Anna e o Renascer dos Mortos-vivos
5 Uma vida em estações: Outono
— Ai mamãe! Meus olhos estão doendo. — Esperneia Anna esfregando as mãos nos olhos, que queimavam como se tivessem espremido pimenta em seus olhos.
— Era pra isso acontecer Deborah? — Bentley abraça a filha preocupado.
— Não entendo, essa formula era apenas pra mudar a cor, era pra ser uma formula simples. — Deborah também estava aflita, porém anotava frustrada em seu diário de pesquisa, os efeitos colaterais da poção que dera a Anna.
— Faz parar mamãe, dói muito! — Se desespera em prantos.
— Eu não aguento mais ver isso, — o Sr Rampart reclama — pare já com esses testes Deborah!
— Eu sinto que estou chegando tão perto, — a esposa o ignora — o que falta? Provavelmente as íris dela, são de outra raça que desconheço... — Tagarela a poquissonea pensando alto demais.
— Deborah! — Protesta Bentley ganhando a atenção da mulher.
— Eu, — ela observa comovida seu marido abraçado a filha, que estava agonizando — sei que isso é angustiante. Está me deixando louca também, quanto mais rápido eu decifrar a genética dela, saberei exatamente quais ingredientes poderia usar.
Deborah suspira e vai até Anna e a abraça junto de Bentley, a garota repentinamente para de gritar, como se o abraço da mãe surtisse algum efeito. O casal surpreendido, pelo instantâneo silêncio afastam-se na menina e a analisam. Anna enxuga os olhos encharcados com as palmas das mãos e abre os olhos.
— Está verde, — afirma Bentley — deu certo? — Ele volta seu olhar para sua esposa, que apenas estudava atenta com seus olhos semicerrados.
— Mamãe? Papai? Por que está tudo escuro?
Bentley sai de perto da cama nauseado, colocando as mãos na cabeça, Deborah respira fundo e sente seu fracasso ganhar vida.
— O que você fez com ela? — Ele Esbraveja.
— Eu não vejo vocês. — Chora a criança.
— Bentley saia do quarto agora. — Ordena Deborah.
— Mas...
— Agora! — Autoritariamente ela reafirma sua ordem. Bentley franze a testa e apensa sai do quarto, batendo a porta e fazendo ambas darem um pulo breve pelo estremecido barulho.
— Papai? — Anna move a cabeça guiada do barulho da porta, com os olhos arregalados sem conseguir enxergar nada. — Mamãe o que está acontecendo? Por que eu não posso ver?
— Anna meu amor, — comanda Deborah gentil e confiante — você vai ter que confiar na mamãe. Você confia em mim?
— Confio mamãe. — Responde a garota cabisbaixa. Deborah segura o rosto de sua filha delicadamente.
— Esta condição na sua visão, é um efeito temporário do remédio que dei a você antes de deitar-se, lembra? — Anna assente com a cabeça, afirmando que está entendendo. — Você não vai ficar assim, seus olhos pararam de doer? — A garota balança a cabeça em um tímido sim. — Tudo bem, você pode ficar tranquila, quando você acordar, estará enxergando tudo como antes.
— Você promete, mamãe?
— Prometo meu amor, — Deborah a tranquiliza com um beijo em sua testa — agora deite-se, deixe que a mamãe cobrirá você.
— Mamãe.
— Sim, meu anjo?
— Estou com medo.
— Não precisa ter medo, — a mulher acaricia os cabelos da filha — eu não vou sair do seu lado, até que você já tenha adormecido. — Anna dá um breve sorriso com seus lábios.
Alguns minutos após a menina adormecer, Deborah sai do quarto que fizeram para Anna. O quarto ficava ao lado da sala, Bentley começou a construí-lo assim que resolveram ficar com a filha. Ela só começou a dormir sozinha aos três anos, sempre com a luz acesa e com um dos pais ao seu lado, até a hora de adormecer. A mulher escora a porta com cuidado para não ranger e logo é surpreendida por seu marido, que estava esperando em pé do lado de fora.
— Por quanto tempo ela vai ter que aguentar isto? — Resmunga ríspido.
— Querido, — organiza mentalmente as palavras certas a usar, para que Bentley não fique mais irritado do que parecera. Deborah compreendia o quão confuso e doloroso era para seu par, ver sua filha naquele estado — eu sei que é difícil, é pra mim também, mas estamos perto, os olhos dela finalmente trocaram para uma única cor. — Diz esperançosa.
