Annie
7 Sombras
"... ele era como enxergar após um longo período mergulhada nas sombras".
Annie Dinsmore
... Criptal está imersa em um dos dias mais lindos que já vi! Sério, queridooos, aproveitem o sol enquanto podem; uma massa de ar frio está se deslocando lentamente de Ewen para Thiwoo, sabemos qual será o destino dela, certo Johnny?
He-he.
Isso mesmo! Aproveitem esse dia lindo, amigos...
Click. Grace Vega foi calada com um apertar de botão.
— Aproveitem enquanto podem. — Annie imitava a voz estridente vinda do rádio. Puxava com dificuldade a calça jeans grudada à pele molhada. — Jesus, odeio essa mulher.
Grace, para ela, era uma quarentona gorda com complexo de juventude eterna. Não entenda mal, ela realmente tinha algo jovem: a voz (e a animação de alguém que está sempre bêbado); isso a sustentava por tantos anos na rádio local.
Annie respirou fundo e puxou a regata preta que se enrolara acima dos seios. Suas roupas eram diariamente escolhidas baseadas nas previsões meteorológicas — nem sempre certeiras — de Grace Vega.
Era bem mais fácil olhar o dia lá fora, claro, mas a garota não abria a janela desde que essa fora trocada após o “acidente no quarto”.
Sentou-se na cama para secar os cabelos, mas parou o ato ao vê-lo sorrir. Mesmo ali, emoldurado em cima de uma mesa, Matt parecia iluminado e ostentava aquele sorriso. O sorriso que era só dela.
— Seus pais vão embora. — Confidenciou ao retrato. — Seus tios e Debby também vão, mas acho que só por alguns dias. Encontrarei Denise hoje, serei forte por ela e por você.
Sua garganta secou.
Os Lemon iriam para longe, longe da cidade que guardava tantas lembranças felizes. E a mais cruel de todas. Seu namorado era o único que continuaria em Criptal, e também o único que ela jamais voltaria a ver.
Porra, Matt.
A frase descrevia exatamente o que sentia. O misto de decepção, culpa e dor estava presente naquelas duas palavras: um palavrão e o nome do homem que amava; era quase
(como colocar um demônio e um anjo lado a lado)
uma blasfêmia. Mas parecia a expressão certa.
— Porra, Matt. — Sussurrou outra vez, sentindo o polegar deslizar por cima do vidro frio. — Você prometeu que nunca me faria sofrer.
Matt Lemon estava morto. Matthew, o filho único de Alex e Denise Lemon. Gerente do restaurante e um bom namorado. Amor da vida de Annie, de acordo com ela. Morto.
O retrato voltou para a mesa de cabeceira, desta vez com o sorriso só dela virado para baixo. Uma onda de vergonha a invadiu quando os olhos pararam na rachadura da mesa. Seu luto fora atrapalhado por aquela loucura de anjos e demônios.
Estou enlouquecendo.
Mas fiz isso.
Não fiz?
— Annie? — Marta chamou timidamente antes de abrir a porta do quarto e sorrir para a neta. — Como está? Você vomitou as tripas essa noite.
— Bem. — Você é uma grande mentirosa, Annie. — Eu só tive um sonho estranho e fiquei enjoada.
— Sonhou com o quê? — Marta franziu o cenho fechando a porta atrás de si.
Fogo.
Estava deitada na cama, mas podia sentir o calor que vinha do lado de fora. O som crepitante soava como uma melodia doce e triste, a chamando.
Quando se aproximou da janela percebeu que estava quente, quente como
(o inferno. Quente como o inferno.)
uma grande caldeira.
Se apoiou no peitoril da janela. Duas chamas lhe tomara as mãos, mas ela não sentiu dor. O fogo parecia acariciá-las, era reconfortante.
— Matt. — Mentiu novamente quando despertou da lembrança. — Não está sendo fácil.
— Eu estranharia se você dissesse o contrário, querida. — A senhora olhava diretamente para a neta. Quanto dela havia sido atingido com aquela tragédia? Aliás, quantas tragédias ainda aconteceriam na vida de sua garotinha? Ela só tinha vinte anos, céus. Vinte e um em breve.
