“Podes ser pura como a neve, casta como o gelo, mas não escaparás da calúnia”.

William Shakespeare

“Verificou se ela está bem amarrada?" foi a pergunta que Annie ouvira ainda em seu subconsciente. Quando abriu os olhos e percebeu que não conseguia se mover, o desespero tomou conta.

— Quem está aí? — Gritava. — Asmodeus? É você?

A garota ouviu um suspiro. Se balançava o máximo que conseguia, tentando se livrar das cordas que prendiam seus braços e pernas. Estava em uma cama, deitada sobre um colchão um tanto que confortável — surpreendente, levando em consideração que sofrera um sequestro

— Demônios costumavam ser mais inteligentes. — Uma voz masculina, vindo de alguma direção impossível de se identificar devido a escuridão, surgiu. — Não revelavam seus nomes tão rapidamente.

Essa voz... Meu Deus, eu... — Annie reconheceu. Se balançou mais um pouco e, quando desistiu, uma lâmpada foi acesa bem no centro do local em que se encontrava. A claridade revelou Ryan, usando uma casula preta e apalpando um terço com força.

— Ela fez isso? — Daniel perguntou, perto de uma escada e provável saída do que parecia ser um (empoeirado) porão.

— Ela não. A entidade que a possui sim. — Ryan concluiu. — Pegue a água que abençoamos. Vamos começar.

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Um pouco antes de Annie ser convocada à um exorcismo-surpresa, Paul já caminhava pelas ruas de Criptal.

— Tenho uma vida de merda, lalalalalalalala. — Cantarolava em um ritmo de música natalina, segurando firme uma garrafa de Vinho Galego, a mais cara da adega da cidade.

Roubou de seu pai, que mantinha algumas estocadas para patrocinar a Santa Ceia da Igreja Presbiteriana.

— Olá, amigos. — Acenou para dois senhores fumantes com a mão que possuía a garrafa. Chegando à CCR sentiu seu celular vibrar. Pai. Bufou e jogou o telefone em um bueiro. Vai para o inferno.

Cortou caminho pelo jardim em frente a clínica, correndo para que não chamasse a atenção de ninguém. Caminhou mais um tempo até chegar à estrada 101 — ligação entre Ewen e Criptal — e começou a gargalhar. Queria, realmente, chegar à 102 — Criptal e Thiwoo.

Na verdade, não tinha aonde ir e tampouco sabia o que fazer. Pretendia andar, beber, rir, chorar, sentir qualquer coisa diferente. Fugir. Fugir talvez de toda a loucura que estara vivendo. O álcool ajudaria, sem dúvida.

— E agora, Galego? — Beijou a garrafa. Foi então que ouviu uma sirene. Permaneceu parado e, pouco tempo depois, avistou uma viatura de polícia vindo da direção de Ewen.

— Que maravilha...

E bebeu mais do vinho.

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No outro lado da cidade — próximo à Estrada 102 e oposto onde Paul se enchia de vinho — a casa de apenas um andar de Ryan se encontrava em silêncio. Casa; não porão.

Asmodeus avaliava a grama onde pisava, sentindo em seus sapatos pretos uma certa... energia?. Claro que Annie estava ali. O período de luto já havia passado o suficiente. Sem mais tempo para a menina; o plano tinha de continuar.

— Um Príncipe do Inferno deveria entrar onde bem entende. — Disse, sem expressão. — Esse filho da puta sabe como blindar um ambiente.

Tentou explodir as janelas que contornavam a casa, mas falhou. Ryan, com suas escrituras, de alguma forma conseguiu deixar o imóvel à prova de demônios.

— Senhor? — Asmodeus ouviu.

Adam, servo ruivo e com problemas de acne, se aproximava do demônio de terno.

— E então?

O garoto tossiu antes de responder.

— Os boatos não são boatos. Mais já sabem sobre a híbrida.

O Príncipe da Luxúria respirou tão fundo que quase julgou estar monopolizando o ar. Andou alguns passos observando, novamente, o terreno. Adam o olhava curioso e, quando decidiu dizer algo, sentiu seu rosto queimar e caiu para atrás.

— Sinto muito, parceiro. — Asmodeus disse, com um meio sorriso. — Ou talvez não.

Pegou novamente a pedra larga que usou para acertar seu servo, ajoelhou-se e, antes de desfigurá-lo até a morte, concluiu:

— Trate de ficar aí dentro.

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(Ab insidiis diaboli, libera nos, Domine.

