Está na hora de abrir o ultimo presente, da minha mãe por sinal, que o comprou em uma loja Hobby Store. Sei exatamente o que trouxe em uma desmesurada caixa, todavia que não demonstro isso no meu rosto. Começo a rasgar o embrulho, Angie e Lou estão lavando os talheres da festa, minha mãe está sentada olhando-me. Quando retiro da caixa a Raggedy Ann, dou um sorriso, agradecendo pelo presente. É uma boneca de colecionador, raríssima por sinal, estando apenas encardida. Ainda não acredito que minha mãe a achou. Possui grandes olhos negros, cabelo vermelho, nariz triangular também vermelho, usa um vestido branco e meias, listradas. Ela é enorme. Coloco-a em cima da cadeira de balanço. Minha mãe mora com meu irmão no outro lado da cidade e sempre vem ao meu aniversário, hoje estou completando vinte e oito anos. Já está tarde e me despeço dela, digo que vou visitá-la no final do curso de enfermagem que está iminente.

*****

Parece até estranho uma mulher adulta ter uma coleção de bonecas no seu quarto, mas não acho. Quando fecho a porta decido ajudar meus amigos que estão na cozinha. Lou sempre foi meu amigo, desde a escola, mora apenas algumas quadras longe do meu apartamento e sempre que pode vem visitar-me. Já Angie, conheço há quatro anos, desde o início do curso. É minha amiga e companheira de quarto.

Quando chego à cozinha vejo os dois sentados, tomando um café. Vejo o contraste que há entre eles. Angie é branca e possui longos cabelos louros, já Lou é moreno.

­- Peço desculpa pessoal, estava com minha mãe e nem ajudei vocês a lavar a louça – digo.

– Não se preocupe, hoje é seu aniversário – indaga Angie graciosamente.

Mesmo assim é errado deixar os convidados na cozinha lavando toda a louça, entretanto embolso um sorriso. Resolvo sentar­–me junto aos dois.

­- O que você ganhou mesmo da sua mãe? – Lou interrompe o silêncio.

­-Há... A boneca que – Limpo a garganta – A boneca que carecia à minha coleção.

– E... Você gostou da boneca? – Ele passa as mãos pelo braço – digo... É uma boneca e...

– Lou ela queria a boneca, é de coleção, não é para ela ficar brincando. – Angie cutuca Lou.

– Não se preocupe, no seu aniversário do ano que vem compro uma para você – Digo sorrindo a Lou, que fica sem jeito.

– Nem se atreva

E começamos a rir do nada, fazemos isso às vezes, talvez por loucura, ou seja, lá o que for. De repente ouvimos um barulho vindo da sala. É o barulho de alguém se balançando na cadeira. Uma sensação de medo invade a cozinha, será que alguém entrou no apartamento? Mas quem invadiria um local, apenas para sentar-se?

–Vocês estão ouvindo esse barulho?- sussurro aos dois que estão ao meu lado.

– Estou, vou dar uma olhada, fiquem aqui- diz Lou, também sussurrando.

–Eu pulo pela janela, caso veja alguém, e não estou brincando- Angie fala com a mão na boca.

A cadeira de balanço ainda está em movimento, pois o barulho não cessa. Angie e eu vamos para o fundo da cozinha e deixamos Lou ir finalmente, ainda o incentivamos a levar uma faca consigo mesmo, mas ele não aceita. Ele passa pelos corredores e chega à sala, apreensivo.

– Podem vir aqui, está tudo bem- Lou olha espantado para a cadeira.

Angie e eu saímos da nossa posição e andamos em direção a Lou. Vou à frente, já que Angie ainda está meio paralisada de medo, todavia que vai se esvaindo aos poucos. Quando chego uma risada brota da minha garganta, Angie também relaxa quando vê a boneca balançando-se.

–Essa boneca só pode ser amaldiçoada, está se balançando sozinha- Lou olha-me com preocupação.

Fico com medo. Não pode ser verdade, uma boneca? Ela parece tão inofensiva. Fico inquieta, assim como os meus amigos, mas logo me tranquilizo quando vejo a janela aberta. Está ventando, o tempo está muito fechado, cheio de nuvens, jaze prestes a chover. Angie olha para a janela também.

– Não precisa disso Lou, a janela está aberta, está ventando e fez com que a cadeira meneasse. – Angie volta à expressão graciosa de sempre.

Vou até a janela, analiso o tempo e vejo que a noite será chuvosa. Moramos no quinto andar apenas, entretanto consigo ver o bairro praticamente todo e boa parte do horizonte, devido os apartamentos e casas adjacentes serem baixas. Vejo ainda pessoas apressadas, em busca de suas casas para evitarem ficar presas em algum outro local que não seja as moradias. Fecho a janela de vidro e reposiciono as cortinas no devido lugar.

–Pronto, sabia que era só o vento da janela, queria apenas colocar medo em vocês. – Lou diz de uma maneira não convincente.

–Sei – Digo sarcasticamente.

Depois desse acaso resolvemos nos sentar e assistir um filme na televisão e poucos minutos depois Lou resolve ir para casa, para não chegar muito tarde. Angie ainda faz cerimônia para que fique e peço para passar a noite no apartamento, e que o quarto de hóspedes está disponível, mas Lou diz que deixou sua mãe sozinha e não avisou que dormiria fora. Quando resolve sair, ficamos sozinhas no apartamento, Angie passa a tranca na porta.

–Donna, se não se importa irei tomar banho e dormir- Angie boceja.

–ah, não. Pode ir já ia me retirar mesmo, o dia foi puxado hoje.

Angie retira-se. Desligo a televisão e espero minha amiga sair do banho, para ir em seguida. Penso no dia de hoje e nas férias do fim do ano. Meu irmão Antony, Angie, Lou e eu pensamos em passar as férias na Europa, embora não tenhamos decidido aonde. Estamos perto do fim do ano e marcaremos um dia para decidir. Temos opiniões divergentes a respeito do lugar que passaremos alguns meses. Gosto do Reino Unido, Antony da Itália, Lou da França e Angie da Alemanha. Por esse motivo, chegamos a um bom senso, decidindo que escolheremos uma região oportuna, que aparecerá no momento certo.

Angie sai do banho e entro em seguida.

*****

Quando estou prestes a dormir, lembro-me da boneca, minha Raggedy Ann ainda está na cadeira, devo coloca-la na estante com as outras bonecas. Acendo as luzes do meu quarto e da sala, pego-a e volto para meu quarto. Coloco a boneca sentada no móvel acima da cama e resolvo dormir. Fico ouvindo o barulho da chuva que respalda sobre a janela do quarto até cair no sono. Sonho que estou no apartamento de Lou, ele está gritando, com a mão no peito. Sua camisa está manchada de sangue e começa a se debater. Fico perplexa, sem reação. Tento ajuda-lo, todavia que não consigo, estando paralisada. De repente sinto algo no meu pescoço e fico sem ar, Lou ainda está no chão, agora olhando para mim com um olhar vazio. Sinto mãos em minha garganta. Agora vejo que são as mãos de uma menina loira, parecida com Angie, mas com um rosto triangular e olhos também vazios diferentemente dos de Angie que são vivos e alegres. A menina sorrir maliciosamente para mim e diz em meu ouvido ´´Eu quero apenas brincar com você``.