— Preciso falar com Paul antes de sair. — A garota sorriu. Precisava tirar o foco da conversa de si. — Ele deve estar pirando.
Não só ele.
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— O que você acha, Johnnie? Não é um belo retrato-falado? — Numa área mais verde de Criptal e em sua clichê casinha de cerca branca, Paul conversava com seus novos amigos: Johnnie Walker e Jack Daniel’s.
O rapaz estava envolto por cadernos, lápis e canetas. Rabiscava com concentração todos os detalhes que conseguia lembrar do dia do desaparecimento de Sheila — o que não era muito.
Seus talentos não lhe ajudavam, um boneco palito loiro representava a amiga e em sua mão havia algo semelhante a uma banana; era uma batata frita, na realidade. Mas vamos dar um crédito ao rapaz, ser investigado por um possível crime envolvendo sua melhor amiga faria isso até com Pablo Picasso.
— Sabe, Jack, ela ficou aflita com a ligação da Marta. Se sentiu mal por Annie e não quis mais comer... — Bebeu um pouco do pobre Daniel’s e voltou a rabiscar freneticamente uma folha pautada. — Saímos do restaurante... e é aqui que tudo some.
Parou para reler as tags que havia produzido:
Sheila. Restaurante. Annie. Dedo. Matt. Marta. Annie. Batata. Casebre. Terno (provavelmente o horroroso que Matt usava). Annie. Luz.
Coçou a cabeça quando notou a quantidade de vezes que escrevera o nome da amiga morena. Certo, aquilo não ajudaria na busca por respostas.
Fechou os olhos e bebeu mais, balançando os pés no ritmo calmo da música em sua cabeça. Bebidas não entravam em sua casa desde que Abraão se tornara um bom homem da igreja — apesar de Paul questionar se não haviam algumas garrafas guardadas no armário sempre trancado da cozinha.
O rapaz comprara aquelas duas na surdina, no primeiro momento em que não se sentiu tão vigiado.
A música aumentava conforme Jim Morrison relatava o que acontece quando se é um estranho. Paul idealizou que a canção não vinha de dentro, mas de fora; mais precisamente do celular perdido entre cobertas e travesseiros. Letras impacientes piscavam na tela do aparelho:
Annie chamando
Ele prendeu o ar e ponderou por poucos segundos. Seria o primeiro contato dos dois desde aquele dia louco que terminou com Sheila desaparecida e Matt morto.
— Annie?
— Hey! Finalmente consegui falar com você, Paul. — Ela sustentava uma voz baixa e distante, quase sonhadora.
— Também é bom ouvir sua voz. Como... — não, babaca, não pergunte como ela está — Eu não pude ir ao enterro. Desculpa, sério, me desculpa, eu sei que eu deveria estar lá com você, mas eu não pude. Eu...
— Tudo bem. Aquilo não foi bonito de se ver, eu mesma sinto que não deveria ter ido.
— Matt era um bom amigo. — Pausou ouvindo a respiração da amiga. — Como você tá lidando com isso?
Pergunta ruim. Pergunta péssima.
Alguns segundos do mais puro silêncio.
— Eu fico esperando ele me ligar. Deus, eu realmente espero que ele me mande uma mensagem de bom dia, dizendo que está tudo bem. — Paul a ouviu fungar. — Mas você sabe, não é? Nunca mais verei o número dele na tela do meu celular. É difícil colocar isso na cabeça.
— Fui um idiota por perguntar. Annie, por favor, não chora.
— Não vou. Sinto que se eu começar não vou mais conseguir parar. — Ela soltou um riso curto e desagradável. — Mas liguei para saber de você. Muita coisa aconteceu, e não só comigo. Fiquei preocupada.
— Já te contaram. — Claro que ela sabia. As notícias se espalhavam rápido pela maldita Criptal.
— Minha avó encontrou com sua mãe no mercado. Uma noite atrás das grades por desacato? Você é inacreditável!
— Eu não me lembro de nada, Annie. Você acha que eu fiz alguma coisa com ela? — A garganta do rapaz fechou e por um momento foi difícil mandar ar para os pulmões.
— CLARO QUE NÃO! — Ele afastou o aparelho do ouvido com o grito inesperado da amiga. — Nem cogite essa ideia, caramba.
