sacola de compras para o lado, preocupado com seu bem estar. Ele estava estirado no chão, mas não parecia inconsciente, então pelo menos não corria graves riscos de vida. Mesmo assim, quando fiquei próximo a ele, estendi minha mão e só pude recitar a pergunta mais óbvia, mas ainda a que sempre fazíamos.

– Você está bem?

E ele, em resposta, apenas virou-se para mim, olhando em meus olhos e vendo minha mão estendida. Ficou me encarando por um tempo, tentando raciocinar o que havia acontecido, então finalmente tomou o próximo passo e segurou em minha mão. Acabei fraquejando, sem nem perceber, pois o simples toque daquela mão era tão macia, que nem parecia ser masculina. Seus traços eram finos, totalmente suaves e calorosos. Ele levantou-se com minha ajuda e se ajeitou, finalmente.

– Obrigado!

Notas finais
Desculpem a demora pra postar, estou viajando! >