Ut Ecclesiam tuam secura tibi facias

libertate servire, te rogamus, audi nos.

Ut inimicos sanctæ Ecclesiæ humiliare

digneris, te rogamus audi nos.

Et aspergatur locus aqua benedicta.)

Ryan, um pouco receoso por não estar em posse da vestimenta adequada para o ato, — Daniel o advertiu, não uma vez, mas três. Mesmo assim, o homem decidiu fazê-lo — continuava a repetir o Rituale Romanum enquanto lançava, aos poucos, água devidamente abençoada. Água benta.

(Regna terrae, cantate deo, psállite dómino, tribuite virtutem deo Exorcizamus te...)

— Senhor Ryan, por Deus, o que está acontecendo?! — Annie gritou, se esforçando, tentando se livrar dos laços apertados que começavam a machucar seu pulso.

(...omnis immundus spiritus, omnis satanica potestas, omnis incursio infernalis adversarii...)

Ryan a ignorava. Continuava recitando enquanto, entre as palavras ditas, nutria pensamentos para manter sua força.

(...omnis legio, omnis congregatio et secta diabólica...)

(É a voz do maligno. Ignore a voz do maligno!!!)

Mais água benta lançada.

Ele não era o único a pensar. Lógico que não era.

Daniel, apoiado próximo a escada (e saída) do porão, semicerrava os olhos para tentar observar melhor na escuridão.

(Meu Deus, quando isso terminará?! Espero que bem. Terminar bem, isso, precisa terminar bem. Imagine se ela... não, não, não não não!)

Já Annie...

(Eu acendi a lâmpada. Céus, fui eu! Eu eu eu consegui acender só pensando na escuridão. Eu consigo! Aquele cara disse que

[“E você sabe que é diferente. Está no seu íntimo, faz parte de ti”]

eu sou uma híbrida! Meu Deus eles Daniel e Ryan acham que estou possuída por alguma coisa meu Deus!)

Mais água benta lançada.

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Asmodeus ria enquanto limpava com um lenço a razoável quantidade de sangue em seu rosto. Em seguida, dobrou a manga que revestia seu braço direito e mergulhou sua mão nas poças formadas. Desenhou um círculo com o fluido nas partes sem grama do jardim de Ryan e, dentro desse círculo, símbolo confusos. Um demônio assustado observava, de longe, seu chefe.

— Hey, você! — Notando a presença de mais uma criatura, o chamou. — Venha aqui.

O rapaz negro se aproximou. Já vira coisas piores no inferno, mas aquele homem a que servia praticava tais atos tão regularmente, tão em público que o deixava bastante ansioso. Se não és um demônio poderoso, não deve chamar tanto a atenção. E Steve não queria, definitivamente, chamar atenção.

— Qual seu nome?

— S-Steve. — Escorregou no “s”.

Asmodeus o olhou de cima a baixo.

— Já não transamos? — Perguntou. — Uma orgia; faz um tempo.

Steve nada respondeu; apenas evitou contato visual. Mas sim, já transaram, caso considere o fato uma informação necessária ou algo do tipo.

— Sabe o que é isso?

— Não, senhor.

— Nunca viu uma figura parecida?

— Não, senhor.

— Certo. — O Príncipe da Luxúria pensou ouvir mais um não, senhor, porém idealizou que era obra de sua imaginação sádica. — Se trata de um feitiço, bastante peculiar, admito, que aprendi graças a uma bruxa bem safada. — Sorriu, pensando no sexo com a mulher, antes de completar. — Funciona com qualquer tipo de criatura sobrenatural, se tiver sorte e o material necessário. Fiz com que Adam...

Pausou, vendo o pomo-de-adão de Steve subir e descer. As mãos trêmulas, o suor repentino. Riu mentalmente. Adorava que fosse temido.

— Adam, descanse em paz, foi morto sem poder escapar de sua casca. O sangue do homem, contaminado com a presença demoníaca, serve agora como item principal para a magia. Os símbolos, indicando destruição em massa, — apontava para as escrituras. — e o círculo, indicando um raio específico, agem com o fluído vermelho, que indica a espécie.

Steve se afastou dois passos.

— Oh, você entendeu, não é mesmo? — Asmodeus fingia surpresa. — Não vai ser doloroso. Prometo.

Disse duas ou três palavras desconhecidas e, ao tocar no círculo, viu os olhos de Steve serem iluminados, assim como a boca. A casca, agora sem demônio, caiu de joelhos e então desmaiou. O rapaz sobreviveria, afinal de contas. E com sorte não lembraria de nada.