— Acho que todos estão pensando isso...
— Paul, me escuta, eles não vão te prender novamente se você não der motivos. Te encontraram perto daquele bar horrível nos limites da cidade, você pode ter bebido algo forte e sofrido um blackout ou um lapso de memória, tanto faz. O fato é que não podem te culpar por não se lembrar de nada, muito menos usar como desculpa para te colocar em cana. Você me ouviu? Pode ser algo neurológico.
Ela falou tudo tão rápido que parecia que a boa e velha Annie havia voltado.
Do outro lado da linha, a morena também estava surpresa e satisfeita por conseguir falar com o amigo naquele tom falsamente seguro.
— Você está me chamando de louco? — Ele deveria agradecê-la pelo apoio, mas não perdeu a chance de ouvi-la rir. Bem mais leve dessa vez.
— Estou tentando dizer que você é fraco com álcool e que o cheiro de cerveja já te faz desmaiar.
Jack e Johnnie pareceram rir em sua cabeça.
— Entendi.
— Estou falando sério. Paul, eu me sinto sozinha e preciso ter a certeza de que nada vai atingir você e as outras pessoas que amo. Pode parecer egoísta, e sei que vai, mas eu preciso de você. Então por favor, por mim, não se meta em confusões.
Johnnie e Jack gargalharam. Ele já está bêbado, Annie, somos os novos amigos dele.
— Ela vai aparecer. — Concluiu, ignorando as garrafas falantes. — E bem.
— Eu sei disso! Sheila é a chutadora de bundas do nosso feliz grupo de amigos, não é? Nada a atinge. — Pausa. — Preciso desligar, mas pense no que conversamos, sim?
— Obrigado. — Suspirou assim que ela desligou.
Teve alguns segundos para se sentir culpado pela bebida. Poucos segundos antes de seu pai abrir a porta sem delicadeza.
Maravilha.
— Com quem estavas a falar? — Abraão indagou em seu convencional tom autoritário.
Ele deve achar que estou drogado e falando sozinho. Beleza.
— Com Annie. — O pai arqueou a sobrancelha. — No telefone.
— Como ela está?
Paul riu baixinho.
— Como uma garota que perdeu o namorado e não pode contar com o apoio da melhor amiga.
Idiota.
Esperou pela repreensão do pai. Não veio.
— Espero que tenhas o mínimo de discernimento sobre o que está acontecendo aqui. — Puxou uma cadeira para perto do filho e sentou-se. — Chega de gozações e chacotas. Estamos enfrentando algo sério que afeta a tua liberdade.
— Já me desculpei com o delegado, não acredito que...
— E tens sorte por ele ter aceitado suas desculpas. Nunca imaginei que você me fizesse passar por tamanha humilhação. Qual foi a última vez que adentraste em uma igreja?
Abraão e sua mania de misturar assuntos. Nada de novo sob o sol. Paul queria poder falar que aquilo não tinha nada a ver com a igreja, com Deus ou com seu progenitor, mas só um gemido penoso foi ouvido.
— Vamos lhe ajudar, somos seus pais, afinal. — A entonação daquela frase não era a mais animadora. — Entrarás na linha quando tudo tiver um final.
— Eles não têm qualquer prova contra mim. Querem resolver logo o caso e estão atirando no escuro, é o que eu acho.
O homem ignorou o bafo de bebida e as palavras do filho. Prometera a Sonia que tentaria ter uma conversa branda, a honra da família dependia disso.
— Tão irresponsável aquela loura. Não devemos culpá-la, óbvio que não, seus atos são fruto do que aprendeu naquele lar pecaminoso.
— O que você quer dizer? — Paul sentiu o coração acelerar. Nada de bom viria depois daquelas frases.
— Se algum... acidente ocorreu enquanto estavam juntos, creio que seja melhor confessá-lo. — Abraão continuou friamente fitando o nada. — Coisas do tipo acontecem o tempo todo com garotas irresponsáveis.
Paul balançou a cabeça perturbado. Seu pai estava pedindo que ele confessasse um crime que não cometeu? Um crime contra sua tão bem quista amiga, um crime que nem as próprias autoridades tinham certeza se havia ocorrido?