— Trocaram a custo de quê? — Choraminga o homem tentando argumentar, ele sabia o quanto sua esposa era determinada, quando Deborah decidia algo, ela raramente desistia, muitas vezes ela ficara sem comer por dias em seu laboratório, essa característica de sua mulher, era a que ele mais amava e também, a que mais temia — a pobrezinha ficou cega.
— A visão dela vai voltar, é só um efeito colateral.
— E toda aquela dor? Ela vai sentir isso sempre que tomar o tal “remédio”? — Questiona usando a palavra remédio de um jeito repulsivo, demonstrando sua desaprovação.
— Eu, — ela fica quieta por alguns segundos, a dor que Anna sentiu, parecia realmente demais para uma criança, Deborah suspira frustrada massageando suas têmporas — aquela dor não estava calculada. — Admite fracassada.
— Querida — ele alisa os ombros da mulher — ela só tem seis anos. Nossa filha, nossa garotinha, já fazem dois anos que a Anna vem tomando esses remédios e ainda não surtiram efeito positivo algum. — Bentley fixa seus olhos nos de Deborah — Deixa ela ser quem ela tem que ser.
— Você, você não entende. — Lamenta a poquissonea — As pessoas não estão prontas para ela Bentley. Não vistes os olhares do povo do vilarejo olhando para nossa filha, assustados, os ignorantes temem o que não conseguem compreender. É muito mais fácil para eles executarem ou erradicarem alguém doente, do que descobrirem como tratar a doença.
— Mas a nossa filha não é doente.
— Eu sei meu querido, — ela fecha os olhos com pesar de uma pessoa esgotada — maldições, doenças, deformidades, deficiências. Você sabe quantas pessoas já vi serem executadas, em minha época de estudos? Crianças, adultos, velhos, não importa. Assim que notarem os perfeitos e maravilhosamente únicos, olhos de nossa filha, a dúvida e o medo das pessoas começarão a envenenar suas mentes. Irão perguntar, o que ela é? E se a Anna for uma bruxa? Qual maldição ela teria? Será que vai nos amaldiçoar? As pessoas não iriam parar de caça-la até que esses incríveis olhos coloridos, já não brilhem mais. Eu, eu não suportaria Bentley. Não posso perder novamente. Se nós perdermos mais um filho, eu não sei o que aconteceria comigo. — Deborah desaba no peito de seu marido.
O Sr Rampart conforta sua amada com um forte abraço.
— Deborah.
— O que? — Ela levanta a cabeça.
— Entendo seus motivos, — diz sério — mas já fazem dois anos que a Anna vem sofrendo com esses remédios, ela já desmaiou, ficou cega, queimou em febre, gritou com os olhos doendo, teve manchas no corpo. Não é justo que nossa menininha tenha que pagar pelo medo dos outros. Se como pais dela, não conseguirmos protege-la desse tipo de coisa, que tipo de pais nós somos? — Os olhos dourados de Deborah agora arregalados e paralisados, encaram os verdes do marido.
— Querido, — ela consegue dizer — acredite em mim, sei que estou perto. Mas por garantia, chamei um antigo amigo de trabalho para me auxiliar.
— Quem você chamou?
— Teodorus Heag. — Disse contraída.
— Teod, seu ex-namorado no tempo de estudo?
— Sim, um dos melhores poquissoneos de nosso tempo. Perdoe-me por não ter avisado antes, mandei as anotações de minhas pesquisas e uma carta de resposta chegou hoje pela manhã.
— E?
— Ele está em uma longa missão em Cannor no momento, não deu detalhes, mas virá para região de Platina em dois anos. — Responde desconfiada.
— Sabe, não faz diferença se vocês já estiveram juntos, — Bentley afirma sem rodeios — se ele realmente for capaz de te ajudar, a ajudar nossa filha, ele será muito bem vindo em nossa casa. Mas até o Teodorus chegar em Sirloom, você irá suspender as pesquisas e remédios, começando a partir de agora.
—Mas...
— Deborah, esta é a minha única condição.
O silêncio perdura por minutos nos cômodos da casa, enquanto com o sopro dos ventos, fazem as folhas secas e alaranjadas, caírem aos montes das árvores no vale.
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