O dia amanhecera nublado e o frio domava o bioma do reino de Platina inteiro. A neve abundante fazia com que os campos desnivelados parecessem um mar branco. Rios, cachoeiras ou lagos estavam cristalizados pela solidificação, devido as variadas temperaturas abaixo de zero. No vale das montanhas, lar dos Rampart’s, não era diferente. O lago estava congelado e algumas das diversas árvores encontravam-se despidas de suas folhas. Todos os animais mantinham-se protegidos por estábulos especiais construídos pelo casal, possuíam um dispositivo que aquecia devidamente o ambiente nesta época do ano.

Uma carruagem de luxo rubra com fortes detalhes em preto, surge destacada na estrada entre o dominante branco da paisagem. O veículo movia-se por quatro rodas, duas na traseira de tamanhos grandes e duas menores na dianteira. Puxado por quatro cavalos vulcânicos, uma espécie encontrada apenas do outro lado do continente, no reino de Cannor. Os equinos eram escuros como carvão e suas crinas e rabos pareciam chamas em fios, misturados em laranja, amarelo e vermelho, os olhos e cascos do animal lembravam obsidiana. Anna e Bentley saem de casa atraídos pelos sons de galopes e gritos entre chicotadas do cocheiro. Ao observar os elegantes animais e carruagem estacionarem na frente de sua casa, Anna sorria admiradamente empolgada, nunca vira nada tão majestoso em toda sua vida.

— Quem poderia ser, papai? — Pergunta a menina entusiasmada. Seu pai não respondera nada, apenas respirou fundo e desceu os degraus da varanda, caminhando até o encontro da carruagem.

Um alto homem vestido por casaco de pele e cartola igualmente pretos, sai do veículo. Aparentava ter a idade dos pais da garotinha, que observara curiosa da varanda e mesmo que devidamente vestida, tremia de frio. O misterioso senhor de preto, com a ajuda de Bentley descarrega algumas malas, entrega um papel para o cocheiro, que assente e sai das propriedades com a carruagem.

— Bem-vindo, Teodorus. — Deseja Bentley, pegando partes das malas. O homem levanta um pouco sua cartola e baixando sua cabeça, em um cumprimento respeitoso. Ambos seguem até a casa, carregando as numerosas bagagens.

— Quem é este homem papai? — Interrogou Anna, assim que entraram em casa. Ela rapidamente chama a atenção do bem-vestido homem.

— Você deve ser Anna, — observa, então se apresenta — sou Teodorus Heag, amigo de sua mãe. — Saudou Anna com o mesmo gesto que fez para Bentley a pouco.

— Você também é poquissoneo? — Continua interrogando.

— Sim, sou. — Afirma orgulhoso, Teodorus logo maravilha-se ao notar os olhos prismáticos da menina. — E Deborah, onde está? — Questiona.

— Mamãe foi no vilarejo comprar mantimentos... — Antes que pudesse continuar com sua chuva de perguntas, Anna é interrompida por seu pai.

— Me acompanhe Teodorus, acomode-se no quarto de hospedes e guarde seus pertences.

— Claro, senhor, com toda licença pequena dama. — Obedecendo o anfitrião, retira-se do cômodo e segue Bentley.

Teodorus é um humano adulto, de cabelos e barbas excessivamente grisalhos, usara óculos redondos que mal escondiam seus olhos azuis. Sua barba era prolongada até seu busto e era dotado de um enorme nariz curvado, que mais parecia um gancho. Bentley despeja com cuidado as malas que carregara consigo no chão do quarto, onde ouviu-se alguns sons tilintantes. Teodorus logo correu para averiguar se alguma coisa não havia quebrado e depois de um rápido suspiro de aliviado ele sorriu.

— Belo casebre de campo vocês vivem. — As palavras saíram soaram como um pequeno desdém.

— Deborah gosta. — Retrucou Bentley. Entendendo o recado, Teodorus sorri de canto de boca.

— A garota é deveras intrigante, — comenta o Sr Heag — íris prismáticas? Eu não acreditaria se não tivesse visto com meus próprios olhos.

— Ela não é bruxa, caso esteja pensando sobre isso. — Reclama o Sr Rampart.

