Notas iniciais
Eu comecei a escrever Anna numa tentativa de fugir da minha realidade quando criança. E sempre que sinto que meu mundo está desabando de alguma forma, eu volto a me inspirar e escrever mais... De certa forma, eu venho entrando neste universo como um refúgio. Bem, se eu ando escrevendo tanto nesses últimos dias...

Anna caminha por uma densa floresta sem qualquer resquício de iluminação. Os galhos secos e raízes das árvores machucavam seus pés descalços.

— Onde estou? — Ela coça seus olhos com os dedos e volta a examinar o lugar, tentando reconhecer qualquer parte dele.

O chão coberto por uma grama viscosa e terra úmida era gelado, então finalmente ela percebeu que não estava calçada, seus pés estavam sujos por um lodo tão verde que quase parecia preto em toda aquela tenebrosidade. Em poucos segundos também reparou que ainda estava de camisola.

— Mamãe! — Ela grita entre árvores altas e escuras, sem obter qualquer resposta.

— Pai? — A garota ficara cada vez mais desesperada ao não ser respondida.

— Noturno! — Ela já estava chorosa.

Andejando um pouco mais, ela cobria seus finos braços com as mãos, quase como estivesse se abraçando. Anna sentiu uma pequena dor de cabeça, a garota compreendia a dor, era uma pequena pontada em seus dois olhos, uma dor suportável e que significava que os efeitos da Princesa Nana estavam se esgotando.

— Essa não, ninguém pode me ver. — Ela abaixa a cabeça, colocando uma de suas mãos a frente de seu rosto e apressando seus passos. Anna sabia que aparentemente não tinha ninguém por ali, porém, acostumada e orientada a esconder seus verdadeiros olhos, a garota do vale em sua angústia por sair daquela situação só estava reagindo.

Correndo em desespero, Anna desvia de algumas árvores e arbustos, que rasgavam superficialmente sua camisola e arranhavam sua pele com galhos pontiagudos. Então, de repente, ela vislumbra feixes de luz não muito longe. Esbouça um rápido sorriso no canto da boca e apressa esperançosamente seus passos em direção a iluminação.

A garota do vale surpreende-se com a vista mais fantástica de toda sua vida. Um campo inteiro de luzinas, as flores do sol. As luzinas são flores amareladas, parecidas com a flor copo de leite, elas são transparentes e absorvem a luz do sol. Passam toda manhã se energizando com os raios solares, que elas conservam em uma seiva iluminada no centro de suas pétalas, como um copo de vidro cheio de luz líquida. A noite, essa seiva ficam ainda mais leve graças ao clima gélido, o que faz elas flutuarem, saindo do centro das flores como faíscas. Essas pequenas esferas de luz esvoaçando por cima das flores como pequenos vagalumes, são seu pólen. Anna suspira, ao ver um mar de luzinas a sua frente.

Não eram só as luzinas que brilhavam naquela noite sem lua. Acima de tudo aquilo uma aurora esverdeada dançava por quase todo o céu. Ela mexia-se como um colossal lençol feito de seda ao vento, feito de luz e energia mística, que era diversificada em ilimitados tons de verde. Anna pousou a mão sob o peito e admirou enfeitiçada toda aquela beleza feérica. Um sorriso genuíno saiu de sua boca, ela correu em direção ao campo, sabia em seus estudos de poquissonea com sua mãe, que a seiva de luzina não faria mal a ela, é como água para pele humana e o único efeito colateral, era que sua pele ficaria brilhando como se tivesse tomado um banho de glitter. Anna deitou-se por cima das pequenas flores e contemplou a visão celestial da aurora entre o pólen de luz. Até que então, ela teve que sentar-se.

— Uau.

A garota estava arrepiada da cabeça aos pés, ao ver entre toda aquela sublime fantasia, um ser extremamente deslumbrante. Um pássaro feito de fogo voar o céu, passando por dentro da aurora boreal. Mesmo de longe, era possível sentir o calor emanado da criatura, que planava rapidamente com suas asas alaranjadas abertas. A calda em chamas parecia não ter fim e um rastro de faíscas avermelhadas o seguia. Anna chorou fascinada por tanta elegância. Cada vez que o pássaro batia suas asas, o coração dela parecia parar e mesmo sem ar ela se levanta, vendo o animal ficar cada vez mais longe até sumir. Algo naquela criatura era familiar, como se estivessem conectados um ao outro.

Após última onda de calor emanado do pássaro reconfortar Anna, ela é atingida por um sentimento extremamente oposto ao de segundos atrás. Uma sensação de pavor e ansiedade atingem seu peito e ao olhar em volta, a garota do vale sente estar sendo vigiada. Um fedor de carne podre chega feroz em seu olfato, fazendo com que Anna se curve para frente com uma certa ânsia de vômito. Então ela ouve barulhos de pegadas, como se um exército inteiro de pessoas estivesse correndo. Ela olha mais uma vez ao redor e é surpreendida negativamente por uma horda de pessoas mortas, correndo em sua direção.

Engolindo em seco seu desespero graças ao medo que paralisava todo seu corpo, Anna choramingava. Enquanto a horda se aproximava por todos os lados, trazendo escuridão e desespero, esmagando todas as flores de luzinas enquanto chegavam mais perto. A luminosidade da aurora já não era suficiente, como se as sombras devorassem rapidamente a luz ao seu redor. Anna ajoelha-se escondendo a cabeça com as mãos e grita com toda força que consegue. As pessoas já estavam a um metro de distância dela, fazendo grunhidos e atordoando a garota com um fedor de carniça insuportável.

Um silêncio abrupto e cheiro de lavanda apoderam-se de seus sentidos. Anna abre rapidamente os olhos e alivia-se ao sentir os braços de sua mãe e ver as luzes de seu aconchegante quarto acesas.

— Anna! Mamãe está aqui, mamãe está aqui. — Deborah conforta sua filha entre carinhos. — Foi só um pesadelo meu amor.

A garota soluça e chora sem dizer nenhuma palavra, se confortando no colo de sua mãe. Observando atentamente, suas pernas desnudas, cheias de seiva de luzinas, tão brilhantes como pequenos vagalumes colados em seu corpo.

Notas finais
Espero que alguém use este mundo como refúgio também... Obg a quem está lendo até aqui.