“A mente é um fogo a ser aceso, não um vaso a preencher”.

Plutarco

Maravilhado com o espanto de Abaddon ao ver o clarão no horizonte, Asmodeus sorriu. Sabia que, assim como ele, o loiro arrogante tinha conhecimento que tal luminosidade estava carregada de energia.

— Não é natural. Sabe, não é? — Disse, debochado. — Se não há mais demônios por Criptal, só podem ser seus novos amigos alados.

Sem responder, o Cavaleiro do Inferno se retirou, sumindo no ar, bem aos olhos da Luxúria encarnada. Quase no mesmo instante, o demônio que restou farejou fogo.

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Pela primeira vez, Annie não se assustara com o uso de sua força. Pela primeira vez, tinha conhecimento que

(Céus, está bem quente aqui.)

sim, ela acendeu a lâmpada; ela nocauteou seu exorcista e ela, sim, cara, realmente começou o incêndio.

— Pegue-a! — Ryan bradou a Daniel. — Agarre-a pela cabeça, se for preciso, mas expulse esse demônio!

Subiu então o lance de degraus, disposto a conseguir quaisquer panos e, com eles devidamente molhados, combater o incêndio. Não via algo tão ruim desde Isabella e

(Não. Pare! Não há por que pensar em Isabella. Não, não há por que comparar!).

Ao sair do porão, fechando a porta que ligava o lugar à sala de estar, presenciou uma sensação que poderia sim se comparar à Isabella.

(Por Deus, homem, pare de pensar nisto!)

Sentiu todo seu corpo se arrepiar ao ver todas as janelas que cercavam o cômodo quebradas. Não era um arrepio qualquer. Era forte. Impossível não pensar em Isabella. Annie a lembrava, de alguma forma. A situação também era tão parecida...

(CHEGA!!!)

Tentando ignorar seus pensamentos, caminhou, devagar; o coração batendo forte. Céus, o próprio demônio parecia estar ali e não no porão! Será que se enganara? Impossível!

Viu Asmodeus.

Sob seus pés, algo acontecia. Annie, enquanto Daniel repetia palavras em latim — ao mesmo tempo em que o fogo crepitante aumentava —

(Certo. Imagine como da última vez. Daniel me segurando, Daniel no ar, Daniel no chão. Vai! Imagine!)

cogitava usar sua força de vontade (soava, para ela, melhor que poderes) novamente para se livrar daquilo tudo.

Daniel no ar. Daniel no chão. Aconteceu, de fato. Quando notou que o rapaz poderia se machucar em meio ao fogo — tudo sendo uma questão de reflexo — conseguiu conter as chamas. Em dois segundos tudo mudara. Só sobrou a escuridão.

— RYAN! — O garoto gritou.

Suava frio. Tremia. Não poder ver Annie alimentou um desespero devastador dentro de seu peito. Ela apagou o próprio incêndio para matá-lo no escurinho, enquanto ria e entrava em contato com outros parceiros demônios que, sem dúvida, o receberiam de braços abertos no inferno. Não era óbvio? Que Deus o ajude! Morrer tão cedo!

A garota — sem demônio dentro de si, já que era metade um — só tinha como objetivo, na verdade, se livrar das cordas apertadas em seus pulsos e calcanhares. Usou sua forte imaginação (outro termo mais apropriado) para desatar os nós das cordas e, finalmente, estava livre!

Passos foram ouvidos. Passos de corrida. Ryan — tio, exorcista, sensitivo e amedrontado por pensamentos — voltou ao porão. Acendeu a única lâmpada, pendurada torta no local. Parecia duas vezes mais velho. Pálido. Confuso.

— Tem mais um aqui! — Disse, nervoso.

Por cinco segundos, Annie visualizou Asmodeus em sua mente. De ímpeto, soube que era ele, mas não podia explicar como. Parecia estar, pela primeira vez, confiando em sua força; acreditando que poderia fazer o que quisesse; entendendo todos os segredos do universo!

— Chega. — Ela disse.

Avistou o crucifixo usado primeiro por Ryan, depois por Daniel, jogado no chão. Pegou o objeto. Colocou em seu pescoço, como se portando um colar finíssimo — daqueles que só se consegue pela internet, pagando no cartão de crédito e que, de forma alguma, jamais seria encontrado em Criptal ou em qualquer cidade ao redor desta.

Em seguida, sendo essa sua ideia mais brilhante, pegou a pequena garrafa que era usada (tendo três furinhos em sua tampa) para molhá-la e, após abri-la, bebeu o conteúdo de Água Benta que restara. Já era o suficiente, correto?

— Não tenho nada me possuindo.

Eles acreditaram.