Lembrou-se da declaração que Sheila fizera alguns meses antes:
Eu não odeio o seu pai, aliás, não odeio ninguém. Só não gosto do jeito que ele me encara; parece que a qualquer momento eu vou tirar um cachimbo do bolso e te chamar para uma orgia. Eu não sou assim, Paul, nem os meus pais.
Ela deveria odiá-lo. O próprio Paul estava a um passo disso.
O rapaz somente levantou-se da cama com uma garrafa na mão. Seu corpo todo tremia. Estilhaços do que fora Jack Daniel’s espalharam-se pelo quarto quando a garrafa foi de encontro a uma parede.
Abraão não teve tempo de qualquer reação; o rapaz já deslizava pela escada com um rumo definido. Não ficaria em casa.
▬▬▬▬
— Aqui está, querida. — Denise tentou sorrir para a garota enquanto lhe passava uma xícara de café.
— Obrigada. — Annie observou o restaurante. Já estava praticamente vazio, com algumas caixas de papelão espalhadas e uma mesa solitária no centro, que a garota considerou que havia sido deixada ali unicamente para aquela conversa. De fato, o estabelecimento estava um pouco morto também. — Odeio ver o restaurante assim.
— Dediquei minha vida a esse lugar, mas eu não poderia continuar sem ele.
Annie não pôde deixar de sentir pena de Denise, ela parecia acabada. Idealizou que perder um filho deveria doer como perder um pai, talvez mais, já que ia contra o que chamavam de lei da natureza.
— A grande função da minha vida era ser mãe dele. Eu perdi meu único filho, então perdi também essa função. — A mulher já lacrimejava, para o terror de Annie. — Estou tentando me acostumar com isso, mas não vou conseguir se permanecer aqui.
— Vocês criaram um garoto tão maravilhoso, lindo e amado por todos. — A garota mordeu o lábio inferior. Precisava ser forte, mesmo enquanto segurava as mãos da sogra e olhava para a porta fechada da despensa. Céus, quantas vezes eles conversaram, riram e se beijaram ali?
— Ele te amava, Annie. Matt não gostou de muitas garotas boas na vida, e teve aquela loucura com Debby na adolescência, — riu — mas quando te conheceu tudo ficou tão diferente. Meu filho dizia que você foi a melhor coisa que apareceu na vida dele.
Era engraçado — não no sentido literal da palavra — ela sabia que Matt a amava. Ele fazia questão de ressaltar isso sempre que estavam juntos, foram as últimas palavras que dirigiu à morena, aliás.
Mas era tão estranho quando outra pessoa mencionava aquilo. Imaginou se o rapaz falava dela como ela dele, se a ansiedade para encontrá-la no fim do expediente também o fazia suar e se ele sonhara muitas vezes com um futuro que jamais viria.
— Sabe, Denise, eu não quis falar no enterro porque o que Matt e eu tínhamos, temos, é algo pessoal demais. Quando meu pai morreu eu achei que minhas chances de ser feliz de novo haviam sido arrancadas de mim. Talvez minha vida se resumisse a criar o meu irmão e tentar ajudar a minha mãe. Sei que parece um pouco dramático. — Annie soltou o ar devagar e sentiu as mãos serem apertadas com gratidão. — Matt me preencheu de um jeito que eu nem sabia que precisava ser preenchida; ele era como enxergar após um longo período mergulhada nas sombras.
Naquele momento não existia mais nada a ser falado ou pensado. As duas mulheres mais importantes da vida de Matt estavam finalizando o processo de enterrá-lo.
Matthew seria a força de ambas.
▬▬▬▬
Asmodeus observava com atenção o jovem Ramal em seus passos apressados pelas ruas de Criptal. Imaginou que o rapaz recorreria à bebida ou a uma dessas discretas casas de prostituição para limpar a mente.
Vamos, garoto, há quanto tempo você não tem um bom sexo? Eu poderia lhe ajudar com o seu pecado, é o meu trabalho.
Porém Paul decidiu que a atitude mais ousada que poderia tomar era entrar em uma igreja católica para contrariar as crenças do pai.
Uau.
