Ano Hi Mita Sora

9 Corrente Psicológica


19 anos atrás...

Ceerto, crianças! Agora todas vocês vão tirar uma foto com quem mais gosta para o Dia do Amigo! Não importa se são do mesmo dormitório, tá bom?”

A voz singela, doce e baixa surgia dos lábios de uma inspetora. Todos nós fomos reunidos no pátio, naquele momento não existia mais idades ou qualquer outro tipo de impedimento ou segregação. Sumariamente, éramos divididos por dormitórios. Todos, sem exceção. Cada um tinha uma letra que servia como uma espécie de identificação.

Eu ficava feliz facilmente; bastava deixar-me junto com meu amigo, no mesmo pátio, no mesmo local. Não importava, se era o céu ou o inferno, desde que eu estivesse com ele. Cora-san. Era o apelido que o havia dado, um simbolo de nossa amizade, a forma que ele mais gostava. E a que mais combinava consigo.

– Vem, Law! Vamos tirar uma foto juntos!

Não via necessidade naquele ato. “Para que tirar fotos, se podemos nos ver todos os dias?” Era o que eu pensava. Mesmo assim, fui, fiquei ao seu lado e a inspetora apertou o botão. Estávamos próximos à uma árvore, deveria ter crianças à nossa volta, não me importava. Na hora, sentamos juntos, ele me olhou com a franja que cobria seus olhos, eu o olhei segurando um livro que costumava sempre ler.

Alguns dias depois, a foto foi relevada e posta em um quadro. Ganhamos duas, um para cada, assim, poderíamos colocar cada um em um dormitório. Aquela foto era o único objeto que nos juntava quando estávamos separados.

– Nossa, ficou boa! – Exclamei. – Agora dá pra te ver mesmo não te vendo.

– Hahaha, é, vai ser como se pudéssemos dormir juntos.

Essas noites vazias...

Aquele pequeno retrato, olhava para ele todos os dias. Estava bem ao lado de minha cama, mesmo quando precisávamos retornar ao dormitório, pelo menos não nos despedíamos de fato. Sinto que ele pensava o mesmo que eu. Mas algo que eu jamais pensei que poderia acontecer era que, aquela singela lembrança, um simples papel com as nossas imagens, poderia ser a única forma de ainda vê-lo.

Depois de algumas semanas, estávamos nós dois. Uma tarde de verão, um céu rubro com a cor do sol que se partia, escondia-se por entre as nuvens e desaparecia. Não conseguia ver nada àquele dia, meus olhos estavam embaçados de tantas lágrimas. Sem dúvidas, o pior dia da minha vida.

Mesmo vendo-me naquela situação, Cora-san mostrou-me seu sorriso. Aquele sorriso forçado, de uma criança triste e ao mesmo tempo feliz. Fizemos nossa promessa ao por do sol, ele disse-me que veríamos-nos novamente, eu acreditei. Não houve um sequer segundo que duvidei. Eu o amava, isso eu já sabia, sempre soube.

E, por isso...

Continuo esperando por um aviso largado em cima da mesa...

… O choque foi maior ainda.

Três de Setembro, o Outono ainda estava iniciando. Já estávamos separados e, mesmo assim, eu continuava feliz. Continuava feliz porque aquele retrato ainda se encontrava ao lado de minha cama, poderia olhar para ele o dia todo sem nem ao menos enjoar. Cora-san havia levado o seu junto consigo, será que ele está olhando nesse momento?

– Hahaha, ele fica toda hora sozinho lendo aquelas merdas!

– Com certeza tá com saudades do namoradinho. Vamo lá!

Junto, naquele mesmo inferno, existiam pessoas de todas as idades, até mesmo adolescentes. Eu ficava quieto, sempre lendo algum livro debaixo da mesma árvore, todos os dias, mas isso os incomodava por algum motivo. Talvez por eles não saberem ler, não sei, simplesmente não me importava ou sequer entendia o que falavam.

O problema real é quando a voz transformou-se em ato.

– Ei.

– O quê?

Era um grupo de aproximadamente quatro ou cinco, deveriam ter por volta dos treze aos quinze anos. Tudo o que eu sabia é que perseguiam quem estava quieto ou tinha algum tipo de fraqueza. Isso vos alimentava, de algum jeito. Eles chegaram à minha frente e mandaram-me levantar.

