Annabelle- A Boneca Demoníaca
3 Donna: Saudades minhas?
Estamos em um quiosque em frente ao nosso apartamento. Contamos toda perturbadora história a Lou, desde o primeiro momento. Ele analisa o conto em silêncio fazendo uma ou duas perguntas ao máximo, entretanto, sem alarde.
–Acho que vocês estão exagerando, ou tentando me enganar – diz suavemente – Vamos pelo menosvoltar ao prédio...
–Eu não volto para aquele lugar amaldiçoado, com aquela boneca amaldiçoada- Angie ainda está em estado de choque.
Depois do incidente, Lou nos abordou à porta do apartamento. Nós estávamos muito eufóricas e nervosas, Lou até queria entrar, mas fechamos a porta e imploramos para conversar do lado de fora. Agora, enquanto Angie fala com Lou, penso no dia de ontem, a boneca estava realmente se balançando na cadeira, ela levantou o braço e não duvido nada que tentou matar-me asfixiada.
–Eu insisto vocês estão me assustando, se for realmente...
–NÃO estamos enganando você – Lou é interrompido por Angie
–Vamos ao apartamento então- finalmente falo, depois de um bom tempo calada.
Tento e convenço Angie a voltar onde tudo ocorreu que, se não vencermos o medo, ele nos perseguirá para onde formos que, se realmente a Ann estiver amaldiçoada, não nos deixará em paz tão facilmente.
Chegamos finalmente ao quinto andar depois de vários lances de escada. A porta está parcialmente aberta e empurro-a por completo, possibilitando uma visão completa da sala. Não vejo absolutamente nada de errado, também não vejo a boneca no sofá... Então... Onde ela está? Lou é o primeiro a entrar, em seguida sou eu e por ultimo Angie.
– Não acredito que vocês me enganaram, eu quase acredit... – Lou novamente é interrompido, entretanto é devido a um barulho vindo da cozinha – aposto que é só o vento – continua a falar.
Ele segue, passa pelo corredor e chega à cozinha. Volta com a boneca na mão.
–Estava no chão...
– Lou a joga no lixo, não quero essa porcaria aqui- digo.
– Vou fazer o seguinte, vou ficar aqui duas noites, para ver se realmente é verdade o que dizem. Sei que existem espíritos, principalmente porque frequento a igreja e sei que o sobrenatural existe, só não sei se este é o caso – Lou coloca a boneca em uma cadeira de madeira que fica na sala – posso ficar no quarto de hóspedes, isso se vocês não se importarem.
– Claro que pode ficar você é bem-vindo, especialmente quando não teríamos um lugar para ir, ainda mais que está prestes a anoitecer – Angie alegra-se.
–Mas você não tem medo? – prendo meu cabelo, retirando-os dos olhos.
– Um pouco, não se preocupem. Vou em casa primeiro, para pegar o necessário, depois volto- Lou esboça um sorriso.
Enquanto Lou se foi, ficamos na lanchonete localizada ao térreo e pedimos sanduiches. Angie pede um hambúrguer e peço o mesmo. Ficamos em silencio, não falamos da boneca em momento nenhum. Depois de trinta minutos, Lou retorna e ficamos muito melhor. Pagamos a conta e voltamos para casa.
A porta desta vez está fechada, fico mais segura, agora que Lou passará algumas noites no nosso apartamento. A boneca está no mesmo lugar. Hoje não quero deixar a boneca no meu quarto, muito menos no quarto de Angie. Resolvo coloca-la dentro de um armário que fica na sala, sendo de tranca fecho-a e coloco a chave na poltrona. Já está ficando tarde, Lou já se acoplou no quarto e Angie está na cozinha preparando um jantar.
Vou até o corredor e bato na porta, do quarto de hospedes, que está fechada. Lou jaze trocando de roupa obviamente.
Lou está aí? Angie já preparou o jantar – Digo.
Já estou saindo, só um minuto – Indaga Lou.
Apesar de uma hora atrás, Angie e eu tivermos lanchado, comendo um sanduiche cada, ainda permanecemos com fome, também por respeito, por deixar um convidado sozinho.
*****
–Está uma delícia, Angie – Digo, elogiando o jantar.
Lou também concorda e agradece. Angie gosta muito de ser elogiada, principalmente em relação à comida, sei disso pelos quatro anos de convívio com ela. Lavamos todos os pratos depois da refeição, enxugamos e os guardamos. Deve ser umas 10h, está tarde e preparamo-nos para dormir. Fecho todas as janelas e analiso os cômodos. Depois do banho, sendo a ultima a me lavar, resolvo dormir porque amanhã voltamos à faculdade, e durante esse período Lou pode fazer o que quiser.