— Vocês conhecem Asmodeus? — Fez uma pausa. — Ele é um verdadeiro demônio e o cara está aqui. — Concluiu o show de horrores; pelo menos até os próximos minutos, que acabaram sendo, com toda a certeza, os mais loucos vividos por ela até aquele momento. Asmodeus estava ali e ela não estava mais disposta a ouvir barbaridades naquela madrugada.

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— Meu Deus, eu...

A Lua crescente brilhava. A noite se encontrava perfeita para bebedeiras, exorcismos... Explosões, talvez? Certamente.

... MERDA! — Paul gritou, se dando conta que estava em um telhado. Piscou várias vezes para ter certeza. Sua cabeça girava e seu estômago eliminou tudo o que continha quando olhou para baixo e sentiu o fardo de estar, literalmente, nas alturas. Sohfar retomou o controle no fim da gorfada.

— Isso é inaceitável. — Disse, limpando o canto da boca e observando o conteúdo pastoso-líquido escorrer telhado abaixo. Nojento.

Se levantou e não conseguiu permanecer em pé. Não só porque estava em um telhado onde, obviamente, as telhas não o manteriam estável, mas pelo fato de seu receptáculo estar completamente chapado.

— Quando tudo isso acabar, juro por Deus... — Parou por um instante, sentindo que algo subia do seu estômago. Segurou. — Juro que arrumo um jeito de tirar a idiotice desse cara. Vá se foder, Paul Ramal.

Vomitou, não mantendo o controle necessário. Quando terminou, respirou fundo por algum tempo, refletindo que estava realmente ferrado. Consumiu o restante de sua força ao explodir aquele veículo (não via as chamas em direção alguma; pelo visto estava longe da Praça Principal. Caramba... ainda estava em Criptal, ao menos?) e o evento que confirmou sua fraqueza acabara por ser este: não tinha mais tanto domínio sobre sua marionete humana e sentia os sintomas da bebedeira do cara, quando não deveria.

— Que maldição... — Balbuciou, sentindo mais vômito subir. A boca se encheu, no entanto, ele engoliu tudo, sem se importar. Foi quando uma pontada de sensação o atingiu. Aquilo... Aquilo parecia muito com o que ele sentia ao ver Matt e Annie se beijando. O garoto despertava o melhor nela, incluindo os poderes. Como classificar?

(Angelical...?)

Angelicalmente demoníaco, isso. Era como Sheila dizia. Estranho, mas, no final das contas, adjetivava bem o todo.

Ficou mais um tempo ali, recuperando seus ânimos e finalmente seguiu seu rumo, em busca de sua sensação, alguns minutos depois.

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Annie foi a primeira que saiu do porão, apressada, subindo as escadas, abrindo a porta e dando de cara com um cômodo cheio de cacos de vidro espalhados. Ali, teve a total certeza que seu demônio-carrasco estava presente. Não dentro da casa, mas fora.

(Oi querida)

Ouviu em sua mente. A blindou em seguida, sem saber como. Não deixaria aquele cara entrar novamente.

Ele está lá fora. — Pensava. — Ele está me esperando.

Olhando bem por uma fresta de uma janela despedaçada, percebeu que havia fogo no quintal de Ryan. O apagou com facilidade, imaginando um balde de água gigante inundando o local. Sentiu pontadas em sua cabeça e compreendeu que o demônio, mesmo sem vê-la, a pressentia e queria invadir novamente suas ideias. Idealizou que nunca mais deixaria. Jamais voltaria a sentir aquelas ilusões terríveis provocadas por ele. Chega!

Finalmente caminhou alguns passos, olhando pela sala e chegou até uma janela próxima, na lateral esquerda do imóvel e com vista para o quintal. Lá estava ele, com o cabelo na altura dos ombros balançando com a leve brisa.

▬▬▬

Não levou muito tempo para encontrar a fonte de sua sensação. Apesar disso, nada poderia fazer.

(É O FILHO DA PUTA!!)

Ao ver o homem de terno que, há duas semanas, o havia humilhado e, pelo visto, também acreditado que o teria eliminado para sempre pois, antes, o dera diversas informações, sentiu um ódio controlável. Tinha que se conter, contudo, se quisesse continuar vivo. O fogo que cercava a casa não era nada natural. Totalmente demoníaco. Cheio de trevas. Um tempo depois, porém, ele fora extinguido. Sohfar decidiu apenas esperar na esquina, no outro lado da rua, para ver o que viria a seguir.

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O fato é que ela sabia. Não sabia racionalmente, claro, mas algo em sua essência tinha certeza do que deveria ser feito. E assim o fez.