– Levanta daí, vai! A gente quer conversar contigo.

– Sobre o quê?

Essas manhãs que nunca chegam...

– Só levanta, ou vai ser à força!

Um deles puxou-me o braço, precisei levantar, porém, acabei derrubando meu livro. Tentei pegar, sem êxito. Outro do mesmo grupo o havia pego primeiro e fez o que mais deixava-me aflito até então. Abriu a capa com força, rasgando as páginas uma a uma, ou várias de uma só vez. Eu gritei. Por que alguém faria isso? Se não é, deveria ser crime rasgar algo tão cheio de informações como um livro! Eles, por outro lado, apenas riram mais.

E arrastaram-me para um lugar que eu não sabia o que era. Machucavam meu braço de tanto apertá-lo, deixavam vermelho. Não entendia o que estava acontecendo ali, somente gritava por ajuda, tinham algumas pessoas ao nosso redor que não me ouviram, ou fingiram não ouvir. De algum jeito, empurraram-me nas paredes detrás de alguma pequena casinha, um amontoado de madeira. Não sei onde estava, mas estava sozinho, sentando, em frente a todos que me cercavam.

– O que vocês vão fazer?! – Perguntava, aflito.

– Nada, relaxa! A gente soube que o seu amiguinho foi embora, só isso.

– É, a gente só quer te ajudar a esquecê-lo.

– M-Mas eu não quero esquecer ninguém... – Tentava repetir, sem êxito.

– Não fala isso, vai, agora que ele te deixou aqui a gente vai ficar contigo!

Fui levantado à força e empurrado contra parede mais uma vez, com a diferença de estar sendo quase esmagado contra a mesma. Todos estavam perto de mim, eu gritava para fugir, mas me calaram com a mão. Ficavam repetindo que iriam me fazer esquecer Cora-san, eu batia minhas pernas para tentar escapar, não queria ouvi-los. Não sabia porque alguém faria algo do gênero.

– Acorda, você ainda acha que ele vai gostar de você?

– É mano, não adianta, quando eles saem daqui nunca mais vão querer olhar pra nossa cara de novo! Hahaha, ou você achou que iria continuar com esse romancezinho? Ele nem deve mais lembrar teu nome, acorda!

– No máximo deve ter pena de você por continuar aqui. Aliás, os dois eram dignos de pena, todo mundo aqui sabia que esse garoto esquisito não prestava!

Eram algumas frases que eu passei a ouvir todos os dias, enquanto era constantemente ameaçado. Não foi uma vez, foram inúmeras. No refeitório, na área de fora, não importava. Invadiram o quarto onde eu dormia, rasgaram os livros que eu escondia debaixo da cama sem que eu ao menos visse, só os encontrava ali, destruídos. Atiravam-me objetos, alguns cortantes e afiados, outros somente pesados.

Não entendia o porquê, só sei que não foi apenas dia três de Setembro. Aquele dia durou outros, chegava Outubro, passava Novembro, nunca parava. Pelo contrário, somente ficava pior. Obrigaram-me a dizer que Cora-san não era nada, era só um inútil que merecia morrer simplesmente por existir. Eu não conseguia dizer, por mais que eu soubesse ser mentira, eu não conseguia dizer e, por minha teimosia, meu corpo já encontrava-se repleto de feridas e machucados.

Mas eu ainda tinha o retrato. A pequena foto de Cora-san junto a mim, a qual escondi com todas as forças, em lugares estratégicos que ia mudando conforme o perigo de acharem aumentava. No fim, não funcionou. Era quatro de Abril, no intervalo, pegaram-me pelo braço e me arrastaram até o meu dormitório.

Já tinham mais pessoas. Seis me seguravam, eu não conseguia parar de gritar e espernear, bater as pernas e os braços com intenções de fugir dali, apenas via. Um garoto, não sei quem é, não sei o nome, não lembro o rosto, não quero lembrar, não faço questão de lembrar. Uma pessoa que eu não conhecia e não sabia o que estava fazendo ali, queimou a única lembrança que eu tinha dele. Destruiu-a por completo, como se fosse lixo.

