"Dizem que o luto ocorre em cinco etapas. Primeiro vem a negação, seguida pela raiva. Então, barganha e depressão. Para muitos, o estágio final é a aceitação. Para mim, o luto é uma prisão perpétua sem clemência".

Emily Thorne (Revenge)

Apesar da cortina rosa estar perfeitamente posta na única (e grande) janela do quarto, os raios solares invadiram o ambiente e acordaram a jovem Annie. Que dia maravilhoso!

Levantou-se e fez um coque com o belo cabelo negro enquanto avaliava no espelho o quanto sua cara estava amassada. Se sentia ainda mais feia pela manhã, apesar de Matt, seu belíssimo namorado, dizer o quanto ela era linda. Nem aqueles maravilhosos olhos verdes poderiam enganar alguém dessa vez.

— Estou horrível. — Murmurou, ajeitando as sobrancelhas.

Ligou o rádio e rebolou ao som da música desconhecida enquanto deixava a luz solar invadir seu quarto por completo. Ao abrir a janela, sentiu o delicioso ar fresco invadir suas narinas. Farejando o sucesso! Que dia maravilhoso!

Sua avó apareceu na porta (quando diachos ela havia aberto aquilo?) e a olhava como se estivesse vendo um fantasma.

— Bom dia, queridinha. — Annie cantarolava, dançando e farejando o sucesso.

Pobre Marta. Parecia não estar sentindo aquela vibe deliciosa. Mal respondeu a neta e foi se apoiar em uma coluna no fim do corredor, quase não conseguindo respirar. Que dia não maravilhoso para ela.

Annie dançou por mais alguns segundos enquanto procurava seu telefone, mas não conseguia encontrá-lo. Provavelmente esqueceu junto ao vestido provocante que usou para Matt na noite anterior.

Abriu o armário e qualquer vestígio do dia maravilhoso foi para o inferno (com total uso da ironia). Não fazia idéia de como fora anestesiada daquele jeito, mas não pôde mais escapar. Provavelmente o maldito demônio havia lhe dado poucos minutos de prazer, que foram anulados ao ver aquele maldito tomara-que-caia pendurado.

Matt estava morto. O amor de sua vida parecia uma massa cinzenta congelada. Lembra de tocar na pele do rapaz e sentir todo o seu corpo se arrepiar. Os olhos quase revirados ainda estavam vivos em sua lembrança. A boca semi aberta, que nunca mais poderia emitir som algum...

Atrás dela estava o tal Asmodeus (Príncipe do Inferno?) observando todos os seus passos. Mais uma maldita lembrança.

— Vovó?! — Berrou, com a voz trêmula.

Gemeu nervosamente até que saiu do quarto e viu Marta a olhando, aflita. Afinal, aquilo tudo o que vivera havia sido verdade? Descobriu que sim quando a avó soltou um agoniante:

— Eu sinto muito, meu amor.

Annie sentiu sua visão escurecer e se apoiou na parede azul. Se a ultima coisa que se lembra fora de tocar o cadáver — pensar em tal palavra a arrepiava sempre — do namorado, como acordou no seu dia maravilhoso? Como sua avó sabia do ocorrido?

Aliás, aquele era mesmo o ocorrido? Não seria só um pesadelo? Talvez Marta ainda estivesse falando do surto de Andrea do dia anterior. Claro que sim.

— Matt era um bom menino. Nem consigo imaginar como Denise deve estar se sentindo.

Claro que não.

Annie via a avó com os braços cada vez mais cruzados, olhando para o nada, evitando o máximo possível contato visual e idealizou que, realmente, sua vida estava acabada.

Marta sempre encarou suas aflições — uma filha esquizofrênica era a maior delas — e quando agia daquela forma, certamente a situação não era nada boa. O choro da morena aumentava de intensidade a cada tentativa de consolo vinda da senhora loira-grisalha.

— Deus sabe o que faz, minha neta. Sei o quanto dói perder um amor. Eu sei, sua mãe sabe. Mas...

Deus poderia ter alguma coisa a ver com aquilo? Não de acordo com Asmodeus (era realmente esse o maldito nome?).

— Vó, eu... Eu não consigo! Eu não consigo, não consigo! — Seu corpo tremia, seus pêlos se arrepiavam e seu desespero aumentava.