Agora sozinho, ainda sentindo a presença de Annie no porão daquela casa esquisita, o Príncipe da Luxúria disse, quase balbuciando, contente por sua loucura:

— Sacrifiquei todos os meus homens para evitar que mais criaturas indignas saibam dessa garota maldita. Espero que não seja em vão.

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— Fique parado, meu rapaz. — O policial disse. Única coisa que Paul ouvira. Não entendia porque estava sendo detido. Mais um desacato, talvez? Porra, não sabia. O vinho deixava tudo tão gostoso.

O uniforme azul do cara parecia fluorescente, mas provavelmente era também efeito do álcool. De costas, Paul ouviu o click da primeira alça da algema e, antes que pudesse ser totalmente dominado, sentiu a visão do olho esquerdo apagar. Enxergara preto por apenas um olho! O outro também falhou um segundo depois e ele se foi. Caiu sobre o carro. O corpo estirado, desfalecido.

— Rapaz?

Sem resposta, o policial não cerrou a outra parte da algema e sacudiu Paul Ramal, buscando acordá-lo. Foi quando Sohfar tomou o controle. Em um só pulo, levantando agora seu corpo, o anjo chutou o policial, ainda de costas. Virou-se, o encarou e socou o rosto do homem. Socou de novo; e mais uma vez.

Agora no chão, com o nariz quebrado, sem conseguir reagir a tempo, o uniformizado fora arrastado e então lançado com atrocidade ao início do conjunto de matos altos que cercavam toda a estrada 101 em seu lado esquerdo — o direito consistia em também mato; porém com pedaços de terreno devidamente capinado em alguns pontos, casas em construção e um número considerável de duplex, recém-inaugurados e aguardando compradores — lá, teve seu pescoço quebrado ao atingir, com força angelical aplicada, uma pedra. Sohfar não percebeu.

Avaliou a viatura do cara nocauteado e, ao perceber a chave no banco do motorista, decidiu dirigir; mesmo não sabendo. O que ele sabia, tinha certeza, realmente, era que conseguiu sair ileso de sua visita ao céu. Aquele demônio maldito (Ascodeus?) pagaria, sem dúvida, por tê-lo enviado de encontro a seus superiores, mas isso ocorreria quando sua força fosse recuperada.

Agora, ele tinha de fazer alguma coisa para despistar os anjos que atraiu até Criptal. E faria; com a viatura em seu controle. Entrou no veículo. Dirigiu, a princípio perdido, muitas vezes em ziguezague, buscando sentir alguma energia distinta, para que pudesse agir. Não podia negar que estava fraco, apesar de não querer aceitar o fato.

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Annie agora permanecia calada. Minutos torturantes se passaram enquanto ouvia algo estranho em uma língua estranha (já se interessara por Latim, mas não conseguia, de jeito algum, identificar), sendo molhada e tentando se soltar. Desistiu. Não adiantaria. Os caras realmente achavam que ela tinha algo de ruim dentro de si (tinha?). Ryan ficou um tempo quieto, mas novamente voltou ao seu ritual. Antes disso, pedira a seu sobrinho que trouxesse um castiçal pequeno de duas velas, para que vissem o rosto da “possuída”. Acender qualquer iluminação, deixando que a menina os visse, poderia ser perigoso. Apenas ela deveria ser iluminada. Daniel obedeceu ao tio, mesmo sem entender muito bem o motivo. Superstição?

Segurando a vontade de chorar, gritar, se soltar e explodir o mundo inteiro, Annie respirava devagar, tentando manter a calma. Seria possível?

Ryan perdeu a paciência depois de mais algumas tentativas.

— Só não te soco até que saia à força, porque este corpo pertence à neta de Marta.

Não, não seria possível. Com uma fúria cada vez mais crescente, a híbrida esperneou. A lâmpada no centro do cômodo se acendeu. Ela viu. Viu muito bem. Seu grito, recheado de ódio, fez Ryan voar ao outro lado do porão, atingindo o castiçal posto estrategicamente perto da cama por Daniel. A chama das velas, inofensivas, ganharam uma intensidade sobrenatural e começaram a lamber o chão de madeira. Gemendo, no chão, o exorcista gritou para o sobrinho apagar aquilo o mais rápido possível. Ao mesmo tempo, todos ouviram barulho de vidro sendo despedaçado, acima deles, na casa.

(Obra do maligno!!!)