Apesar de tudo — sequestro e o que veio após — o conhecimento da inocência de Ryan e Daniel era claro, transparente como vidro. Asmodeus era o verdadeiro inimigo naquele pedaço de terra. O sentia tão próximo que, querendo ou não, parecia estar conectada ao homem-demônio. Aceitando ou negando, o encontro que os dois tiveram — na noite da morte de Matt — havia sido intenso. Ele mexeu com a cabeça já confusa dela. Sim. Definitivamente.

Agora, duas semanas depois, o vendo por entre pedaços remanescentes de vidro da janela estilhaçada, a sensação era mais de raiva que terror. Matt morto a irritava. Andrea surtando a irritava. De alguma forma, desconfiava que o exorcismo fora ocasionado pela presença constante do engravatado e isso também a irritava. Ele nunca a abandonara? Não o sentia, mas Ryan, exorcista, sensível, o raio que o parta e afins havia, como quem nada quer, encontrado algum resíduo demoníaco nela? Mas, vejamos, ela também não era metade demônio?

(Dane-se!!! Dane-se!!! Dane-se!!! DANE-SE!!!)

Apontou seu braço para o homem, ao mesmo tempo em que, pela visão periférica, notou seus sequestradores subindo do porão. Carregavam, cada um deles, uma mochila. Seu membro superior direito, porém, parecia mais... (carregado?) forte. O apontou. O usou. Duas sacudidas e, apenas imaginando o ato, derrubou Asmodeus, o levantando do chão antes. Saiu da casa com os dois (Psicopatas? Idiotas? Malditos?) amigos.

— Pegarei o carro. — Ryan correu em seus calcanhares para a lateral direita do terreno — a esquerda continha um Príncipe da Luxúria jogado, surpreso — carregando também a mochila do sobrinho.

Annie, impulsiva, decidiu contornar e ir de encontro ao demônio. A seguindo, Daniel tocava em uma pistola perfeitamente oculta por sua blusa azul, também presa no jeans escuro.

Asmodeus se levantava, meio sorrindo, meio parecendo confuso e, sem dúvida, orgulhoso. A híbrida tinha de usar sua força. Cedo ou tarde, contudo, seria totalmente dominada por ela. Telecinese não é para qualquer um, pequena infeliz.

Dan sentiu seu revólver mover-se em sua calça. A esse ponto, Ryan entrava no Corolla prateado enquanto Sohfar, observador, tentava ver o que ocorria. Parado na esquina, atrapalhado por uma árvore, contava mais com seu instinto que qualquer outra coisa. Paul gemia em sua mente.

(Não posso perder o controle, merda, não posso! Não agora! Se aquiete, Paul! Fica na sua, bêbado de merda!)

Com a sorte a favor deles, Annie notou os rápidos três segundos que se passaram em que a arma — brilhando à luz da Lua — saltou do contato corporal de Daniel para o ar, indo em direção ao (filho da puta) capeta. Rodou o dedo indicador direito. A arma rodopiou no ar, o cano agora ficando na direção do bem-vestido-homem. Movendo o mesmo dedo, como se estivesse pressionando o gatilho, fez um disparo.

Surpreendido, porém atento, Asmodeus desviou-se com a rapidez de um leopardo, praticamente desaparecendo no ar. O revólver caiu. O sobrinho do exorcista, por um reflexo, foi até seu item e o agarrou com força. Apontou.

— Vai para o inferno! — Gritou.

Gastou os cinco projéteis restantes na aberração engravatada e, com sorte, uma bala atingiu o alvo.

Buzina. Buzina. Buzina de novo, de novo e novamente, apitando, berrando.

Paul-far, mais próximo da casa desde o primeiro disparo — mas ainda do outro lado da rua — viu o homem grisalho dentro do veículo, demonstrando certo desespero.

Asmodeus sentiu, de imediato, todo o seu corpo arder terrivelmente. O buraco recém-aberto (próximo ao umbigo, supôs pela dor latejante) começava a atrair sangue a ser vazado. Annie, certificando-se que conseguiria escapar, se focou novamente em usar seu braço direito para levitar, lançar ao ar e derrubar (que sensação maravilhosa!) o infeliz agora baleado. Conseguiu.

Buzina. Buzina. Buzina.

No mesmo momento que a híbrida e Daniel correram ao Corolla, Paul-far atravessou e, vendo o amigo, sem fazer qualquer pergunta, Annie o empurrou para dentro do veículo. Quatro dentro; um demônio fora. Partiram.

Notas finais
Com os últimos acontecimentos, temos uma híbrida, dois exorcistas e um anjo dentro de um Corolla. O que sairá disso? haha A história continuará se desenvolvendo no ritmo apropriado. Esperamos que estejam gostando. Até o próximo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.