Acordo banhada de suor, tive um pesadelo horrível e não quero recobra-lo. Sinto como se ainda estivesse com as mãos daquela menina no meu pescoço, passo as mãos nele, respirando fundo. Fazia um tempo que não continha um pesadelo, na verdade um bom tempo. Decido levantar-me, para lanchar. Angie ainda deve estar dormindo, já que hoje é sábado e não estudamos no sábado. Ainda com sono, vou em direção à cozinha quando piso em algo macio. Minha Ann está jogada no chão, deve ter caído de cima da cômoda. Junto-a e vejo que suas mãos estão molhadas, deve ter passado a noite em cima de uma goteira, até lembrar-me de que esse não é o ultimo andar... Não tem como haver goteira, pode ser então uma infiltração de agua que passou pelo g... Isso não importa. Decido levar a boneca até a cozinha. Coloco minha Ann na cadeira à minha frente, vou à geladeira e pego o necessário para mim e Angie. Coloco tudo sobre a mesa.

Resolvo sentar-me. Coloco em uma tigela o cereal e o leite, começo a comer.

–Tomando café com a boneca?- Angie está em pé em frente à cozinha com seu pijama.

–Venha sentar conosco- digo esbouçando um sorriso- Ela estava no chão e decidi traze-la para cá.

Ela senta-se à mesa ao lado da Ann e começa a tragar uma torrada. Angie está com os cabelos loiros presos em um lápis e ainda está com sono, pois boceja esporadicamente. Não é muito de falar a mesa, entretanto puxo assunto.

–Você... Vai sair hoje?- Olho para ela.

–Não, mas estava a fim de ir... – Angie aprecia a boneca- Ô, Donna... Você movimentou essa boneca?

Assim como Angie, que está ao lado da boneca, miro meus olhos em direção ao brinquedo, que está com os braços levantados, como uma criança que anseia os braços da mãe. Novamente uma tensão espalha-se no ar, entretanto, para aliviar o clima resolvo mentir.

– Sim, fui eu- mordo o canto da boca – desculpa ter assustado você.

– Ainda bem, pois já estava acreditando no que Lou disse ontem, mas enfim, vou à biblioteca daqui a pouco, você quer ir? – Angie termina o lanche e abaixa os braços da boneca de pano.

– Quero sim, vou tomar um banho, depois você vai.

*****

Estou esperando Angie no sofá da sala, às vezes demora um pouco para aprontar-se. Quando sai do banheiro fui à cozinha e trouxe a boneca para sala. Penso na expressão de Angie, penso no momento também. Não me lembro de ter jogado a boneca na cadeira para ficar naquela posição, ou quem sabe foi Angie tentando pregar-me uma peça? Deve ter sido a segunda opção. Repreendo o pensamento negativo e determino assistir televisão. Angie está pronta, descemos as escadas em direção ao térreo. Os elevadores estão com defeito ultimamente e não pretendo ficar presa nele. Vamos de ônibus, pois nenhuma de nós possuiu carro.

*****

De volta ao apartamento, Angie mostra o livro que pegou emprestado. O Apanhador no Campo de Centeio. Ela me conta que é a terceira vez que vai lê-lo, conta a história, desde a saída da biblioteca. Estou com vontade de manda-la calar a boca, mas contenho-me. Quando chegamos ao quinto andar, abrimos a porta e um bilhete, carta está na cômoda. É um papel rasgado com uma escrita vermelha.

–O papel, parece pergaminho... Está escrito salve Lou – Angie começa a rir- Deve ter sido ele, já que tem a chave reserva do apartamento.

–Mas parece a escrita de uma criança... Feita com giz de cera vermelho... E onde teria achado pergaminho? – falo com um tom de preocupação.

– Mas não tenho certeza, talvez nem seja pergaminho-Angie contrai os lábios e pensa um pouco.

Vasculho o recinto com o olhar e foco o sofá. Onde será que está a minha boneca? Quando sai, deixei-la sentada sobre o sofá. Talvez Lou tenha a escondido.

Toc Toc Toc

Alguém está batendo na porta do meu quarto, no entanto, do lado de dentro. Angie desperta do transe com o bilhete, colocando-o sobre a cômoda.

Donna tem alguém no seu quarto... Tenho certeza que Lou está nos pregando uma peça – Diz de uma maneira não convincente.

–Então vou apenas espiar pela fresta da porta — caminho em direção ao corredor.

–Espera, não tenho certeza, não é melhor irmos... Está certo, vou com você. – Me segue nas pontas dos pés.

Escrupulosamente, caminho no corredor. Desde o começo da moradia de nós duas no apartamento, a porta do meu quarto possui uma rachadura média, que possibilita a visão completa do lugar. Angie sussurra em meus ouvidos que há outro bilhete, justamente aos meus pés. Recolho-o. Está escrito ´´salve-se` ` em vermelho num papel resistente. Coloco o olho esquerdo na fresta, não vejo ninguém, apenas minha boneca sentada na cama, olhando para frente. Não mexo um músculo, um arrepio percorre meu corpo.

A boneca que permanecia parada mexe o pescoço e olha exatamente para a porta. Gotas vermelhas parecem sair de suas mãos e do seu peito, essas gotas se transformam em um liquido e escorre pela cama, fazendo veredas no chão. O liquido chega aos meus pés, parece sangue.

–Isso é sangue nos seus pés? O que está acontecendo aí dentro Donna- Angie recua alguns passos.

Continuo paralisada de medo, parece que uma bola de algodão está na minha garganta. Apenas afasto-me da porta. Agora Angie observa silenciosamente, sua respiração começa a pesar.

–Não vejo ninguém, apenas sua cama que está molhada de... Sangue eu acho. – ela amarra os cabelos e tenta abrir a porta- está trancada.

Não pode ser a boneca estava sangrando em cima da cama, eu vi, sei que não estou maluca. Olho novamente e solto um grito. A Ann está em pé diante da porta olhando pra mim.

–Angie, vamos embora daqui, a boneca está viva- digo andando de costas não retirando o olhar da porta.

Angie começa a correr em direção à porta da sala, quando se fecha sozinha, brutamente. Ficamos diante a porta, dando chutes e socos, sem resultado.

–Só quero brincar com vocês- uma voz de criança ressoa no apartamento- Venham brincar comigo.

Desta vez a boneca está no sofá olhando para nós. Começamos a gritar por socorro, quando alguém abre a porta, é Lou.

Notas finais
Deixem nos comentários o que precisa ser melhorado, deixem sua opinião.