Anna e o Renascer dos Mortos-vivos
7 Uma vida em estações: Primavera
Notas iniciais
“Querido diário, primeiramente, perdão por ter deixado você guardado na gaveta por tanto tempo. Segundamente, por favor entenda, tinham tantas coisas pra fazer e quatro anos nem é tanto tempo assim. Bem, você já foi meu melhor amigo e antes de guardar você com os outros diários velhos, no velho baú, no velho laboratório da mamãe.”
— Por que escrevi tantas vezes a palavra velho? — Anna sorrir com estranheza e desliza a parte macia da pena de seu bico pena em sua bochecha.
“Hoje é meu aniversário de 15 anos! É eu sei, estou bem crescida e com pensamentos e ideias bem diferente da última vez que te contei meus planos e segredos...”
— O que eu conto primeiro? — Ela revira os olhos reorganizando seus pensamentos e lembranças, então, empolgada, ela escora-se sob a escrivaninha e volta a compartilhar as “novidades” ao seu velho amigo.
“Mamãe disse que agora posso ir para fase sênior no seu esplendoroso e tão concorrido curso intensivo para jovens poquissoneos. Sou a melhor (sendo sincera, a única) aluna. Apesar disso, estou um pouco apreensiva, confesso, mas muito empolgada. Aliás, a dois anos atrás eu fiz uma poção para animais falarem por conta própria... Talvez eu tenha exagerado um pouquinho no extrato concentrado de tairolo, porque até agora nenhum dos animais pararam de falar, papai enlouqueceu no primeiro ano, mas agora ele já se acostumou. Ah! Isso claro que custou nossa ceia anual de Ully. Eu e o porco Bilbo, suplicamos pela vida dele, uma pena que no ano seguinte um lobo comeu o coitado. A segurança de nossa fazenda agora é a prova de lobos sorrateiros.
Voltando ao uso desta mesma poção, agora tenho um melhor amigo e companheiro de aventuras. O Noturno. Ele é um gato albino típico do Reino de Platina, tem quatro orelhas, pelo muito macio e um rabo volumoso como o de uma raposinha da neve. Acontece que ele bebeu alguns resquícios de outras poções no laboratório, é, no mesmo dia que eu dei essa para que ele pudesse falar, o que resultou num gato extremamente falastrão, com uma inteligência fora do comum, obcecado por leituras e uma memória assustadoramente boa, ele também levita sob a caminha dele quando está dormindo e sonha com comida.”
Anna sacode um pouco sua mão, tentando aliviar a dor em seu pulso devido a forma rápida que estava escrevendo. Assim que a dor cessou, que não demorou muito, ela volta a deslizar seu bico pena na página amarelada de seu diário.
“Agora meus olhos estão praticamente curados. A versão princesa Nana, dura bastante tempo. Sim, esse é o nome da poção que a mamãe e o tio Teo criaram. Meus olhos ardem pouquíssimo e seus efeitos duram em média dezoito a vinte horas, com minha íris azuis. Ainda não posso tomar a princesa Nana em dias de lua cheia roxa, tenho uma dor de cabeça insuportável e me sinto muito fraca. Mas, sabe? Tenho que beber apenas uma pequena dose diária, apesar do gosto não ser dos melhores, já estou acostumada.
Atualização recente: Amanhã é o tão esperado festival da primavera e é a primeira vez na vida que vou para o reino de Platina. Desde que meu remédio foi finalizado, neutralizando os riscos e contendo efeitos mais duradouros, mamãe disse que não há problemas em finalmente conhecer o reino. Estou tão ansiosa, contando os segundos. Eu mesma a ajudei com os preparos das loções, antídotos e iguarias mágicas. Itens que serão vendidos na carrocinha que o papai montou. Ah, ele vai vender alguns brinquedos e bugigangas que ele criou. Aparentemente é comum vendedores montarem suas barracas e carroças por todas as ruas da cidade nesta época do ano. Papai falou que algumas famílias como a nossa, ganham dinheiro nesse evento para se manter por um ano inteiro se souber fazer as economias do jeito certo.
Nem imagino como Platina deve ser lindo, papai contou que o reino inteiro é coberto por flores e os portões são abertos para todos os tipos de forasteiros ou turistas. Ele mencionou que uma vez um meio orc de pele esverdeada comprou um de seus cacarecos. E a cinco anos atrás, que uma família inteira de elfos marinhos jantou ao seu lado num restaurante que ele estava comendo. Já imaginou, pessoas azuis e de orelhas pontudas? É TÃO INCRÍVEL!”
Anna agarra seu diário com as páginas ainda abertas sem conseguir conter sua inquietação, amassando as folhas. — Ops! Desculpa. — Ela alisa as laudas amassadas passando firme sua mão, obtendo um resultado mediano. — Eu não tenho jeito. — Resmunga ela, consigo mesma.
— O que você está murmurando? — Boceja um gato branco e felpudo atrás dela se espreguiçando na cama.
— Noturno, nem acredito que o festival já é amanhã. — Anna praticamente joga o diário no móvel e corre até a cama, deitando-se de costas com a cabeça perto do felino. Encarando o teto ela sorrir abobada.
— Apesar de não aguentar essa sua ladainha, — ele esfrega o focinho com a pata — confesso que também estou ansioso. Todas aquelas iguarias só esperando para serem devoradas por mim. — Ele se balança de um lado para o outro, deslizando sua coluna e desforrando metade cama.
— Sim! — Ela se vira para olhar seu melhor amigo — Doces quentes, gelados, comidas típicas de Platina, um verdadeiro banquete. — Ela ouve a barriga do bichano roncar. — Não podemos esquecer o mais importante.
— Como? O que pode ser mais importante que comida? — Norturno pergunta pasmo, parando de se balançar.
— Talvez eu finalmente faça algum amigo. — A expressão tênue de felicidade e tristeza faz Anna suspirar fundo. Noturno anda até sua dona e alisou sua testa felpuda na testa dela. Fazendo ela dar um leve sorriso. — Eu sei que meus pais, você e todos os animais são meus amigos, mas, eu queria conhecer humanoides com a minha idade sabe?
“Brrmmm brmmm” Noturno ronrona.
— Conhecer uma pessoa da sua idade no festival é uma possibilidade, — ele admite enquanto Anna acaricia suas orelhinhas — espero que você encontre uma pessoa legal e que se tornem grandes amigos.
— Obrigada Noturno. — Agradece a garota, semicerrando os olhos e imaginando as possibilidades de um dia incrível, até cair em um sono profundo.
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