Caiu de joelhos, sem forças, chorando compulsivamente. Marta se manteve forte o suficiente para levantá-la e abraçá-la sem também se romper em lágrimas.

— Nathan já teve o suficiente de traumas. — Disse. — Nós também, mas... Bem, ele é uma criança.

Annie concordou com a cabeça, enquanto secava as lagrimas e fabricava outras.

— Um amigo meu, Ryan, tio de um colega de classe de teatro do Nathan, se ofereceu para levá-lo daqui. Ele ainda não sabe.

— É... — Soluçou. — É o melhor pro meu pequeno. De-epois conversaremos com ca-alma...

Marta beijou a testa da neta tão forte que quase voltou aos tempos em que a menina tinha a idade atual de Nathan. Aquela jovem mocinha de olhos verdes...

Mesma época em que contaram sobre a adoção. Sobre o quanto a amavam, apesar de não compartilharem do mesmo sangue. Época em que David, ótimo pai e fiel marido, ainda era vivo. Andrea; saudável. Em resumo: épocas de ouro.

— Ryan está lá embaixo, junto com o sobrinho, Daniel. O mentor do nosso pequeno, sabe? — Marta disse, serena. — Nathan passar um dia na casa deles será o suficiente para que reorganizemos nossas vidas, sem preocupá-lo.

Annie viu a avó concluir o assunto, andar até o fim do corredor e descer a escada. Voltou a seu quarto e, observando da janela, viu um Corolla '94 prata estacionado em frente a casa. Um garotinho feliz, seu pequeno, cumprimentava um cara loiro, bem jovem. Aquele deve ser Daniel.

Um homem bem mais velho, grisalho e alto acenava para alguém vindo de dentro. Marta chegou, o abraçou e parecia duas vezes mais aflita. E aquele, Ryan. Velho demais para um nome tão século XXI.

Annie fechou a janela. Annie respirou fundo. Annie queria fazer e apenas o fez. Quando concluiu que ninguém a ouviria; gritou.

▬▬▬

Do outro lado da cidade, Paul não queria se levantar. Sua cabeça latejava insuportavelmente. Estava se apagando do mundo com frequência nos últimos meses — o que sempre julgou ser obra do stress e da pressão —, mas nunca por todo aquele tempo do dia anterior.

O pior de tudo foi ter acordado em um casebre, sem memória, sem fazer ideia de como chegara ali. Andou por pelo menos um quilometro até que um policial o encontrou e o levou para casa. Chegara, e, mais desesperador que um sermão, foi ouvir um calmo "Conversaremos amanhã".

O amanhã chega para todos.

— Paul. Paul, levante, agora. — Anunciou uma voz feminina, enquanto a dona da mesma dava batidinhas nervosas na porta do quarto.

Paul levantou bruscamente e precisou se sentar, sentindo a visão escurecer. Respirou fundo, percebeu que as batidinhas cessaram e torceu para que o pai não se irritasse muito. A mãe, poderia apenas não concordar tanto com o marido.

Abriu a porta depois de cambalear ao ficar de pé e, ainda com as roupas da noite anterior, foi até a cozinha; lugar de todas as reuniões do tipo você vai ouvir por horas e concordar com tudo.

— Vamos começar com o fato de que nem ao menos a roupa trocaste para dormir. — Abraão; pai, marido e extremamente conservador disse, com as mãos cruzadas e apoiadas sobre a mesa de granito.

A seu lado, sentada, Sônia; mãe, esposa, dona de casa e extremamente submissa ao marido.

Paul se sentou em frente aos pais, tentando ao máximo prestar atenção. Sabia que se desviasse o olhar, ouviria mais.

— São nestas horas que acabo por suporr que sou um péssimo pai. — Abraão começou. Sotaque português aflorando.

Não posso revirar os olhos. Contato visual. Não posso olhar para o lado. Foca e tudo vai dar certo. Olhe bem para eles! Olhe, seu idiota!

Paul traçava notas mentais ao mesmo tempo em que tentava ouvir cada palavra dita. Difícil. Sua cabeça doendo incessantemente dificultava todo o processo de seleção de informação.