– Olha só, ele fica todo nervosinho por esse cara! Hahahaha.

– Será que ele não percebe o quão imbecil ele é?

Na época, eu tinha acabado de completar oito anos. Quando você começa a perseguir uma criança aos sete, obrigá-la a acreditar naquilo que você acredita, ela vai acabar acreditando e seguirá suas palavras como se fossem lei. Para sobreviver naquele inferno, ou você batia, ou você apanhava e, na situação que eu estava, só tinha uma opção.

Comecei a fazer o que eles diziam-me para fazer, gritava que o único amigo que eu tive e a única pessoa que eu amei era alguém inútil que merecia a morte. Dizia, mas sequer acreditava em minhas palavras. Ou fingia não acreditar. Já não sabia mais o que era a verdade, o que era uma mentira gentil.

Eu já sabia de tudo isso.

Foi criando em mim um ódio tão grande que não sabia em quem descontar. Se eram nas pessoas que me agrediam, nas que me ignoravam ou na culpada por isso, porque sem ele, nada disso teria acontecido. Se antes eu já era infeliz, por que não poderia continuar sendo? Quando conhecemos a felicidade e esta nos lhe é tirada, a dor é insuportavelmente maior.

Até que houve um dia em que as confirmações vieram à tona. Em uma noite, seis de Março, eu ainda acreditava que Cora-san viria para me tirar de lá e disse isso a eles, seja lá o que significasse. Eles ficaram com raiva de mim, o ódio sem sentido já havia corroído por completo todos ao meu redor, inclusive a mim. Levaram-me para a mesma casinha, o amontado de madeira da primeira vez, porém, conseguiram a chave.

Era pequeno, tinha pilhas de feno espalhadas, como uma espécie de pequeno celeiro. Não sei se eram oito ou dez, não fez diferença nenhuma. Todos com muita raiva, as marcas de agressão física em meu rosto já não eram poucas, mas nada comparado àquela noite. Um deles, uma espécie de chefe do bando, era o pior. Empurrou minhas costas até a parede, prensou-me completamente e pegou uma faca afiada.

Todos ali riam, eu apenas gritava. Gritava, gritava e gritava. Aquele objeto afiado cortou minha camisa e minha pele, comecei a sangrar, fiquei com medo. Tinha nove anos. Ele abaixou minha calça e os outros seguraram meu braço, não sabia o que estava acontecendo, somente tinha uma sensação nova corroendo minha garganta. Uma sensação de asco.

Senti o sangue correndo por minhas pernas, meus gritos que eram abafados por suas risadas cínicas. Todos se divertiam assistir meu corpo tomado, não só um, mas inúmeras vezes, por inúmeros deles. Durante, falavam-me as mesmas frases, as que só de lembrar sinto o mesmo nojo de anos atrás.

Depois daquela noite, suas vozes finalmente penetraram minha mente. “Por que ele, e não eu?” “O que ele tem de tão especial assim?” “Ele é um inútil, só sabe cair e apanhar. Eu leio livros universitários desde os oito anos.” “O que nos torna tão diferente?” “A cor do nossos olhos, a nossa idade?” “Por que eu continuo o protegendo enquanto ele está lá, sabe-se lá com quem, sabe-se lá aonde?” “Ele pelo menos ainda lembra do meu nome?”

Que ridículo... tudo era ridículo... eu o usei como proteção, para fingir a mim mesmo que ainda tinha salvação. Eu usei a promessa que ele me fez como uma espécie de abrigo para um dia conseguir fugir daquele lugar, mas no fundo, eu já conhecia a verdade. As mentiras gentis servem para nos livrar de uma verdade cruel, elas nos deixam feliz momentaneamente, mas depois revelam ser o que são. Apenas mentiras gentis.

Atualmente...

Todas as péssimas lembranças acertaram minha mente de uma vez só, como um verdadeiro canhão de guerra. Meus dedos tremiam, meu braço mais ainda, para não dizer o corpo todo. Tive um ataque de ansiedade, o que foi tudo isso que aconteceu? A pessoa responsável por onze anos de perseguição foi a mesma que destruiu meu relacionamento? Que ridículo!