— Deborah me contou em uma de suas cartas. — Diz Teodorus enquanto se movia pelo quarto indo de uma mala a outra, pegando itens variados.

— Cartas?

— Suponho que ela tenha contado não? — Ele levanta uma sobrancelha seguido de um leve esboço de riso. — Temos nos enviados cartas nesses últimos anos, claro, o assunto é a sua querida filha.

— Hm. Entendo. — O silêncio de Bentley era até desconcertante. Ele tentara controlar um ciúme pelo bem de sua família, mas a cada palavra que sairá da boca de Teodorus, o homem diligenciava não cuspir no chão ou simplesmente diferir um soco nele. “Cartas? No plural?” Por que sua esposa não o elucidou sobre isso? Em que momento ela leu ou pegou essas cartas? Os murmúrios mentais de Bentley fora interrompido por um grito feliz de Anna na sala, seguindo até a estridente alegria de sua filha, o Sr Rampart a vê abraçando sua mãe.

— Mamãe e ele é alto e tem uma cartola grande. — Anna apontava para a cabeça como se pudesse imitar a cartola com as mãos. Deborah sorrir e ao encontrar o olhar de Bentley ela pede.

— Querido, você pode me ajudar com as bagagens? — O homem só assente sem dizer qualquer palavra e vai até a pequena carroça do casal, Deborah nota rapidamente que seu marido não está sorridente como de costume. Ela chacoalha a cabeça eliminando mentalmente uma ansiedade que tomava forma em seus raciocínios. Logo atrás de Bentley, Teodorus mostra-se com um sorriso largo e uma expressão calorosa.

— Ora, mas veja só quem finalmente temos aqui. — Ele avança-se para um abraço. Deborah reluta por um breve segundo, mas logo recebe seu amigo com os braços abertos.

— Quanto tempo querido Teo, — ela recepciona calorosa — como foi em Cannor? Aposto que você deu bastante trabalho.

— Você sabe como é, — ele afasta-se um pouco dela para vislumbrar sua face — uns probleminhas aqui, outros ali. Vejo que o tempo só te faz bem.

— Ah deixe de suas cerimônias, — Deborah cora — já conheceu a Anna? — Ela acaricia a cabeça da filha, que arregala os olhos junto a um sorriso orgulhoso.

— O Senhor Rampart me apresentou essa pequena dama. — Ele dá algumas rápidas beliscadas carinhosas na bochecha da garota, que numa reação envergonhada, fecha os olhos e levanta os ombros até quase na altura das orelhas. Teodorus volta seu olhar para Deborah e sugere. — Você pode me apresentar seu laboratório e algumas de suas pesquisas?

— Sempre focado em conhecimento, — ela reclama de um jeito amigavelmente íntimo — realmente Teo, você não muda. — Ambos sorriem. — Por aqui. Anna, você ajuda o papai preparar um jantar delicioso para nosso hospede?

— SIM! — Afirma feliz.

A tarde gelada passou como num sopro, os poquissoneos analisaram, estudaram e releram todas as pesquisas já feitas por Deborah. Teodorus levou um ingrediente extremamente exótico, para analisar os efeitos junto a sua parceira de estudos. Uma seiva de carvalho negro, encontrado apenas nas densas florestas de solo vulcânico em Cannor. Assim como as averiguado em seus estudos, ao sobreaquecer o componente e depois conservá-lo com alguns outros elementos químicos, transformava-o em um poderoso colírio que era capaz de obliterar até doenças como catarata ou glaucoma.

— Isso é impressionante. — Enfatiza Deborah empolgada. Sua cabeça já estava a todo vapor, como se pequenas engrenagens estivessem trabalhando em inúmeras possibilidades.

Alguns dias se passaram. Depois de muitas teorias, experimentos e odores pavorosos e duvidosos vindos do porão, um primeiro tubo de ensaio com um líquido cinza e viscoso finalmente estava pronto.

— Acha que pode dar certo? — Teodorus descabelado e olheiras profundas admirava a fórmula nas mãos de sua amiga.

— Só há um jeito de saber. — Deborah não muito diferente de seu colega diz esperançosa.