*****
Já se passaram uma semana sem eventos sobrenaturais. A boneca ainda permanece trancada e estamos em plena paz. Lou já se foi faz alguns dias, achamos que não necessitamos mais da ajuda dele. Angie parece até que se esqueceu da Ann e não fica com demasiado medo.
Finalmente estamos de férias, mas viajaremos no final desse mês, embora ainda não tenhamos determinado o local da viagem. E penso nos dias depois das férias, Angie e eu terminamos o curso de medicina e trabalharemos em um mesmo hospital, localizado a uns sete quilômetros daqui. Nos primeiros anos nos locomoveremos de ônibus e nos anos posteriores já teremos um carro, dividiremos as parcelas dele e não pretendemos nos separar tão cedo. É meio estranho, eu sei, cada uma poderia ter uma família, entretanto somos muito amigas.
Estou sentada assistindo televisão, já é de noite e está chovendo lá fora. As luzes estão piscando, é provável que ocorra um apagão no bairro ou na cidade, também está ventando. Vou à cozinha e pego logo algumas velas. Angie não está mais no banheiro, está dormindo. Nem a vi passar pelo corredor enquanto estava na sala.
Estava certa, apagou todas as luzes da casa e do bairro, pela janela de vidro só vejo a casa dos Stevens com energia, possuem gerador. Também há alguns comércios adjacentes com iluminação. Acendo duas velas no meu quarto, uma em cada lado e deito sobre a cama, colocando os cobertores em cima do meu corpo, deixando apenas minha cabeça livre. Uma gota cai sobre minha cabeça, a água deve ter infiltrado o gesso do teto. Meu lençol é branco e começa a encharcar, todavia que percebo que as gotas que caem não são transparentes e sim vermelhas, olho rapidamente para o teto. Novamente sou impedida de movimentar-me, estou com medo. Não vejo nada, a uma vela ao lado da cama e uma em cima da penteadeira ao lado da porta. De repente um vento percorre o quarto, quase apagando as velas. Vejo de relance as portas do meu guarda roupa, abrindo vagarosamente. Não noto exatamente nada, apenas as roupas penduradas aos seus respectivos cabides.
– Angie – Finalmente, sai algum som da minha garganta, mesmo baixo – Angie – falo mais alto.
Não ouço resposta, deve está dormindo ainda. Angie tem um sono pesado. Uma sombra parece sair de dentro do guarda roupa, está escuro devido a ausência de luz, só que consigo ver um vulto se locomovendo para fora do móvel. Desta vez retiro a coberta e fico sentada por cima da cama. A sombra sumiu, e as portas do guarda-roupa se fecham da mesma maneira como abriram. A velada penteadeira se apaga, ficando apenas acesa à luz ao meu lado. Ouço a respiração de alguém, um som que parece está vindo do meu lado. Ouço o choro de uma criança e começo a rezar.
– Pelo poder de Deus, quero que todo mal que estiver nesse apartamento caia por terra em nome do altíssimo e q...
–VOCÊ NÃO TEM FÉ – Berra uma voz ao meu lado, o choro não cessa e algo me lança ao chão.
–Angie socorro, alguém me ajuda- começo a gritar.
Algo está puxando-me para debaixo da cama e finco minha mão na perna de alguém.
–Angie, alguém
Desta vez alguém abre a porta e ao mesmo tempo a luz retorna. Angie está diante de mim, parece perplexa e ajuda-me a levantar. Ela me abraça e começo a chorar. Alguém está batendo na porta da frente, são pessoas do apartamento.
– Vão embora, só tive um pesadelo- grito até as batidas cessarem.
–Donna, o que aconteceu com você?- Angie não parece muito assustada, devido está dormindo há minutos atrás.
–Tinha alguém aqui, eu vi. Alguém me puxou para debaixo da cama e não parecia ser a boneca.
Conto toda história para Angie que me olha boquiaberta. Até analisamos a boneca que ainda permanece no mesmo lugar. Não sei se realmente era ela, não quero saber. Chegamos a um bom senso e procuraremos ajuda amanhã cedo, nem que chamemos um bispo aqui. Um papel está na janela ao lado de fora, preso a quina do vidro. Abro escrupulosamente e retiro o papel, que está escrito: Saudades minhas? Em um papel que parece ser pergaminho, o mesmo que pegamos no móvel a uns dias atrás, escrito em vermelho, também parece ser escrito por uma criança.
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