Anna e o Renascer dos Mortos-vivos
4 Uma vida em estações: Verão
Notas iniciais
— Anna não vá muito longe! — Numa manhã perfeitamente ensolarada, Deborah suplica ao ver sua filha de apenas quatro anos correndo entre pessoas na feira do vilarejo Sirloom. A menina continua sorrindo e ignorando o zelo da mãe. Por ser a primeira vez que Deborah levara sua filha ao lugar, ela ainda não sabia como a pequena iria se adequar a um lugar com mais pessoas além de apenas o habitual casal.
Os Rampart’s vivem num amplo e deslumbrante vale isolado, no alto de uma gigante colina, entre as colinas e montanhas que rodeiam o vilarejo. O lugar era considerado sagrado e por gerações, apenas os antepassados de Bentley puderam residir. Infrequentemente moradores locais ousavam subir até o vale, não era costumeiro que pessoas visitassem aquelas terras. Graças aos cuidados caprichados e carinhosos das gerações que estiveram ali, diversificadas árvores cresceram ao redor de um enorme lago, uma boa quantidade delas eram frutíferas. A avó de Bentley uma dedicada agricultora, instruiu e doutrinou seus filhos, repassando toda sua sabedoria para cuidar das terras com todo o respeito que ela merece. O vale entre as paredes rochosas, escondiam segredos em suas cavernas, que podiam variar entre pedras preciosas, a minerais comuns e raros.
Na entrada do vale possuíra uma estátua da Deusa Ully, mãe das montanhas e rochas. Muitas dessas estátuas da mesma entidade, encontravam-se nos pés ou nos altos de algumas montanhas espalhadas pelo mundo. Ully também é a Deusa da força e muitos guerreiros ou nobres cavaleiros, rogam por ela antes de grandes batalhas e até mesmo guerras. Apesar de uma vida academicamente recheada de condecorações, entre muitas viagens e estudos. Deborah, assim como Bentley, é nativa de Sirloom. Essa informação pode ser facilmente deduzida por muitos, pois os olhos amarelados da mulher, são uma característica de descendentes Ullyanos. Os filhos das montanhas, como costumavam chamar, conseguiam deixar sua pele tão dura quanto rocha e eram comumente convocados para as guerras, por possuírem esta habilidade tão conveniente para os campos de batalha. Parte das famílias Ullyanas que ainda existem, exercem papeis importantes em diversos reinos, geralmente desempenham as funções de cavaleiros, guardas reais, generais, outros, esporadicamente disputam como gladiadores, de certa forma, estão ligados a sua força e resistência física. Embora descendentes dos filhos das montanhas, nos tempos de agora, é extremamente raro achar Ullyanos de sangue puro. Com o passar das eras, essa tão distinta raça humana montanhesa misturou-se com outras, e parte de seus herdeiros mantiveram a particularidade mais forte de sua genética, que eram os olhos amarelados semelhados a gemas de âmbar. Este último caso é referente a Deborah, que apesar de possuir montanheses em sua árvore genealógica, apenas possui a singularidade de seus olhos. É de conhecimento de muitos reinos, que filhos das montanhas descendem de quatro lugares, as montanhas de Sirloom no Reino de Platina, montanhas Akuniwan no nordeste desértico do Reino de Klerva, montanhas de Santra próximos as praias Sanfino no Reino de Fergorn e Wiba nas montanhas no Reino de Cannor.
Ao caminhar pelas ruas de Sirloom, todas as pessoas que notavam os olhos áureos de Deborah a cumprimentavam. Era costumeiro que reverenciassem Ullyanos independente de mistos ou puros, como uma forma de respeito a Deusa. As casas e ruas do vilarejo foram construídas com tijolos de rocha. Deborah acabara de responder amigável a uma saudação de um morador, quando espia inquieta sua filha, que parecia agora está parada olhando para cima. Acompanhando a cabeça de Anna, percebe que a mesma estava conversando com alguém, um homem adulto. Alargando seus passos, Deborah se junta aos dois.
— Bom dia, algum problema? — A mãe acaricia os lisos e pretos cabelos de sua filha.
— Mamãe, esse senhor disse que meus olhos são estranhos. — Se queixa a pequena.
— Me perdoe se ofendi a pequena dama, — expressou o homem de castanhos cabelos cumpridos, olhos amendoados e de pele negro-claro, vestido com roupas do dia a dia, ele reverencia rápido Deborah ao notar os olhos dourados — sua filha tem olhos incomuns. De onde ela é?
— Ela tem uma condição rara. — Argumenta Deborah, puxando Anna para mais perto, escondendo-a atrás de suas pernas.
— Olhos brancos e coloridos? — O homem reclama um tanto alto, chamando atenção de poucas pessoas q passavam por eles. — O que sua filha é? Ou ela é amaldiçoada?
— Amaldiçoada? Ora não diga bobagens, — defende a poquissonea olhando um certo tumulto se formando e pessoas começando a cochichar — não é uma maldição, é uma... — Deborah só reproduz a primeira palavra que surgiu em sua cabeça — Doença.
— Doença? Pode ser contagioso? — Alarmantemente pergunta o homem.
— Mas se está doente por que não a deixou em casa? — Uma voz feminina ressoa atrás das duas.
— Contagioso? — Um vendedor de garrafas em sua barraca que estava próximo grita e uma pequena confusão estava a ganhar proporções indesejadas.
— Não é contagioso. — Deborah tenta debater, mas as pessoas já estavam em certa desordem e um burburinho já dominava toda a rua. Ela agarra Anna e saem de perto de toda aquela agitação.
— Mamãe, eu vou morrer? — Questiona triste a garota dentro da carroça que sua mãe guiava.
— Não meu amor, você não vai. — Debora responde guiando Tesla, saindo da estrada de terra e indo para o campo gramado que levara as colinas.
— Mas você disse pro senhor que eu estava doente, — ela lamenta entre um biquinho e outro segurando o choro — você falou que a Hada tinha uma doença e ela morreu.
Os olhos cheios de lágrimas da pequena, fez o coração de Deborah trincar e uma onda de decepção de si mesma quase o fez parar de bater. Ela deu o comando para Tesla parar a carroça carregada de produtos em sacos e abraçou Anna. Enxugou o rostinho da garota e implorou.
— Me perdoe, eu não deveria ter dito isto. Você não vai morrer tá bem?
— Você vai fazer um remedinho mamãe?
— Eu vou! — Afirma determinada, um sorriso instantâneo erradicou a tristeza dos olhos prismáticos de Anna, que mostrou seus dentinhos alegres.
— Mamãe é a melhor mamãe do mundo inteiro. — Grita feliz abraçando a mãe, num agradecimento imensurável.
Deborah por outro lado, estava se corroendo em culpa, por fazer a filha acreditar que dispunha de uma doença. Refletindo interiormente, seria uma solução plausível e explicável. Como uma das limitadas poquissoneas existentes, poderia criar uma poção capaz de neutralizar as cores incomuns das íris de Anna. Situações como a que ocorreram agora a pouco, não voltariam a acontecer e sua filha teria uma vida sem mais traumas. Procurar a real identidade de Anna no processo, saber um pouco de sua origem e principalmente o que ela é.
Fale com o autor