Uma pergunta absurda de seu pai o fez prestar atenção:

— Estás se drogando, Paul?! Depois de todos os conselhos e palavras amigas que eu e tua mãe lhe demos?

Paul riu, olhando para o cabelo negro do pai já com muitos fiapos grisalhos. Reparou nos olhos castanhos. Ele realmente se parecia com aquele quase-velho ranzinza. Pelo menos fisicamente.

— Vinte anos desde que nasci e o senhor realmente não conhece o filho que tem.

Sônia lançou um olhar reprovador à sua cria.

— Conheço o suficiente para saber que estás diferente. — Abraão retrucou. — Com certeza não és o filho que criei. Tens se tornado imprudente desde que se juntaste àquela moça com pais escarnecedores.

Ele não disse isso. Meu Deus, ele não disse!

— Pai, eu... — Paul se perdeu em uma risada, sem completar qualquer linha de raciocínio.

Abraão apenas continuou:

— Se um homem se deitar com outro homem, como se fosse com mulher, ambos terão praticado abominação...

— ... certamente serão mortos; o seu sangue será sobre eles. — Sônia completou o versículo citado pelo marido. Tão perfeitamente que pareciam ter planejado.

Paul respirou fundo e pôs as mãos sobre o rosto, tentando pensar. Não tinha conhecimento do que ocorrera na noite anterior, mas sabia que não era culpa dos pais de Sheila. Como poderia ser?

Começou a rir e não conseguia se controlar, apesar de concentrado para não irritar os pais. Os princípios cristãos não faziam sentido algum em sua mente. Não na maioria das vezes. Acreditava em Deus, mas não acreditava nas barbaridades que a suposta palavra Dele propunha. Ver o pai proferir tais coisas com tamanha certeza o dava certo nojo. E por que Sônia não se impusera? Já havia dito antes que Will e Roberto eram corajosos por criarem uma menina que não era fruto de nenhum deles. Havia dito, entre outras coisas, que admirava o casal, apesar de não concordar com o “estilo de vida” deles.

— Não entrarei nessa discussão novamente. Conheço Sheila praticamente minha vida inteira. Os pais delas são pessoas de bem e em momento algum me fizeram mal. — O tom de voz do rapaz aumentou, sem muita intenção do mesmo. — Vocês sabem a história de vida deles. E é ridículo os colocarem em meio a uma situação que se diz respeito a mim. Unicamente à minha pessoa. E além do mais...

Abraão socou a mesa de granito com o punho e interrompeu o filho. A respiração de Paul estava desregulada. Estava nervoso e surpreso por estar falando tão bem. Seu rótulo de palhaço havia desaparecido. Se sentia confiante o suficiente até que seu pai o pôs em seu lugar com uma simples batida sobre um objeto. Voltou por um instante à época — antes de Abraão se tornar membro da Igreja Presbiteriana de Criptal — onde o pai frequentemente agredia sua mãe e o pequeno Paul assistia, sem poder fazer nada.

— És maior de idade, está estudando e pode ter sua opinião. Mas elas vão contra os princípios do Pai e, enquanto estiver sob o meu teto, abaixarás o tom de voz. — Abraão anunciou.

Paul decidiu apenas ignorar o preconceito exposto pelos pais, apesar da tamanha injustiça. Lembrou-se de quando Sheila, loira e um tanto arrogante, se apresentou para ele na escola. Depois de algumas horas de conversa, a menina contou sobre os pais gays. Sobre o tio Roberto que a adotara quando sua mãe — e irmã do rapaz — faleceu ao dar a luz à ela. Sobre Will, seu segundo pai, tão amoroso quanto o primeiro.

— Temos total convicção do que estamos a falar. Tanto que Sheila, infelizmente crescida sob podridão e pecado, se rebelou contra seus criadores. — Abraão disse.

— Do que está falando? — Paul perguntou, vendo a hora no relógio pendurado na parede da cozinha. Oito e dez da manhã.

— Acordei com uma ligação de William. Sheila não voltou para casa ontem. — Sônia disse. — Paul, por Deus, onde você estava, por que chegou de madrugada e como não sabe de tudo o que aconteceu?

Paul olhou para a mãe, que parecida absurdamente aflita. O que exatamente significava aquele tudo o que aconteceu?

— Eu apenas não me lembro. — O jovem confessou.