Rosinante... como pude me esquecer? Talvez meu cérebro tenha criado uma barreira permanente. Não sei o que deu em mim aquela hora, era como se meu corpo tivesse sido invadido por diversos espíritos desprezíveis, sentia um gosto ácido corroer minha garganta. Não deveria ter feito o que fiz, mas não consegui evitar. Ele não deveria ter feito o que fez.

Não conseguia parar de correr. Estava no meio da rua, não conseguia enxergar para onde estava indo, apenas corria para fugir, e fugia de um destino sórdido que vêm me perseguindo desde sempre. Só queria esquecer tudo o que vi, tentar consertar todos os erros que cometi. Era somente no que eu pensava.

– Eustass...

– Law!

Meu coração batia forte. O gosto em minha garganta agora era da vodka que comprei no primeiro bar de esquina que vi, bebi tudo direto da garrafa, com intenções de simplesmente desaparecer desse mundo ou até mesmo definhar até a morte. Estava enojado de mim mesmo, queria tirar o gosto dele de meus lábios. Consegui voltar para minha casa.

– Me desculpa, me desculpa, me desculpa! – Bati na porta, pensei que ele nem ao menos iria me atender. Eu mesmo não me atenderia. Mesmo assim, pulei em seus braços e o abracei com todas as forças que me restavam, deixando minhas lágrimas caírem em seus braços. – Eu errei, me desculpa, eu não deveria ter feito isso com você!

– Não se preocupa, esquece tudo isso. – Eustass retribuiu meu abraço e me aceitou de volta. Ele me pegou forte, quase tirando-me o ar de tanta aflição que estava. Eu sou horrível, deixei-o tão preocupado. – Que bom que você voltou, eu achei que nunca mais iria te ver, eu fiquei tão preocupado!

– Eu não sei nem o que dizer... eu sou um completo idiota!

Retornei para minha casa, local de onde eu nunca deveria ter saído. Fiquei com medo de Eustass não me deixar entrar, ficar com raiva dos meus feitos, da traição inescrupulosa que eu cometi contra ele. Mesmo assim, ele me levou até o sofá e colocou a mão em minha testa, sentindo minha temperatura. Eu estava apavorado, meu coração batia forte por tudo o que eu fiz, por tudo o que eu vi essa noite.

Quando eu soube que era ele, quando eu soube que a mesma pessoa que se declarou apaixonada por mim era ele, quando eu soube que a mesma pessoa que tentou arruinar a minha vida pela segunda vez tratava-se do mesmo Cora-san que sentia asco somente em pensar, era o mesmo Rosinante com que eu estava, meu coração paralisou.

Você é... o Cora-san?

Huh? Como você conhece esse nome?

Somente o ficava olhando. Meus olhos estremeciam e minha boca balbuciava, aquele mesmo ódio ressurgiu em mim. Foram exatos dezenove anos de rancor pela pessoa que eu fui obrigado a odiar, e que agora realmente odiava. Alguém que abandonou-me sem mais precedentes e sequer ousou me procurar. Não que o quisesse, longe disso, queria apenas distância.

Você sabia... PARA DE BRINCAR COMIGO! – Gritei, estava fora de mim. – ESSE TEMPO TODO... esse tempo todo... – E levantei-me da cama, desviando meus olhos dele. – Esse tempo todo... você já sabia de tudo isso, não é?

E-Espera aí, do que v–

CALA BOCA! – A raiva era tanta que mal o deixei falar. Sentia nojo, asco, raiva, tudo. Peguei a primeira coisa que encontrei, nem ao menos sei o que era e atirei contra ele. – FICA LONGE DE MIM!

E-E-Ei, p-pera aí! – Ele tentou se defender e ameaçou vir até mim. – Fica calmo e me diz o que tá acontecendo! O que deu em você?

O QUE DEU EM MIM? – Estava cego de tanto ódio. Continuava a atirar coisas, não importando-me com peso ou nada. – VOCÊ! A culpa de tudo isso é sua, eu só queria que você ME DEIXASSE EM PAZ DE UMA VEZ!