Obra de uma quinta pessoa que chegara àquele terreno...

O fogo, no porão, — lar de poeira, aranhas e palco de exorcismos — ficou fora de controle. Obra realmente de Annie, dessa vez.

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— Não acreditei até que senti minhas legiões sucumbirem.

Não, o desgraçado não poderia estar ali...

— Bom trabalho, Príncipe da Luxúria.

Asmodeus virou-se. Abaddon não era um encarnado, porém se apegara àquela casca loira com olhos tão azuis que fitá-los por muito tempo dava uma sensação de extrema agonia. Vê-lo era mais do que nostálgico. Sempre o mesmo. Sempre.

— Já devia imaginar que cedo ou tarde esbarraria em você. — Asmodeus disse, quase atroz. — Mas o nojo não consigo evitar, apesar disso.

Abaddon sorriu. Dentes perfeitos. A casca envelhecera bem, mesmo com uma criatura perversa em suas entranhas.

— Você é patético, Asmodeus. Digno de pena. — E a hostilidade começa. — Começando pelo fato de já ter tido um presentinho de Deus.

Ah, ele quer dizer alma.

— Inveja é a especialidade de Leviatã, sabe bem. — Temos a ironia também. — Mas sei reconhecer quando acompanhada de ressentimento, amigo Abby.

Abby verificou o terreno manchado de sangue antes de continuar.

— O fato é que você foi criado apenas como, vejamos, um substituto. — Olhava para o solo. Quando voltou a encarar Asmodeus, proferiu a maior ofensa:

— Você não pertence ao inferno.

O Príncipe da Luxúria riu. Ora, ele pouco se fodia para o inferno. Não era ofensa alguma, no final das contas.

— Graças a Deus por isso. — Gargalhou antes de prosseguir. Que irônico, que irônico! — Não sou putinha de Lúcifer. Putinha abandonada, é correto enfatizar. Todos os que acreditam nas palavras dele, uma hora ou outra, se decepcionam. Estou errado?

— Ingrato.

— Antes ingrato que subordinado, Abaddon. Olhe para você. — Asmodeus apontou para o Cavaleiro. Julgava o cara inferior por diversos motivos, porém o que mais chamava atenção agora, além da tentativa frustrante de parecer superior, era a roupa comum. Blusa pólo azul-marinho e jeans. Veste-se como um maldito anjo em terra. Falta classe.

— Você, parceiro, ainda busca por um objetivo. Colocou toda a sua fé em um anjo caído. Não percebe o erro?

— Você não está desde o início! — Abaddon não escondia a irritação. — É o filho mais novo do Rei. Apenas um bastardo que não entende o que é importante. E jamais entenderá.

— Seu Rei abandonou o importante, não acha? — Pausa dramática. Sorriso debochado no rosto.

Ah, babaca. Grita mais, grita mais.

— Seu Rei sempre desistiu. Foi expulso do Paraíso, levou anjos à ruína, criou um reino de fogo e, não satisfeito, começou a produzir aberrações. E desistiu de tudo isso.

— Você também é uma aberração. — O babaca rebateu. — Não há diferença aqui, Asmodeus, não há.

— Eu existo. Essa é a diferença. Eu tenho um corpo e apenas tive minha alma corrompida. — Continuava sorrindo. Como adorava isso! — Mas você é um conjunto de nada. Precisa pular de casca em casca. Pode ser mais resistente, levando em consideração que sobreviveu ao meu feitiço, mas não anula o fato que...

Abaddon berrou, irritado. Fez em pedaços todas as janelas da casa. De alguma forma, conseguiu tocar no que Asmodeus não conseguira. Ultrapassou os limites impostos por Ryan.

— Sua arrogância impede a criação de alianças importantes. — A raiva do loiro parecia ter desaparecido. — Você não pode tudo. Não pode fazer o que quiser. Espero que entenda logo.

— Então é verdade. — Asmo franziu a testa. — Você está com Hael. E, mesmo com aliança tão absurda, idolatra esse patriotismo para com o Inferno.

Houve uma pausa. Ambos escutaram um grito vindo da parte de baixo da casa. Se entreolharam.

— O que planeja com a anomalia? — Abaddon soltou.

— Que péssimo. — Asmodeus retrucou. — Híbrida é tão mais simbólico.

Ignorando, o Cavaleiro do Inferno apenas continuou:

— De certa forma, com você eliminando todos os demônios dessa cidade, fomos nivelados...

— Nivelados? Você realmente crê que sou seu...