— Voltemos ao assunto das drogas. — O pai insistiu.

— Pai, pelo amor de Deus, não! — O filho gritou.

E se levantou, indo para pia, abrindo a torneira, molhando as mãos e em seguida as passando pelo rosto, como se estivesse tentando tirar qualquer imundície que bloqueasse suas lembranças.

— Marta também ligou, porém ainda na noite passada. Annie estava sedada. Matt sofreu uma fatalidade. — Sônia anunciou.

— O quê? — Paul se voltou novamente para os pais. — Matt? Ele está bem? Meu Deus, meu Deus!

— Fatalidade, meu filho. Matt faleceu. — Abraão suspirou após dizer.

Paul tentou falar alguma coisa, mas falhou. De repente, jurou ter visto um homem de terno e gravata esfregando as mãos. Sheila passou por sua mente. Sua cabeça parecia doer duas vezes mais. Sentiu sua respiração desregular novamente e precisou se sentar para que não desmaiasse.

▬▬▬

Um frasco de perfume foi a primeira coisa que estourou. Então, o espelho se partiu em dois, as portas do guarda-roupa se abriram e a cama parecia ter se movimentado alguns centímetros. Foi o suficiente para deixar Annie completamente apavorada.

Do lado de fora da casa, lá embaixo, um cara grisalho conseguiu ouvir alguma coisa.

— Marta, ouviu isso? — Ryan perguntou, franzindo a testa.

Todos, incluindo Daniel e o pequeno Nathan, viram quando um troféu prateado atravessou uma janela, quebrando-a, e se espatifou perto do Corolla do cara-grisalho. Duas bolas, antes em cima do objeto, rolaram para longe.

— Vó, não é o troféu de boliche da Ann? — Nathan perguntou, enquanto ria da cena que vira.

Marta, perplexa, ordenou:

— Nathan, fique aqui.

E correu para dentro da casa o máximo que pôde, se esquecendo que não era mais tão jovem. Ryan a seguiu após lançar um olhar de fique aí para Daniel, seu sobrinho.

Annie chorava desesperadamente no quarto. Tinha um pequeno corte que sangrava em sua testa.

— Vovó, por favor... Por f-fav-or me ajuda! — Implorava.

Marta arregalou os olhos e foi até a neta. Annie se tremia, totalmente sem controle. Lembrava agora de cada palavra de Asmodeus. Lembrava de Matt morto e desejava estar morta também.

Como, como acordei em casa? Eu não me lembro de nada! Não vim para cá! Aquele cara arrumou isso tudo! O que aconteceu, o que aconteceu?!!!!

Marta pegou uma calcinha jogada no chão e a colocou sobre o corte na testa da neta, enquanto a envolvia com os braços. Reparou, enquanto ainda a ouvia chorar e soluçar, que muita coisa agora estava fora do lugar. Como Annie poderia ter feito tudo àquilo em poucos minutos? Será que perder um amor, assim como Andrea, levaria Annie à esquizofrenia? A doença também seria desencadeada na sua netinha de olhos verdes, apesar de não compartilharem os mesmos genes?

Ryan observava as duas, parado na porta do quarto.

— Vovó... Vó, por favor. O que aconteceu? O que aco-onteceu? — Annie balbuciava, soluçava, gaguejava, sofria. — Como eu cheguei em casa? Como eu dormi?

— Annie... Você estava tão bem ontem à noite. — A loira-grisalha disse. — Estava em choque, na realidade. Me perdoe, meu amor, me perdoe por ter lhe dado aquele comprimido. Tudo está explodindo agora, quando não deveria.

— Como eu cheguei aqui?! — Annie gritou dessa vez, saindo dos braços da avó, se libertando da calcinha. — Eu não pude vir andando! Eu não me lembro! Eu acordei bem! Eu não sabia de nada! Como?!

Ryan se arrepiou completamente quando a menina começou a gritar. Algo estava muito errado. Ele podia sentir. Havia uma... energia?

Começou a reparar na situação atual do quarto e tocou no terço em seu bolso. A menina poderia estar...?

Annie se calou alguns minutos depois. Agora jazia em sua cama com um band-aid especialmente posto por Marta em sua testa.

— Tem certeza que prefere ficar com ela? — Ryan perguntou à Marta; ambos fora do quarto.