M-Mas e-eu não faço a menor idei–

SÓ CALA A PORRA DA BOCA DE UMA VEZ! – Dessa vez peguei o controle remoto e atirei contra ele, consegui atingi-lo em uma parte de sua testa que começou a sangrar de imediato. Mesmo assim, aquele maldito sujeito não desistia de tentar me perseguir, ele segurou meus braços e me impediu de fazer qualquer movimento.

E-Ei, Law, fica calm–

ME LARGA! – Odiava quando seguravam meu braço assim e não me soltavam.

NÃO! Eu não vou te largar enquanto você não me disser o que tá acontecendo!

CALA BOCA! Eu já disse pra você ME SOLTAR! – Tentava empurrá-lo e até mesmo arranhá-lo, aquela sensação só me deixava abafado. Minha raiva aumentava cada vez mais.

SÓ ME DIZ! – Ele tentava me olhar nos olhos, quase cuspia em minha cara. Eu os fechava, desviava meu rosto, fazia de tudo para não encará-lo, apenas gritava. – Por que você ficou assim quando viu aquele retrato, hein? Por que você me chamou daquele jeito?

Cala boca, cala boca, cala boca! Por que é que você não consegue perceber?!

Perceber o quê?

QUE EU TE ODEIO!

Mas por quê, meu Deus... – Rosinante começa a chorar e me abraça à força, não me deixando sair lá por nada no mundo. Eu era tão fraco, tentava sair dali, sem o menor êxito. – Por que você começou a me odiar tão de repente? Você... você é mesmo... quem eu acho que você é?

Já chega... chega disso, SÓ ME LARGA! – Empurrei ele pra longe e me virei. Em cima da mesa atrás de mim tinha um abajur. Temendo que ele tente fazer alguma coisa contra mim de novo, peguei o objeto e arranquei da tomada à força, batendo na cara dele.

Não cheguei a ficar a tempo para ver o que aconteceu e, se fiquei, não me lembro mais. A última imagem que vi foi do apartamento ficar em um breu escuro devido a falta de luz, o cheiro de queimado pelo fio da tomada ter entrado em curto e Rosinante estirado no chão, com uma poça de sangue ao redor de sua cabeça. Meu coração disparava rapidamente, saí correndo de lá, sem me importar com as milhares de pessoas que olhavam-me como um louco, até chegar à minha casa.

– Ele fez alguma coisa contra você? – Eustass me perguntava. Ele sim se preocupava comigo de verdade, eu não deveria ter duvidado dele por nenhum segundo, eu sou o pior marido que alguém poderia ter e ele é tão bom pra mim.

– Ele... eu descobri uma coisa...

– O quê? – Ele fazia carinho em meu cabelo para que eu me acalmasse.

– O Rosinante, ele... ele é...

– S-S-Sério?! – Foi só dizer que Eustass levou um susto. Eu já havia lhe contado a história toda, ele mesmo disse que faria questão de caçar cada pessoa do meu orfanato e acabaria com todos, mas eu neguei dizendo que havia ficado no passado. – Caramba...

– Eu sou tão idiota... – O abracei no sofá, apertando a camisa que ele usava. Ele retribuiu e me abraçou, do jeito que estávamos parecia que nunca mais iríamos nos soltar. – Eu não tinha percebido... e eu deixei isso se prolongar... você tava certo desde o começo...

– Eu nem sei o que dizer... eu fiquei com medo de nunca mais te ver, mas agora eu tô é com mais ódio ainda desse sujeito.

– E eu ainda disse pra ele que tinha que voltar pra casa, ele me segurou e disse que não iria deixar... foi horrível...

– Tá vendo? Eu sempre disse que esse cara não prestava! Se você tivesse feito o que eu tinha dito logo no primeiro encontro isso não teria acontecido, mas agora também não importa. O que importa é que eu preciso MATAR ESSE DESGRAÇADO!

– Kid, não faz isso! – Antes que fosse tarde, segurei seu rosto e o obriguei a olhar bem nos meus olhos. Eustass estava tenso, com muita raiva, parecia que iria explodir a qualquer momento. – Deixa isso pra lá, foi tudo um erro, o importante é que eu tô aqui com você.

– Mesmo depois de tudo, você ainda defende esse otário?

– Não é defesa, eu só quero esquecer tudo isso... não fica alimentando essa história, por favor...