— Tem certeza? — Duvidou o homem de cabelos em pé. — Sabe que só teremos esta chance...

— Tenha fé no nosso trabalho. — Revida ela falando mais para si mesma, do que para o companheiro de laboratório.

Ambos sobem as escadas, onde Anna e Bentley estavam sentados próximos a lareira lendo livros juntos. O estardalhaço que os adultos fizeram ao chegar a sala de estar, não fora despercebido. O pai abaixa seus óculos de leitura e a filha levanta a cabeça, ambos surpresos pelo alvoroço barulhento.

— Conseguimos! — Rir Deborah para os dois leitores, levantando um tubo de ensaio com o líquido suspeito.

— Conseguiram o quê mamãe? — Pergunta a garota preocupada, sua mãe tinha o péssimo hábito de sumir por dias dentro de seu laboratório e as vezes aparecer exatamente assim, com um semblante exausto e ar de cientista maluca.

— O seu remédio pequeno dama. — Teodorus parecia tão louco quanto Deborah, sorrindo entre dentes e bolsas nos olhos.

— A quanto tempo vocês realmente não dormem? — Questiona Sr Rampart preocupado com o conteúdo do tubo.

— Não temos certeza. — Responderam juntos como se tivessem ensaiado.

— Como sabem que este será o certo?

— Só tem um jeito de saber. — Retruca Teodorus.

— Eu concordo, — Deborah olha nos olhos de seu marido — é este. — Ela afirma ufana.

Bentley suspira. Então assente com a cabeça, dando espaço para que os poquissoneos pudessem aplicar sua tão esperada fórmula milagrosa. Deborah se aproxima de sua filha, faz um gesto com a boca, para que Anna abra a dela também, e derrama o líquido fazendo com que a pequena garota o beba. A menina faz uma breve careta então sente seus olhos formigarem.

— Então querida, está sentindo alguma coisa?

— Só uma coceirinha nos olhos mamãe. — Responde esfregando as mãos de punhos fechados nos olhos.

— Deixe me ver meu amor. — Ela pede delicadamente, levantando a cabeça de sua filha com os dedos segurando o queixo. Anna levanta a cabeça e abre seus olhos, vislumbrando sua mãe. — Conseguimos! — Celebra jubilosa.

— Oque? — Bentley arregala os olhos.

— Conseguimos? — Teodorus afasta um pouco os ombros de Deborah para conseguir enxergar Anna. — Conseguimos!? — Ele grita.

Bentley acelera para ver os olhos da filha também e é fitado de volta, por dois grandes, atentos e assustados olhos azuis. Teodorus e Deborah comemoram com um abraço e uma dança triunfante só deles. Anna estava confusa, porém, como a reação dos adultos continha uma alegria contagiante, ela sorria e festejava junto.

— Mamãe, meus olhos estão ardendo um pouco. — Reclama a garota e a comemoração sessa.

— Deixe-me ver. — Se preocupa a mãe, os dois outros homens adultos também se aproximam apreensivos. — Voltaram aos diamantes. — Ela murmura cansada.

— Você está sentindo alguma coisa filha? — Bentley se aproxima da pequena alisando seus cabelos no topo de sua cabeça.

— Não papai, parou de arder.

— Então só precisamos concentrar a fórmula para que dure mais tempo. — Sugere o alto homem de cabelos emaranhados.

— Tem razão. — Sorriu a poquissonea — Podemos ajustar a fórmula, ela não sofreu grandes efeitos colaterais, a não ser uma pequena coceira nos olhos. — Ela busca no mesmo instante a aprovação de Bentley, para que continuem a pesquisa.

— Antes de vocês voltarem as horas árduas de trabalho, por que não vão tomar um banho e dormir um pouco? — O Sr Rampart alvitrou, então piscou forte os olhos evidenciando o orgulho que sentia da esposa, que retribuiu a piscadela com outra.

— Um pouco de descanso, comida e um bom banho, realmente não mataria ninguém. — Concordou Teodorus cheirando suas vestes, sujas de extratos, líquidos e fluídos coloridos e texturas diversas.

Deborah coincide o ato de seu colega de trabalho e cheira suas vestes, fazendo uma demorada careta, o que rende gargalhadas de todos os presentes.