— Mas claro, ora bolas. — Ela riu. — Nathan não se importará de ir sozinho. Eu iria voltar para cá, de qualquer jeito. Annie precisa de mim.

O velho demais para um nome tão século XXI assentiu, porém concluiu o papo com um sonoro e cruel:

— Tome cuidado.

E desceu a escada em seguida. Marta o acompanhou.

— Vamos, moleque. Vamos, vamos, vamos. — Daniel disse, dando tapinhas amistosos nas costas do pequeno de Annie quando viu seu tio chegar.

Marta se certificou que o neto colocasse o cinto de segurança e observou o carro sair de seu lote e seguir para a estrada. Então, correu de volta a casa. Não percebeu Ryan fazendo o sinal da cruz ao se retirar com o veículo.

▬▬▬

Três da tarde — sete horas após a conversa com seus pais — Paul tomava banho. Sua dor de cabeça parecia que nunca iria passar. Tomou dois analgésicos de uma só vez, em meio ao desespero. Sentia como se alguém estivesse entrado em seu cérebro e bagunçado tudo (o que faz sentido, não é mesmo?).

— O que aconteceu ontem, meu Deus? — Murmurou para si mesmo, enquanto gastava o sabonete sem ao menos perceber, o esfregando em sua barriga peluda com todo o vigor.

Pensava em como Annie deveria estar. Devastada, no mínimo. Tentou ligar para a amiga muitas vezes, mas o celular da mesma sempre dava como desligado. Também não conseguia falar com Marta. Sheila, ainda não havia aparecido, supôs.

Duas batidinhas na porta.

— Filho? Filho, se ajeite, rápido. — Sônia disse.

Antes que Paul pudesse responder, Abraão gritou:

— Rápido! Há três senhores aqui!

Saiu do chuveiro, se secando o mais rápido que pôde. Esqueceu da cueca, vestindo somente uma bermuda bege e gasta e uma camiseta pólo vermelha — roupa que escolheu para o funeral de Matt. Nem ao menos pensou em usar preto.

Foi para a sala com o cabelo ralo totalmente molhado e lá estavam os três senhores. Dois policiais com seus uniformes azul-marinho e um terceiro homem, com uma roupa social não muito confortável e um distintivo em seu peito. Um dois azul-marinho era o homem que o trouxe de volta a sua casa, na tenebrosa noite anterior.

— Paul Ramal, correto? Sou o delegado Criptal e viemos para intimá-lo a acompanhar-nos até a delegacia.

Delegado Criptal? Parente de Erick Criptal? Aquele cara da estátua que a cidade sempre dá um jeito de vandalizar?

Paul perdeu o foco de novo, navegando em pensamentos desnecessários para o momento.

— O que aconteceu? — Ele perguntou. — É sobre Sheila? Ainda não a encontraram? Eu tenho um funeral para ir, moço. Um dos meus melhores amigos acabou de falecer.

— A cidade é pequena, rapaz. — Criptal disse. — Sabemos sobre a situação dos Lemon. Mas infelizmente terá de nos acompanhar.

Abraão não olhava pra o filho. Parecia acreditar que seu descendente havia feito algo de errado para a menina dos pais escarnecedores. Mesmo assim, o acompanhou com sua esposa Sônia até a delegacia. E que seja o que Deus quiser e permitir.

▬▬▬

Annie recebera cumprimentos de adolescentes conhecidos, desconhecidos e adultos que sabiam do namoro de Matt. Não conseguiu falar com Denise desde o momento que chegou. A mãe do falecido só conseguia chorar, enquanto era amparada pelos familiares. Alex abraçou a nora por algum tempo, mas nada conseguiu dizer. Agora, a jovem de olhos cor-de-esmeralda seguia junto às dezenas de pessoas para o local do enterro. Túmulos cercavam todos, enquanto andavam sobre o chão de pedra. Annie não conseguia mais chorar, o que era perturbador. O peso que estava em seu peito, pressionando toda a sua alma, poderia ser pelo menos aliviado se algumas lagrimas saíssem. Mas não.

Sentiu uma mão tocar seu ombro direito e, a seu lado, viu Debby. Pela primeira vez em muito tempo, não sentiu repulsa alguma. Agora tinha mais com o que se preocupar. Debby talvez nunca tenha sido um problema verdadeiro.