– Mas eu–

– Eu sei que você tá com raiva, mas não toma nenhuma atitude violenta e nem vai atrás dele... só... fica comigo.

– Você tem toda razão.

Eustass deixou sua sede de vingança de lado por um instante. Pois as mãos no meu cabelo, segurou minha nuca e ficamos nos encarando simultaneamente, bem de perto. Ele me olhava com os olhos vermelhos, bem frios e raivosos. Eu o olhava em modo de perdão, queria logo esquecer essa história e nunca mais pensar em Rosinante, Cora-san ou seja lá quem for. De verdade, nesse momento eu só quero dormir e acabar logo com esse dia horrível.

– Tenta esquecer isso, por favor... vamos só dormir e fingir que nada aconteceu.

– Eu vou tentar esquecer, mas... – Ele deitou seu rosto no meu ombro e beijou meu pescoço repetidas vezes, indo até os meus ouvidos. – Eu preciso me acalmar... essa história me deixou muito nervoso.

– Tá falando sério? Eu tô morto de cansaço... deixa pra outro dia.

– Mas se a gente deixar pra outro dia, eu não vou conseguir me acalmar. – Kid continuou a beijar meu pescoço e me abraçou, apoiando suas mãos debaixo do meu moletom. – Você é meu, Law... nós vamos ficar juntos pra sempre.

– Eu sei, mas desde hoje de manhã tem acontecido um monte de coisa... eu só quero dormir e descansar logo.

– Eu vou rápido, eu juro. – Ele me deitou no sofá e ficou por cima de mim. Virei meu rosto para o lado e ele continuou a dar chupões no meu pescoço, nem se importou com as marcas. Eu tentei afastá-lo, mas com um dos braços ele me segurou e com o outro começou a tirar minha calça. – É só pra você esquecer de vez esse cara e só pensar em mim, tá bom?

– Eu não penso nele, mas para, sério! Eu sei que você tá nervoso, ma–

Antes que eu pudesse falar, ele me beijou. Seus braços já haviam tirado meu cinto e terminavam de abaixar minha calça, tentava afastá-lo para fazer voltar a si, mas não conseguia. Eu acabei o deixando irritado demais com toda essa história, logo eu, que conheço tão bem o jeito explosivo e impaciente de Kid. Eu sei que também fiz muita merda.

Mesmo assim, talvez ele tenha razão. Vai ser muito difícil esquecer Rosinante depois de tudo que aconteceu hoje, se eu for mais aberto em relação ao Kid vai ser mais fácil. Além disso, nosso casamento nunca teve erro nenhum até esse sujeito aparecer e ferrar com tudo.

Eustass havia acabado de despir minha calça, já tinha até parado de tentar me defender, sabia que ele nunca me machucaria e além disso somos casados. Casamento tem altos e baixos, eu nunca iria trocá-lo por ninguém tão fácil assim. Aliás... será que o Rosinante tá bem? Eu nem sei o que aconteceu depois que eu fui embora, só espero que ele não me procure.

– Aaahh! – Acabei gritando quando ele entrou. Foi mais rápido do que o costume, dava para ver que ele estava com raiva só em olhar as veias de sua testa saltando. Ele também segurou minhas pernas para poder entrar mais fundo e deitou seu rosto no meu ombro.

Meus pensamentos puderam dissipar-se de vez. Pelo menos eu posso estar em casa, bem longe de Rosinante, bem longe de toda aquela confusão. Só preciso pensar em quem importa na minha vida de verdade, deixar o Rosinante no passado, de onde ele nunca deveria ter saído... só espero que ele não tenha se machucado por conta do abajur.

Quer dizer, eu não me importo com ele, só não quero a polícia batendo na minha porta ou algo do gênero. Isso me faria ficar pensando no Rosinante, e com certeza é algo que eu não quero, até porque eu estou com o Eustass agora. Ele foi a única pessoa que gostou de mim de verdade, foi graças ao Kid que eu deixei de ser o sociopata horrível que eu era, então eu deveria ser grato. E em pensar que toda essa sociopatia que eu tive foi graças ao Rosinante... o idiota dos gatinhos.