A decisão tola não agradou ao Príncipe, obviamente, levando em consideração que a energia boa blá blá blá influência de Deus blá blá blá e todas essas coisas o proibiam de entrar no lugar.
E se os malditos ratos alados comandados pelo maldito Deus daquela igreja resolvessem usá-lo novamente? Aquele corpo imbecil já servira de casca angelical uma vez.
— Ele não é útil. — Asmodeus sussurrou para o nada. Estava invisível no meio da multidão. — Até a híbrida concordaria com isso. Porra, Paul.
Certo.
Era só esperar o garoto sair daquele antro e fazer um motorista atropelá-lo. Simples, rápido, fácil. Como uma humana comida de micro-ondas.
O plano seria perfeito se um senhor não saísse daquela igreja com pressa. Para o demônio, o velho se vestia, bem, como um velho. Não chamaria sua atenção se ele não percebesse a tatuagem naquela nuca velha.
Uma cruz dentro de um pentagrama.
A marca de um grupo filho da puta de exorcistas que se rebelaram contra o Vaticano. “A Ordem”. Uma facção detestável que mandou diversos demônios de volta ao tártaro.
Puta merda. Eles não foram extintos após o massacre na basílica de Santa Inês? Se sim, o que aquela aparição estava fazendo em Criptal?
Asmodeus seguiu o homem silenciosamente. O velho parecia senti-lo, no entanto continuou seu longo caminho até uma modesta casa bordô.
Não!
O maldito exorcista não poderia estar parado na frente da casa dela!
▬▬▬▬
Annie olhava para a TV sem saber ao certo o que estava na programação. Cada palavra de Denise ainda estava fresca em sua mente, mesmo horas após o encontro.
— Vamos jantar com Ryan e o sobrinho hoje. — Marta disse, desligando a televisão.
— Devo pedir uma pizza pra mim? — A garota indagou sem muito interesse.
— Não. Você deve colocar uma roupa legal e nos acompanhar.
— Vovó, por favor. Eu não estou no clima e vou acabar estragando o jantar de vocês.
— Minha querida, eu sei que a conversa com Denise foi muito difícil. Não quero te obrigar a nada, mas pense em Nathan; ele está de férias mas quase não sai, quer ficar perto da irmã. Ele quer ir, gosta de Daniel, mas vai recusar o convite se você também o fizer.
Annie baixou os olhos verdes com receio. Havia negligenciado o irmão durante o relacionamento com Matt.
— Nathan não tinha problemas com Matthew. — Marta explicou, como se ouvisse os pensamentos da neta. — Talvez um pouco de ciúmes. Mas ele vai sentir ciúmes de todos os homens que entrarão na sua vida, assim como David faria se estivesse aqui.
A moça sorriu ao ouvir o nome do pai. Quantas coisas seriam diferentes se ele estivesse ali?
A campainha tocou.
Marta correu para atender, não sem antes colocar algumas mechas de cabelo atrás das orelhas e arrumar a blusa amarela. Parecia ter conhecimento prévio que Ryan estava do outro lado com um vinho guardado dentro do casaco e ansiedade para saber se o jantar ainda estava de pé.
Sorriu indo cumprimentar o homem. Sua avó estava mesmo agindo como uma mocinha? Okay, não estragaria aquilo.
A expressão de Ryan, porém, mudou quando avistou a garota surgindo por trás de Marta. Ele não gostava da sensação que a menina lhe causava.
— Queria te agradecer por ter cuidado do meu irmão naquele dia. — Annie sorriu sentindo a vó afagar seu braço.
— Não foi nada. — A maldita aparição, como diria Asmodeus, respondeu com expressão fechada. — Meu sobrinho gosta muito de Nathan. Você vai jantar conosco, não é?
— Claro. — Um jantar não a mataria. Claro que não.
Asmodeus, no outro lado da rua, ainda oculto, gargalhou ao ver a cena. Maldita coincidência. O exorcista era amigo da avó da híbrida? Aquilo parecia confuso e inacreditável até para sua fina sagacidade.
Realmente, Deus parecia escrever torto por linhas mais tortas ainda.
Vamos ver o que o jantar com o maldito exorcista nos reserva, Annie.