Se surpreendeu quando a menina beijou seu braço e se infiltrou mais para o meio da multidão. O caixão de Matt estava logo a frente, porém Annie não aguentava olhá-lo. Ainda não conseguia acreditar naquilo tudo. Olhou para o céu, tropeçou sem querer e reparou que o sol estava começando a se pôr. O hospital havia demorado a liberar o corpo, provavelmente para descobrirem o motivo da morte. Infarto. Um infarto havia retirado seu namorado de sua vida. Ou não. Aquele cara de terno, Asmodeus, tinha dito que Abaddon estava envolvido nisso tudo. Annie não sabia no que acreditar. Também não queria acreditar em nada. Annie só queria que aquilo acabasse antes do sol se pôr totalmente. Definitivamente não queria ficar num cemitério a noite. Preferia tentar chorar em casa.

Abriu sua bolsa de mão, procurando um lenço e encontrou seu celular, perdido há um tempo. Não ligou para como nem porquê ele foi parar ali. Não fazia mais questão de respostas. Pressionou o botão do Motorola meio ultrapassado e, após ligá-lo, recebeu diversas mensagens. Todas anunciando ligações perdidas. Todas as ligações, de Paul. Meu Deus... Paul. Ele não está aqui.

Ao guardar o celular, viu um vulto passar por entre os túmulos esquerdos. Parou. As seis pessoas que encerravam a multidão de Matt passaram a sua frente. Annie respirou fundo. Se aproximou mais e um garotinho, aparentando ter uns sete anos e com um cabelo liso jogado na testa, exalando fofura, pulou para a frente da moça.

— Você me assustou, rapazinho — Annie disse, fungando e se sentindo uma boba paranoica.

— Descupa. — A criança disse, mordendo seu lábio inferior.

— Preciso ir. Volte e ache seus pais. Não é legal ficar sozinho por aí. — Advertiu a moça.

— Pera. Posso te perguntá uma coisa?

Annie sorriu, curiosa.

— Claro que pode.

O garotinho sorriu.

— Você sempre vai nos funerais de suas vitimas?

E mostrou olhos completamente negros após algumas piscadas rápidas. Annie deixou um gritinho escapar e se afastou. Olhou para a multidão já um pouco longe e então encarou novamente a criança. Depois correu, se enfiando no meio das pessoas, tentando encontrar alguma segurança.

Quando o caixão começou a ser rebaixado para a cova onde Matt jazeria talvez por toda eternidade, Denise se aproximou da Nora e a abraçou. Annie sentiu que finalmente conseguiria chorar de novo.

As flores foram lançadas. O leito do jovem Lemon desceu completamente. Dois homens cuidariam agora de encher aquele buraco de tristeza com terra. Conforme algumas pessoas começaram a se retirar — umas lançando olhares tristes e sorrisos de angústia enquanto outras diziam para Alex e Denise se manterem fortes — a ficha de Annie começara a finalmente cair. O estágio da aceitação havia chegado, talvez? Seu celular apitou duas vezes. Som de mensagem.

— Minha querida. — Denise tocou o braço da jovem. — Você entrou na vida de Matt de repente e o conquistou também rápido demais. Apesar disso, eu sei o quanto gosta dele. Ou gostava, não sei...

Annie sentia sua boca tremer e seus olhos começaram a se encher de lagrimas.

— Eu o amo. Algo assim não pode ser apagado, não pode ser morto. — A moça já portava uma voz de choro.

Conseguiu ver a emoção nos olhos da senhora Lemon.

— Eu sei. — Ela suspirou. — Não estou mais em condições. Preciso de um calmante, preciso relaxar. — Soltou um risinho nervoso. — Não conseguirei falar com você por tanto tempo sem que eu desabe. Eu só... — Mais uma breve pausa. —Eu só gostaria de lhe entregar isso. Ao que parece, Matt estava trabalhando em algo com antecedência.

E então beijou a bochecha direita de Annie. Alex contornou a esposa com o braço e ambos, junto com o restante de amigos e familiares que os esperavam, começaram a voltar por onde vieram, dispostos a saírem do cemitério. Mais um ciclo de vida encerrado.