Eu acho que nunca mais vou querer ver um gato depois daquilo. Nem um pato. Bom, eu sempre gostei mais dos cachorros mesmo ou dos animais selvagens que não ficam presos em árvores tipo leopardos, tigres, cavalos... ah é, naquele filme que eu assisti com o Rosinante mais cedo o nome do cavalo era o mesmo que o dele. Será que tem ligação?

– Aaahhn! – Senti meu corpo estremecer. Ele havia acabado de gozar dentro de mim e caiu no meu peito, com o coração acelerado. Espero que agora Eustass tenha se acalmado, não seria nada bom ele ficar com raiva de mim porque aí sim eu estaria sozinho.

(…)

No dia seguinte, tudo voltou ao normal. Era domingo, acordamos os dois juntos em nossa cama como habitualmente, ele me abraçando e me beijando. Me surpreendeu o fato de Eustass parecer ter superado tão bem. Passamos o dia todo juntos, ele estava muito mais carinhoso comigo, como se nosso casamento tivesse ganhado uma nova cor. Eu ainda me sentia culpado por tudo, mas ele me disse para apenas esquecer. Eu disse que tentaria ao máximo.

Até que o domingo também passou. Não tive notícias de Rosinante, nem pretendo, mas nesse momento era segunda de manhã e eu havia acabado de acordar. Confesso que fico com medo de ir ao hospital hoje, até porque tem uma foto minha beijando o maldito loiro rodando pela internet, mas eu tenho certeza que o pessoal de lá é mais civilizado. Também me preocupava a probabilidade de Rosinante ir me “visitar”.

Mas isso não importa. Milagrosamente, Kid havia acordado mais cedo que eu e já estava pronto para o trabalho, já tinha tomado café da manhã e tudo pelo que parece, provavelmente por saber da minha mania de ficar acordando cedo toda hora e ter um péssimo sono. Mesmo assim, quando acordei, me levantei e me preparei para ir ao banheiro, me arrumar.

– Ei, Law. – Mas ele me impediu.

– Sim?

– Eu andei pensando em uma coisa. – E veio até mim, me abraçando pela cintura. – Sobre o hospital e tudo mais.

– Ah, é sobre a foto? Olha, eu sei que tiveram milhares de compartilhamentos, mas aquilo foi há dois dias, o pessoal do hospital é mais responsável e tudo mais, não vai dar em nada.

– Não, não é isso. É que eu tomei uma decisão por nós dois.

– Decisão?

– Eu fiquei pensando nisso o dia todo ontem, eu sei que não é fácil, mas eu acho que é o melhor a fazer por nós dois.

– Ei, que decisão é essa? Assim você me assusta...

– Tá, eu vou ser bem direto. Eu acho que você deveria pedir demissão do hospital.

– Ahn? – Quando ele disse aquilo eu não entendi de primeira, simplesmente não fazia ideia do que ele estava falando, mas fiquei preocupado com as escolhas de palavras. – Do que você tá falando? Acho que eu não ouvi direito.

– Pensa bem! Eu ganho bem, dá pra manter a casa sozinho e se você saísse de lá nós teríamos mais tempo pra ficarmos juntos, sem emergências nos fins de semana e tudo mais.

– Do que você tá falando? – Me assustei e a primeira reação física foi empurrá-lo pra longe. – É claro que eu não vou sair do hospital! – Até gritei um pouco. – Você sabe muito bem que, desde pequeno, eu sempre fui apaixonado pela medicina! Foi a maior conquista que eu tive na minha vida!

– Não fica assim, vai. – E ele voltou a me abraçar. Estava tão confuso e com raiva que nem conseguia fazer nada. – Eu tenho que ser a única paixão na sua vida atual, esquece o passado. O nosso casamento não foi a nossa melhor conquista juntos? Então.

– São duas coisas totalmente diferentes! Você quer que eu faça o quê? Fique em casa o dia todo te esperando?!

– Não fala assim, tem coisas legais pra fazer dentro de casa. Ah, eu podia comprar um videogame pra você! Ou então nós adotamos um cachorro.

– Você tá falando sério mesmo? Ei, por que você tá falando isso? É por causa do Rosinante? Ele não existe mais na minha vida!