— ...apesar de ter forjado que matei o namorado da garota e...

— ... oponente? Tudo é muito preto e branco para você.

— ... sabemos que não o fiz. Asmodeus, não sei o que almeja. Você não está com gehenna. Foi atraído no mesmo instante que todo o resto. Por que o interesse?

Ver Abaddon confuso era maravilhoso. Jamais fui atraído quando Annie virou modinha. — pensou, rindo internamente com a empolgação de uma criança ao usar um termo engraçado — Estou na vida dessa garota-problema desde o dia em que ela nasceu, desgraçado. Mas de detalhes você jamais saberá.

Ter sido presente — mas ainda assim oculto — na madrugada do dia 25 de Outubro de 1993 foi uma jogada de mestre. Asmodeus tratou de deixar Annie oculta de todos. Usou de um feitiço que, surpreendentemente, a menina rompeu assim que se apaixonou perdidamente por aquele idiota (Matthew?) agora morto, vinte e um anos depois.

Quando decidiu conversar com sua protegida, tentou invadir a mente da mesma e consertar a bagunça. Mas Annie o expulsou. Agora não tinha mais jeito. O plano tinha que continuar. Já deixou a manceba pensar que Abaddon havia assassinado Matt — e não sentiu reação alguma vindo dela. Por que ter ódio do que não conhece, nunca viu e jamais soube da existência, não é mesmo?

Precisava então conversar mais. Outra investida na mente confusa, talvez?

Mas a híbrida estava sob a posse de dois exorcistas loucos.

Aliás, outra questão a ser levantada é como o loiro a sua frente soube tão precisamente da primeira parte de seu plano. Adam era um traidor? Talvez Steve?

(Não importa. Todo filho da puta de olho negro foi extinto dessa cidade. Demorará até que novas legiões sejam reagrupadas.)

Palavras confusas saindo da boca de Abby tirou Asmodeus de seus pensamentos. Imediatamente, a casa de Ryan foi circulada por uma parede de fogo que nada consumia, mas permanecia ali, bloqueando a passagem.

O Cavaleiro do Inferno lançou novamente seu sorriso perfeito.

Ambos foram surpreendidos, em seguida, com um barulho de explosão. Um clarão surgiu, um pouco longe dali, em algum ponto da cidade.

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Foi fácil para Sohfar encontrar a rua que levava à Praça Principal da cidade e de lá, podia sentir, mesmo de longe: havia um grupo de quatro anjos. Torceu para que sua aura estivesse fraca o bastante para que não pudesse ser percebida e acelerou. Pegou força o suficiente até chegar finalmente ao local e, pisando firme no acelerador, rompeu com o carro uma cerca baixa e atingiu com fúria os quatro homens.

Saiu do carro, sentindo-se louco, com a cabeça doendo e uma vontade de vomitar sinistra. Correu; não temendo ser visto por alguém, já que era madrugada, porém sabendo que os caras poderiam se recuperar rápido, até mesmo os dois que ficaram quebrados sob o veículo. Após sair do gramado da praça, com a perna um pouco dolorida devido a pancada, adquiriu forças o suficiente para que, liberando suas asas brancas invisíveis na terra, — porém o farfalhar podendo ser ouvido — pudesse voar dali. Assim o fez.

Se manteve em um telhado, ainda próximo ao local e focou-se. Um tempo depois, a viatura da polícia explodiu, lançando chamas pesadas, incendiando pontos específicos e destruindo de vez qualquer chance de recuperação por parte dos angelicais malditos. Receptáculos devidamente mortos. Sangue escorria de seu nariz. Pessoas da cidade foram despertas de seus sonos.

— Minha distração mais divertida. — Disse, limpando o sangue com naturalidade. — Espero que eu tenha aprendido alguma coisa com Sheila.

Ao sentir os pensamentos assustados de moradores, decidiu voar dali. As câmeras da praça estavam em manutenção; um problema a menos. De nenhuma maneira queria ser visto.

Notas finais
Abaddon chegou à Criptal! Conhecido nos primeiros capítulos, em flashbacks, junto aos pais biológicos de Annie — Eligor e Ariel — o que acham que ele deseja agora? Tivemos também algumas novas informações sobre aquela noite de Outubro de 1993. Aparentemente há mais peças importantes sobre o passado que serão encaixadas com o tempo. Curiosos? Alguma teoria de conspiração? haha Mais coisas estão prestes a ficarem claras. Obrigado por continuarem acompanhando, pessoal. Em breve teremos mais.