▬▬▬

Paul chegou na delegacia — no veículo de seus pais; Abraão não achou necessário que o filho fosse visto em carro de policia — por volta das quatro e dez da tarde. Conseguiu mandar duas mensagens para Annie e pelo menos cinco para Sheila antes de sua mãe ordenar que ele desligasse o celular e prestasse atenção no que o pai dizia. Ele não prestou.

— Será que vão demorar muito? Minhas mensagens não estão chegando, eu acho. Preciso de mais sinal.

— Me ouviste, Paul? — Abraão gritou. Percebeu a euforia, pausou e continuou. — Se te acusarem de algo, diga que sabe dos teus direitos e mande-nos falarem conosco para que chamamos um advogado.

— Certo. — Paul disse, seco, sentindo o celular em seu bolso e se incomodando com o fato de não estar presente no velório de Matt. E Sheila, meu Deus? Onde esta Sheila?

O intimado e seus pais esperaram por mais cinco minutos. Pela forma com que os policiais os abordararam, o interrogatório não deveria ser urgente?

Descobriram o motivo da demora quando Roberto saiu de uma sala e apareceu na recepção. Abraão desviou o olhar, enquanto Sônia viu filho dar seu telefone para ela ir na direção do homem.

— Seu Roberto, por favor, diga que não acredita que eu tenha feito algo de ruim para Sheila.

O homem soltou um riso nervoso.

— Estou preocupado com minha filha, Paul. Falei o nome dos amigos dela e pedi para que o priorizassem devido ao que aconteceu com filho dos Lemon. — Roberto disse. — Não estão acusando ninguém. Só quero informações dos que estavam com ela ontem. Ainda não se completaram 24 horas, e, logo, não podem nem ao menos declará-la como desaparecida.

Roberto acenou para os Ramal, deu três tapinhas no ombro de Paul e se retirou.

— Senhor? Entre, por favor. — Delegado Criptal saiu de sua sala, convocando.

▬▬▬

Onze e quinze da noite Annie se deitou. Onze e dezesseis já via em sua mente Matt no caixão, vestindo sua camiseta pólo preferida. Onze e dezessete já chorava novamente.

Onze e vinte e um o choro cessou e ela reparou em uma rachadura em sua mesa de cabeceira. Horas mais cedo, seus gritos fizeram seu quarto praticamente sair do lugar, mas ela nem ligou. Viu isso quando encontrou Asmodeus — e descobriu que é uma híbrida?. Também reparou em algumas coisas quando viu Matt morto em seus braços, embora não tenha certeza se fora obra dela ou daquele homem de terno.

Onze e meia se levantou em um pulo, se dando conta que ainda no cemitério ouviu seu celular apitar algumas vezes. Percebeu também que não vira o que Denise havia lhe dado. Pôs tudo em sua bolsinha de mão e só pensava em sair daquele lugar.

Onze e trinta e dois viu duas mensagens no visor de seu celular. Ambas de Paul.

Minha amiga, me perdoe por não estar presente. Estou com alguns problemas.

e

Você sabe de Sheila?

Não, ela não sabia de Sheila. Céus, Sheila também não estava no funeral! O que estava acontecendo? Discou o número de Paul mas o celular do amigo já tinha sido desligado por Sônia pois, onze e trinta e quatro, o rapaz já estava preso.

▬▬▬

— Então, Paul. Posso te chamar pelo primeiro nome? — Delegado Criptal começou.

Paul apenas assentiu com a cabeça.

— Qual foi a última vez em que esteve com Sheila? Ela comentou algo?

— Estávamos no restaurante Lemon. Comemos uns sanduíches naturais. — O rapaz disse. — Ficamos com Annie e Matt, até que ele desmaiou do nada e ela foi atender uma emergência.

O delegado o encarava sério. Paul começou a pensar se deveria contar que, depois que Matt desmaiou, ele não se lembra de mais nada do que fez.

— O senhor não fica com frio?

— Perdão?

O desmemoriado apontou para o ar condicionado e o delegado continuou, ignorando as sentenças anteriores:

— E depois? Vocês saíram ou...

Paul Ramal poderia inventar alguma coisa; dizer que saiu sem Sheila e foi para a casa de um amigo. Tantas mentiras na ponta da língua para, no fim...