– Ah, sabe como é né, lá no hospital tem horas que eu não posso ir te ver e você fica muito sozinho, pode acabar acontecendo de você arrumar outro “amigo” do mesmo tipo desse aí, eu não quero correr esse risco.

– Isso não faz o menor sentido, você tá confundido as coisas! Eu trabalho lá há anos, eu não vou desistir da medicina por causa de um acontecimento idiota como esse, você não pode decidir isso por nós dois!

– Cara, é que com essa foto rodando por aí, sei lá, o pessoal vai comentar essa besteira que você fez e eu não tô afim de me aborrecer por causa disso. Eu já te perdoei, não perdoei? Então, isso deveria ser suficiente pra você!

– Do que você tá falando? Eu não–

– Eu sei, eu falei isso muito rápido, você precisa se acostumar com a ideia ainda. – Ele virou de costas pra mim e saiu do quarto. – Eu vou pro hospital mais cedo resolver umas coisas, aí eu te vejo à noite quando você estiver mais calmo.

– EI, ESPERA AÍ! – Mas eu fui atrás dele. – Você não vai me obrigar a me demitir, eu vou no hospital com ou sem sua permissão!

– Eu vou levar as chaves, tá bom? Você tá meio nervosinho, fica aqui pensando no que eu te disse e amanhã, quando você estiver se acalmado, eu te levo ao hospital e você pede demissão. É isso.

– EU NÃO VOU PEDIR DEM–

– CALA BOCA!

No momento que ele gritou e virou para me olhar, pude notar duas coisas. A primeira era seu olhar de raiva, e a outra, um pouco pior. As janelas que tinham na sala estavam trancadas com tábuas de madeira impedindo até mesmo a passagem de luz, como uma verdadeira gaiola.

– Você... pretende mesmo me prender aqui?

– É só até esse pesadelo passar! Eu te disse, se acalma e pensa bem porque amanhã nós vamos cuidar da sua demissão.

– PARA COM ISSO! – Gritei e fui até ele. – Não faz isso, eu tenho cirurgia pra fazer, eu não posso simplesmente fugir do hospital por causa do seu ciúme, não é isso que eu quero pra minha vida!

– Eu sei, eu vou mais cedo justamente cuidar das suas cirurgias, ver se eu consigo colocar alguém no seu lugar. Eu preciso ir, à noite a gente conversa!

– ESPERA, KI–

– TCHAU!

Ele bateu a porta com fúria e a trancou. Minha única reação naquele momento foi correr e ficar batendo nela, gritando o nome de Eustass pra ver se ele parava com toda aquela loucura e voltasse a si. Não sabia se ele estava falando sério, que ele era ciumento eu já sabia, mas o meu emprego é literalmente a única coisa que me mantem ainda vivo nesse mundo.

– EI, KID! – Tentava bater na porta e até mesmo arranhá-la! – VOLTA AQUI E ABRE ESSA PORTA! – Minhas mãos já estavam doendo, deveriam estar bem vermelhas também. – ABRE ISSO AQUI AGORA! – A porta, nem me importava em quebrá-la ou não, se isso chamaria atenção dos vizinhos. Até seria melhor. – KID! – Mas ninguém vinha. – Kid... – E eu não podia fazer nada. – Abre isso aqui, por favor... – Acabei escorregando e sentando no chão, batendo de modo mais fraco.

Foi um choque tão grande que eu nem tinha forças para pegar algo na cozinha que me ajudasse a quebrar as madeiras, aliás, nem sei se faria efeito. Eu não quero fugir dele e se eu saísse de casa, a fúria dele também só aumentaria. Ficar em casa não era a melhor opção, mas eu precisava acalmá-lo antes que Eustass tomasse realmente alguma medida perigosa. No fim, eu não sabia o que fazer mais da vida...

– Não me deixa aqui... por favor...

Notas finais
Bem deprê esse capítulo, não? Aliás, a fic toda é bem emo e gótica, só que retrata a realidade né. "Mas autor-senpai, ngm tá nem aí pra realidade, a gente quer ver arco-iro!!" mas n vai ter arco iro "COMO N VAI TER ARCO IRO" é uma fic gótica "AAAAAAAAAAAH" Bê.