▬
Daniel terminara de arrumar os pratos, copos e talheres na mesa e fazia as últimas checagens; precisava estar certo de que todos os “objetos suspeitos” estavam bem escondidos, como seu tio recomendara.
Percebeu que estava nervoso quando as diversas balas prateadas escorregaram entre os dedos suados fazendo um ruído abafado e rolando pelo chão. Elas logo foram parar dentro uma grande caixa de papelão, fazendo companhia aos livros de ocultismo, ervas e armas.
Poderiam ter marcado o jantar em um restaurante, pizzaria ou até na casa de Marta, mas Ryan fez questão de oferecer a própria residência.
Já está caducando. O cheiro de óleo santo fritou o cérebro dele.
A casa em que vivia há meses era repleta de simbologia, cada canto possuía algum selo ou amuleto e as cores fortes das paredes escondiam marcas de proteção. Até as partículas de poeira que giravam no ar pareciam estranhas.
— Péssima hora para flertar, tio, péssima hora.
Prendeu o fôlego quando ouviu o carro barulhento de Ryan estacionar perto de sua motocicleta.
Vai dar tudo certo, tem que dar. E por que não daria? Adorava Nathan e Marta lhe era bastante simpática; só restava conhecer a famosa jovem viúva Dinsmore.
Destravou um trinco de metal, retirou o grosso cadeado e abriu a porta para que as visitas pudessem entrar. Tratou logo de colocar um imenso sorriso fictício no rosto — e rir daquele jeito lhe causava cãibras faciais. Falta de costume.
Seu tio entrou na frente, seguido por uma animada Marta que carregava uma garrafa preta de vinho Massolino. Ryan adorava aquela coisa enquanto Daniel preferia a boa e velha cerveja.
— Olá Daniel. — deu um leve e agradável sorriso enquanto seguia para a cozinha.
— Marta. — Retribuiu o cumprimento. Nathan vinha logo atrás. — E aí, campeão?
— Oi Dan. — O menino mantinha uma dessas expressões iluminadas que apenas crianças possuem. Daniel o invejava, às vezes. — Sua moto está incrível.
— Podemos marcar um dia para darmos uma voltinha juntos.
— Nathan não vai subir naquela coisa. — A voz suave soou logo atrás do garoto.
Annie usava um vestido floral preto que se alongava quase até os joelhos. Os cabelos caíam em ondas até o meio das costas. Daniel se concentrou nas bolsas roxas embaixo dos belíssimos olhos verdes que o fitavam com desdém.
— Senhorita Dinsmore. — Forçou outro sorriso para a moça enquanto trancava a porta.
— Este é Daniel, meu sobrinho. — Ryan gritou adiantando-se com Marta e Nathan.
— Dan, para os íntimos. — Confidenciou o rapaz.
— Olá, Daniel. — A morena disse. — Sou Annie, a irmã de Nathan.
— Ann para os íntimos? — Tentou outra aproximação enquanto a conduzia para a sala de jantar.
— Hmm acho que não.
Ele pigarreou observando Ann —droga, ele a chamaria do que quisesse. — seguir para saborear o jantar.
Não tão simpática quanto Marta, ou agradável como Nathan. O garoto havia lhe contado que ela era adotada, fazia todo sentido agora.
A comida estava surpreendentemente saborosa, o que fez Marta disparar ao anfitrião todos os elogios que conhecia. Nathan engatava uma conversa animada com Daniel, Annie não conseguia entender bem o assunto, se concentrava apenas em revirar a carne de vitela na língua.
Ryan pigarreou e virou-se para o sobrinho.
— Preciso te mostrar o que aconteceu no encanamento do quarto. — Falou sério. — Pode me dar licença, Marta?
— A casa é sua. — A senhora sorriu e os três Dinsmore observaram os anfitriões saírem por um corredor escuro.
Quem se preocupava com a canalização no meio de um jantar?
▬
— Encanamento no quarto? Que desculpa terrível. — Daniel notou o olhar alarmado do tio. Esse passava as mãos no cabelo enquanto fitava o nada. — O senhor está bem?
— Não. — Ele apertou os nós dos dedos após mergulhá-los em um pote de água benta depositado no criado mudo — Há uma maldita presença demoníaca na casa.