— Eu não lembro.

Criptal franziu a testa.

— Não lembra? Espere, vamos recapitular. — Ele disse. — Dia fresco, ensolarado, férias de verão, Junho, bom parasair com os amigos. O que vocês comiam mesmo?

— Eu estou sendo acusado de algo? — O rapaz perguntou.

— De maneira alguma. — Criptal se ajeitou em sua cadeira. — Só estou tentando lhe fazer lembrar de algum detalhe importante.

— Eu não machuquei minha melhor amiga. — Paul disse. — E não acredito que alguém o tenha feito. É Criptal. Nada acontece em Criptal.

O delegado riu. De uma certa forma era engraçado ter o nome de seu lar.

— Onde está Sheila, rapaz?

— Se eu soubesse, falaria. — Olha aí o tom de voz do garoto querendo aumentar pela segunda vez no dia! — Já posso ir? Não tenho mais o que dizer.

E se levantou da cadeira. Seu coração batia forte. Matt faleceu, nem ao enterro ele pôde ir; Sheila sumiu; nada mais se lembra; delegado sendo irritante e rindo do que ele dizia. Chega. E essa maldita dor de cabeça? De novo?

— Sente-se, por favor. Ainda não terminamos.

Paul permaneceu parado de frente à porta. Lembrou do seu pai arrogante tentando impor absurdos na vida dele. O ódio cresceu em uma proporção que, a única coisa que conseguiu dizer foi:

— Por que não vai se foder?

E foi preso por desacato à autoridade.

▬▬▬

Após não conseguir falar com os amigos, Annie pegou o pedaço de papel de sua bolsa. Uma carta?

Claramente era um rascunho. Rabiscos existiam por toda a extensão da folha amassada. Apesar disso, eram as palavras de Matt. Palavras que nunca poderiam ser ditas pessoalmente. Palavras do amor de sua vida. O homem que acabara de enterrar.

Você sabe que não sou muito bom com as palavras, que coloco virgulas erradas e que, acabo me expressando mal sempre. Apesar disso, sei o quanto você curte essas pequenas coisas e faço qualquer coisa por sua felicidade.

Minha pequena, te amo tanto que chega a doer. Passamos tanta coisa juntos que mal consigo imaginar como eu viveria longe da minha morena de olhos verdes. Amo você, amo sua família (apesar de achar que Nathan ainda não vai muito com a minha cara) e nunca quero vê-la sofrer. Nunca nunca mesmo.

Hoje é seu aniversario e, ate o momento em que escrevo essa carta, não pensei em um presente digno. Outra coisa que sou ruim. Alias, como você consegue amar um cara tao ruim assim? Chega a ser cômico. Não consigo ser romântico por muito tempo, não sei dar presentes, não gosto daqueles filmes antigos enormes. Tudo o que você gosta e é. Ainda assim, sinto que sou amado. E te agradeço por isso.

Quando nos casarmos (por favor, que não seja em Criptal), será que podemos mudar nossos votos? Não consigo suportar o "até que a morte nos separe", porque eu estava morto antes de te conhecer. Fiquei morto por anos, Annie, até que nasci, quando me encontrei em seu olhar. Me encontrei quando te conheci. Achei meu lugar nesse "mundão cruel", como você mesmo diz, quando te conheci.

E agradeço a Deus todos os dias por te ter aqui comigo.

Feliz Aniversário, meu anjo.

Te amo demais.

– Matt

Annie apenas chorou, até adormecer.

Notas finais
Capítulo mais longo até agora. E há mais a caminho. Esperamos que não seja um problema para vocês. hahaha Vimos neste que houve uma divisão entre Annie e Paul. Ocorrerá possivelmente em outras ocasiões em que as tramas — sempre importantes para o desenvolvimento — também estejam separadas. Esperamos que tenham gostado e pedimos que comentem o que estão achando da história até o momento. Interagir é sempre gratificante para quem escreve, tenham certeza. "Luto" foi o último capítulo do ano, então nos vemos em 2016. Desejamos boas festas à todos e, apesar de termos um pouquinho de cada, sempre melhor deixar o lado mais obscuro quietinho nessa época, certo? hahaha Muita luz para o ano novo que se aproxima! Até logo! #RIPMatt