Daniel deu uma piscadela confusa após ouvir tais palavras. Ryan já separava diversos objetos.
— Estamos no lugar mais seguro de Criptal, temos todo tipo de proteção, selos e, se duvidar, pó mágico de fadas. Um demônio só entraria aqui se...
— Se abríssemos a porta para ele. — O mais velho completou segurando um terço. — Deus tueri nos a malo.
O tempo congelou por alguns segundos. O rapaz convivia com essa loucura desde sempre, mas ainda travava ao saber da proximidade das criaturas. E bem, uma delas estava jantando na sala.
— Quem? — Questionou pesaroso. Não queria imaginar Nathan com olhos negros.
— A garota. Não consigo mais dividir a mesa com ela. O maldito está zombando de nós.
— Não pode ser. — Murmurou em resposta.
— Não seja tolo, uma garota jovem e fragilizada é um prato cheio para os espíritos opressores.
— E o que pretende? Um exorcismo? — Daniel indagou incrédulo.
— Se for preciso.
— Por Deus! Há um garoto de tre-ze anos naquela mesa, você enlouqueceu?
Ryan estalou os lábios. Sempre fazia isso antes de recitar algum trecho da bíblia.
— Esforçai-vos, e animai-vos; não temais, nem vos espanteis diante deles; porque o Senhor teu Deus é o que vai contigo; não te deixará nem te desamparará.
Daniel torceu para que o tio não tivesse visto seus olhos revirarem.
— Isso foi lindo, mas tenho algo do Novo Testamento para o senhor: E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo. — O loiro franziu o cenho. — Tio, estou temeroso por eles, por Nathan. O demônio vai sair de Annie e ir direto para ele; é isso que quer? Você nem tem certeza!
— Não altere a voz para mim, rapaz. Tenho o dobro de sua idade, experiência e aversão a demônios que usam o corpo de meninas bonitas. Creio que você não está qualificado para me contrariar.
Espere, tenho uma última cartada.
— Eu só pensei que o senhor gostasse daquelas pessoas. Não pode arriscá-las também.
A boca de Ryan abriu um pouco mas só emitiu um grunhido frustrado. O sobrinho conseguia ser baixo de vez em quando.
— Tudo bem. Você tem até o fim do jantar para testá-la, ou farei do meu jeito.
Daniel recolheu o crucifixo das mãos do tio e fez um sinal negativo quando este lhe ofereceu a água benta. Era só um teste, ele não exorcizaria ninguém de verdade. Annie não estava possuída.
— Sanctissimus adiuva me. — Murmurou após beijar o objeto. Ryan não lhe cedia esse tipo de tarefa já que, tecnicamente, Dan era um aprendiz. Pior, um aprendiz que estava se recuperando.
— Espero que o seu latim esteja melhor que isso.
— Eu também. — Confessou Daniel.
Annie arqueou as sobrancelhas quando os anfitriões se colocaram novamente na mesa com expressões tensas. Talvez algo tivesse dado muito errado no encanamento.
Marta quebrou alguns minutos de silêncio quando todos terminaram de comer:
— Querida, pode tirar a mesa?
— Claro. — A garota se levantou já recolhendo a louça.
— Eu ajudo. — Será que só Annie conseguia notar a falsa cordialidade do rapaz? — Você não sabe onde é a cozinha.
— Muito gentil.
Annie levou a pilha de pratos até a pequena cozinha, sendo seguida por Daniel que segurava todo o resto. Ele a analisava repassando mentalmente suas conclusões. Ela é pequena, pequena e fraca. Não faço ideia do que um demônio iria querer nesse corpo, além de belas pernas.
A louça já estava equilibrada perigosamente na pia e Annie lavava as mãos, quando sentiu um puxão em seu cotovelo.
— O que foi? — Indagou sentindo o rapaz apertar mais. — Qual o seu problema?
De súbito ele passou o braço pela cintura dela e a comprimiu contra si, ao mesmo tempo em que pousava a outra mão em sua nuca; o crucifixo obviamente entre os dedos. Umedeceu os lábios enquanto ela tentava se desvencilhar.
— Tire as mãos de mim! — A morena grunhiu assustada. Não queria fazer um escândalo e estragar a noite da avó e do irmão, mas em contrapartida também não queria ser espremida por um desconhecido. Nem Matt a segurara daquele jeito.
Daniel era uma cabeça maior que ela e se aproximou devagar de seu ouvido direito, como que para segredar algo.
— Adjuro te omnis immundus spiritus, adjuramus te per Deum vivum, appareant ut ab hoc famulo Dei. Appareant!
Antes que Annie esboçasse alguma reação àquelas palavras estranhas, um estouro alto ocupou seus ouvidos.
— Acho que caiu. — Pode ouvir a vó dizer.
O rapaz ainda a segurava, talvez até mais forte que anteriormente. Seus olhos tinham um tom de azul cobalto e a encaravam com algo muito parecido com raiva.
Soltou o próprio braço e correu para a sala tentando entender o que havia acabado de acontecer. Viu Marta olhando com lamentação para grandes cacos dourados que se estendiam pelo carpete; antes eles formavam um charmoso vaso que ficava em um suporte ao lado da mesa de jantar.
— Não se preocupe, senhora, Daniel vai limpar toda a bagunça. — Ryan anunciou, fitando os dois jovens. Apenas Dan captou o duplo sentido daquela frase.
Obviamente eles não conseguiram ver um certo príncipe do inferno que se retirava dos arredores da casa após ser atordoado por um início de exorcismo que ouviu através dos ouvidos da híbrida.
Apenas mais uma noite comum em Criptal.
▬
Annie ficou aterrorizada quando Daniel se ofereceu para levá-los de volta. O rapaz a fitou pelo retrovisor o caminho inteiro — o que é bem assustador para alguém que perdeu o pai em um acidente de carro causado, provavelmente, por distração; ele olhava como se ela fosse uma nova espécie de animal peçonhento.
O relógio mostrava que o jantar havia acabado há uma hora. Nathan e Marta estavam dormindo, saciados pela comida deliciosa e encontro agradável.
Annie arrumava uma mala.
Agora sabia que precisava sair de Criptal.
Reclamara outrora de que nada acontecia na cidade pacata, mas naquele momento tudo estava acontecendo.
Demônios, anjos, caras que falam coisas engraçadas, vasos que explodem. Ela não estava segura. Sua família não estava segura.
Usaria o luto como pretexto para convencer a avó de que precisavam sair dali. Os três. Encontraria um lugar — a antiga casa, talvez?. Encontraria uma escola para Nathan, uma clínica para a mãe e todos ficariam seguros novamente. Fim de história.
O único problema era que fugir demonstrava que ela acreditava.
— Dane-se. — Queixou-se, arremessando um sutiã na mala.
Jogou a jaqueta marrom-caixão por cima da regata do pijama e esgueirou-se pelo corredor. Sim, todos já estavam dormindo e a casa escura parecia um pouco macabra. Sentiu que esbarraria em uma criança japonesa contorcionista e extremamente pálida à qualquer momento.
Porque só falta um fantasma para completar a festa, pensou com amargura.
Respirou profundamente quando conseguiu sair pela porta da cozinha. Não era a primeira vez que fazia aquilo: escapar no meio da noite para tomar um novo fôlego.
Andou até o fim da rua sentindo a brisa leve em seu rosto. Por um segundo desejou se desfazer e virar parte do vento, voando para o céu cheio de estrelas.
Olhou para o chão e viu a própria sombra projetada pela luz amarela do poste. Corrigindo, duas sombras.
Antes que a garota pudesse se virar, sentiu alguém agarrar-lhe por trás. Não, não, de novo não. A pessoa a segurava forte, mesmo quando ela se debatia e dava socos no braço em sua cintura.
Quase tentou gritar, porém um pano cobriu sua boca e nariz. Cheiro forte de produto de limpeza. O que quer que fosse subiu até sua cabeça, deixando-a tonta.
O corpo amoleceu aos poucos e ela já não tinha forças para tentar se libertar.
Estou me desfazendo!
Os braços a seguraram mais firme quando estava difícil manter-se em pé. Annie piscou contra o sono.
Estou dopada.
Viu o céu cheio de estrelas.
Viu duas estrelas maiores em azul cobalto.
Não viu mais nada.
Bons sonhos.
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